Estamos em 1971 e o calor estival do Rio de Janeiro convida a dias intermináveis de praia e a conversas ainda mais longas noite dentro. A música, a comida, o sol e o perfume carioca mascaram o bafio de uma ditadura militar cada vez mais sufocante. Num lar dominado por mulheres, esplendorosamente situado em frente à praia do Leblon, o único rapaz entre quatro irmãs não tem forma de saber que muito em breve vai ser o único homem da casa, mas não a sua figura tutelar.
Nesse ano, a vida desta família foi virada de pernas para o ar, quando Rubens Paiva foi levado durante a noite pelas forças armadas brasileiras para nunca mais ser visto. Conotado com a oposição ao regime, tornou-se numa de mais de 400 pessoas desaparecidas na sequência da repressão à dissidência. Mal sabia o filho, Marcelo Rubens Paiva, que décadas depois iria escrever a saga da sua família em Ainda Estou Aqui — e que este livro de memórias ia redundar num filme-fenómeno que não só pode fazer história nos Óscares como já começou a fazer o Brasil pensar de forma diferente.
Obra datada de 2015, o livro tornou-se parte do zeitgeist dez anos depois devido à adaptação ao cinema de Walter Salles Jr. — amigo da família — e da interpretação de Fernanda Torres que tem corrido mundo, com prémios recebidos e outros ainda por receber. Mas se a atriz tem tomado a indústria de assalto e convertido espectadores, é porque em Eunice Paiva encontrou figura heroica perfeita para demonstrar (outra vez) o seu talento.
“O que foi importante para mim foi o meu ponto de vista em relação ao que aconteceu, em relação à descoberta de que a minha mãe era uma grande heroína, e não que o meu pai era o grande herói”, conta Marcelo Rubens Paiva numa chamada telefónica com o Observador.
Apesar de acidentada — o autor estava a enfrentar um apagão em casa devido ao temporal em São Paulo e uma remarcação afigurou-se impossível dada a sua agenda preenchida —, nesta entrevista o autor conta porque é que ao fim de uma carreira de 30 anos — iniciada com Ano Novo Velho, onde aborda o acidente que o deixou tetraplégico — é que decidiu abordar este tema e porque é que se mantém vivo mesmo depois da sua mãe já ter morrido. “A gente é política, não é vítima. A gente quer mudar e melhorar o Brasil, melhorar a nossa democracia. A gente não quer apenas reclamar da nossa tragédia, queremos transformá-la numa missão”, conta.
Durante a conversa Marcelo Rubens Paiva aborda também o facto da repercussão do filme ter levado o Supremo Tribunal Federal a reabrir o caso dos torturadores e assassinos do seu pai — que nunca foram efetivamente condenados — e dos paralelos com o tempo presente, em que Jair Bolsonaro acaba de ser acusado de tentativa de golpe de Estado.
▲ A capa da edição portuguesa de "Ainda Estou Aqui", livro de Marcelo Rubens Paiva (Dom Quixote)
O seu pai, Rubens Paiva, apesar de ser um opositor ao golpe militar de 1964, não fazia parte da resistência mais encarniçada e a lutar na clandestinidade. Porque é que o visaram especificamente?
Ele estava, de uma certa maneira, ajudando as pessoas que estavam querendo fugir do Brasil, as pessoas que precisavam mandar correspondência para familiares. Ele distribuía cartas de exilados aqui no Brasil, principalmente porque se encontrava com correspondentes internacionais da imprensa no Rio de Janeiro para contar o que estava acontecendo no país.
Uma das questões mais pungentes, tanto do livro quanto do filme, é que mesmo descrevendo a vida da classe média desse período, a violência ao serviço do Estado também lhe bateu à porta. Como foi viver esses tempos?
A violência do Estado não tinha nenhum preconceito de classe. O pai do Walter Salles era um “branquelo” e foi para o exílio porque tinha sido ministro do governo de João Goulart [o Presidente deposto pelo golpe militar de 1964]. O próprio João Goulart foi um fazendeiro e também teve de fugir do Brasil. O golpe militar não foi de uma classe alta contra uma classe baixa. Foi um golpe de não democratas contra democratas, e afetou também os estudantes universitários, que eram de classe alta. O meu pai ajudou particularmente uma filha de um amigo a fugir do Brasil, cujo pai era muito rico.
O seu livro — e o filme também reflete isso — demonstra como era possível viver com uma certa alegria ou leveza, desafiando o clima opressivo da ditadura militar. Isso também era uma forma de resistência?
Isso era natural. As famílias não pararam de viver, os amigos não pararam de se encontrar. Especialmente numa cidade como o Rio de Janeiro, que tem a praia, que é muito alegre, tem Carnaval, tem uma música e uma cultura muito ricas. O brasileiro não deixou de ser brasileiro. Não era uma forma de resistência, era continuar vivendo — apesar da ditadura.
