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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Alunos "tranquilos", recreios com vozes e mais convívio. O primeiro dia numa escola "livre" de telemóveis

Muitas escolas viveram o 1.º dia sem telemóveis. Na Domingos Jardo, a maior parte dos alunos dizem-se tranquilos, mas alguns estão contra. Ainda assim, todos reconhecem: há um grande vício nos ecrãs.

As portas abrem pelas 7h45. A essa hora, já um grupo de crianças, uma ou outra acompanhada pelos pais, aguarda para entrar na E.B. 2,3 Domingos Jardo, em Agualva-Cacém. Começam a cruzar o portão, de mochilas às costas e cartões de aluno nas mãos ou pendurados em fios que trazem ao pescoço. É o arranque de mais um ano letivo — e é também o primeiro dia das novas regras que proíbem o uso de telemóveis na escola. Às primeiras horas da manhã, nem sinal dos aparelhos por ali.

Os cartazes colados na entrada do edifício não deixam margem para dúvidas: “Escola livre de telemóveis.” A mensagem resulta da medida aprovada no início de julho deste ano pelo Governo, e até aí era uma mera recomendação: alunos até ao 6.º ano estão proibidos de usar smartphones nos espaços escolares.

Na Domingos Jardo, onde a imposição foi alargada até ao 8.º ano, a resposta está a ser, por agora, positiva, garante o diretor do Agrupamento de escolas Agualva Mira Sintra. “Alguns pais até agradecem o facto de a escola proibir, porque os próprios pais, de alguma forma, não conseguem fazê-lo. Costumo dizer, em tom de brincadeira, mas na verdade é muito sério, que às vezes parece que [os telemóveis] são as chuchas dos meninos, uma forma de os conter, de os acalmar”, sublinha Luís Henriques, que já no ano passado promoveu uma série de reuniões com as turmas para abordar a importância de limitar o tempo passado em frente a ecrãs.

Os professores foram os primeiros a alertar para o problema. “Nos últimos anos — o ano passado já não tanto, porque isto começou a ser combatido aqui —, eu saía para o intervalo e eles estavam cada um com o seu telemóvel, perfeitamente isolados uns dos outros. Estavam juntos, mas cada um estava sozinho“, relata o professor de português João Brito.

O cenário tem sido descrito em muitas escolas do país. “Não falavam uns com os outros, não brincavam uns com os outros”, diz também ao Observador a diretora do Agrupamento de Escolas de Benfica, que avançou com a proibição na escola básica ainda antes do anúncio do Ministério da Educação. “Existiam muitas brigas e desentendimentos por situações que eram postadas através dos grupos do WhatsApp e de outras plataformas sociais. Os meninos acabavam por se maltratarem uns aos outros e se exporem uns aos outros, e isto gerava aqui vários tipos de conflitos”, lamenta Rosária Alves, que faz um balanço positivo do primeiro ano de implementação.

▲ Logo à entrada da escola estava afixado um cartaz com a mensagem "Escola livre de telemóveis". No recreio os alunos jogam matraquilhos e convivem, mas ainda há quem leve o telemóvel.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Dos alunos que “estão tranquilos” aos (poucos) que argumentam contra a proibição

“Vão-se sentando onde vos apetece.” O convite é feito pelo professor João Brito aos alunos do 5.º ano da escola Domingos Jardo, que vão entrando timidamente na sala 1 do pavilhão E. Um grupo senta-se logo na fila da frente, a primeira a encher. Os minutos iniciais da aula inaugural são para quebrar o gelo. “Vocês sabem falar português. Porque é que acham que é preciso aulas de português?”, lança ao grupo que tem à sua frente. A turma reage com sinais de desconcerto, não estavam à espera do desafio. Mas isso dura apenas alguns segundos. Rapidamente, são introduzidos outros temas e em pouco tempo são já os alunos a tomar a palavra para lançar questões. Tem filhos? E carro? Qual é a comida favorita? E o jogador? Benfica ou Sporting?

Já depois de assumida a preferência do professor, é o Observador quem pergunta à turma: o que pensam, afinal, de ser proibido usarem os telemóveis na escola? Uma mão dispara de imediato para o ar. Sentado na primeira fila, em frente à secretária do professor, Laert, habituado ao impedimento já em vigor no 4.º ano, explica que não está minimamente preocupado. Não é o único. “Eu estou tranquila”, assegura Bia, também aluna do 5.º ano, ainda antes de entrar noutra sala. “Acho que é bom”, reforça Catarina, a seu lado nas escadas do pátio do recreio. “Viciados” é uma palavra que muitos repetem para descrever a relação de alguns estudantes com os seus smartphones.

Aulas

▲ Para estes alunos a primeira aula deste ano escolar foi lecionada pelo professor João Brito.

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As alunas deixaram o telemóvel, que dizem pouco usar, em casa. Acreditam que nem todos o tenham feito e que, ao longo do ano letivo, possam existir incumprimentos ou outras alternativas a surgir. “Há pessoas na minha turma antiga que diziam que iam o usar o telefone para jogar aqui. O meu pai vai comprar-me o relógio que dá como telefone e isso é bom”, acrescenta Bia.

