Já soma mais de 450 mil seguidores no Instagram e mais de 135 mil no TikTok desde que se aventurou há uma década nas redes sociais. Com um nome pouco comum, e que pode marcar pela diferença, André Chaíça foi fazendo o seu caminho em Lisboa enquanto arquiteto paisagista, depois fotógrafo, a seguir food stylist — aquela pessoa que monta o cenário para a fotografia — e a terminar como criador de conteúdos (desengane-se quem lhe chamar de influencer). O alentejano de Serpa, que na verdade nasceu em Lisboa, destaca-se dos demais da sua área pelo estilo mais clássico que apresenta nas suas publicações, desde a letra que utiliza, à música escolhida, passando pela forma como edita as fotografias e vídeos, sempre com um aspeto mais quente e acolhedor.
Foi em agosto de 2023 que o seu trabalho nas redes sociais ficou (ainda) mais conhecido. Durante uma viagem a Florença, André Chaíça aproveitou uma ida a um restaurante para fazer um vídeo para a sua conta — como tantas vezes fazia. O que não esperava era que aquelas imagens alcançassem as 60 milhões de visualizações, angariando ainda mais seguidores. Desde então o número tem vindo sempre a subir, enquanto se desdobra em criação de conteúdos para o Instagram, para o TikTok, para os hotéis e restaurantes com quem trabalha e para a sua mais recente aposta: a Quinta das Janelas Verdes, um projeto familiar ali entre Fátima e Ourém que tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos 10 meses para ser o seu estúdio criativo, onde espera, no futuro, poder organizar campanhas publicitárias, workshops, eventos e até retiros.
Com um gosto especial por História de Arte, prefere o antigo ao moderno, traduzindo isso mesmo nas publicações que faz nas suas redes. Lisboa toma conta de muitas delas, servindo de ponte criativa para André Chaíça, que utiliza muitos dos espaços que mais estima na capital para atrair mais seguidores, promovendo o seu potencial e dando assim a conhecê-los. Acredita estar assim a promover a essência de Lisboa, com tudo aquilo que tem para oferecer. Esconde, no entanto, aquelas joias que tanto gosta e quer guardar só para si, com receio que venham a ficar descaracterizadas se todos as conhecerem.
Aos 35 anos, acredita, por isso, que as redes sociais são uma arma muito poderosa quando bem utilizadas — e quando utilizadas para o bem — uma vez que quando se quer realmente ajudar uma pessoa é possível fazê-lo através delas. “Eu não acho que eu seja um influenciador que influencie as pessoas, por exemplo, a comprar coisas. Mas eu se calhar influencio as pessoas a irem aos sítios. Nem que seja para experimentar”, afirma. Tudo isto enquanto trabalha sozinho numa espécie de one-man show.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Como é que um alentejano que é arquiteto paisagista se transforma neste influencer com mais de 400 mil seguidores no Instagram?
Eu estudei em Faro e trabalhava em Faro como arquiteto paisagista e sabia que não ia ficar mais do que aquele ano naquele estágio. E eu sempre quis vir para Lisboa porque eu gostava mesmo era de fotografia e então vim para tirar um curso de fotografia. Tudo começou aí. E depois eu já tinha Instagram na altura e foram surgindo assim oportunidades. Primeiro apareceu uma agência que me agenciou, comecei a fazer trabalhos para eles e também para algumas figuras públicas como fotógrafo, que foi bom para mim na altura. Porque eu depois saía nas Caras, na passadeira vermelha e era identificado, falavam o meu nome.
Sempre teve este sentido estético e interesse por fotografia?
Sim, eu sou de Serpa mas estudei artes no liceu em Beja. Eu adorava História da Arte mas não via o meu futuro na área então achei que a arquitetura paisagista podia ser um bom caminho. Eu já tinha este sentido estético muito apurado e acho que fui apurando muito mais lá. Foi também onde tive a minha primeira cadeira opcional de fotografia e foi a primeira vez que tive esse contacto. Depois disso comprei a câmara profissional, gostava mesmo daquilo e fui apurando o meu sentido estético e comecei a mexer em alguns programas de edição, Photoshop.
Quando é que chegou a Lisboa?
Há nove, 10 anos. Só exerci durante dois anos.
E nunca pensou em voltar a exercer?
