Ação, tambores e Fernão de Magalhães. “Lisboa é a capital do mundo por causa da Web Summit” /premium

06 Novembro 2018144

Inteligência artificial, uma nova solução para a Internet, um minuto de "networking" e uma tecnologia mais sustentável. O arranque da Web Summit fez-se de lanternas, tambores e até de descobridores.

Ação, tambores. Foi ao som de uma orquestra de percussão portuguesa composta por crianças e com a presença de vários empreendedores portugueses em palco que Paddy Cosgrave, Fernando Medina e António Costa carregaram no botão e deram início, oficialmente, à terceira edição da Web Summit. A Altice Arena estava completa e o ambiente era de festa: as estimativas apontam para que estejam 70 mil pessoas de 170 países no Parque das Nações, a assistir à maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa.

Portugal foi, desde o início, o tema principal dos discursos de abertura: um vídeo com várias imagens de Lisboa, com componentes de arte urbana, alusão aos transportes lisboetas e muita música (também ela portuguesa) dava início à intervenção do fundador e presidente Paddy Cosgrave que, como é habitual, fez as honras da casa. “São tantas pessoas. Sejam incrivelmente bem-vindos à Web Summit!“, começou por dizer o presidente da Web Summit.

Poucas foram as diferenças no discurso inicial em relação ao ano anterior e o minuto de networking voltou a acontecer. Todos os participantes, uns com mais dificuldades do que outros, cumprimentaram as três pessoas que estavam ao seu lado, jornalistas incluídos. Palmas, risos e a plateia quase se perdia. Acabou por ser a voz que deu a ordem, Paddy Cosgrave, que depois teve de pedir às pessoas para voltarem a prestar atenção à sala. Na Web Summit, o horário é cumprido ao detalhe. “Em mais nenhum local do mundo há tantos empreendedores que se juntam num só sítio“, referiu o presidente executivo da cimeira.

Agora sabe-se que Lisboa vai receber a Web Summit por mais uma década. O acordo de 10 anos (e de 110 milhões de euros) foi anunciado recentemente, há cerca de um mês. E Paddy não esqueceu: “Tenho orgulho em dizer que esta vai ser a nossa casa nos próximos dez anos”, sublinhou, agradecendo a todos os que trabalharam para tornar o evento possível, incluindo os jovens voluntários — “um grande aplauso para eles”. Num comentário mais emocionado, agradeceu também à mulher Faye e “à família crescente”, o filho de dois anos, Cloud: “Obrigada por em aturarem”, disse.

O arranque oficial só aconteceu, contudo, com António Costa e Fernando Medina no palco. De sorriso no rosto e sob o pano de fundo de vários símbolos da história de Portugal, que estavam a ser desenhados no ecrã, António Costa subiu ao palco para mostrar o seu contentamento por Lisboa receber esta edição (e mais dez) da Web Summit. “Portugal orgulha-se de ser um país aberto que recebe pessoas de todo o mundo. Conectar pessoas de todo o mundo está no nosso ADN. No próximo, festejamos 500 anos da primeira circum-navegação ao globo por Fernão de Magalhães”, disse, em inglês, o primeiro-ministro.

“Aprendemos a respeitar as diferenças de cada um. Aprendemos que só a liberdade permite a criatividade e os avanços tecnológicos. Viver ao pé do oceano deu-nos uma curiosidade insaciável. Ao juntar pessoas criámos uma nova era de avanços tecnológicos. As pontes são portas abertas para o progresso. Por isto, estamos muito contentes por receber a Web Summit em Lisboa nos próximos dez anos”, continuou António Costa.

O ambiente era de festa e não faltaram os habituais telemóveis no ar para captar todos os momentos. Depois de Costa, foi Fernando Medina quem pisou o solo da Web Summit para falar. O presidente da Câmara de Lisboa começou por lembrar a história e a cultura de Portugal, “um espaço onde as pessoas tentam construir as suas vidas“. No entanto, e como a Web Summit é essencialmente sobre inovação, Medina quis mostrar que apesar de toda a tradição, o país também tem modernidade. “Também vão encontrar a parte moderna da Europa, das universidades, das empresas, dos empreendedores”, referiu. O mais importante “é que aqui vão poder encontrar tolerância”, sublinhou, merecendo uma ronda de aplausos.

