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Mark Carney entra no Parlamento Europeu pela primeira vez, onde é recebido por Roberta Metsola e Ursula von der Leyen. “Estou pronto, tenho a minha caneta”, brinca o primeiro-ministro canadiano. Momentos depois, já dentro do plenário, torna-se óbvio que, afinal, Carney não estava apenas a quebrar o gelo. Na primeira fila, de caneta em punho, tira notas sobre a intervenção da presidente da Comissão Europeia no debate sobre o Estado da União.
A visita de Carney é inédita: é o primeiro líder canadiano a ser convidado para assistir ao momento alto do ano na política europeia de Estrasburgo. Mas não foi apenas este convite que o levou a cruzar o oceano. Esta quinta-feira, o chefe do Governo de Otava volta a entrar no plenário, desta vez para discursar perante os 720 eurodeputados — ou pelo menos os que apareceram ao discurso.
Mesmo sem lotação esgotada, é recebido no parlamento como uma estrela — ou um atleta de topo, a julgar pela camisola da seleção de hóquei no gelo utilizada pela líder dos Verdes, Terry Reintke, que rapidamente é puxada por cima da sua secretária para uma fotografia. Mas, mais do que uma estrela, Mark Carney é um “amigo” da União Europeia, como caracterizaram ao longo dos dois dias múltiplos eurodeputados, quer em discursos, quer em declarações aos jornalistas. Foi da vontade de cultivar esta mesma amizade que surgiu, esta quarta-feira, um anúncio inédito: o Canadá pode vir a ser o primeiro “membro associado” da União Europeia.
WELCOME BIENVENUE CANADA ????????❤️???????? pic.twitter.com/NXyR0PKLJe
— Terry Reintke (@TerryReintke) September 17, 2026
Tal como os lugares vazios do plenário comprovam, a visita de Carney não é vista por todos como um passo positivo. Afinal — e mesmo que as partes insistam em desvalorizar esse afastamento — Otava e Bruxelas aproximaram-se num contexto de agressividade por parte dos Estados Unidos, o maior aliado em comum, e alguns eurodeputados temem uma rutura com Washington. Outros querem ir ainda mais longe e veem na abordagem de Carney uma forma de fazer frente a uma nova realidade geopolítica.
“Há vários anos” que o “mais europeu dos países não-europeus” queria estar mais próximo de Bruxelas
Javier Moreno Sánchez chegou ao Parlamento Europeu há mais de 20 anos. Depois de um hiato de dez anos, regressou a Estrasburgo em 2019, onde lidera atualmente a delegação de Estrasburgo para as relações com o Canadá. A sua ligação ao país estende-se para fora do plenário e para a sua vida privada. É à luz destes laços que o eurodeputado espanhol vê sem qualquer surpresa a aproximação de Otava a Bruxelas.
“O Canadá diz-nos há vários anos que quer cooperar mais connosco. Fiquei com a impressão de que eles queriam isto mais do que nós”, diz ao Observador numa conversa na véspera de Carney aterrar em Estrasburgo, destacando as semelhanças que vão do “modo de vida, de pensar, nas ligações históricas e culturais” ao corredor dos queijos num supermercado no Québec. No ano passado, já Carney afirmava, pouco depois da sua eleição, que o Canadá era o “mais europeu dos países não-europeus“. E foram essas mesmas semelhanças que marcaram o discurso do líder no plenário europeu.
▲ Javier Moreno Sánchez lidera a delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Canadá
Hans Lucas/AFP via Getty Images
Na base do seu argumento, está a história de Leslie Miller, um tenente canadiano da I Guerra Mundial que apanhou bolotas durante o conflito no norte de França e, no regresso, as plantou em Ontário, onde cresceram carvalhos que, um século depois, foram replantados em França. “Esta é a essência da relação entre o Canadá e a União Europeia. Sementes, valores, ideias, comércio, povos e progresso a serem trocados de um lado para o outro do Atlântico ao longo de séculos”, declarou Carney esta quinta-feira, salientando que a aproximação é bem-vista pelo povo canadiano.