Eu vim de lá ainda a trabalhar com eles. Porque a arquiteta fazia muitos trabalhos por fora e ela não tinha este sentido tão estético, tão apurado em programas. E eu fazia essa parte que era a que eu mais gostava. E então, para mim, na altura, isso foi ótimo porque eu estava cá em Lisboa e estava a fazer o que gostava. As duas coisas. A parte que eu gostava da arquitetura e o curso de fotografia.
Quando é que começou a apostar nas redes sociais e quando é que escalou para o patamar em que está agora?
O boom máximo foi numa viagem a Florença há dois ou três anos. Eu já tinha 100 mil seguidores, que é muito, mas depois, nessa viagem, eu queria muito ir a um restaurante e foi com o vídeo desse restaurante, onde eles faziam aquelas pastas naqueles queijos gigantes. E esta história é muito engraçada porque eu chego lá e estava uma fila muito grande à porta e eles disseram-me que eu já não podia ser atendido. E eu pedi, pedi, pedi. E eles disseram-me: “Ok, então fica o último da fila”. E depois eu tive 60 milhões de visualizações nesse vídeo.
Mas quando é que percebe que se calhar pode começar a apostar nas redes sociais?
Eu acho que foi quando me procuraram de uma agência. Procuram-me já com trabalho para uma marca de relógios. E eu tinha que fazer as fotografias para os relógios, publicar. E na altura eu tinha perto de 10 mil seguidores. Isto foi logo no início. Então deve ter sido há nove anos ou oito anos. Começou por aí. Depois era aquela coisa da agência de ter que dar a percentagem e eles arranjam-me trabalhos. E, entretanto, eu começo a fazer isso, e como na altura não me dava só para viver destes trabalhos, eu fui procurando outros.
Foi quando começou a trabalhar como food stylist?
Sim, para a Teleculinária. Isto começou porque eu conhecia o chef Miguel Mesquita, que trabalhava para a Teleculinária. E ele cozinhava, havia um fotógrafo e tinha que haver uma pessoa que montava os cenários. Imagina, montas o prato, metes o prato bonito e montas o cenário e está pronto para a fotografia. E então eu comecei a trabalhar também para eles. As oportunidades iam aparecendo e eu ia agarrando tudo o que podia. As pessoas iam vendo que eu tinha este sentido estético, gostavam. Procuravam-me sempre através do Instagram e eu ia agarrando estes trabalhos.
Continua numa agência? Aceita todos os trabalhados que propõem?
Sim, mas entretanto já troquei de agência e não, isso sou eu que aceito. Eles dizem-me: “Recebemos uma proposta desta marca. Tu queres fazer?”. Eu às vezes recebo propostas de cremes. Não faz sentido, percebes? Eu vou aceitando. Agora tenho essa sorte de poder escolher o que eu quero. Antes nem sempre foi assim então eu tinha que ver mesmo o que é que fazia mais sentido. Mas ia jogando. Agora faço só os trabalhos que eu acho que fazem sentido e que eu mais gosto.
E o que é que acontece quando, por exemplo, vai fazer um trabalho com um hotel ou com um restaurante e não corre bem? Se a experiência não for boa?
Isso é diferente. Eu tento mostrar sempre o mais bonito. E já me aconteceu, por exemplo, o vídeo fica bonito e as pessoas vêm dizer-me: “Eu fui e não era bem como estava no teu vídeo”. E eu depois penso que é um pouco o meu olhar sobre as coisas e tentar extrair, se calhar, o que os sítios têm de melhor e tentar jogar mais ou menos por aí.
Mas nesse caso, não sente que está a enganar as pessoas?
Eu, no fundo, não estou a enganar porque estou a mostrar o que eu vejo. Eu não estou a alterar nada do que está lá. Por exemplo, eu vejo este sofá de uma forma e, se calhar, consigo mostrá-lo de uma forma que depois as pessoas chegam e é só um sofá. Percebes? É mais isso.
Tem um estilo muito próprio, diria até mais clássico, tanto na decoração como nas músicas que escolhe para as publicações. Acha que isso influencia as pessoas a quererem trabalhar consigo, ou até mesmo uma pessoa comum a querer segui-lo no Instagram?
