Em pleno Carnaval, um Óscar para o Brasil. Ainda Estou Aqui venceu o prémio Melhor Filme Internacional este domingo, numa noite histórica para o cinema brasileiro. O filme de Walter Salles estava nomeado em três categorias dos Óscares: Melhor Filme (a primeira vez de um filme em língua portuguesa a alcançar tal feito), Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz. Tudo graças a Fernanda Torres, atriz e motor da longa-metragem sobre o desaparecimento de um ex-deputado detido no início da década de 70 na sua casa do Leblon, Rio de Janeiro, no período político mais negro da história do Brasil. É a primeira vez que o Brasil ganha este prémio.
No palco do Dolby Theatre, o realizador Walter Salles Jr. sinalizou o marco da conquista para o cinema brasileiro. No entanto, a principal menção foi “para uma mulher, que depois de uma perda sofrida durante um regime autoritário, não se deixou vergar”. “O seu nome é Eunice Paiva”, sublinhou, dedicando o prémio, entregue por Penélope Cruz, a Eunice Paiva, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro.
Fernanda Torres, que estava nomeada, perdeu para Mikey Madison, por Anora. Mas a atriz brasileira ainda está aqui, com ou sem Óscar na mão, com o mérito de ter levado um filme às costas até um prémio inédito para um filme brasileiro — em 1960, Orfeu Negro, que se passa no Rio de Janeiro e tem canções de Jobim e Vinícius, concorreu pela mão da produtora Dispat Films, como filme inscrito por França.
[o trailer de “Ainda Estou Aqui”:]
O Presidente brasileiro reagiu à conquista quase de imediato. “Hoje é o dia de sentir ainda mais orgulho de ser brasileiro. Orgulho do nosso cinema, dos nossos artistas e, principalmente, orgulho da nossa democracia”, escreveu no X. “Eu e Janja [primeira-dama brasileira] estamos muito felizes assistindo tudo ao vivo. O Óscar de Melhor Filme Internacional para Ainda Estou Aqui é o reconhecimento do trabalho de Walter Salles e toda equipe, de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, Selton Mello, do Marcelo Rubens Paiva e família e todos os envolvidos nessa extraordinária obra que mostrou ao Brasil e ao mundo a importância da luta contra o autoritarismo. Parabéns! Viva o cinema brasileiro, viva Ainda Estou Aqui”, rematou.
O filme de Walter Salles, uma produção original do Globoplay, centra-se no desaparecimento do deputado Rubens Paiva (1929-1971), levado de casa para “interrogatório” durante a ditadura militar brasileira. A família nunca voltou a saber nada do seu estado ou do seu paradeiro. Só ao fim de 25 anos, já com o Brasil em democracia, é que a mulher, Eunice Paiva, recebeu uma certidão de óbito do Estado brasileiro. Até então, as autoridades não reconheciam o sequestro nem o assassinato de Rubens Paiva.
O argumento de Ainda Estou Aqui baseia-se no livro escrito pelo filho do deputado, Marcelo Rubens Paiva, que narra as circunstâncias do desaparecimento e o pesadelo da família no processo. Tal como o livro de 2015, o filme centra-se essencialmente na luta pela dignidade da viúva de Rubens Paiva, Eunice (Fernanda Torres), a matriarca que se tornou um ícone da resistência e sobreviveu à prisão, lutando durante décadas para que o seu caso pessoal fosse vingado mas para que, genericamente, os crimes da ditadura fossem reconhecidos pelo Estado brasileiro.
Tal como no livro Eunice Paiva era a “grande heroína” da história, como descreveu Marcelo Rubens Paiva em entrevista ao Observador, também na obra de Salles é Eunice o centro da narrativa, graça ao desempenho de Fernanda Torres, complementado por Fernanda Montenegro nas cenas finais, nos anos de velhice da personagem.
