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Montenegro já apareceu 35 vezes em segundo ou mesmo em terceiro lugar nas intenções de voto. De janeiro a setembro, ficou quase sempre fora da liderança
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Montenegro já apareceu 35 vezes em segundo ou mesmo em terceiro lugar nas intenções de voto. De janeiro a setembro, ficou quase sempre fora da liderança

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Montenegro já apareceu 35 vezes em segundo ou mesmo em terceiro lugar nas intenções de voto. De janeiro a setembro, ficou quase sempre fora da liderança

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

PSD em queda livre nas sondagens. Montenegro navega em terra de ninguém

A partir da análise de mais 1000 sondagens feitas entre 1979 e 2026, as conclusões não são animadoras: desgaste de Montenegro só é superado por Passos e pela dupla Durão-Santana. Cavaco é miragem.

Luís Montenegro entrou numa rampa deslizante — resta saber se a queda é ou não irreversível. O social-democrata é primeiro-ministro há sensivelmente 30 meses e, nesse período de tempo, já foi testado em exatamente 101 sondagens. Mesmo com uma vitória eleitoral pelo meio, que reforçou o número de deputados da Aliança Democrática, Montenegro já apareceu 35 vezes em segundo ou mesmo em terceiro lugar nas intenções de voto. Uma tendência, de resto, que se tem vindo a agudizar ao longo de 2026. E esse é, de longe, o dado mais negativo para o primeiro-ministro.

Existe um dado inevitável que influencia decisivamente toda e qualquer análise que se possa fazer: um primeiro-ministro cai sempre em sondagens antes de recuperar e vencer. Dito isto, o conjunto de sondagens realizadas no último ano não esconde uma evidência: a crescente insatisfação com o rumo do país está a moldar as intenções de voto. Entre janeiro e setembro, fizeram-se 19 estudos de opinião e Luís Montenegro apareceu 18 vezes fora da liderança destacada. Afinando ainda mais o critério, é possível concluir que o atual primeiro-ministro já soma sete sondagens em terceiro lugar e todas ao longo deste ano — algo que nunca aconteceu a um primeiro-ministro em funções e que representa bem a incerteza introduzida pelo surgimento de André Ventura.

Esta é uma das principais conclusões a retirar de um estudo do Observador feito com a colaboração de Ricardo Reis, economista e diretor do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica entre 2019 e 2025. Na prática, foi feita uma análise a todas as sondagens feitas em Portugal sobre intenções de voto em eleições legislativas desde 1979 até 2026. A partir dessa base de dados, construída de raiz por Ricardo Reis com base em mais de 1000 sondagens, foi possível perceber, com recurso a ferramentas de inteligência artificial, como se comportaram todos os chefes de Governo em estudos de opinião desde o momento da vitória eleitoral até ao fim de ciclo.

No caso concreto de Luís Montenegro, existem duas formas de olhar para o desempenho do social-democrata: a partir do copo meio-cheio e a partir do copo meio-vazio. No primeiro caso, e é isso que nos diz o padrão identificado desde a consolidação da democracia, (praticamente) todos os chefes de Governo que se recandidataram em eleições legislativas experimentam uma queda das intenções de voto e depois começam a recuperar à medida que as eleições se aproximam. Ou seja, é possível dizer que Montenegro está muito mal nas sondagens, mas é justo observar que é bastante possível que venha a recuperar o suficiente para vencer as próximas eleições.

“Em Portugal, os primeiros seis meses de um governo não trazem qualquer empurrão: a sondagem está, em média, exatamente ao nível do resultado eleitoral; nem acima, nem abaixo. A queda, quando acontece, começa quase logo a seguir. A segunda constante é uma recuperação consistente no último ano antes de cada eleição — tipicamente entre 5 a 6 pontos percentuais. É, das descobertas desta análise, a mais robusta estatisticamente, e coincide com um fenómeno bem documentado internacionalmente: à medida que a eleição se aproxima, os eleitores indecisos vão-se fixando e as sondagens tornam-se mais informativas”, observa Ricardo Reis. A melhor imagem para descrever este fenómeno é imaginar a letra “U“: começa-se em cima, desce-se, e volta-se a subir.