Acho que isso me distingue um bocado da maioria das pessoas. Eu acho que eu sou muito chato, sou do signo virgem, sou extremamente chato a fazer as coisas, levo muito tempo a editar, a fazer, e acho que isso também conta, não fazer uma coisa por fazer e não fazer mal feito. Eu acho que, assim, eu mostro muito os meus gostos, não é? Tanto que há muita gente que me diz que me começou a seguir e achava que eu não era português. Eu levo isso como elogio, não é? “Não sabia que havia tanta qualidade em Portugal”, justificam. Eu acho que há, eu sigo muita gente boa, e que eu adoro seguir. Não acho que seja por isso. Pronto, eu acho que o meu estilo clássico também vem muito dos meus gostos. Eu sempre gostei muito destas coisas mais clássicas. Estes hotéis mais antigos, estes restaurantes mais antigos, sítios com história, que também vêm do meu gosto de História da Arte. As coisas vão-se ligando todas um bocadinho.
Começou logo de início com este estilo?
Eu, no início, fazia imensas viagens. Ou seja, era como se eu fosse um influenciador de viagens. Fiz uma viagem muito grande para a Ásia e eu tirava fotografias a mim mas eu tirava mais fotografias a pessoas. Uma coisa que eu não faço hoje e que eu adoro é fotografias de pessoas, paisagens, momentos. Era muito o que eu fazia na altura. O meu início foi muito assim. Isso e comida. Se bem que a parte da comida acentuou mais na pandemia.
Com receitas?
Sim. Eu fico sem trabalhos, porque eu não publicava quase nada, só publicava restaurantes, não é? E então eu começo a fazer receitas. As marcas começam a ver e foi o que safou na pandemia. Eu tive muito trabalho e acho que foi uma coisa que… Era uma coisa que eu também gostava muito, mas estava aqui mais escondida.
Se formos falar em termos de conteúdo, o que é que mais gosta de produzir?
Não sei. Eu adoro fazer coisas de casa, mas também gosto de fazer muito hotéis e restaurantes. É o que eu mais gosto. Mas também gosto muito de mostrar Lisboa. Tem tanta coisa para mostrar. Talvez há uns dois, três anos também eu lancei os meus guias de Lisboa, que vêm no meu site. As pessoas perguntavam-me imensas coisas, desde restaurantes que eu goste a sítios para visitar, eu pensei que é realmente uma coisa que as pessoas precisam. Então, tenho um guia de três dias em Lisboa onde explico mais ou menos tudo. Até transportes. E dou a minha opinião do que é que eu acho que é melhor fazer e o que é que não é.
Mas são guias para turistas?
Sim, mas também tenho portugueses. Por isso é que eu depois vou fazendo coisas mais sazonais. Do que fazer no inverno, no outono, onde ir ao brunch, onde beber chocolate quente. E é público português, que me interessa muito. E então vou fazendo destes mais sazonais e incluo coisas que fazem sentido. Não me posso esquecer do público português.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Sente que Lisboa está descaracterizada? Como é que contorna isto com o seu trabalho?
Eu acho que está bastante descaracterizada, cada vez mais. Estamos a perder imensos sítios que tínhamos antigamente e que toda a gente gostava e toda a gente se lembrava. Imagina, toda a gente se lembrava de Lisboa antigamente, as lojinhas da Baixa, que cada vez existem menos. Então, acabas por perder aquela essência que Lisboa era, não é? Lisboa não é aquilo que é agora, cheio de restaurantes no meio da rua Augusta, a maioria são de comida portuguesa, mas não trabalha lá nenhum português. O que eu tento fazer com o meu trabalho e contornar isso é focar as pessoas em sítios que eu acho que façam mais sentido. Daí eu ir àqueles sítios mais históricos, mais antigos. As velas do Loreto, eu acho aquele sítio lindo e quase ninguém conhece. Por exemplo, o palácio da Brotéria, também é lindo e tu podes trabalhar lá de borla. Basta levares o computador e estás a trabalhar num palácio. Quer dizer, ninguém sabe isto. Acabam por ser coisas muito giras. E eu tento muito no meu trabalho mostrar também o que eu acho mais giro e o que eu acho melhor e o que a cidade tem para oferecer ainda.
Então acredita que o seu trabalho promove a essência de Lisboa?
Eu acho que sim. Eu pelo menos tento ao máximo. Claro que eu também mostro muitos sítios novos. Comida italiana, comida japonesa. No fundo, tu não queres comer só comida portuguesa, não é? Tu és uma pessoa normal e gostas de ir a outros tipos de restaurantes. Não posso fazer só vídeos de Tascas, por exemplo. Então, vou tentando juntar tudo o que consigo.
Consegue enumerar algumas coisas que as pessoas não valorizam e que o André acha que são ótimas em Lisboa?