▲ "Ainda Estou Aqui" é uma memória da ditadura militar brasileira através da história verídica de Eunice Paiva, cujo marido, o deputado Rubens Paiva, é levado de casa para “interrogatório” e desaparece
“Escrevi este filme com a Fernanda Torres na cabeça”, disse o realizador ao jornal Expresso, em dezembro. “Considero-a coautora do filme por inteiro. Ela teve a dádiva e a inteligência emocional necessárias para retratar aquela mulher extremamente contida, mas com uma imensa chama, uma imensa força interior, porque a Eunice é isso: um vulcão que está aceso mas não derrama. E diz-nos tanto com tão pouco.”
O segredo para interpretar Eunice Paiva (1929-2018), disse a atriz, era sentir que estava a fazer um documentário sobre uma família. “Nem senti que estava a representar. Isso foi muito estranho. Era quase como eu, as crianças e os outros atores não tivéssemos que representar”, disse ao mesmo jornal. Família de classe média do Rio de Janeiro, os Rubens Paiva compunham o retrato familiar perfeito e idealizada e ela a esposa mantida na ignorância sobre os trabalhos do marido em prol da resistência à ditadura. Condenada a matriarca depois do marido ter desaparecido e sido torturado e assassinado em 1971 às mãos da ditadura instaurada em 1964, é então que Eunice se transforma.
Formada em Direito, deu início a uma batalha jurídica que ficou para a história, tornando-se um símbolo nacional da luta contra a ditadura, não deixando esquecer aspetos brutais da sua lógica repressiva: a perseguição a opositores ou pseudo-opositores do regime, as detenções, as execuções e mortes “acidentais” sob tortura, o silêncio, a falta de informação. Antes de ser tocada pela doença de Alzheimer, Eunice não descansou enquanto não obteve do Estado brasileiro o reconhecimento da morte, o certificado de óbito, do marido.
Foi a interpretação sóbria, estoica, avessa a sentimentalismos e melodrama de Fernanda Torres que conquistou a aprovação norte-americana. “Tentei ser fiel a essa grande mulher chamada Eunice Paiva, que foi criada para ser a dona de casa perfeita dos anos 50. Ela era a grande mulher por trás do grande homem e então essa tragédia aconteceu na vida deles, e ela ficou viúva com cinco filhos, e depois voltou para a faculdade de direito. E, então, eu estava tentando ser fiel a ela, não fazendo da vida dela um melodrama”, disse em entrevista à CNN Internacional, em fevereiro. “É algo que eu e Walter [Salles] dissemos, que tínhamos que ser fiéis à dignidade dela”.
▲ Fernanda Torres é dirigida por Walter Salles, com quem fizera "Terra Estrangeira", em 1995. Foi o mesmo cineasta que dirigiu Fernanda Montenegro, mãe da atriz, em 1998, em "Central do Brasil"
O cineasta corrobora: “Eunice era alguém na vida real e no filme que arquitetou formas de resistência inéditas, e uma delas que é bastante única é que sempre que pediam à família, sabe, para chorar ou serem retratados como uma família triste, ela articulava e oferecia exatamente o oposto, de serem retratados como uma família sorridente. Ou seja, ela nunca permitiu ser retratada como parte de um melodrama. Ela se recusou a isso.”
“Eunice tem 5 filhos. Então, ela não pode sentar e chorar, ela não pode… Ela não tem permissão para isso”, tornou Fernanda Torres. “É como se fosse uma figura grega, uma mãe grega. Ela encara a tragédia e a única maneira para que ela siga em frente, crie aqueles filhos e salve a inocência deles é simplesmente dizer ‘sorriam e sigam em frente’. E eu nunca tinha trabalhado assim, porque normalmente, como atriz, você quer demonstrar emoções, e no caso da Eunice, você tem que contê-las. E o poder disso é que o público fica sentado na beirada da cadeira tipo, ‘Por favor, faça alguma coisa’. Então há algo que o público sente com você que você não está sentindo e mostrando a eles, eles estão sentindo por você. E acho que isso é muito próximo da tragédia grega. E sobre não contar às crianças: como você pode dizer a uma criança que seu pai foi torturado e morto pelo Estado? É algo insuportável. Por isso essa história é tão poderosa. É uma família normal.”