Montenegro não é Cavaco. Nem Costa

Mas este é mesmo o copo meio cheio do atual primeiro-ministro. Se o critério for apenas os primeiros 30 meses de governação, existem dois chefes de Governo que conseguiram crescer em intenções de voto desde o momento da primeira eleição até ao período de análise: Aníbal Cavaco Silva e António Costa, por esta ordem. Este último, ao contrário de Cavaco Silva, enfrentou depois um período de enorme desgaste que resultou numa sorte diferente: Costa, depois de começar com uma derrota (2015) e chegar à maioria absoluta (2022), começou a cair de forma aparatosa nas intenções de voto até apresentar a demissão em função dos 75 mil euros encontrados em São Bento.

Aníbal Cavaco Silva, o homem escolhido como santo padroeiro do montenegrismo, é um caso de estudo e a exceção que confirma a regra: arrancou como primeiro-ministro de um “governo minoritário com 29,9% de apoio e foi consolidando popularidade ao longo de dez anos e três eleições vencidas seguidas, chegando a superar os 50%”. Luís Montenegro, que nunca escondeu o plano de repetir Cavaco — crescer da maioria relativa até à maioria absoluta —, está muito longe de acompanhar a tendência de crescimento do seu patrono político. Pelo contrário. Contas feitas, “Montenegro está claramente pior do que os casos de crescimento”, observa Ricardo Reis.

“A comparação não é favorável a Luís Montenegro. Cavaco Silva arrancou em 1985 com 29,9% (governo minoritário) e, ao contrário do padrão habitual, cresceu quase imediatamente — chegou às eleições de julho de 1987, apenas 21 meses depois, com 50,2%. Só que essa subida beneficiou de algo que Luís Montenegro não controla da mesma forma: Cavaco convocou eleições antecipadas precisamente quando a sua popularidade estava em alta, capturando o pico. O ‘U’ nunca chegou a formar-se no seu primeiro mandato — Cavaco saiu de cena antes da fase de desgaste”, continua. “Se a inspiração [de Luís Montenegro] é reproduzir o ‘efeito Cavaco‘, os números até agora não o sustentam.”

O copo meio vazio para Luís Montenegro não se esgota aqui. Olhando exclusivamente para os primeiros 30 meses de mandato, e comparando com os seus antecessores, o atual primeiro-ministro ocupa um lugar ingrato na tabela: é o terceiro chefe de Governo com a maior queda em pontos percentuais face à vitória eleitoral, só superado por Pedro Passos Coelho e pela dupla Durão Barroso / Santana Lopes. Com uma agravante para Montenegro: ao contrário dos antecessores, e pese embora as dificuldades sentidas com o aumento de custo de vida, o atual primeiro-ministro não está a governar em período de recessão económica. Apesar de tudo, o país não está de tanga, nem com troika. Mesmo assim, Montenegro afunda.

Ventura tornou tudo mais imprevisível. E Carneiro não deve celebrar

Há um dado inevitável que influencia decisivamente toda e qualquer análise que se possa fazer: o país político mudou desde 2015. “O sistema partidário fragmentou-se — primeiro com a consolidação do Bloco de Esquerda e da CDU, depois com a chegada do PAN, do Chega, da Iniciativa Liberal e do Livre — e o padrão previsível de desgaste, que tinha resistido a governos de direita e de esquerda durante 35 anos, simplesmente deixou de se verificar”, observa Ricardo Reis.

Até 2015, o fenómeno era relativamente previsível — o primeiro-ministro em funções sofria um desgaste “acentuado e quase linear” até recuperar rumo às eleições. A partir daí, o desgaste “deixou de ser previsível e sistemático da forma como era antes”. Mesmo o caso do PRD, que, em 1985, conseguiu disputar com o PS o segundo lugar dessas legislativas, foi um epifenómeno que entrou em fase de implosão com a moção de censura apresentada no Parlamento e a consequente maioria absoluta de Aníbal Cavaco Silva. Não existe nada na história eleitoral portuguesa que permita avaliar o comportamento e a evolução das intenções de voto nos partidos desde a consolidação do Chega como força política a considerar. Montenegro navega em terra de ninguém.