Sim, acho que ficar num jardim. Eu vou muitas vezes ao Jardim da Estrela passear a minha cadela e ao fim de semana ele é muito vivido. Mas a questão é: ele é muito vivido por estrangeiros. E acho que é uma coisa que nós portugueses não fazemos, é viver tanto o bom que temos na cidade. Acabamos por perder o nosso tempo com outras coisas. E acho que as pessoas também não valorizam muito estes sítios mais antigos, eu acho que os estrangeiros valorizam muito mais. A Padaria Patriarcal, por exemplo, é um sítio super típico, super característico e não há quase portugueses lá. Imagina, tu chegas lá e pensas num museu. São coisas típicas, uma pastelaria normal, uma padaria tradicional. E que as pessoas não valorizam. As pessoas valorizam muito o novo, o moderno. E é uma coisa que eu valorizo, mas não valorizo tanto.
Há alguma coisa que tenha desaparecido em Lisboa e da qual o André tenha saudades?
Sim, há muitas lojas típicas que vão desaparecendo. Tenho saudades muito porque eu as achava lindas e adorava fotografar e filmá-las. Entendo que para as pessoas aquilo se torna um bocado insustentável. Insustentável porque, por exemplo, lojas de botões e linhas… As pessoas já não vão, não é? E acabas por perder essas coisas. Tens a Retrosaria Bijou, que é linda, mas quer dizer, eu entendo que as pessoas não vão lá comprar linhas e botões. São coisas que tu tinhas antigamente na cidade e que agora não tens. Eu fiz um trabalho no ano passado para o bacalhau da Noruega e foi muito giro porque eles pediam-me para eu encontrar em Lisboa um sítio que vendesse bacalhau como antigamente. E eu lembrei-me na rua dos Bacalhoeiros mas já não há nenhum. Há só cafés e restaurantes e lojas. Depois encontrei um, mesmo antigo, que o senhor tem as postas, corta com aquela máquina antiga. E é uma coisa que é o que ele me dizia na altura: “Isto vai acabar. Eu vou ter que acabar por fechar, porque as pessoas vão ao supermercado e não vêm aqui”.
Onde é que era?
Aquilo fica ao pé da Câmara Municipal. Está a Câmara Municipal e é mesmo naquela rua em frente. O Rei do Bacalhau, de Santos Ramalho.
Mas como é que o descobriu?
Fiz uma pesquisa para saber e foi engraçado porque foi a minha mãe que me falou desse sítio. Ela disse-me: “Olha que eu ia com a tua avó a uma rua perto da Câmara e havia um sítio que tinha. Podes ir lá ver”. E realmente ainda tinha. Era uma velhote, super típico. Foi muito giro. Porque são aqueles sítios que se vão perder, não é? Ninguém vai lá.
Para onde é que vê que Lisboa se está a encaminhar?
Eu acho que para um sítio muito descaracterizado, com muita pena minha. Porque eu acho que as casas agora são todas muito modernas. Vou dar-te um exemplo. Eu vivo ao pé das Amoreiras e numa zona em que todas as casas são muito normais de repente nasceu ali um prédio super moderno no meio. E eu pergunto, quem é que deu a autorização para construir isto aqui? Não faz sentido. Descaracteriza completamente a zona. E eu acho que Lisboa vai acabar por ir por aí.
Mas isso não acontece apenas em Lisboa.
Eu acho que o mundo vai avançar por aí, com muita pena minha. Há aquelas publicações em que tu vês uma porta antiga, super trabalhada, a comparar com o que se faz agora que é uma porta básica, branca, normalíssima. Como é que tu perdes esta essência do antigo, super trabalhado e lindo, com uma coisa básica e branca. É muito isso que eu também mostro nas minhas coisas. O que eu acho realmente bonito, que é o antigo. E o que eu ainda valorizo e quero passar, que isto ainda existe, que as pessoas ainda podem encontrar isto.
Qual foi o último restaurante onde foi?
Foi ao Bairro do Avilez. Costumo ir lá e gosto muito. É um dos meus restaurantes favoritos. Porque imagina, não tem aquela comida tradicional, típica que tu comes em casa. Mas tem comida portuguesa, com aquele twist ótimo, saboroso, que tu não encontras assim em muitos sítios.
Quando está por Lisboa, onde é que vai se quiser comer bem?