Na segunda parte do discurso, houve um novo protagonista em palco: um quadro do navegador Fernão de Magalhães com uma inscrição em latim entrou na Altice Arena e foi entregue a Paddy Cosgrave, como símbolo da “coragem de descobrir novos mundos” e da vontade em “abrir novas raízes, dar mundos novos ao mundo”. “Lisboa torna-se agora capital do mundo por causa de vocês”, concluiu Medina.

António Guterres brincou e depois falou bem a sério: “As máquinas que têm poder para tirar a vida humana são politicamente inaceitáveis”

Quando Paddy Cosgrave introduziu o próximo orador, voltou a fazer um pedido igual ao da edição passada: as luzes da Altice Arena desligaram-se e os participantes ligaram as lanternas dos telemóveis. E foi neste ambiente que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas entrou em palco.

“O mais fascinante da tecnologia atualmente é que se move à velocidade warp [da série de ficção científica Star Trek]”, começou por referir o secretário-geral das Nações Unidas. “A inteligência artificial está em todo o lado, até ajuda a encontrar a alma gémea”, disse o político, brincando e assumindo que é “um pouco cético” quanto ao sucesso das novas tecnologias em alguns ramos: “Assumo que estou contente por ter conhecido a minha mulher por métodos tradicionais”, brincou, gerando a primeira risada na sala.

Para Guterres, o papel dos avanços na tecnologia é inegável — “a Internet deu voz a muita gente marginalizada pela história” — mas é necessário pensar nos desafios que com ela chegam: “muitos empregos destruídos”, discursos de ódio e violação da privacidade. “A verdade é que a Web ampliou estes problemas”, lamentou o responsável máximo da ONU.

“Muitas coisas que fazíamos antes são hoje feitas por máquinas. E, por vezes, são feitas de forma melhor”, acrescentou Guterres, num discurso que demorou poucos minutos, mas que chegou para deixar uma mensagem clara: “As máquinas que têm o poder para tirar a vida humana são politicamente inaceitáveis, são moralmente repudiadas e deveriam ser banidas por uma lei internacional”. António Guterres terminou a falar na importância de protocolos que permitam que tecnologias, web e Inteligência Artificial sejam “essencialmente uma força do bem”.

Quando a vice-presidente para sustentabilidade e ambiente da Apple subiu a palco foi impossível não lembrar o momento em que Al Gore, o antigo vice-presidente norte-americano falou no pavilhão atlântico na edição de 2017 da Web Summit. A retórica da mulher escolhida por Barack Obama para, durante o seu mandato, liderar a agência dos Estados Unidos da América para o ambiente, foi semelhante no tom e no conteúdo. “Estou aqui porque este momento é de inspiração e de poder verdadeiro”, assumiu Lisa Jackson.

“Na Apple, continuamos a apoiar o acordo de Paris”, afirmou Lisa Jackson, vice presidente para ambiente e sustentabilidade da Apple. A responsável por garantir que a Apple se torna mais sustentável e amiga do meio ambiente afirmou ainda que a empresa se opõe à decisão de Donald Trump de retirar os Estados Unidos da América do acordo de Paris. “Sim, nem toda a gente concorda. Há pessoas nos Estados Unidos que não concordam com isto”, constatou enquanto recebia palmas de todos os presentes.

A mulher que é um dos braços direitos de Tim Cook, o presidente executivo da Apple, aproveitou para dar o exemplo da empresa em que trabalha para mostrar como é possível investir na proteção do planeta. “Proteger o ambiente tem impacto no nosso planeta e nos nossos lucros”, assumiu Jackson. Contudo, “a Apple tem como objetivo ser 100% sustentável”. Recentemente, no lançamento de novos produtos, uma das características dos novos computadores da empresa foi serem feitos com material reciclável, incluindo o alumínio. Para isso, a Apple desenvolveu uma liga própria de metal para reaproveitar este recurso.

Lisa Jackson falou ainda da importância da educação para construir um mundo mais sustentável, dizendo: “A educação da próxima geração tem de ser uma prioridade”. Para a executiva, essa também é uma das prioridades e afirmou que “na última década, a Apple tornou-se na empresa mais valiosa do mundo”, e, exatamente por isso, a empresa tem especial responsabilidade na “proteção do ambiente”. “Com a dedicação certa, com a vossa inovação, podemos proteger o planeta e investir no nosso futuro, tudo isto enquanto lideramos um negócio bem sucedido”, afirmou a vice-presidente da Apple para o meio ambiente.

