Com Sporting e Benfica a disputar o campeonato de futebol até à última, reina a incerteza sobre que cor predominará na rotunda do Marquês de Pombal, palco habitual das celebrações das conquistas dos clubes lisboetas. Mas a duas jornadas do fim, uma coisa é certa: não faltará o azul… das fardas da Polícia de Segurança Pública.
As primeiras marcas de um jogo de “risco elevado” (o nível mais elevado de alerta policial) foram notadas a três dias do dérbi, com tinta vermelha atirada à estátua do leão perto do Estádio José Alvalade, casa do Sporting.
Ao que o Observador apurou, a PSP recebeu a denúncia a poucos minutos da uma da manhã, depois de um guarda noturno ter visto cerca de 5 pessoas a fugir do local. Neste momento, os estádios já contam com equipas de patrulhamento “descontínuo”.
A polícia viu-se assim obrigada a antecipar um plano — com três cenários possíveis — que já estava a ser delineado há “várias semanas” e que contará com a colaboração da Polícia Municipal e da Guarda Nacional Republicana (GNR).
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Forças de segurança funcionam como equipa para garantir harmonia entre adeptos
A realidade desportiva obrigou as forças de segurança a estarem preparadas para três cenários distintos: não haver campeão (caso o encontro termine empatado ou com vitória do Benfica com um golo); o Sporting sagrar-se bicampeão (se vencer); o Benfica reconquistar o campeonato (se vencer com pelo menos dois golos de diferença).
Se a poucos minutos do fim do último jogo do Sporting (contra o Gil Vicente) o cenário antevia um dérbi mais calmo, o remate potente de Eduardo Quaresma devolveu a incerteza e obrigou a PSP a preparar uma grande operação que, além de mobilizar muitos meios, está sujeita a grande imprevisibilidade.
“Andamos a trabalhar esta questão há vários dias, até semanas. É um trabalho contínuo de recolha intensa de informação policial. Uma monitorização e recolha intensa de informação que nos auxilia a preparar a nossa operação”, refere a PSP.
Se dentro de campo se defrontam duas equipas com o objetivo de ganhar, fora dele PSP, Proteção Civil, Polícia Municipal e GNR juntam forças para que não haja espaço à desordem.
Responsável pelo policiamento nas áreas em foco no sábado (Marquês de Pombal, Alvalade e Benfica), a PSP coordena a operação com um plantel em que constam várias das suas unidades e divisões: Corpo de Intervenção; Grupo Operacional Cinotécnico; Equipas de Intervenção Rápida; Spotters; Divisão de Trânsito; Divisão de Segurança e Transportes Públicos; Unidade Metropolitana de Informações Desportivas; e Investigação Criminal.
A participação das diferentes valências da PSP é pensada e surge após a ponderação de vários fatores, desde a informação disponível em fontes abertas — como mobilizações organizadas de adeptos — à consulta do “histórico de rivalidades” dos clubes em questão e também da análise dos “adeptos de risco” que podem marcar presença no evento.
A preparação que visa “prevenir e mitigar eventuais incidentes” foi articulada também com o Sporting e o Benfica, com destaque para as águias por serem organizadores do único evento que é, para já, certo: o jogo.
[Espanha fez tudo o que devia para evitar o apagão? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]
Dada a dimensão nacional dos dois clubes, a PSP sabe que o dérbi, em especial os possíveis festejos do título, obrigam a uma mobilização que transcende Lisboa e implica o apoio da GNR, responsável pela deslocação de muitos adeptos que no sábado partem de vários pontos do país a caminho da capital.
“Está prevista uma deslocação significativa de adeptos de todo o território nacional em direção a Lisboa, em transportes coletivos e viaturas particulares. A GNR vai reforçar a presença ao longo das principais vias rodoviárias de acesso à capital, com especial atenção aos pontos de maior fluxo de trânsito e áreas de serviço mais frequentada”, disse o major da GNR Luís Canhoto.
A mobilização da Guarda contempla ainda a escolta dos autocarros de Sporting e Benfica, desde o centro de treinos até ao Estádio da Luz, onde, às 18h00, começa o encontro.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
GNR é responsável pela escolta das equipas e está atenta aos adeptos
Apesar de a PSP ser responsável pelas áreas do Estádio de Alvalade e também pelo Estádio da Luz, a GNR assume, através das equipas da especialização de trânsito, a “abertura de itinerários” desde o Seixal, no caso do Benfica, ou desde Alcochete, no caso do Sporting, até ao recinto do encontro.