A ideia de família normal tornou o filme um fenómeno global, conquistando um público diversificado, segundo a atriz. “Todo tipo de pessoa foi aos cinemas. Então você tem direita, esquerda, centro, progressistas. E foi como se em torno desta família, a família Paiva, todos pudéssemos chegar a um consenso de que um regime ditatorial não é aceitável. E esse foi o milagre deste filme, ficamos todos surpresos, porque todo tipo de pessoa estava indo ao cinema e se emocionando com esta família e dizendo ‘isso não é bom’. Quer dizer, autoritarismo não é aceitável.”
Para o realizador, o que começou por ser um “reconstruir a memória coletiva, a memória do Brasil daquela época”, rapidamente ganhou outros contornos. “Pensávamos ser um reflexo do nosso passado e, aos poucos, compreendemos que era também um filme sobre o nosso presente. À medida que o clima da época começou a mudar, acho que foi isso que realmente uniu toda a equipe e os atores. Tivemos a impressão de que estávamos fazendo um filme para os dias atuais e não apenas um filme voltado para o passado da ditadura brasileira”, disse a Christiane Amanpour.
Demoraram sete anos a fazer o filme. “Levou sete anos porque fizemos três anos de pesquisa, para fazer justiça à família, fazer justiça à cultura, à autenticidade do que estávamos retratando, mas também levou sete anos porque durante quatro anos, o país virou para a extrema direita, e nunca teríamos tido a possibilidade de filmar durante esse período. Portanto, o filme é produto do retorno da democracia ao Brasil. É realmente interessante o presidente Lula, e é realmente seu retorno à Presidência e o retorno da democracia que permitiu que o filme existisse”, disse Walter.
▲ A campanha mediática do filme centrou-se no papel de Fernanda Torres e intensificou-se com vitória nos Globos de Ouro: a partir daí a atriz desdobrou-se em entrevistas e ações de promoção
Para Fernanda, o filme também ressoa no tempo presente. “Voltou a ser uma época estranha e por isso Marcelo Rubens Paiva escreveu o livro. Porque a mãe dele estava com Alzheimer e começando a esquecer, e ele achava que o país também estava começando a esquecer o que significa viver em uma ditadura. Portanto, é uma ponte entre aquela época e agora.”
O caminho até ao Óscar: tudo começou em Veneza
O Óscar é o culminar de uma jornada que começou em setembro último, quando Ainda Estou Aqui se estreou no festival de cinema Veneza. Do Lido saiu com o prémio de melhor argumento, mas a imprensa internacional desenhava voos maiores para Fernanda Torres.
A validação no circuito dos festivais de cinema é importante — afinal, estes contam a história do cinema de autor —, mas seria preciso mais para tornar a obra uma peça da história do cinema geral. Para chegar à premiação maior da indústria seria preciso que o filme saísse do reduto de objeto artístico e que eventualmente se tornasse uma causa do povo, uma paixão nacional — e global.
Em dezembro, uma reportagem do New York Times punha o filme brasileiro no mapa de dimensão planetária. A Surprise Blockbuster in Brazil Stokes Oscar Hopes, and a Reckoning, lia-se. Com a fotografia de Fernanda Torres, 59 anos, ao lado da mãe, Fernanda Montenegro, 95, um dos maiores jornais do mundo colocava o peso do filme sobre os ombros de uma atriz, com a premissa irresistível da história da filha que tenta chegar ao Óscar que a mãe disputou, mas perdeu, há mais de 20 anos.
