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Bento, 3 anos, foi atrás dos cães e morreu num tanque em Barcelos. O afogamento é a segunda causa de morte de crianças /premium

Adoptado por uma família que não pode ter filhos, Bento desapareceu este domingo. Terá andado sozinho pelas ruas de Alvito a brincar com os cães. Acabou por morrer ao cair num tanque vizinho.

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Era habitual ver Bento a brincar com os dois cães da família, um labrador preto e um outro, branco e mais pequeno. Será isso que explica a convicção dos vizinhos: no domingo, a criança de três anos andava a brincar, atrás dos cães, quando caiu num tanque de regadio e acabou por morrer.

Não se sabe quanto tempo depois do acidente, os mesmos animais acabariam por dar o alerta: regressaram a casa molhados e, sem ninguém saber onde estava Bento, indicaram a única pista. De imediato, a aldeia de Alvito (São Pedro), no concelho de Barcelos, mobilizou-se para encontrar o menino, único filho de uma família que também ali vive, mas é oriunda de uma freguesia vizinha, Roriz — e que tinha adotado a criança ainda bebé.

Acabariam por encontrar Bento no tanque de regadio de uma vizinha, já GNR e bombeiros se tinham juntado à operação. As manobras de reanimação não tiveram sucesso e o óbito foi declarado ainda no local.

Em Alvito, o ambiente é de natural consternação. “É uma tristeza muito grande”, diz um dos vizinhos ao Observador. Seria sempre assim, em qualquer caso semelhante. Neste, ainda mais: Bento seria fruto de uma enorme vontade de ter filhos, numa família sem outras crianças.

Do desaparecimento ao alerta

A criança de três anos terá desaparecido ao início da tarde, depois das 15 horas, segundo as estimativas dos Bombeiros Voluntários de Barcelos. O Comando Territorial de Braga da Guarda Nacional Republicana recebeu o primeiro alerta às 16h12, através do posto de Barcelos, e de imediato foram enviados meios para o local. O pedido dava conta de uma criança desaparecida na zona da casa dos pais.

A criança de três anos terá feito este caminho, quando brincava com os cães, junto à casa dos pais

A ajuda dos bombeiros só foi pedida mais tarde, pelas 17h30, mas durou apenas alguns minutos. Pouco depois de se terem juntado às buscas, o corpo da criança foi encontrado.

Os primeiros a sair à procura de Bento foram a família e os habitantes da aldeia. A indicação era clara: os dois cães da família chegaram molhados a casa e o mais provável era que tivessem estado com Bento. A estratégia foi, por isso, a de seguir o rasto da água. O problema é que o primeiro local de que se lembraram foi uma piscina rural que existe alguns metros à frente da casa da família e foi lá que concentraram os primeiros esforços. Procuraram também junto ao rio, ali perto — mas ninguém se lembrou de que, a poucos metros, mas no sentido contrário, existia um tanque de rega particular.

O corpo da criança foi encontrado ali mesmo por volta das 18h05, segundo os bombeiros. Ao INEM, o alerta chegou pelas 18h11, já pouco havia a fazer. Ainda foram acionados, para o local, os bombeiros de Barcelos — que já lá estavam — e a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) de Barcelos, mas a criança estava em paragem cardiorespiratória e as manobras de reanimação não tiveram sucesso.

A criança terá percorrido, sozinha, cerca de 500 metros, através de uma ruela e da estrada principal, até chegar ao tanque, num terreno privado.

O óbito foi declarado já às 18h56, segundo o registo do INEM, que também esteve no local com uma equipa de psicólogos, para acompanhar os familiares.

“É uma tristeza muito grande”, diz Fernando, que, à hora do desaparecimento, não estava na aldeia. No regresso, o homem, que tem um café em frente à casa dos pais de Bento, ainda ajudou nas buscas, feitas também pela mãe e pelo pai da criança, que viu desesperados à procura do filho. Conta que, quando se confirmou o pior dos cenários, a mãe deitou-se no chão da rua, devastada.

A aldeia mobilizou-se para procurar a criança. O corpo acabaria por ser encontrado num tanque junto à estrada principal

António também não estava em Alvito (São Pedro). Ao Observador, conta que soube do trágico acontecimento pelo cunhado, que está emigrado no Luxemburgo e lhe telefonou. As notícias correm rápido, mas António preferiu não entrar em alarmismos e deixar as autoridades trabalhar. Esta segunda-feira de manhã, questionava o que teria acontecido ontem, pela estranheza de pensar que uma criança pequena, sozinha, tenha conseguido andar uns 500 metros, sem que ninguém se apercebesse e ou a ajudasse, vendo-a sozinha na rua.

Um tanque centenário que já ninguém usava

Como é que Bento lá chegou? Ninguém sabe responder. Em Alvito (São Pedro), supõe-se que terá saído pelas traseiras da moradia dos pais e caminhado alguns metros por uma ruela, até chegar à estrada principal. Depois, é só atravessar para o outro lado da rua — é lá que está o tanque privado, à face da estrada, antes da entrada de uma pequena quinta.

Na aldeia, diz-se que o tanque terá já mais de duzentos anos e, até agora, não houve nenhum problema. Antigamente, o tanque centenário, que terá entre um metro e um metro e meio de profundidade, era utilizado pelas crianças da zona para se refrescarem nos dias mais quentes. Hoje em dia, isso já não acontece. Mas, apesar de ser privado, não é a primeira vez que o terreno é invadido: “Há miúdas que, às vezes, vêm para aqui tirar fotografias, as ‘selfies'”, conta um dos habitantes. De fácil acesso a quem passa na estrada, o tanque nunca foi vedado por completo.