Uma sondagem realizada no Canadá entre os dias 4 e 9 de setembro confirma as suas palavras: 80% dos inquiridos disseram que Otava devia aprofundar as suas relações com Bruxelas. Mas os números nem sempre foram assim tão altos. Uma comparação com os dados de há seis meses revela um aumento de seis pontos percentuais desta variável.
Recuando ainda mais no tempo, é possível identificar uma matriz diferente relativamente à identidade canadiana nas palavras de Justin Trudeau. Há mais de uma década, numa entrevista ao New York Times, o então chefe de Governo dizia que, ao contrário de, por exemplo, França, o Canadá não tinha “uma identidade nacional forte, linguística, religiosa ou cultural”. “Não há uma identidade base ou mainstream no Canadá“, garantia. Então, o que despertou o patriotismo canadiano?
▲ Carney tem insistido na exaltação da matriz cultural europeia do Canadá
SPENCER COLBY/EPA
O “choque” Donald Trump que faz a UE prestar mais atenção ao Canadá
Ao longo de dois dias, Carney e Von der Leyen dirigiram-se aos eurodeputados durante quase duas horas. Nenhum deles mencionou uma única vez o nome de Donald Trump. Pelo contrário, insistem que as novas parcerias entre Bruxelas e Otava não são contra “nada” ou contra “ninguém”.
Javier Moreno Sánchez não tem rodeios a identificar o Presidente dos Estados Unidos como culpado para o ponto de rutura. “O Canadá é como um aluno exemplar. Um aluno que estuda, simpático, não incomoda os colegas. Mas acontece que um desses colegas, com quem tinha uma relação de irmãos, o traiu. Esse colega chama-se Estados Unidos”, compara, sentado no seu gabinete numa tarde de fim de verão, o eurodeputado eleito pelo PSOE. “Foi um grande choque para eles”, diz acerca do Canadá, referindo-se à guerra comercial em que se encontra com os EUA. “E não apenas de relações comerciais, porque eles eram como irmãos”, afirma, vincando o seu argumento com um acenar de cabeça como se estivesse incrédulo.
Eis que entra em cena uma abordagem diferente: o “elbows up” de Mark Carney. De cotovelos para cima, o eurodeputado espanhol imita o movimento agressivo do hóquei no gelo que, no ano passado, se tornou imagem da campanha eleitoral do antigo governador do Banco do Canadá e o ajudou a subir a pique nas sondagens, acabando por ganhar as eleições. A surpresa, para o eurodeputado, veio depois, quando Carney chegou a Otava. “Ele não se foi abaixo, que era o que seria lógico“, argumenta, em tom elogioso.
▲ Carney proclamou a rutura da ordem internacional, Von der Leyen propôs uma nova parceria
RONALD WITTEK/EPA
Em vez disso, Mark Carney subiu ao púlpito no Fórum Económico em Davos e proclamou a morte da “ordem internacional baseada nas regras” e apelou às médias potências para “construirem aquilo em que acreditam em vez de ficarem à espera que a antiga ordem seja restaurada” — passados nove meses, o discurso continua a ser citado pelos eurodeputados como um momento de viragem. A União Europeia respondeu ao repto. “Neste novo mundo, temos de reimaginar as nossas parcerias. E construir coligações globais para a nossa resiliência e as nossas democracias”, declarou Ursula von der Leyen esta quarta-feira. E fez uma contraproposta: “Só a Europa, com o seu tamanho e poder, pode tomar a liderança”, afirmou.
A surpresa do “membro associado” e a “solução criativa” à volta da nomenclatura
Dois dias antes de Mark Carney discursar em Estrasburgo, Javier Moreno Sánchez não antecipava que o líder canadiano fizesse qualquer anúncio concreto em relação às negociações que estão a decorrer em diferentes frentes. “Se tiverem alguma coisa preparada, está muito, muito secreta, porque eu ando a perguntar como vão as negociações e eles não deixam escapar nada“, afirmou, entre risos.