Uma coisa nada fancy mas eu costumo ir muitas vezes à Churrasqueira da Paz. Eu vivi alguns anos no Príncipe Principal e é um sítio que eu conheci, era muito barato, agora está mais caro. Mas era um sítio onde tu tinhas que reservar no dia antes para ter mesa, porque como era barato, a comida era muito boa. E o senhor é muito simpático. Eu levava sempre a minha cadela antiga e então pedia para reservar a mesa perto da porta. Era uma santa. Chegava, deitava-se, ninguém sabia que estava ali uma cadela. E eu ia lá muitas vezes, bom, barato, ótimo, e este não é um sítio da moda que as pessoas conheçam, por exemplo.
Como é que se equilibra querer guardar uma joia escondida na cidade mas ao mesmo tempo querer dá-la a conhecer?
Imagina, aqueles sítios onde eu mais vou, eu não publico todos. Eu publico se for um sítio que eu acho que as pessoas valorizem mesmo e que precisa mesmo que seja mais valorizado. Se for um sítio que eu vá imensas vezes, ou publico ou não publico tanto. Às vezes publico, mas não faço um reels sobre isso, publico um story ou tento equilibrar mais ou menos assim.
Mas não o faz por ter medo que também fique descaracterizado?
É muito isso, porque se há um sítio que começa a ter muita afluência, ele acaba por deixar de ter tanta qualidade, eu acho. Porque acabas por deixar de ter aquele atendimento tão personalizado para começar a ter um atendimento mais rápido. E acho que isso se pode perder, não é que se perca, mas acho que se pode perder um bocadinho por isso.
Quantas pessoas fazem parte da sua equipa?
Eu faço tudo sozinho. Mesmo todos os vídeos. Aqueles em que apareço, ou não apareço, todos.
Mas nunca pensou em ter alguém para ajudá-lo?
Eu já pensei, mas acho que é sempre mais complicado. Mas já pensei e pondero ainda ter, mas ainda não se proporcionou. Por exemplo, eu já assinei contratos para criar conteúdo para sítios que me dizem mesmo que tem que ser eu a ir. Às vezes para mim era mais fácil eu ter uma equipa. Queria começar a ter mais sítios para gerir redes e criar conteúdo para mais sítios e eu não posso, quer dizer, tenho o projeto lá em cima. Trabalho como influenciador. Acabo por não conseguir chegar a todo lado. E depois sou extremamente perfeccionista e é muito chato para mim, quero entregar uma coisa boa. Já pensei nisso, ter uma pessoa a trabalhar comigo, mas as pessoas querem sempre que seja eu. E para ter que ir eu e outra pessoa, acho que não faz sentido. Acabo por ser só eu e pronto.
Numa entrevista à Marketeer em 2024 dizia que as redes sociais são uma arma muito poderosa quando bem usadas. O que é que queria dizer com isto?
Imagina um restaurante. Ele podia não ter clientes nenhuns e tinha um potencial gigante. Imagina, tu saberes que tens esse potencial de ajudar um negócio a ir para a frente e tu acreditas mesmo, pode ser uma arma completamente poderosa e que depois te faz impulsionar o negócio completamente. Eu tive um post que fiz há duas semanas para um restaurante e eu sempre gostei de ir lá e eles disseram-me que precisavam de um vídeo. Eles agora vendem cinnamon rolls. E disseram-me que era impressionante e que as vendas cresceram 30% esta semana graças ao meu post e que estavam com o sábado completamente lotado. Eu fico contente, não é? Eu acho que o Instagram pode ser muito poderoso e o TikTok por causa disso. Quando usado para uma coisa boa. Tu queres ajudar uma pessoa, tu consegues realmente ajudar uma pessoa. Eu não acho que eu seja um influenciador que influencie as pessoas, por exemplo, a comprar coisas. Mas se calhar influencio as pessoas a irem aos sítios. Nem que seja para experimentar. Acho que eu sou mais um influenciador, se calhar, de comida e de hotéis do que de roupa. Estou a dizer roupa mas não faço posts de roupa, ou de cremes.
Que projeto é que é este da Quinta das Janelas Verdes?