O tanque de regadio fica junto à estrada principal, perto da casa onde morava a criança

Para lá chegar, basta subir uma rampa de terra e erva não muito íngreme, usada para fazer passar um trator, sempre que é preciso lavrar os terrenos da propriedade. Noutros tempos, o acesso ao tanque era facilitado por alguns degraus, que acabaram por ser retirados para que o trator pudesse passar. À entrada está ainda um portão improvisado com rede de malha larga e alguns paus. Aquela espécie de vedação serve apenas para as ovelhas não fugirem. Este domingo à tarde, apurou o Observador, o tal portão rudimentar estava aberto.

Lá dentro, o acesso ao tanque não é difícil. O muro tem apenas cerca de 50 centímetros de altura, a que se soma um degrau a toda a volta. Seria relativamente fácil para uma criança subir e chegar à água com musgo que, esta segunda-feira, ainda lá estava.

“O pai não tinha filhos e queria muito ter”

Ninguém sabe contar com rigor a história da família. De todos os ouvidos pelo Observador, esta segunda-feira, fica um elemento comum: Bento teria sido adotado pelo casal — ele, nascido numa outra aldeia de Barcelos, Roriz, com cerca de 40 anos; ela, nascida no Brasil, com cerca de 30 anos.

Ao Observador, o presidente da Junta de Freguesia de Roriz conta que os dois casaram há seis anos, na igreja da terra. Mais recentemente, surgiu o bebé, que terá chegado à casa da família apenas com alguns meses de idade. “O pai não tinha filhos e queria muito ter”, explica o autarca, Luís Gonzaga.

A família de Bento é descrita como "boa gente" e "conceituada". A criança terá sido adotada pelo casal quando tinha apenas alguns meses de idade.

Talvez isso explique todas as descrições que outros, ali, fazem da criança: além de “meiga” e “bem-disposta”, era “muito protegida” e “acarinhada”, não só pela família, mas por todos os que frequentam um café, na localidade, de que é dono o pai e o tio de Bento. “Era o menino de todos nós”, conta uma das habitantes da aldeia, e nunca era deixado sozinho um segundo que fosse porque era alvo de muita atenção por parte de todos.

Da família, Luís Gonzaga diz que era “conceituada” e “muito boa gente”. O café-bar que têm ali, que outrora foi uma antiga vacaria e que esta segunda-feira estava fechado, é conhecido mais fora da freguesia do que dentro, conta o autarca. Os irmãos acolhem no espaço concertos de bandas de rock e são os principais promotores do festival Souto Rock, que decorre anualmente em Roriz. E também lá trabalha a mãe de Bento.

As mortes de crianças por afogamento

A morte de Bento engrossa os números que fazem dos afogamentos a segunda causa de morte acidental nas crianças em Portugal, segundo dados da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (ASPI). 22% dos casos acontece precisamente em tanques e poços.

Os dados mostram que as taxas mais elevadas de afogamento se encontram entre as crianças até aos 4 anos de idade. 65% dos casos dizem respeito a rapazes. Nos últimos 15 anos, ocorreram com 238 crianças e jovens. Além das fatalidades, registaram-se 572 internamentos na sequência de um afogamento. Os meses mais dramáticos são os de verão, julho e agosto. Bento foi uma exceção.

O problema tem sido cada vez mais discutido, com vários alertas para os perigos de locais, com água, desprotegidos, como piscinas ou tanques. É também por isso que a APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil) promove anualmente, desde 2003, uma campanha de prevenção, que destaca que “A Morte por Afogamento é Rápida e Silenciosa” e pede cuidados e atenções redobradas.

O presidente da Junta de Freguesia de Roriz, a aldeia do pai da criança, lembra que casos como este podem acontecer em terrenos públicos ou privados, mas reconhece que as autarquias têm, de igual forma, "tanques de regadio" na mesma situação e admite que é necessário assegurar que todos estão vedados para evitar acidentes.

O presidente da junta de freguesia de Roriz admite que é preciso tomar medidas. Ao Observador, afirma que “no norte, e principalmente no concelho de Barcelos, há muitos tanques como aquele e com dimensões muito superiores e muito mais profundos”. “O que aconteceu aqui pode acontecer em qualquer freguesia”, alerta. Luís Gonzaga considera, por isso, que é necessário fazer um levantamento dos tanques que existem, e, “talvez, tentar isolá-los ou vedá-los”. E, sendo certo que estas situações podem acontecer tanto em tanques privados como públicos, Luís Gonzaga reconhece que as autarquias têm, de igual forma, “tanques de regadio” na mesma situação daquele onde Bento caiu.

Na aldeia, a comparação foi inevitável. Todos se lembraram do que aconteceu com Julen, o bebé espanhol de 2 anos, cujo corpo foi resgatado de um poço em Málaga, a 13 de janeiro, doze dias depois do desaparecimento. O presidente da junta de Roriz também relembra a tragédia no país vizinho, para deixar claro que em Alvito (São Pedro), não foi preciso que Bento caísse a um poço: “Simplesmente caiu a um tanque de regadio, que nem era assim tão profundo”.

O caso foi, entretanto, entregue à Polícia Judiciária.

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