Tal como o eurodeputado antecipava, a visita de Carney passou-se sem qualquer anúncio nesse sentido, mas um outro anúncio apanhou a esmagadora maioria do Parlamento Europeu de surpresa: o Canadá pode vir a tornar-se o primeiro “membro associado” da UE. A possibilidade já tinha sido avançada pelo Wall Street Journal, mas, ainda em Toronto, Mark Carney tinha negado que esse fosse o objetivo final da sua visita. Nas horas a seguir à declaração de Von der Leyen, instalou-se em Estrasburgo um sentimento de confusão — afinal, essa figura legal não existe nos tratados, como apontaram os eurodeputados nas suas reações ao debate sobre o Estado da União — e posteriormente uma esperança de que o discurso de Carney clarificasse o que isto implica.
Questionado pelos jornalistas esta quinta-feira sobre isso mesmo, o primeiro-ministro deixou bem claro que “o Canadá não está à procura de se tornar membro da UE”. “A nomenclatura é uma questão importante para a Europa, o que é fundamental [para o Canadá] é a substância”, esclareceu, utilizando tanto a expressão “membro associado” como “Aliança para o Futuro”, numa aparente desvalorização da bomba que Von der Leyen tinha lançado na bolha de Bruxelas.
Carney também foi mais claro nas prioridades e trajetórias do processo para alcançar esta “aliança única”, como caracterizou. Em termos de temas, Otava procura cooperação para a extração e processamento de minerais críticos, trocas de gás canadiano por apoio europeu no desenvolvimento de energias renováveis, integração de estudantes canadianos nos programas de intercâmbio europeus, exploração conjunta das capacidades industriais defensivas e o estabelecimento de um sistema digital de trocas. Em termos de prazos, Carney apontou baterias à cimeira UE-Canadá que se irá realizar no final de outubro em Montreal.
Todavia, o aprofundar de laços com o Canadá não faz desta uma aliança assim tão única: a UE tem parcerias semelhantes com países como a Noruega, a Islândia ou a Suíça. A solução, ainda por decifrar, passa por pensar fora da caixa. “Nos contactos que tenho tido com os enviados especiais [canadianos], eles dizem-me que querem fazer algo um bocado criativo, não sei o que querem dizer”, revela Javier Moreno Sánchez. “Não podemos ter medo de discutir coisas novas”, afirmou por sua vez Roberta Metsola, quando confrontada pelos jornalistas com a mesma questão.
▲ Carney volta a reunir-se com os seus pares europeus em Montreal no final de outubro
OLIVIER MATTHYS/EPA
As lições de Carney: ensinar a UE a ser mais firme com Trump
Carney não disse o nome de Trump uma única vez. Mas isso não impediu que fizesse jus à sua fama de fazer frente ao chefe de Estado norte-americano. “Eu não estou a propor a criação de um terceiro bloco para nos tornarmos uma grande potência rival, mas com melhores maneiras“, afirmou no Parlamento Europeu, arrancando risos e aplausos aos eurodeputados. A posição é partilhada dos dois lados do Atlântico: a aliança Otava-Bruxelas não substitui as alianças já existentes nem se sobrepõe a qualquer parceria e não procura ser uma rutura com os Estados Unidos.
Contudo, apesar do alinhamento em muitas áreas, a política externa em relação a Washington não é uma delas. Enquanto o Canadá avançou para uma guerra comercial com Trump, a UE assinou um acordo de comércio livre com os EUA. Essa dissonância foi duramente criticada pelo Grupo da Esquerda durante o debate sobre o Estado da União. “Onde é que estava quando Trump ameaçou o Canadá e a Gronelândia? A assinar um acordo de livre comércio com os EUA”, criticou Manon Aubry, líder do partido europeu, dirigindo-se a Von der Leyen. Há seis meses, os eurodeputados da esquerda votaram contra a aprovação do acordo em junho.