▲ Ao lado do ator Selton Mello (à esquerda) e do realizador Walter Salles (à direita), na estreia de "Ainda Estou Aqui", no festival de cinema de Veneza, em Itália, em setembro de 2024
FABIO FRUSTACI/EPA
Se restavam dúvidas sobre qual deveria ser o foco da campanha mediática de Ainda Estou Aqui, a derradeira confirmação surgiu pouco depois, a 6 de janeiro, quando Fernanda Torres conquista um Globo de Ouro de Melhor Atriz, protagonizando um momento histórico: foi a primeira atriz brasileira a consegui-lo. “Meu Deus, eu não preparei nada, porque eu já estava feliz. Este é um ano incrível para atuações femininas. Tantas atrizes aqui que eu admiro muito. Claro que eu quero agradecer ao Walter Salles, meu parceiro, meu amigo, por essa história”, disse no palco. “E eu quero dedicar esse prémio à minha mãe, que esteve aqui há 25 anos. Esta é a prova de que a arte pode superar momentos difíceis, como a Eunice Paiva, que eu interpreto, mostrou. É um filme que nos ajuda a mostrar como sobreviver em tempos difíceis.” O presidente brasileiro reagia: “Fernanda Torres é orgulho do Brasil”.
O filme deixava, definitivamente, de ser um fenómeno local — onde já suplantara o êxito de Central do Brasil e entrara inclusivamente no top dos cinco filmes brasileiros mais vistos neste século— , para atingir uma escala planetária. E a vitória de Torres não só a tornava uma inevitável nomeada ao Óscar como dava o empurrãozinho final na campanha de Ainda Estou Aqui pelo galardão de Melhor Filme Internacional. Fernanda Torres adotou uma agenda preenchida de deveres promocionais para alavancar uma declarada campanha em Los Angeles para os Óscares. Sucederam-se entrevistas nos principais talk shows norte-americanos, imprensa especializada. Um styling imaculado ajudava a compor a pintura de atriz pronta para o seu “close-up”. Online, o Brasil mostrava a sua força, com uma “torcida” só comparável à pela Copa do Mundo, com direito a cortejos de Carnaval em sua homenagem. Em fevereiro, estrelou a capa da Hollywood Reporter. Fernanda Torres já ganhou, titulava a manchete.
Pelo meio, só uma sombra do passado em desfavor: uma imagem da atriz em blackface, com duas décadas, ressurgiu online. Mas Fernanda Torres soube esquivar-se de polémicas com um pedido de desculpas direto e aquilo que podia ter esventrado qualquer possibilidade de vitória — e não é um exagero dizê-lo, basta ver o exemplo de Karla Sofía Gascón — não passou de um susto.
Em Portugal, desde que estreou a 16 de janeiro, o filme tem conquistado do entusiasmo possível num país sem a dimensão do mutirão brasileiro. Tem sido consecutivamente o mais visto nas salas de cinema do país, num êxito nas bilheteiras que não será alheio ao facto de a obra versar sobre o período da ditadura.
Por cá, há muitos anos que Torres goza de uma fama discreta. Tornou-se conhecida do público sobretudo com o Os Normais, série televisiva de culto em que mostrou talento particular para a comédia, e também pisou os palcos nacionais, mas a capital portuguesa continuou a ser um espaço seguro para uma atriz nomeada ao Óscar, e consta mesmo que é em Lisboa que vive parte do ano. Na última semana, uma fotografia partilhada no Tik Tok mostra, em plena estação de comboio no Cais do Sodré, uma Fernanda Torres sorridente, de óculos escuros e ténis nos pés, ao lado de um fã.
Uma atriz de glórias que não esquece os seus “horrores”
Vista como a revelação do ano para Hollywood, descoberta por celebridades de Los Angeles a Nova Iorque — viral o momento do encontro com Ariana Grande (“I love you”, disse-lhe a cantora), há muito que Fernanda Torres é uma das atrizes mais prestigiadas do Brasil. Nascida em 1965 com o Rio de Janeiro como cenário, é filha de duas das maiores figuras da representação brasileira, Fernanda Montenegro e Fernando Torres. “Os meus pais ensaiavam as peças na mesa de jantar na minha casa, aprendi por osmose”, dizia ao podcast do Expresso A Beleza das Pequenas Coisas, em 2018.