Também Maria Carolina, do 7.º ano, que concorda com a proibição, não tem dúvidas de que haverá quem tente contornar as regras. “Via sempre pessoas que passam o intervalo todo no telemóvel e isso fazia com que ficassem menos sociais e que se sentissem mal, porque pensavam ‘Se eu não responder, vão pensar que eu sou isto; se não responder, vão pensar que sou aquilo’”. Desvantagens, a aluna só vê mesmo uma: “Talvez as pessoas que precisem mesmo de falar com os pais. Mas, se for muito urgente, podem ir ao PBX [na secretaria] e dizer que querem ligar.”

"Às vezes parece que [os telemóveis] são as chuchas dos meninos, uma forma de os conter, de os acalmar.”
Luís Henriques, diretor do Agrupamento de Escolas Matias Aires

Este é um argumento que parece mexer particularmente com alguns alunos. “Se acontecer alguma coisa com tantos alunos, a maioria teria de ir ao PBX, e depois não conseguimos informar os pais, porque só tem um telefone para chamadas”, diz Afonso, também do 7.º ano, durante o intervalo. Sentado numa mesa no pavilhão principal, rodeado pelos amigos, tem mais argumentos para partilhar, como o de que há alunos que vão para a escola sozinhos, usam transportes públicos e devem estar contactáveis.

Outras vozes impõem-se para partilhar as suas ideias sobre o assunto. Há quem fale sobre como, sem acesso ao telemóvel e sem o hábito de usar relógios, vão perder a noção de horários — um aluno, que se apercebe de que há um telemóvel ali por perto, pergunta mais tarde ao Observador pelas horas. Ricardo reconhece que a proibição pode trazer uma melhor relação entre alunos, mas prefere falar doutra questão: o receio de que os dias de chuva, que os encerram entre quatro paredes, se tornem mais aborrecidos. “Por vezes, são muitas turmas e não há quase nada para fazermos“, lamenta.

Dos jogos tradicionais a livros. Escolas apostam em alternativas para ocupar os alunos

Precisamente para evitar que os alunos fiquem aborrecidos, muitas escolas estão a apostar em novas opções para os tempos livres, e que vão dos jogos tradicionais a bolas e livros. Luís Henriques explica que na Domingos Jardo o investimento foi de quase dez mil euros. O equipamento deverá chegar na próxima semana. “[O objetivo é] promover o trabalho em equipa, para saberem conversar. Às vezes, eles não sabem, o que é natural, porque, de alguma forma, estar com o telemóvel é uma ação individual. Depois, quando têm de interagir, fazem-no aos gritos e aos empurrões”, diz.

Alguns alunos já se precaveram, como Beatriz, do 8.º ano, que trouxe o livro “Influencers” para se entreter. Enquanto não chega material novo, um dos pontos que geram mais interesse são as duas mesas de matraquilhos — bastante procuradas por muitos dos cerca de mil alunos daquela escola do concelho de Sintra. “São para todos, as meninas também querem jogar”, alerta uma auxiliar de passagem. Apesar de um primeiro dia de aulas agitado, a encaminhar alunos perdidos para as salas certas, algumas param uns minutos para explicar os motivos que as levam a concordar com a proibição dos telemóveis. “A gente chama-os e não ouvem. A caminho do refeitório para comer, vão ao telemóvel, quando chegam lá já passaram 30 minutos”, explica Sandra. Problemas que não existiam quando Maria do Anjos era aluna. “No nosso tempo, não tínhamos esta tecnologia”, nota a auxiliar, confidenciando que alguns pais podem ser um obstáculo à medida.

▲ O professor Luís Henriques, diretor do Agrupamento de Escolas Matias Aires.

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Ao Observador alguns pais levantam algumas dúvidas. Para Paula, mãe de uma aluno do 7.º ano, “o ideal era não haver proibição”. “Ir pela parte do aconselhamento, haver esta educação já de casa e a escola ajudar”, considera. Já Deisy, que veio da Colômbia para Portugal e ainda não conhece bem a zona, o importante é ter como contactar a filha para garantir que chega bem à escola quando vai sozinha. “Na Colômbia, os miúdos não vão sozinhos para a escola, então eu tenho de aprender a deixá-la ir sozinha à escola. Mas ela tem de ligar: mãe, estou a chegar; mãe, já saí. Se ela não tem o telemóvel, fico em casa preocupada.”

O diretor do Agrupamento de escolas Agualva Mira Sintra garante que, até agora, não lhe chegaram queixas de pais — e está convicto de que isso não será de todo um problema. Os alunos podem levar os telemóveis e avisar os pais quando entram na escola, o único dever é que os desliguem ao cruzar o portão. Assume que preferia evitar a obrigatoriedade, sendo mais favorável a uma abordagem através do diálogo, mas acredita que contribuirá para o bem-estar dos estudantes e para uma relação mais saudável com as tecnologias.