Pergunto-lhe também porque no livro recupera um dos lemas da sua mãe, que “a família Rubens Paiva não é vítima da ditadura, o país é que é”. Ou seja, havia uma atitude de cerrar fileiras, não mostrar fraqueza.
Isso foi a nossa luta durante muitas décadas. O nosso objetivo foi voltar à democracia. Foi uma luta pessoal para encontrar os assassinos — foi fazer algum tipo de vingança, mas para voltar à democracia, para responsabilizar o Estado pelos crimes ocorridos, para responsabilizar os torturadores, os mandantes, os generais, para indemnizar as famílias que foram vítimas da ditadura e para ter liberdade de expressão. Acho que isso são os pilares de uma democracia. A minha família sempre lutou por isso, principalmente para ter justiça social.
Usou agora a palavra “vingança”, mas já o tinha lido noutras entrevistas suas a afirmar que esse é um vocábulo que não faz parte do léxico da vossa família. Ou seja, para clarificar, quando fala em “vingança”, não é num sentido “olho por olho, dente por dente”?
Minha mãe era uma pessoa muito religiosa. Ela acreditava no cristianismo, e sempre tinha uma atitude muito cristã em relação às dificuldades que a gente enfrentou. E uma delas era essa: não é olho por olho, dente por dente, é a gente lutar com a tática da não violência, convencer as pessoas das nossas ideias, as de trazer um país desenvolvido e justo.
Um dos aspetos mais duros desta obra é como retrata o peso de viver em suspenso, de não saber verdadeiramente o que tinha acontecido a Rubens Paiva, um dos “desaparecidos da ditadura”. Isso só se soube verdadeiramente por alturas do lançamento do livro. Qual é o impacto mental de viver assim?
É uma morte que não acaba, que constantemente surge em momentos, relatos, novidades, testemunhos —tudo isso desde 1971. Não conseguir fazer um luto completo é uma morte que não se acaba. O Brasil não conseguiu resolver os seus problemas do passado, não conseguiu fazer justiça no passado, prender os torturadores. O Exército nunca deu uma explicação quanto ao que realmente aconteceu, esconde a verdade, então a gente continua numa morte que não tem fim. O meu pai não é um morto, é um caso, é um caso jurídico, não é uma pessoa comum, que morre.
▲ Marcelo Rubens Paiva: "A gente quer mudar e melhorar o Brasil, melhorar a nossa democracia. A gente não quer apenas reclamar da nossa tragédia, queremos transformá-la numa missão"
Renato Parada
E esse é o problema, não é? É mais difícil fazer luto por um caso do que por um morto?
É um problema, a minha família sofre muito quando isso tudo vem à tona. A gente tenta trocar a nossa vida, mas vira e mexe a gente tem de retomar esse assunto.
Inclusive, já referiu por diversas situações que uma das razões para escrever o livro é que, não obstante a dor que isto provoca a si e à sua família, este tema é uma causa pública. É uma questão de não deixar o assunto morrer?
Exato. A gente é política, não é vítima. A gente quer mudar e melhorar o Brasil, melhorar a nossa democracia. A gente não quer apenas reclamar da nossa tragédia, queremos transformá-la numa missão.
Uma das razões que levou Walter Salles Jr. a escolher Ainda Estou Aqui como projeto foi o facto de considerar “a história pessoal da família Paiva” a “história coletiva de um país”. Esse foi um dos seus objetivos ao escrever este livro, traçar esse paralelo?
Essa sempre foi a luta da minha família. O que lhe aconteceu, aconteceu com o país. Foi uma violência contra o país, contra uma ideia de democracia, contra os direitos humanos, contra os direitos individuais, contra a tolerância política. Foi uma violência contra a cidadania — mas, especialmente, foi uma violência contra as mulheres.
Apesar de retratar o Brasil da ditadura militar e o desaparecimento do seu pai, Ainda Estou Aqui é, na verdade, uma espécie de homenagem à sua mãe. Destaca como foi à luta, “não ficou no balcão da solidão bebendo lágrimas de sal”. Sentiu necessidade de lhe fazer jus?
Muito, porque foi uma pessoa que sofreu muito na vida, apesar de ter tido uma carreira brilhante como advogada, de ter educado muito bem os seus filhos, de ter conseguido sustentá-los num período em que sofríamos muito isolamento social, muito preconceito, porque as pessoas tinham medo de se envolver connosco. Sempre de cabeça em pé, ela enfrentou tudo com muita dignidade e conseguiu o seu projeto de vida, que foi o reconhecimento do desaparecimento e a responsabilização do Estado. E conseguiu, inclusive, fazer um trabalho importante em relação aos direitos indígenas, é hoje reconhecida como uma pioneira na área. Os próprios indígenas dizem isso. Então é uma pessoa que teve uma vida muito digna e que, infelizmente, no final teve de sofrer o mal do Alzheimer.
