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José Manuel Fernandes

Vencedor: Rui Rio. O debate começou pela economia e isso poderia ter favorecido Costa “contas-certas”. Não favoreceu. Porque Rio acertou pela primeira vez no registo do discurso – foi assertivo – e na escolha da mensagem – foi capaz de mostrar que os sucessos dos últimos anos não foram nenhum milagre, bem pelo contrário.

Vencido: António Costa. Apanhado em contrapé no arranque do debate, quer pelo estilo, quer pelos argumentos de Rui Rio, o primeiro-ministro esteve quase sempre à defesa, repetindo fórmulas sem novidades, enquanto o líder do PSD ia trazendo algumas novidades que pareciam surpreender quem se esperava que estivesse ali para mais um passeio tranquilo.

Nota final. Foi um debate em que António Costa esteve várias vezes fora de pé, por vezes porque o terreno não lhe era claramente favorável – por mais números que trouxesse sobre o SNS não consegue desfazer a ideia de que há hoje mais dificuldades dos hospitais e centros de saúde do que há quatro anos –, outras vezes porque Rio trouxe números surpreendentes (e que suspeito não serem rigorosos), como os relativos à emigração, mas que produziram um bom efeito.

[O melhor do debate entre António Costa e Rui Rio]

Quer isto dizer que o antigo presidente da câmara do Porto conseguiu com esta sua prestação recolocar-se na corrida ao lugar de primeiro-ministro? Não creio. Mostrou um lado combativo que não lhe conhecíamos, estava mais preparado do que em alguns dos anteriores debates, mostrou por vezes um grau de convicção que pode mobilizar certas franjas do eleitorado, mas creio que é tarde demais.

Quanto a António Costa foi António Costa, demasiado preso a certas frases feitas, imóvel na sua estratégia de fingir que nada o atinge, como se estivesse acima de tudo e todos, fiel à estratégia de chegar à maioria absoluta fingindo que nem sequer a deseja, sobretudo que não dramatiza.

O que realmente surpreende é como, depois das fragilidades que mostrou, das respostas que não conseguiu dar, está tão próximo de o conseguir.

Rui Ramos

Vencedor: António Costa. A determinada altura, Rui Rio disse que se arriscavam a ficar “empatados em números”. Foi mais ou menos o que deixou que acontecesse. O que beneficiou Costa, que ainda conseguiu fazer passar a ideia de que com ele não haverá divisões (regionalização) nem riscos (baixa de impostos).

Vencido: Rui Rio. Disse que “há um momento em que se tem de ser arrojado”. Certíssimo. Mas Rui Rio só o foi quando se exaltou contra o Ministério Público, que Costa cinicamente defendeu. “É isto que eu quero mudar”, proclamou Rio. O Ministério Público? Não chega.

Nota final. A qualidade do debate público em Portugal pode medir-se pelo facto de o presidente do PSD e o primeiro-ministro não se entenderem sobre o que são “consumos intermédios”.

Helena Matos

Vencedor (podia ter sido): Rui Rio. O líder do PSD é muito mais telegénico do que Costa, tem muito melhor dicção e é dono de um discurso muito mais fluido embora lhe penda o palavreado para o “orçamentês”. Posto isto, Rui Rio, ao desatar numa diatribe contra a Justiça que ao certo não se percebe como pretende que funcione, mostrou mais uma vez como é um excelente salva-vidas de António Costa: graças ao insólito momento de Rio, o primeiro-ministro fez de sensato e nem sequer teve de referir Sócrates. Curiosamente, foi também a Justiça que permitiu a Rio um momento ganhador: quando o líder do PSD chamou a atenção para o facto de no programa do PS estar prevista a transferência dos processos de regulação do poder paternal para os julgados de paz quase parecia que o próprio António Costa não conhecia completamente aquela parte do programa do seu partido.

Vencido (mas ganhador): António Costa. O líder do PS sabe que muito do que afirma só será confirmado ou desmentido nos dias seguintes, portanto aposta no elencar de dados e medidas, mesmo quando estas são falhanços rotundos como acontece com o Programa Renda Acessível que regista uns embaraçosos 35 alojamentos inscritos – o Governo dizia que iam ser milhares – mas foi apresentado neste debate por Costa como uma das medidas bem sucedidas de redução de impostos. O mesmo com as suas declarações sobre a salvação da Segurança Social e o funcionamento do SNS. Porque o digo então vencido mas ganhador: porque esta sua atitude é aceite sem contestação, dentro e fora dos estúdios, como aliás bem se viu no final do debate quando ficou a proferir declarações, apesar destas não estarem previstas.

Nota final. A pergunta à candidata a Miss Mundo. Estava o debate a terminar quando José Alberto Carvalho avançou com o assunto que não exige preparação (exercício que manifestamente o jornalista não praticou para este debate) mas apenas declarações de fé: as alterações climáticas. São de antologia as patetices proferidas pelo jornalista e por Rio e Costa. Foi o momento “nem faço ideia do que estou a falar mas saio bem de se me declarar muito preocupado”.

Alexandre Homem Cristo

Vencedores: José Sócrates e Ricardo Salgado. Nos últimos cinco anos, Portugal teve um primeiro-ministro suspeito de corrupção e um banqueiro que, ao serviço de um projecto de domínio do país, se tornou o dono-disto-tudo. O PS sempre passou pelos pingos da chuva neste tema – não é de hoje. Mas é chocante que o combate à corrupção não seja motivo de intensa discussão política nestes debates, até porque é (justamente) das maiores preocupações dos portugueses. E é incompreensível que, sobre a Justiça, o líder do PSD aproveite os dois minutos que tem para atacar o Ministério Público. O PS agradece. Sócrates e Salgado também.