“Se a ideia de Luís Montenegro era a de que a eleição de 2025 serviria de réplica da de Cavaco Silva em 1987, essa ideia revelou-se muito prematura. O Governo não teve tempo para fazer as reformas que Cavaco Silva fez em 85/86 — acresce que a adesão à então CEE ajudou imenso; e o efeito esvaziamento do PRD não se verificou nem de perto, nem de longe no caso do Chega. Nesse sentido, enquanto o pragmatismo de Cavaco Silva conseguiu convencer os descontentes eanistas que tinham dado projeção a uma terceira força, Montenegro não teve o mesmo engenho (e Ventura não fez os mesmos erros de Ramalho Eanes) para captar os descontentes do Chega.”

Ao mesmo tempo — ou talvez por isso — seria prudente não interpretar o primeiro lugar do PS (18 vezes em primeiro lugar em 19 sondagens possíveis ao longo deste ano) como sinal de que José Luís Carneiro está mais perto de se tornar primeiro-ministro. “A vantagem atual do PS sobre a AD ronda os 3,4 pontos percentuais (média dos últimos três meses: PS 28,5% vs. AD 25,1%). É inferior à recuperação histórica típica do incumbente (5 a 6 pontos percentuais). Se o padrão se repetir, é uma vantagem que pode não sobreviver ao último ano de campanha”, começa por explicar Ricardo Reis.

De resto, e tal como explicava o Observador no final de agosto, José Luís Carneiro está à espera de chegar ao patamar perto dos 35% nas intenções de voto antes de arriscar eleições. O PS continua a precisar de tempo e de sondagens mais robustas a seu favor. Mais cerca de cinco pontos percentuais do que aqueles que vai registando por agora para superar a tal vantagem natural do incumbente. Mesmo que a última vez que tenha ficado em segundo lugar tenha sido em janeiro deste ano — teve dois empates no topo com a AD — nada disto, segundo o padrão estabelecido, é suficiente para se poder dizer que Carneiro está mais perto do poder do que estava quando se tornou líder socialista.

Além disso, José Luís Carneiro também não controla, nem tem como prever, o comportamento do Chega de André Ventura. O que pode significar que a santa alternância que tem marcado a transição de poder em Portugal pode, no limite, não sorrir aos socialistas. “O Chega está, neste momento, praticamente empatado com a AD (24,3% vs. 25,1% nos últimos três meses), o que quer dizer que, mesmo que o PS mantenha a liderança, o resultado não está garantido para ninguém — o ‘prémio‘ de uma eventual queda da AD não vai automaticamente parar às mãos do PS”, alerta Ricardo Reis. São as sondagens a refletir a era do tripartidarismo em Portugal.

“O Chega, que não está sujeito ao mesmo ‘custo de governar‘, está a crescer de fora do governo, com uma dinâmica própria que a análise não encontra em nenhum dos oito mandatos anteriores. Nesse sentido, Montenegro está numa situação sem precedente direto na série, e isso torna a eleição seguinte mais imprevisível do que a maioria dos antecessores — não necessariamente ‘mais perdida’, mas mais aberta a três resultados diferentes em vez de dois”, observa Ricardo Reis.

Como perder uma maioria e a ressurreição de Passos

Mesmo admitindo que o cenário político-partidário português nunca foi tão imprevisível como é hoje, é possível procurar alguns padrões que se podem aplicar a chefes de Governo que são recandidatos em eleições legislativas. Aníbal Cavaco Silva não pertence ao campeonato dos seus antecessores, portanto será mais útil olhar para os exemplos de José Sócrates, Pedro Passos Coelho e António Costa.

Este último é aquele que, porventura, mais se aproxima de Luís Montenegro. António Costa partiu de um patamar baixo (derrota nas legislativas de 2015), apanhou boleia de uma ‘geringonça‘ e construiu o seu caminho até à maioria absoluta de 2022. A partir daí, e usando apenas como referência as intenções de voto registadas em sondagens, é possível observar como o socialista conseguiu perder capital político até à (palavras do próprio) inevitável demissão.