Esse é um dos temas também que vai sendo abordado ao longo do livro. Utiliza uma expressão muito interessante: que “parente com Alzheimer” é “falar dele no passado”. Não se sabe bem qual é a pessoa que está ali?
Quando nos apercebemos, estamos falando como se a pessoa tivesse morrido. Numa dessas conversas, que a minha mãe estava prestando atenção, ela falou “ainda estou aqui”. É por isso que é esse o nome do livro, foi algo que ela disse. Minha mãe tinha eventualmente lapsos de lucidez e nessa ocasião ela ouviu e entendeu o que a gente estava falando. E é muito angustiante você ter uma pessoa com Alzheimer ao lado, porque parece que essa pessoa perdeu algo — parece que está o corpo, mas não está a sua alma.
Algo importante no livro é que o retrato que faz da sua mãe não é necessariamente o mais “cor de rosa”, realça facetas talvez menos abonatórias, como quando a descreve como alguém que o amava profundamente mas que não demonstrava afeto. Numa entrevista que deu à Globo quando lançou Ainda Estou Aqui, falava-se de um “delicado acerto de contas“. Como se faz essa gestão do que se pode ou não escrever?
Não posso invadir a sua privacidade, tenho de ter muito respeito em relação a quem foi essa mulher. Quando comecei a escrever o livro, ela estava viva ainda. O que foi importante para mim foi o meu ponto de vista em relação ao que aconteceu, em relação à descoberta de que a minha mãe era uma grande heroína, e não que o meu pai era o grande herói. A minha mãe, que era uma viúva com cinco filhos, que não demonstrava afeto, era uma pessoa sempre presente e que fazia tudo para nos deixar uma vida boa. Inclusive sofria sozinha para que não tivéssemos nenhum tipo de rancor na vida. Ela foi muito generosa com a gente, de sofrer assim para que pudéssemos ter uma vida sem nenhum tipo de trauma. Isso é um gesto corajoso.
[o trailer de “Ainda Estou Aqui”:]
Outro dos temas fundamentais do livro gira em torno desta ideia de registo para evitar o esquecimento. Como referiu, o livro começa a ser escrito numa fase em que a sua mãe já sofria de Alzheimer, mas também em que o Brasil estava a esquecer algumas das suas lições históricas. Pode explicar o que aconteceu?
A ideia do livro foi exatamente mostrar essa contradição, de uma família perder alguém que era praticamente um arquivo vivo de toda a história da família. A minha mãe colecionava fotos, documentos, tinha informações sobre as coisas que aconteceram lá. Era ela que recebia os jornalistas, que falava com eles, com a imprensa internacional, com os políticos. E, de repente, foi se apagando, ao mesmo tempo que o Brasil estava tentando recuperar a sua memória, com a Comissão Nacional da Verdade, que foi instaurada pela Dilma Rousseff — uma pessoa que foi uma guerrilheira, que esteve presa e foi torturada durante muitos anos, que tinha a consciência de que o Brasil não conseguiria desenvolver a sua democracia, se não encarasse o seu problema principal, que era a falta da verdade do que aconteceu. Esse paradoxo da minha mãe perder a memória e o Brasil tentar recuperá-la é o que me fez escrever o livro.
Refere os problemas da amnistia enquanto conceito — permite a reposição da normalidade, mas apaga o passado também.
Exato, e no Brasil foi um amnistia de dois lados, quando, na verdade, a amnistia não pode ser feita a crimes contra a humanidade. A tortura, por exemplo, não é amnistiável. A ocultação de cadáveres, o desaparecimento de pessoas, isso aí não é amnistiável. É um crime para o resto dos tempos, para todos os tempos.
Passando para o filme, tem experiência de guionista e ajudou a fazer a adaptação cinematográfica. Como foi participar nesse processo?
Foi isso mesmo, como roteirista, tentando olhar teoricamente para o filme, sem me envolver emocionalmente, tentando olhar como um cineasta que quisesse retratar aquela história de tal forma que as pessoas acompanhassem, se interessassem e sentissem a mensagem que a gente quer passar. Foi curioso, como é que eu consegui afastar-me… mas aliás, quando eu escrevi o livro também consegui distanciar-me da parte afetiva e olhar com o objetivo de um escritor
Há um trabalho de gestão, no fundo, ao escavar o passado sem reabrir feridas?