A escola que já testou a proibição dos telemóveis: “Finalmente, consigo ouvir as vozes dos miúdos”

Antes de o Governo decretar a proibição dos telemóveis, já a Escola Básica Pedro de Santarém, pertencente ao agrupamento de Benfica, tinha implementado a medida devido ao “excesso de tempo” que os alunos passavam a olhar para os ecrãs. Impedir o uso de smartphones no espaço escolar era uma medida há muito discutida. O conselho do Ministério da Educação para que se restringisse o uso acabou por ser o mote de partida para que os planos avançassem mais depressa, explica a diretora, Rosária Alves.

Como agora aconteceu com a escola Domingos Jardo, na Pedro de Santarém, do pré-escolar ao 8.º ano, decidiu-se que a proibição seria para todos, mas as mudanças não aconteceram sem algumas dificuldades. “Esta medida implica que eu tenha assistentes operacionais e professores sensibilizados para a causa, para poderem atuar quando os garotos estão a prevaricar. Porque a tendência natural é ‘vamos lá ver se posso usar ou não’”.

Esse foi um dos motivos que levaram ao adiamento da implementação, prevista para novembro de 2024 e que acabou por avançar só no início do 2.º semestre. Segundo a diretora, a comunidade escolar aceitou bem, apesar de algumas infrações pontuais. Nota, no entanto, que no regresso depois da interrupção da Páscoa foi mais difícil retomar o hábito. “Os meninos foram para as férias e esqueceram-se”, diz, acrescentando, ainda assim, que rapidamente “retomaram” ao ritmo.

"Um dos comentários que me ficou [de um professor] foi: 'finalmente, eu consigo ouvir as vozes dos miúdos no intervalo'".
Rosária Alves, diretora do Agrupamento de Escolas de Benfica

“Como tudo na vida, há períodos de adaptação. E, portanto, muitas vezes a ação é pedagógica, explicar que não podem estar no telemóvel, que vamos chamar o pai e a mãe, porque não estão a cumprir a regra. E eles acabam por aceitar”, refere. Reconhece que houve situações “mais extremas”, em que tiveram de chamar os encarregados de educação, mas que de modo geral a medida “correu bem”. Nesses casos, contactava-se os pais, que ficavam com os telemóveis dos alunos. “Resolveu-se facilmente essa questão”.

As vantagens, garante Rosária Alves, são óbvias: “Acabam por criar cumplicidades e amizades em maior número. Não são tão isolados. Sobretudo, [nota-se] uma diminuição no isolamento dos alunos”. Os professores, diz ainda, rapidamente reconheceram o impacto. “Um dos comentários que me ficou [de um professor] foi: ‘finalmente, eu consigo ouvir as vozes dos miúdos no intervalo’. Finalmente, começámos a ouvir gritar, correr. Ouvíamos público, ouvíamos gente dentro da escola”.

Têm sido divulgados alguns estudos sobre o impacto da medida. O universo de escolas que implementaram restrições no ano letivo passado, por sugestão do Governo, permitiu ao Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas (Planapp) estudar a questão e concluir que a proibição do uso de telemóveis tem consequências positivas para os comportamentos e para as aprendizagens.

Smartphones proibidos para alunos até ao 6.º ano e uma disciplina de Cidadania renovada. O que muda no próximo ano letivo

A maioria dos diretores das escolas e agrupamentos de escolas (acima dos 60% em todos os ciclos de ensino) considerou que as proibições e restrições contribuíram para reduzir os casos de bullying, indisciplina e confronto físico. Ao mesmo tempo, fizeram aumentar o grau de socialização física nos intervalos, de uso de espaços de jogos, de realização de atividade física e de utilização das bibliotecas escolares.

Já um estudo do ISPA, apresentado na semana passada no II CIRPIE – Colóquio Internacional de Reflexão sobre Práticas Integradas em Educação, detetou dois efeitos distintos no dia a dia dos alunos depois de recolher e analisar dados junto de 875 alunos e 448 membros da comunidade educativa. Se, por um lado, destacou o aumento da interação entre colegas, também notou mais comportamentos agressivos. Uma das principais conclusões é a ligação direta entre o uso excessivo do telemóvel e níveis mais baixos de autocontrolo e de equilíbrio emocional. Jovens que demonstram mais empatia e maior capacidade de se autorregular apresentaram comportamentos mais positivos e estáveis.

Cerca de 47% dos inquiridos relataram um aumento da interação entre colegas, enquanto 30% disseram ter um maior envolvimento em atividades ao ar livre. Por outro lado, 41% apontaram um crescimento nos comportamentos agressivos, 38% dificuldades de comunicação entre os alunos e 21% destacam a limitação do uso pedagógico dos dispositivos móveis.

Numa altura em que o impacto continua a ser estudado e que a maior parte das escolas põe em prática a proibição pela primeira vez, a expectativa é de que tudo “correrá bem” na inauguração da medida na Domingos Jardo, sublinha Luís Henriques. Para a Pedro de Santarém, que arrancou o ano letivo com novos avisos para despertar a atenção dos alunos mais esquecidos, a expectativa é a de que o novo ano continue a trazer uma melhor relação com a tecnologia e um contacto mais próximo entre alunos.

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