Uma portuense, Beatriz Godinho, e uma lisboeta, Madalena Almeida, cruzaram-se para dar voz a um projeto onde quase tudo o resto (os cenários, os rostos ou os gestos) nasce da imaginação de cada ouvinte. O Zé Faz 25 — o podcast de ficção do Observador sobre o desaparecimento de José Valbom, um jovem de 25 anos visto pela última vez na própria festa de aniversário — foi uma surpresa também para as duas atrizes que confiaram plenamente na visão de Manuel Pureza, criador e realizador do projeto, que enviou alguns exemplos norte-americanos ao elenco como TPC (Trabalho para Casa).
“Fiquei muito curiosa com as sugestões que ele enviou, uma delas era o American Hostage e andei no carro a ouvir aquilo aos berros. De facto, nunca tinha ouvido ficção assim e fiquei maravilhada”, garante Madalena Almeida, que na história é Guigas, irmã de Zé.
“Gosto desta experiência de poder ouvir no fones, fechar os olhos e fazer um filme na minha cabeça.”
Madalena Almeida conheceu Manuel Pureza no teatro. “Foi num espetáculo do Marco Medeiros chamado Emília e foi muito curioso porque o Manuel quis passar pela experiência de ator para perceber a nossa realidade. Portanto, na altura éramos colegas. Depois fizemos juntos Até Que a Vida Nos Separe e Pôr do Sol. Os trabalhos dele são sempre experiências muito familiares.”
O mesmo sentiu Beatriz Godinho, que se deixou levar pelas indicações do realizador e foi simplesmente buscar mecanismos à experiência no teatro. “O trabalho de preparação assemelhou-se à preparação de uma peça de teatro porque como as pessoas não conseguem ver as nossas expressões, pelo menos de uma forma nítida, tendemos a usar mais esta capacidade estética da voz”, explica ao Observador.
Na história interpreta Joana Magalhães, uma jornalista muito ambiciosa. “Nunca na vida me passou pela cabeça que eu ia ter de fazer uma cena de luta num registo de áudio e então foi hilariante encontrar formas para que os sons da luta ficassem realistas sem serem exagerados. De repente, nós estávamos a fazer toda uma série de piruetas, a morder o meu braço, a dar saltos porque nós só estamos a captar o som, mas temos de encontrar formas de passar o que está a acontecer.”
[o trailer de “O Zé Faz 25”:]
Beatriz Godinho nasceu no Porto a 14 de fevereiro de 1992 e foi lá que viveu até aos 18 anos. Filha única, passava muito tempo com os avós maternos. “O meu avô Eduardo tinha uma paciência gigante para mim e para me ensinar coisas antes mesmo de eu ir para a escola tradicional. Ensinou-me a ler, ensinou-me coisas de ciência. Nós passávamos imenso tempo no jardim, a plantar coisas, a passear com os cães.”
Fora de casa mostrava-se ávida, queria sempre experimentar algo novo, juntar mais um desporto — difícil era fazê-la abrandar. Entre as inúmeras atividades experimentou ballet por volta dos cinco anos. Inicialmente não gostou, achou aborrecido e parado. Algum tempo depois voltou por influência de uma amiga e a perspetiva mudou. Aos 14 ou 15 anos começou a fazer formação e frequentou a Academia Contemporânea do Espetáculo no Porto, onde completou a escolaridade profissional equivalente ao 12.º ano.
Também o percurso de Madalena Almeida se desviou do ensino dito comum na mesma fase. Porém, ela nasceu mais a sul, ou “como toda a gente de Lisboa, na Maternidade Alfredo da Costa” a 28 de junho de 1997. Cresceu nos arredores, em São Domingos de Rana, concelho de Cascais. Os natais eram passados em casa da avó e as férias do verão na companhia dos inúmeros primos. Sempre foi próxima do irmão, Rui, dois anos mais velho, apesar de em miúdos às vezes quererem arrancar os cabelos um ao outro. “Eu queria muito brincar com ele, mas sempre fui trapalhona, destruí-lha tudo. Ele não me achava graça nenhuma aí.”
As brincadeiras variavam entre fazer teatros ou coreografias. “A minha mãe diz que, quando recebíamos visitas, elas chegavam e perguntavam com quem é que eu estava a brincar. Ouviam-me no quarto, mas era só eu a fazer várias vozes.”