Contudo, explica a GNR, um possível trajeto dos clubes desde a Luz para Alvalade, ou da Luz para o Marquês, será da inteira responsabilidade da PSP — a Guarda só intervém quando o percurso começa, acaba ou passa na sua área de intervenção.
Os militares previstos para a escolta podem, em “função das informações” recebidas até ao início do deslocamento, ser reforçados com “força suplementar que promova a segurança de uma forma mais musculada”. A chegada às imediações do estádio, onde o policiamento é assumido pela PSP, antevê uma habitual “troca de pontos de contacto no sentido de haver coordenação permanente”, numa ação que será sempre mais sensível no momento em que o Sporting chegar ao estádio adversário, onde deverá ser recebido num ambiente hostil.
Além dos futebolistas, a GNR está atenta ao 12.º jogador, como vulgarmente se conhecem os adeptos, em especial os que vão encher as estradas portuguesas em direção a Lisboa.
GNR de Leiria
“Estamos a acompanhar o fenómeno ao nível das fontes abertas — das redes sociais — e estamos a prever a projeção de patrulhas militares para garantir que esse deslocamento [de adeptos] se faz em segurança”.
Nas últimas horas, nas redes sociais, têm surgido vários pedidos à mobilização dos adeptos no apoio das equipas, sobretudo da parte do Sporting. Num comunicado conjunto das quatro principais claques dos leões, foi lançado um “apelo a todo o mundo Sporting”, que pede a quem não vai ao Estádio da Luz para formar um “cordão verde e branco desde a Academia Cristiano Ronaldo em Alcochete”.
Pedimos que acompanhem o bus de todas as maneiras possíveis e inimagináveis, com todas as forças. Em especial, por exemplo, uma coluna de motas desde a estação de serviço até passar a Ponte Vasco da Gama”, escreveram.
A GNR alerta para o uso de pirotecnia, tanto dentro como fora do relvado, em especial por parte dos fãs que vão acompanhar o caminho dos autocarros: “utilização de engenhos é uma preocupação e tem comprometido a segurança nos deslocamentos dos próprios clubes”.
Neste trabalho de equipa para garantir a harmonia não faltará a comunicação entre PSP e a GNR, com a fonte militar consultada pelo Observador a expressar que, como está previsto, vão informar a polícia se identificarem, no caminho para Lisboa, adeptos impedidos de aceder a recintos desportivos.
PSP assume “policiamento mais musculado” e prepara-se para os três cenários em cima da mesa
A olhar para os três cenários possíveis, a PSP assume, assim, três respostas diferentes.
Antes de olharmos para essas atuações, cabe perceber o que acontecerá antes, na chegada dos adeptos ao estádio, sobretudo na ‘caixa de segurança’ dos fãs do Sporting que caminham de Alvalade até à Luz.
O Corpo de Intervenção e o Grupo Operacional Cinotécnico da Unidade Especial de Polícia estão constantemente presentes no percurso, além dos ‘Spotters’ e os polícias da divisão de trânsito, “para os normais e habituais cortes” que permitam garantir a segurança dos adeptos.
Na envolvência do Estádio da Luz daremos especial atenção às estações do Metro. Haverá um reforço da Divisão de Segurança a Transportes Públicos, designadamente nas estações do Metro do Alto dos Moinhos e do Colégio Militar. Mas também do outro lado [mais perto do estádio do Sporting] especial enfoque às estações do Metro do Campo Grande e de Telheiras”, refere o subintendente Sérgio Soares.
Nas imediações do recinto de jogo terá lugar um “policiamento mais robustecido, mais musculado” — com atenção ao trânsito e a possíveis furtos e roubos, desde carteiristas a furtos no interior de carros — levado a cabo por polícias caracterizados e alguns à civil. Com o final do jogo, entram em hipótese os cenários que já figuram na mente dos adeptos e que, como é natural, são também previstos pela PSP.
O cenário mais fácil
Para a PSP o cenário mais simples é claro: não haver campeão. Essa hipótese adia para a última jornada a decisão do campeonato.
Além da questão temporal, na última ronda de jogos apenas o Sporting joga em casa (frente ao Vitória SC), o que, face à deslocação do Benfica a Braga, tirará bastantes adeptos da capital e, acima de tudo, não concentra grande parte no mesmo estádio.