Começou cedo nas lides artísticas, ao entrar para o Tablado, escola de formação de atores, e subiu ao palco pela primeira vez em 1981, na peça Um Tango Argentino. Em 1983 estreou-se no cinema, em Inocência, de Walter Lima Junior e, aos 21 anos, chama a atenção ao conquistar o prémio de melhor atriz em Cannes pelo filme Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor, em 1986. “Logo depois de ganhar Cannes estava vivendo uma espécie de prepotência absoluta. Achei que era Midas”, confessaria no mesmo podcast. “Virei uma pessoa insuportável”, “era o auge da minha prepotência e imaturidade”.
De forma consistente foi colecionando projetos de relevo em todas as frentes. No cinema, trabalhou com realizadores como Walter Salles, com quem realizou Terra Estrangeira, em 1994, e O Primeiro Dia, em 1996, ou Andrucha Waddington, com quem é casada e que realizou Casa de Areia, de 2005. No teatro, ousou sempre. Aliás, em 1995 passou por Portugal no recém-inaugurado Centro Cultural de Belém para estar no palco ao lado de Fernanda Montenegro, a interpretar B.E.S.T.A, trilogia do encenador Gerald Thomas, espetáculo inesquecível em que tinha de se masturbar em frente à mãe. Quase década depois, em 2004, voltou a Portugal como baiana libertina n’ A Casa dos Budas Ditosos, peça baseada no romance erótico do brasileiro João Ubaldo Ribeiro, que os hipermercados Continente e Jumbo/Pão de Açúcar decidiram não vender (ou, para alguns, censurar) em Portugal, mas que chegou aos palcos do Teatro Nacional D. Maria.
Com um longo e prestigiado percurso no teatro, televisão e cinema, deu um salto de fé na literatura em 2013, ao estrear-se com um romance, Fim. Não foi um salto completamente no vazio, já que começara a escrever anos antes, primeiro um ensaio sobre o medo de entrar em cena, depois crónicas em revistas várias e na Folha de São Paulo. Quando se lançou na literatura, a crítica rendeu-se, o que a motivou a escrever o segundo livro, A Glória e o seu Cortejo de Horrores (2017, Companhia das Letras), sobre as desventuras de um ator de meia idade caído em desgraça, uma reflexão sobre a ilusão da glória na vida de um ator.
▲ Em janeiro fez história ao ser a primeira atriz brasileira a vencer o Globo de Ouro. Sônia Braga havia sido indicada três vezes e Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres, uma.
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Assim olha Torres para o ofício. “É uma profissão que a toda a hora morre. A toda a hora se parte do zero”, diz no mesmo podcast. “A ilusão da glória entendo-a como a ilusão de algo permanente. É uma profissão efémera por natureza”.
O mundo parece agora querer empurrar Fernanda Torres para a glória, mas esta sabe que o abismo está sempre à espreita. “Um não existe sem o outro”, considera. “Não terá uma grande glória se não tiver um grande fracasso”, acredita. “Sou muito apegada aos meus fracassos”, “foram muitos e grandes”.
Por isso, o Óscar de Melhor Atriz que por pouco lhe escapou não era um objetivo. Imagina-se a ganhar um Óscar, gostava de ganhar um Óscar?, perguntava-lhe o jornalista Bernardo Mendonça no podcast do Expresso, em 2018. “Não penso, não é uma preocupação”, respondeu. “Deve ser ótimo para um filme chegar ao óscar, quer dizer que você fez um bom filme. Mas penso menos no Óscar do que na vontade de ter feito o Relatos Selvagens ou o Força maior. Invejo menos o prémio e a cerimónia do que a experiência de trabalho. Invejo mais isso do que ir ao Óscar, chegar ao Óscar. É um pouco a Glória e o seu Cortejo de Horrores”. Ainda assim, e contas feitas, Fernanda Torres é a grande artífice deste Óscar de Melhor Filme Internacional. E foi o próprio realizador que o disse, ainda antes de Hollywood ter distinguido o filme.