Já escrevo há 40 anos, existe uma espécie de distanciamento entre o Marcelo escritor e o facto narrado. Acabei virando um profissional da literatura, do roteiro, não é? Tem muita técnica para você escrever tudo isso, não é apenas a história sendo contada. Tem um jeito de contar, como começar, o que abordar, quais personagens destacar. Então eu me distanciei bastante do Marcelo filho — do filho do meu pai e do filho da minha mãe. Eu virei escritor.
No programa Roda Vida, destacou inclusive que teve uma certa preocupação em que o filme não fosse didático ou “wikipediano”, que contasse uma história ao invés de ser só uma coleção de factos sobre o período.
Isso é algo que faço com a minha literatura, sempre fiz, inclusive no cinema e no teatro. Tratar o leitor ou espetador, respeitando a sua inteligência, o seu tempo, a sua capacidade de compreensão da história. Se não entendeu, paciência!
É difícil encarar esta história sem recordar os últimos anos do Brasil, em particular porque o filme estreou-se pouco tempo antes de ser revelado um relatório da Polícia Federal brasileira que acusava o ex-presidente Jair Bolsonaro de estar envolvido na tentativa de golpe de estado em 2023. Como analisa o atual momento?
Isso foi uma coincidência feliz: a direita descobrir o que foi aquele golpe militar que estava sendo armado pelo grupo do Bolsonaro, de generais que estavam há dois, três anos organizando todas as frentes golpistas e, ao mesmo tempo, sai um filme que defende a democracia.
▲ Selton Mello como Rubens Paiva e Fernanda Torres como Eunice Paiva, na adaptação ao cinema de Walter Salles Jr. do livro "Ainda Estou Aqui"
Apresenta no livro o exemplo um quadro exposto num museu: ele permanece o mesmo mas as leituras mudam porque nós mudamos. Ora, este livro faz agora 10 anos. Tendo em conta que há temas do livro que ainda não ficaram fechados — como o julgamento aos responsáveis pela morte do seu pai — como o encara passado uma década?
Nessa semana mesmo, coincidentemente, o Supremo Tribunal Federal reabriu o caso, que esteve engavetado durante muitos anos por conta da Lei da Amnistia. Os militares foram julgados e, ao mesmo tempo, condenados, como está relatado no final do livro, mas eles alegaram que estavam sob a proteção da Lei da Amnistia e o caso subiu para o Supremo. E exatamente nessa semana, o Supremo, por conta da repercussão do filme e do livro — que voltou a ser best-seller, 10 anos depois, inclusive o Feliz Ano Velho também, os meus dois livros autobiográficos! — a repercussão fez com que os ministros do Supremo reabrissem o caso.
A discussão à volta de Ainda Estou Aqui tem sido sobretudo a propósito das hipóteses de ganhar prémios, mas talvez o maior deles é ter esta atenção tendo em conta o tema que aborda. A sua irmã Vera classificou o filme como um “psicodrama público”. Quão importante tem sido este reconhecimento no Brasil?
O filme representa para o Brasil uma oposição à ideia de que a ditadura foi algo bom para o país, uma demonstração bem clara do que aconteceu com uma família, do que a intolerância política, do que o radicalismo político trouxe naquele período, num regime completamente desrespeitoso dos direitos humanos, em que ninguém tinha direitos individuais garantidos, que tinha censura, que podia ser preso sem nenhum tipo de mandato judicial. E a ideia foi exatamente essa quando escrevi o livro, só que escrevi-o em 2015. Foi durante as manifestações contra a Dilma, mas também quando já havia um movimento intenso, a partir de 2013-14, de ascensão e organização da extrema-direita brasileira para tirar a esquerda do poder, exatamente por conta da Comissão da Verdade, que estava revelando os crimes da ditadura. E conseguiram, através de uma farsa, que foi esse impeachment da Dilma, que juntou congresso e imprensa, uma mobilização de rua muito insana, de gente pedindo intervenção militar, glorificando os torturadores, os generais ditadores, como se esse fosse um grande período.
E para si, o que significa este reconhecimento?
Os meus amigos dizem que é o meu melhor livro — tenho perto de 15. A minha trajetória literária tem 43 anos, começou em 1981 e é muito variada. Tem peças de teatro, séries de TV, roteiros de cinema, contos, crónicas, romances, mas esse livro, acho que foi uma fase de muito amadurecimento como homem, porque eu virei pai, e como escritor. Eu acabei de escrever um novo, também autobiográfico, chamado O Novo Agora, que é a continuação desse livro [Ainda Estou Aqui], é exatamente o período em que fui pai e enfrentei todos os anos de bolsonarismo, pandemia e uma separação que me deixou cuidando de duas crianças sozinho, mesmo numa cadeira de rodas, e como lidei com isso.