Vencido: António Costa. Igual a ele próprio. Lição estudada, apareceu com guião, recorreu a frases feitas e defendeu-se dos ataques com dissimulação nos dados – só dá o ângulo bom. Na Saúde, por exemplo, refere mais recursos humanos sem mencionar (e sem que lhe mencionem) que, com as 35 horas e apesar de haver mais gente a trabalhar, há menos horas de trabalho no global. Debates em campanha eleitoral nunca foram o seu forte (basta lembrar 2015) e esta segunda-feira não foi excepção. Contudo, não se antevê que este desempenho produza perdas eleitorais. A principal perda foi estratégica: ao não ganhar o debate, não se aproximou da maioria absoluta.

Nota final. Se o debate fosse uma tertúlia, seria justo dizer que Rui Rio ganhara a discussão. Mais focado, mais assertivo e muito mais sério na apresentação dos dados, Rio superou Costa em praticamente todos os temas. Mas falhou quase sempre que foi preciso dar aquele último passo de rejeição do projecto político socialista. Ora, isto não era uma tertúlia, mas um debate para esclarecer indecisos e ganhar votos. E, aí, Rio não terá conseguido (ou querido) diferenciar-se substancialmente do projecto do PS, pelo que o seu desempenho terá (presume-se) pouco impacto na mobilização do eleitorado que, à direita, está particularmente desmobilizado. Rui Rio sai do debate como o líder do PSD mais estimado entre os que, eleitores de PS-BE-PCP-abstenção, não votarão nele.

André Azevedo Alves

Vencedor: António Costa. Partia à frente e não cometeu erros graves. Discurso e números memorizados para cada ponto soaram como uma sucessão de pequenas apresentações ensaiadas mas foram suficientes contra Rio. Costa não deverá ter ganho neste debate vantagem adicional face a Rio, mas também não colocou em causa a que já tinha.

Vencido: Rui Rio. Com as sondagens a apontarem o risco de o PSD ter um dos seus piores resultados de sempre, Rio precisava por isso de marcar pontos decisivos para recuperar. Teve várias boas oportunidades para o efeito (na fiscalidade, na degradação dos serviços públicos, no investimento, na justiça e no combate à corrupção) e falhou.

Nota final. Em vez de um debate, assistiu-se na maior parte do tempo a duas entrevistas conduzidas em simultâneo. O mesmo já se tinha verificado em debates anteriores e a presença de três jornalistas só retirou dinâmica e agravou o problema. Um formato a necessitar de revisão.

Miguel Pinheiro

Vencedor: António Costa. Só havia duas maneiras de o líder do PS perder este debate. Uma: se Rio conseguisse fragilizar a sua imagem de homem das “contas certas”. Outra: se Rio conseguisse apresentar Costa como um radical refém da extrema-esquerda. Mas o líder do PSD não conseguiu fazer a primeira e não quis fazer a segunda.

Vencido: Rui Rio. O líder do PSD não sabe se há problemas de fiscalização nas PPP, não foi ver números ao Orçamento do Estado e admite ser a favor da regionalização — mas também admite ser contra (e, ao mesmo tempo, jura que quer ser a favor). Para quem se candidata a primero-ministro, há demasiadas coisas que Rui Rio não sabe. Há uma diferença entre ser “politicamente incorreto” e, simplesmente, estar incorrecto.

Nota final. Rui Rio precisava desesperadamente de provocar um sobressalto no eleitorado de centro-direita, que está tentado a preferir o sofá às urnas. Teve uma hora inteirinha para fazer isso, em direto nas três televisões, e não conseguiu. Antes de entrar em estúdio, Rio disse aos jornalistas: “É o debate mais importante, mas decisivo? Decisivo para mim é o dia em que eu morrer”. Com esse estado de espírito, as coisas só podiam acabar assim.

Pedro Benevides

Vencedor: António Costa. Esteve a jogar quase sempre à defesa, ensaiou dois ou três ataques nos impostos, nas obras públicas ou na justiça, mas não se esforçou muito. Só precisava de um empate. E conseguiu.

Quem perdeu: Rui Rio. Nunca o tínhamos visto em tão boa forma nesta pré-campanha. Muitas vezes ao ataque, sem perder a empatia de quem o ouvia. Mesmo assim, enredou-se demasiadas vezes em explicações técnicas, admitiu desconhecimento e falta de preparação em matérias essenciais da sua argumentação e nunca apanhou Costa de surpresa. Precisava de uma vitória, não foi além de um empate.

Nota final. Há quatro anos, no mesmo debate televisivo, António Costa saiu do estúdio de televisão a cantar vitória sobre Passos Coelho. Nessa altura era o challenger e essa vitória não chegou para ganhar eleições. Mas agora está sentado na cadeira do poder e a dúvida é se ganha as eleições com maioria absoluta. Face a isto, Rio tinha uma missão difícil pela frente: surpreender o adversário e pressioná-lo nas áreas onde o flanco está aberto — os números do investimento que prejudicam seriamente o funcionamento dos serviços públicos, as falhas no Serviço Nacional de Saúde, por exemplo. Rio até entrou por aí, mas nunca foi capaz de contrariar a narrativa do governo (ela própria sem surpresas ou factos novos que o líder do PSD não pudesse contrariar). Pior: deu demasiadas vezes os pontos ao adversário quando admitiu não ter lido o Orçamento do Estado para justificar as diferenças entre o orçamentado e o executado, quando não soube dizer se estava a ser feita a fiscalização da gestão hospitalar, quando não foi seguro na fonte sobre os números da emigração, ou quando permitiu que Costa lhe desse uma aula sobre consumos intermédios. A dada altura, Rio dizia que tinha uns números sobre o SNS, mas que Costa teria outros e provavelmente ficariam “empatados”. Ficaram mesmo. E Rio estava obrigado a ganhar.