É um projeto de família. O nome dela era Quinta das Carvalhiças. Porque ela está cheia de carvalhos. Então toda a gente lá só conhece aquilo como Carvalhiças. Ninguém conhece como Janelas Verdes. Mas quando eu era pequeno, o meu avô tinha um monte no Alentejo que era o Monte das Janelas Verdes e nós perdemos esse monte então eu achei que, já que eu ia pintar as janelas de verde, fazia todo o sentido ser o nome da Quinta. Então nasce aí esse nome. E depois era a ideia de ter um projeto fora de Lisboa. Eu faço muitas viagens, fico em muitos hotéis, conheço muita coisa. Tudo mais. Eu acho que a minha maior vontade era ter um sítio super criativo. Que funcionasse como cenário para imensas coisas. Se calhar, campanhas publicitárias, workshops, eventos. A Quinta serve um bocadinho como o meu laboratório que eu vou experienciando coisas. É tudo o que está no meu imaginário.
Não tem pessoas a questionar se vai ser um alojamento?
Perguntam. E é assim, eu não sei se vai ou não. Sei que tem muitas casas. São três casas e tem uma que vai ser só camaratas porque eu quero fazer eventos e workshops, retiros. E quero ter sítio para deitar as pessoas. Há uma casa que vai ser só nossa, depois há o que nós chamamos de casa-mãe, que tem quatro quartos. Que essa sim, poderá vir a ser para alugar como um todo, um Airbnb, não sei. Depois nós temos dois pavilhões muito grandes. Um deles vai ser uma cozinha, desde publicidades, workshops, eventos, tudo o que precisares de fazer, e outro mais para yoga, meditação, retreats, palestras. Mas pronto, é muito aquela coisa que eu quero vender. Eu já recebi propostas de marcas para irem lá fotografar, e aquilo ainda está em obras. Recebi uma proposta da Brownie Spain. Eu acredito que as pessoas veem aquilo no Instagram e é muito bonito mas eu não mostro a parte que tem obras. Acho que não faz sentido.
Há alguma época que resulta melhor em termos de publicações?
Não sei, acho que não. Acho que é mais fraco no verão porque as pessoas não querem saber tanto do telemóvel e estão mais em tempo de férias. Se tivesse que eleger uma época, se calhar o outono/inverno porque é aquele início. As pessoas voltam a viajar, voltam a fazer coisas, querem saber onde é que vão.
E a época que o André mais gosta de fazer conteúdos?
É no outono. Outono e Natal. Eu adoro o outono, as cores do outono. Acho que Lisboa não tem um outono lindo. Não, porque é assim, não vês árvores muito amarelas. Se fores a Londres no outono, aquilo é um sonho do outono. É um sonho sempre. E é o mesmo com o Natal. Mas eu o Natal gosto muito, tem toda aquela magia, não é? Toda aquela vivência, as luzes, as pessoas. Sou apaixonado por essas duas estações.
Como é que o André não se prende a uma tendência e segue sempre uma linha muito coerente no trabalho?
Não sei, eu acho que as tendências têm sempre aquele tempo que funciona e depois morre. E eu acho que estou sempre a fazer a mesma coisa. Eu acho que eu crio a minha tendência e acho que isso também acaba por diferenciar. Eu comecei a fazer os vídeos com o título escrito e as pessoas queriam muito saber, queriam saber a letra, queriam saber como é que haviam de fazer. Eu acho que é criar muito aquela tendência nova. E eu acho que há muito poucas pessoas a fazer o que eu faço.
Já copiaram o seu trabalho? Como é que lida com isso?
Não é lidar, eu acho que ao início lidava pior. Achava que era péssimo estarem a fazer igual. Agora, tento ver com um elogio. É do tipo “olha, está ótimo e a pessoa quer replicar, quer fazer igual”. Mas nem sempre pensei assim, mas é ir tentando jogar mais ou menos com isso. E eu tenho uma coisa que é eu achar que os meus ficam sempre melhores. Claro que eu vejo alguns vídeos e também vejo que estão bons.
Como é que prevê que vai ser o futuro das redes?
Eu acho que vai continuar a evoluir mas não para o lado do que eu faço. Acho que muito para o lado, se calhar, mais fútil e mais impessoal. Não é o que eu queria, não é? Eu acho que mostrares mais a tua opinião e mais de ti vale muito mais hoje em dia. As pessoas já não dão tanto a opinião delas com medo do que vão ouvir. Nós sabemos que atrás das redes sociais há sempre toda a gente que diz tudo e um par de botas. Então as pessoas, como não estão para isso, já guardam um bocadinho a opinião delas para elas e não publicam tanto. É mais uma salvaguarda mas acaba por ser uma coisa mais impessoal e acho que isso se vai perder cada vez mais.