O cenário complicado, mas não o pior
Não sendo a hipótese que implica menos esforço, a conquista do campeonato por parte do Benfica também não será a mais complicada. Se o árbitro João Pinheiro apitar para o final do encontro e no marcador estiver uma vitória, pelo menos de dois golos, das águias, a PSP tem bem delineado o que fazer.
“Retiraremos os adeptos do Sporting o mais rápido possível e vamos acompanhá-los até ao Estádio José Alvalade”, refere Sérgio Soares. Depois disso, segue-se o policiamento previsto nas imediações do estádio e na Rotunda do Marquês, que será semelhante quer se pinte em tons de verde ou de vermelho.
O cenário mais complicado
A diferença de dificuldade entre um cenário e outro não se prende com a mobilização ao Marquês, que implicará maior esforço nos dois casos, mas sim na retirada de adeptos do Estádio da Luz.
Isto porque, em caso de vitória do Sporting, o procedimento implicará maior colaboração dos adeptos de ambos os clubes. Se os leões vencerem, a PSP vê-se forçada a retirar, primeiro, do recinto desportivo, os adeptos do Benfica que, jogando numa casa que se prevê lotada, estarão em maior número.
“Se for o Sporting campeão, teremos que manter os adeptos do Sporting [no estádio]. Durante alguns instantes retirar os do Benfica e depois acompanhá-los [aos adeptos leoninos] novamente até ao Estádio de Alvalade. Os adeptos do Sporting terão que ser sempre acompanhado até Alvalade. Num ou noutro cenário”.
Todavia, a PSP garante que está preparada para todas as situações e admite ter a “flexibilidade necessária e o efetivo necessário” para adaptar a resposta ao cenário encontrado.
Sem revelar números específicos de polícias, a força de segurança garante ter “o policiamento necessário” para tentar “reduzir ao máximo situações de desordem pública, para tentar reduzir ao máximo situações de crimes contra a propriedade e também para reduzir ao máximo situações de venda ilegal de bilhetes”.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Marquês de Pombal é o foco principal de preocupação
Dois dos cenários em análise têm sempre um destino comum: a rotunda do Marquês de Pombal, palco principal dos festejos dos últimos 11 anos (6 do Benfica e 2 do Sporting), excetuando as três ocasiões em que a festa descentralizou e teve epicentro na Avenida dos Aliados, pintada com as cores do FC Porto.
Nos últimos dias, as muitas pessoas que passam diariamente pela rotunda já notaram que a estátua central, onde se ergue Sebastião José de Carvalho e Melo, está rodeada por estruturas metálicas.
Em dias de decisão de títulos, o Marquês começa a receber adeptos bem antes dos apito final, o que obriga a PSP a ter um dispositivo policial pronto “a partir do meio da tarde”.
Mediante a hipótese de adeptos dos dois clubes se dirigirem, antecipadamente, ao local da festa, poderia surgir como opção a vedação da rotunda antes do jogo, mas a PSP afasta essa possibilidade, para não “prejudicar terceiros”, lembrando que o jogo pode acabar sem campeão.
Se uma equipa estiver a ganhar, com alguma margem, antes do final do jogo, aí surge a hipótese de vedar o espaço. “É dinâmico, portanto, na hora, o comandante operacional decidirá o melhor momento para condicionar o trânsito e para começar a pôr a operação no terreno”.
Os focos de preocupação, que se estendem a todo o território nacional, focam-se, assim, nos estádios e no Marquês. A PSP está atenta a locais fora de Lisboa, como a Rotunda da Boavista, no Porto, onde os adeptos costumam celebrar o campeonato.
É, sobretudo, no Marquês de Pombal que a PSP contará com a colaboração da Polícia Municipal de Lisboa, que assume um “papel de complementaridade e de apoio à PSP”, no trânsito, na notificação de estabelecimentos e na fiscalização de venda ambulante em locais vedados. Em comunicado divulgado esta quinta-feira, a Câmara Municipal de Lisboa revelou que cerca de 60 restaurantes, cafés e supermercados terão que encerrar às 17 horas no sábado. Situam-se na Praça, mas também no Parque Eduardo VII, nas avenidas da Liberdade, Duque de Loulé, Fontes Pereira de Melo, António Augusto Aguiar, e Sidónio Pais, e ainda nas ruas Braancamp, Camilo Castelo Branco, Rodrigues Sampaio, Andrade Corvo, Martens Ferrão, Joaquim António Aguiar, Mouzinho da Silveira e Duque de Palmela, aponta a agência Lusa.
Notícia atualizada às 10h34 com a indicação dos estabelecimentos que terão que encerrar mais cedo no sábado.