A conferência da vice-presidente da Apple terminou com um conselho para o público: “Em que tipo de mundo queremos viver? Todas as decisões que tomamos começam com este simples, mas poderoso pensamento”. O objetivo vai ser criar “um mundo melhor e mais bonito para os nossos filhos e filhas”, afirmou.

Darren Aronofski: “A realidade virtual e os filmes são duas formas de arte diferentes”

Depois de Lisa Jackson, foi a vez do conceituado realizador de cinema Darren Aronofski subir ao palco. O cineasta responsável por filmes como “O Cisne Negro” falou dos projetos em que tem estado envolvido para contar histórias como no cinema, mas com uma nova tecnologia: a realidade virtual (VR).

“Sempre que a ciência pode ajudar a construir a história, é muito interessante para mim”, referiu em resposta à jornalista da Wired, Lauren Goode.  A experiência VR Spheres foi o primeiro filme imersivo do realizador e permite ao utilizador ver, na primeira pessoa, o espaço e momentos como buracos negros a colidirem. “É claramente um mundo diferente”, explicou Aronofski, acrescentando que “a realidade virtual e os filmes são duas formas de arte diferentes”.

“Quando se está a ver um filme, é um ato de empatia, não é de passividade. Entra-se no filme e segue-se os personagens numa viagem. Na realidade virtual há menos personalidade, mas é possível experimentar mais. É-se muito mais si próprio, não outra pessoa”, explicou Aronofskyi.

Ainda na intervenção do cineasta, surgiram duas questões: há um ponto em que a influência da tecnologia na forma como contamos a história é exagerada? E a que ponto é que muda o que fazemos com a história? À primeira, o realizador responde que “muitos dos realizadores perderam o controlo” na relação entre a tecnologia e o trabalho de elaborar uma história. Sobre a segunda questão, Aronofskyi admite: “Esse é um pensamento assustador”. A preocupação, explica, é quando deixa de ser possível “conseguir distinguir o que foi feito por uma máquina e o que foi feito por um humano”.

Apesar de todas as dúvidas e receios, há algo em que Darren Aronofski acredita que afasta e distingue a máquina do humano: “É muito difícil entenderem o contexto em que um ser humano está a sentir alguma coisa”, disse, acrescentando que a beleza de contar histórias passa por “ver um filme em qualquer parte do mundo e, se for bem feito, toda a gente percebe”.

A maior intervenção em palco foi a de Tim Berners-Lee, que foi recebido por um público em pé, a bater palmas àquele que é considerado o inventor da Internet. Depois de ser recebido entusiasticamente, o programador de 63 anos brincou: “Para muitos de vocês tenho, se calhar, de explicar como era a Internet“. Depois de explicar como surgiu a sua invenção, afirmou que ainda hoje a base é a mesma: “Se estão a utilizar um iPhone, a interface para a Internet ainda pode ser a mesma que criei nos anos de 1980”. Foi depois de relembrar esta história que Tim Berners-Lee falou do problema que quer resolver: a Internet como está atualmente. “Se tivesse que escolher uma coisa sobre o design que levou à Web, seria a universalidade”, afirmou.

O cientista informático, que é diretor da World Wide Web Foundation, aproveitou estar em palco para anunciar um novo projeto que está a promover: uma convenção internacional para regular a Internet. “Estamos no ponto em que mais de metade do mundo vai estar online” e, por isso, há a necessidade de um acordo transversal entre países para regular esta invenção. Uma espécie de constituição para a Internet que defenda os seus princípios e evite fenómenos de fake news e abuso de dados pessoais.

Os próximos três dias vão ser de muitas conferências, empreendedores e investidores. Esperam-se mais de 70 mil pessoas em Lisboa, vindas de mais de 170 países, são mais de 20 mil empresas, mais de 1.000 startups, mais de 1.000 investidores e cerca de 1.000 oradores. Estão mais de 2.500 jornalistas internacionais no Parque das Nações. A maior conferência de empreendedorismo e tecnologia termina na quinta-feira, com uma intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa.

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