Já aconteceu um trabalho correr mal ou até ter perdido o conteúdo que captou?
Sim houve um trabalho que eu fiz com câmara e aconteceu uma coisa quase impensável de acontecer. Foi uma coisa tão disparatada mas eu tirei aquela tampinha da máquina e deixei o cartão de fora. Ou seja, não o tirei, aquilo tu clicas e ele fica ainda preso. E do nada a máquina cai no chão e o cartão dobrou e partiu-se. Eu perdi todo o trabalho que tinha. A partir dá comprei aqueles cartões que são tipo adaptador e tem um micro cartão lá dentro. Já não vai acontecer outra vez.
E depois como é que fez?
Tive que voltar a fazer o trabalho de novo. O que é muito chato porque era um hotel com um restaurante e é chato para o hotel porque eu tive que voltar lá. A sorte é que era aqui em Lisboa, mas imagina, pratos, cozinha, o chef teve que fazer tudo de novo. Empratamentos novos, cozinha, as pessoas outra vez para fazerem mãos e foi muito chato. Foi assim a pior experiência que eu tive.
Trabalha com alguma câmara em específico? É patrocinado?
Eu não sou patrocinado. Já fiz um trabalho pago para a Canon, mas foi uma câmara de vlog mas eu não gravo muitos vlogs e era sempre na horizontal. Eu gostei, a qualidade é boa, tinha uma grande estabilidade para filmar na cidade e era ótima porque era pequenina. Mas eu não uso muito. Eu uso muito uma máquina grande com lentes muito pesadas, que é chato para viajar. Mochilas pesadas sempre. Eu não sei o que é viajar sem uma mochila pesada às costas.
Mas também usa o telemóvel.
Sim eu faço muito vídeos com o telemóvel. Restaurantes e hotéis, faço tudo com a telemóvel, porque também diferencia um bocadinho. Acho que um restaurante, filmar com o telemóvel aproxima mais as pessoas do que um vídeo super profissional. Tu vês um vídeo super profissional numa conta de um restaurante, tu não vais ligar tanto. E se tu vês um vídeo com o telemóvel, não é que não seja profissional, mas dá um ar mais pessoal, eu acho que vai ter mais engagement e vai funcionar melhor nas redes sociais.
Como é que se apresenta? Como influencer?
Criador de conteúdos. Eu acho que sou melhor criador de conteúdos do que influenciador. E eu gosto mesmo muito de criar conteúdos. Eu já trabalhei para algumas marcas, só como criador de conteúdos. E é uma coisa que eu tenho mesmo gosto de fazer. É um trabalho que dá mais trabalho, mas que eu gosto.
Como é que compara ser criador de conteúdos com trabalhar com publicidade?
Eu acho que é muito parecido. Criar um conteúdo é fazer uma publicidade. Só que, se calhar, publicidade era eu criar o conteúdo e publicá-lo. Aí eu estou a fazer publicidade, acho eu. Mas há trabalhos que faço só para as marcas e não posso publicar no meu pessoal.
Como é que se lida com o preconceito que Portugal tem para com pessoas que trabalham com redes sociais?
As pessoas não percebem o trabalho que dá. Um vídeo que eu publique, mesmo em Lisboa, dá muito trabalho. Porque eu tenho que ir àqueles sítios todos. Claro que hoje em dia eu tenho um banco de imagens enormes, de imensos sítios. Mas dá muito trabalho. É o mesmo que ir a um restaurante. Há agora aquela coisa do restaurante querer pagar-te um post. Ou convidar-te para tu vires fazer um reels. Eu encaro isto como um trabalho. Eu não venho aqui só jantar. Tu vens jantar, tens de estar atento aos gestos dos colaboradores, a servir, filmar o prato, não comes a comida quente, tens de ir à cozinha e filmar o chef, filmar o ambiente. Não é só vir jantar. Acredito que para muita gente seja só vir jantar e faz uns disparos e está bom. Eu não vejo isso assim. E também tem a ver com o valor que tu dás, por exemplo, a um post. As pessoas dizem: “Mas pessoa X não cobrou”. Então convide o X. Se faz igual, se acha que o trabalho é o mesmo. E aí as pessoas já começam muito a ver a diferença do que é um influenciador que faz sentido para aquele trabalho e o que não é.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
O que é que acontece se não gostar? Não cria conteúdo?
Há sítios que eu vou e que eu não acho que seja nada de especial. Eu vou, faço stories. Não crio. Se eu vejo que tem potencial para, eu faço.