Em outubro de 2023, antes de se ter demitido, António Costa tinha sondagens de 28,4% contra os 41,4% que havia conseguido na maioria absoluta de 2022 — altamente influenciada pelos eleitores de esquerda que temeram uma eventual maioria entre o PSD de Rui Rio e o Chega de André Ventura. No espaço de um ano e meio, agastado por casos e casinhos, António Costa teve uma queda de 13 pontos percentuais nas intenções de voto — sinal de que os embaraços, erros e pecadilhos políticos, como aqueles com que Luís Montenegro foi tendo de lidar ao longo de 30 meses de mandato, não matam, mas moem — e muito.

A experiência de José Sócrates também permite traçar algumas equivalências com a de Luís Montenegro, até porque foi a única vez que existiu a derrota de um primeiro-ministro eleito em funções — Pedro Santana Lopes tinha sucedido administrativamente a Durão Barroso. O socialista começou com uma maioria absoluta (2005), é certo, mas perdeu-a nas urnas em 2009. A partir daí, durou apenas dois anos no cargo até se demitir por causa do chumbo do PEC IV. Foi uma terceira vez a votos e perdeu para Pedro Passos Coelho — antes tinha derrotado Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite. De resto, Sócrates é um caso de estudo: conseguiu perder quase 17 pontos percentuais entre o primeiro momento em que foi eleito e a derrota final.

Ainda que num contexto muito diferente — o tripartidarismo é um mundo novo, não deve ser diretamente comparado a experiências anteriores — a trajetória de José Sócrates deveria ser estudada por José Luís Carneiro e André Ventura. Sobretudo por uma razão: não foi apenas o mau momento do incumbente a concorrer para a alteração do ciclo de poder; foi a capacidade de convencimento do challenger que ajudou e muito a fazer a diferença, explica Ricardo Reis.

“A perda de 8,5 p.p. de Sócrates entre 2009 e 2011 é notável por uma razão: [o então primeiro-ministro] já tinha sofrido praticamente a mesma queda antes, entre 2005 e 2009 (−8,4 p.p.). Nessa altura manteve o poder (com um governo minoritário a 36,6%). A mesma magnitude de perda, duas vezes seguidas, com desfechos opostos. O que mudou de uma vez para a outra não foi a queda do PS — foi o desempenho do PSD. Em 2009, o PSD só tinha 29,1%, insuficiente para ultrapassar um PS em queda; em 2011 já estava nos 38,7%”, começa por dizer o ex-diretor do CESOP.

“Ou seja: não existe um nível de sondagem do incumbente, isolado, que sirva de alarme fiável — o que decide a eleição é sempre a distância ao adversário mais forte nesse momento específico, não a queda em si. É essa, de resto, a explicação para o comportamento pouco previsível da AD: não é preciso um número mágico para estar em risco, basta que o rival mais próximo (agora o Chega, tanto quanto o PS) continue a aproximar-se.”

Pedro Passos Coelho — também ele um primeiro-ministro reeleito em funções — é outro exemplo importante de observar. Desde logo, porque é a personificação perfeita da função em “U” que mostra a evolução natural dos chefes de Governo e o impacto brutal do “custo de governar”. O ex-primeiro-ministro, transformado agora na grande sombra de Luís Montenegro, partiu de um patamar de 40,8% (vitória nas eleições legislativas de 2011), atingiu o seu ponto mais baixo em setembro de 2012 (20,2%) e conseguiu vencer as eleições de outubro de 2015 com 38,6% — praticamente onde tinha começado.

Não foi, todavia, o suficiente para impedir que António Costa formasse uma maioria parlamentar de esquerda. O que também é uma outra lição, desta vez para José Luís Carneiro: por muito que as sondagens sejam animadoras, e são, não há qualquer indício de que o PS esteja perto de uma maioria absoluta ou capaz de constituir uma maioria de esquerda no Parlamento. O país parece continuar virado à direita e o PS, se nada mudar, terá muitas dificuldades de voltar ao poder. O que vai acontecer à direita no dia em que este PSD ficar em segundo ou atrás do Chega, isso, são outros quinhentos.

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