Quando tinha três anos, o pai morreu e, o facto de não ter recordações concretas de como era a vida antes disso — as memórias são sugeridas ou reproduzidas através das histórias que lhe contam —, o luto não se torna mais fácil por isso.
“A minha mãe é espetacular, sempre tentou estar presente, foi uma mãe super atenta e participativa nas nossas vidas, foi muito carinhosa. Porém, é verdade que a mãe pode chegar a muitos sítios, mas eu acho que há certas perdas que não são substituídas, não é possível colocar lá nada.”
A ausência, garante, sente-a em pequenas coisas do dia a dia. “Às vezes penso: ‘Precisava tanto agora de ligar ao meu pai para lhe pedir ajuda numa data de coisas’. Imaginar uma vida com ele que nunca se concretizará é difícil.”
Só muito recentemente, reconhece, é que tomou realmente consciência da perda. “Só a encarei quando comecei a fazer terapia. Antes sentia que quase não podia queixar-me porque, se olhasse para o lado, veria sempre casos piores.”
Na família e no círculo de amigos chamam-lhe carinhosamente Nena e conta que cresceu “numa piscina de amor”. Quando tinha cerca de cinco anos foi com uma vizinha que trabalhava como guionista na série Ana e os Sete assistir às gravações. “Lembro-me de uma cena em que a Alexandra Lencastre descia a escadaria e vinham os miúdos todos atrás dela. Na altura pensei: ‘Isto é incrível, é isto que quero para a minha vida’.”
Estudou na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Na família diziam-lhe que talvez devesse seguir um curso mais estável e ela própria não estava convencida a 100% quando fez as provas. “Os meus amigos iam todos para o Liceu de São João, no 10.º ano, e eu queria ir com eles, não queria estar sozinha numa escola nova.”
Só que entretanto fez audições na Escola de Cascais: uma coreografia, uma canção e duas cenas, entre elas um monólogo de Hamlet e uma parte de Romeu e Julieta. Adorou e a decisão passou a ser fácil logo ali.
Estudou lá os três anos equivalentes ao 10.º, 11.º e 12.º anos. Seguiu para o Conservatório e começou a trabalhar quase em simultâneo num espetáculo do Teatro Experimental de Cascais. No primeiro semestre do curso participou numa novela, Santa Bárbara, e logo a seguir no filme Ramiro.
Nos Salesianos do Porto, Beatriz Godinho ficou desiludida com a falta de apoio de alguns professores relativamente ao sonho da dança. “Sempre fui muito boa aluna, adorava Ciência, adorava Física e os professores disseram-me: ‘Tira um curso mais seguro e depois logo se vê’. Na minha cabeça, que sempre foi bastante lógica, eu pensava o oposto: Preciso do meu corpo para as artes performativas, principalmente para avançar. Portanto, na realidade, faz mais sentido fazer ao contrário. Primeiro tento, para ver o que é que isto dá, e depois, se não der, volto para ir estudar Medicina ou para ir estudar Economia, como toda a gente me dizia que devia fazer.”
Por essa altura sonhava estudar em Nova Iorque, mas os pais não acharam piada à mudança de continente. “Arranjamos então um meio termo e Londres foi uma boa opção, principalmente por causa do ballet clássico.”
Já em Inglaterra teve uma lesão no joelho esquerdo que a impediu de dançar tantas horas ou tão intensamente como queria durante seis meses. Ficar “a olhar para o teto estava fora de questão”, portanto “a transição para um curso de representação pareceu-me a melhor maneira de reagir a esta lesão”.
Viver em Londres foi uma experiência muito intensa, no bom e no mau sentidos. Quando lá chegou, ficou instalada num quarto da casa de uma família turca, com hábitos muito diferentes. Depois mudou-se para um apartamento onde estava uma colega sueca, uma alemã e uma australiana. “Eu às vezes estava literalmente agarrada à almofada a chorar baba e ranho com saudades de casa. E elas, como não tinham um coraçãozinho latino e mole como o nosso, não entendiam. A minha amiga sueca dizia muitas vezes: ‘O que é que estás a fazer? Mas não gostas de estar aqui, não gostas das aulas?’ E não era nada disso, mas eu tinha saudades da minha família, da minha mãe, do meu pai, do meu namorado. Só pensava: Oh, meu Deus, devo estar completamente louca porque para elas parece tudo normal.”