A mesma questão faz Javier Moreno Sánchez hesitar, antes de assinalar que cada negociação é diferente. “Obviamente, como negociamos em nome da União Europeia, não nos íamos opor”, explica, referindo-se exclusivamente aos eurodeputados do PSOE, que lidera em Estrasburgo — 14 eurodeputadas da família dos socialistas votaram contra. “Mas é verdade que [a UE] talvez pudesse ter sido um bocadinho mais…”, concede, enquanto cerra um punho em jeito de quem diz “firme”. Essa é, acredita, a maior lição que a Europa pode retirar da visita de Mark Carney enquanto líder internacional: “Podemos aprender com ele a ser um pouco mais firmes com Trump”, responde com simplicidade antes do fim da conversa.
A possibilidade de a UE ter de vir a pôr estas lições em prática não é nula. Apesar da insistência de que o Canadá e Bruxelas não estão a romper com os Estados Unidos — ou a fazer concorrência à NATO —, Donald Trump classificou a declaração do Canadá como “membro associado” como uma ação “risível” mas também “um ato hostil” e ameaçou impor “tarifas muito sérias ou parar os negócios com a Europa em muitas coisas” caso a parceria Bruxelas-Otava se concretize nestes termos.
Afastamento dos EUA e ratificação do CETA. As reservas em relação à nova aliança
Depois de Roberta Metsola abrir a sessão, Mark Carney levanta-se e caminha até ao púlpito, sob os aplausos dos eurodeputados, onde, apesar das muitas cadeiras vazias, a quantidade de camisolas e casacos vermelhos é notável. Quando os aplausos esmorecem, mas antes de o líder canadiano tomar a palavra, um grito corta o breve silêncio: “USA! USA!”. Carney ri e desvaloriza o momento. Mas ainda que apenas uma voz se tenha levantado, não está numa posição isolada.
A visita de Carney, elogiado como “amigo”, “parceiro”, “aliado”, não impressiona as bancadas mais à direita. É aí que se contam mais lugares vazios, ainda que alguns eurodeputados vão entrando no hemiciclo à medida que o primeiro-ministro discursa. A fila da frente, onde se sentam os líderes parlamentares, continua vazia. Já na véspera, os líderes dos Patriotas pela Europa e da Europa das Nações Soberanas — os dois grupos da extrema-direita — tinham chegado atrasados ao debate sobre o Estado da União, só depois de o convidado de honra ter sido apresentado aos vários líderes parlamentares e, portanto, sem nunca o terem cumprimentado.
▲ Antes de começar a falar, Carney foi confrontado com gritos pelos EUA
RONALD WITTEK/EPA
É pela voz do único deputado português nestes dois grupos presente na sessão que se ouve a crítica mais acesa à aproximação ao Canadá. “Sabe o que vai acabar por acontecer? O Canadá e os Estados Unidos da América têm muitos interesses [em comum], vão acabar por se entender e a Europa vai ficar numa má situação“, vaticinou Tiago Moreira de Sá, do Chega, na reação aos jornalistas portugueses ao debate do Estado da União. O outro deputado do Chega, António Tânger Correia, não marcou presença no plenário.
Ao centro, surgem outras preocupações, de pendor mais pragmático. Na próxima semana cumprem-se nove anos desde que o CETA, o acordo económico e comercial UE-Canadá, entrou em vigor. Esta quinta-feira, Carney caracterizou-o como “um dos acordos de comércio mais bem-sucedidos do mundo” e deu “as boas-vindas à ambição de ir além do CETA para uma Aliança para o Futuro”. Contudo, na verdade, mais de um terço dos Estados-membros (10 dos 27) ainda não ratificaram o CETA. A pergunta é colocada em vários espectros políticos, sem ser apresentada uma resposta concreta: como é possível “ir além” do CETA quando nove anos não foram suficientes para o consolidar no seio do bloco já existente?
O Observador viajou a convite do Parlamento Europeu