E também há essa pirâmide, não é? Se calhar uma publicação vale mais que um story.
Sim, o story está mais em baixo. E depois com o tempo vais percebendo o que é que funciona melhor na tua rede. Depois também há aquela coisa de, muitos sítios convidam-me e eu tenho que selecionar os que fazem mais sentido para mim. Eu não posso ir a todos. Eu poder podia, mas eu tenho que ir aos que eu acho que vão fazer mais sentido para mim. E também balizares e criares se calhar um certo estatuto e uma certa baliza de, eu quero mais este estilo e não o outro. Ou seja, diferenciares-te um bocadinho. Não fazeres tudo.
Também não é bom para a pessoa que está de fora ver que o André vai a tudo. Parece que não tem critério?
Sim, aconteceu-me uma vez estar a discutir um trabalho com uma marca de vinhos que me disseram que precisavam de um tempo de exclusividade porque tal pessoa, por exemplo, fez uma marca e na semana seguinte fez outra. Percebes, não faz sentido. Estás a fazer um post de publicidade a um vinho e na semana a seguir estás a fazer o concorrente. Afinal és o quê? Ou um ou outro, não é? E então tens que balizar um bocadinho, senão também acho que depois perdes um bocadinho a credibilidade. Se vais aceitar ir a todo lado, as pessoas acabam por não acreditar em ti. “Eu vou aqui porque o André acha que é realmente bom e que vai fazer sentido”. Se eu for a todo lado, eu acho que as pessoas vão perder um bocadinho isso. “Ele vai a todo lado, é tudo igual”.
O que é que funcionava melhor? Comida, paisagens, receitas…?
Eu acho que é Lisboa. Lisboa é a que funciona melhor. Mas também agora tenho visto que há uma coisa que funciona muito bem, que é a remodelação da Quinta. As pessoas gostam muito. E há uma coisa que as pessoas adoram. Estive seis meses sem ter cozinha então mostrava muito a minha vizinha da frente a cozinhar. E as pessoas valorizam imenso essas coisas, que são muito tradicionais e muito típicas e que ninguém tem. Eu fiz um vídeo que era mostrar mais ou menos o que é uma semana na Quinta, que acaba por ser engraçado. Tem muitos dias específicos para muita coisa. Há sempre um padeiro que passa à meia-da-noite e deixa o pão pendurado na porta. Coisas muito giras. Que as pessoas acham que é tão pitoresco, tão característico, e apaixonam-se por aquilo, que é uma coisa que tu não vês em mais lado nenhum. Ou não vês nas grandes cidades. Então acaba por ser também bom por isso.
E as pessoas da vizinhança sabem quem o André é?
Agora sabem. Foi porque os vídeos ficaram virais. E mais também o TikTok. Se calhar vai apanhar muita gente ali. É muito engraçado porque eu fiz um vídeo com a vizinha a fazer os bolos com a neta. Ela diz que são reclames, que vai aparecer no reclame. É muito giro. E depois o vídeo viralizou. Teve 300 e tal mil visualizações. E ela diz que estava em Ourém numa sapataria e que lhe perguntaram se era a senhora dos bolinhos. Ela acha muita graça.
E é um vídeo da vizinha a fazer bolos?
Sim, são os bolos típicos de lá. São uns bolos normalíssimos. Massa, um açúcarzinho por cima e também leva um limão. São uns bolos muito simples mas são típicos de ali. Mas é giro e a senhora ficou toda contente. E sabes que acabamos por ser uma ótima companhia para ela. Porque ela tem 86 anos. E o marido 94. Então as pessoas dali vivem até muito tarde. Muito tarde. E é giro. Porque ela foi criada naquela quinta. Na quinta tem muito mais do que 100 anos. No último dia que eu estive lá eu fui pedir o contacto de um senhor para levar a lenha e ela foi à gaveta e encontrou uma fotografia do dono da Quinta. Tão engraçada. Eu disse-lhe que tem de me emprestar a fotografia porque é tão giro. As botas. O chapéu. Muito giro. Parece um explorador de antigamente.
Onde é que vai buscar a criatividade?
Agora eu vou adaptando mais ou menos à época, cenários de outono. Pinterest é uma fonte que nunca acaba. Mas claro que depois tem que haver um investimento da tua parte. No outro dia mandei vir fardos de palha para a quinta para criar o cenário perfeito para o outono.