Entretanto conheceu uma colega mexicana com o mesmo nível de saudades de casa e as suas preocupações dissiparam-se, embora por pouco tempo.
Por essa altura, os trabalhos iam mantendo Madalena Almeida ocupada. Fez parte das novelas A Herdeira, Alma e Coração e Golpe de Sorte, mas aí encontrou muitas vezes personagens bidimensionais. “Ou eram boas ou más, e isso limita muito o trabalho do ator.”
Também integrou os elencos das séries 3 Mulheres, o incrível sucesso Pôr do Sol e Matilha. No cinema fez Mal Viver e Estéril e, para completar tudo, surgiu a companhia de teatro Urso Pardo, que se tornou oficial em 2022 com a peça Como Sobreviver a Um Acontecimento. Recentemente estiveram em cena no São Luiz, em Lisboa, com Killer Joe.
Um ano mais tarde criou outra companhia, Casa, com o namorado, Bruno Bernardo, Marta Dias e Ana Rita, apesar de reconhecer que “criar é uma coisa muito burocrática”
Ainda hoje, Madalena Almeida treme nos primeiros dias de filmagens ou antes da estreia de uma peça. “É sempre o sentimento de ‘porque raio me meti nisto?’, parece sempre que vamos rebentar ou ter um ataque cardíaco, mas é uma adrenalina viciante.”
▲ Madalena Almeida em "Pôr do Sol" e "Ramiro"
Beatriz Godinho decidiu instalar-se em Lisboa, não regressando ao Porto depois da experiência em Londres, onde acabou por ficar apenas um ano. “Acho que destruí uma série de romantizações que tinha sobre aquela cidade. Não sei como está agora, mas na altura era um mercado de trabalho muito fechado. Tinha professores a dizerem-me para ir para os EUA porque, com a minha aparência, seria mais fácil ter acesso a papéis devido à influência da América Latina.”
Em Lisboa entrou na Escola Superior de Teatro e Cinema e, apesar da adaptação à cidade ter sido bem mais fácil do que a mudança para Londres, também houve alguma estranheza inicial. “No Porto sentia que era mais fácil combinar um café ou qualquer coisa espontaneamente. Em Lisboa senti que tive de virar secretária de mim mesma, porque tudo tinha de ser combinado com muita antecedência.”
Fez anúncios publicitários, curtas-metragens e teve uma participação na série Madre Paula. Cuba Libre, Matilha e O Clube fazem igualmente parte do currículo. Já este ano fez uma longa-metragem que a marcou. Em Noites Claras interpreta uma mulher a passar por uma depressão pós-parto. “Há um nível de atenção, concentração e disponibilidade criativa que uma pessoa tem de ter a cada momento que contracena com um bebé que inicialmente foi assustador, admito, e muito exaustivo. Chegava ao final do dia de rastos.”
Ainda assim, a maternidade é um plano que tem a curto prazo e, enquanto ele não acontece, Beatriz Godinho vai-se deixando levar pela espontaneidade. “Tenho estado a aprender a desacelerar mas continuo a ter aquela sede de ir, descobrir, aprender mais. “Ainda no outro dia pensei: ‘Ok, não conheço estes sítios no sul de Espanha’. Portanto, meti-me no carro e fui.”
Permite-se fazer isso em períodos de acalmia profissional, como é o caso agora, mas também o consegue graças a uma gestão financeira que aprendeu a fazer desde cedo.
“A minha mãe foi contabilista e sempre me ensinou a ter uma relação muito pragmática e saudável com dinheiro. Portanto, eu sou daquelas pessoas chatas que têm sempre um fundo de emergência, pelo menos três meses para a frente, para poder contar com estas eventualidades que são muito comuns na minha área.”
Ainda assim, nunca lhe faltam tarefas para ocupar o tempo. “As coisas que me relaxam são, na realidade, muito intensas. Por exemplo, eu pratico halterofilismo e uma pessoa quando está a forçar a sua força máxima, quando chega ao limite dos limites, tem que estar completamente concentrada naquilo”, explica.
Já o passatempo preferido de Madalena Almeida é bem diferente: “estar à mesa a conviver com amigos”. Depois da intensidade da peça Killer Joe, onde interpreta uma jovem rodeada de abusos e traumas, é provavelmente o que está a fazer neste preciso momento para desanuviar.