De todas as coisas que foram escritas a propósito de A Complete Unknown, o novo filme que retrata o início do percurso artístico de Bob Dylan, protagonizado por Timothée Chalamet, a minha preferida foi uma piada no Twitter: uma notícia dizia que o ator tinha treinado harmónica durante cinco anos até conseguir aprender a tocar o instrumento; um qualquer usuário da rede retorquiu que “Isso foi o mesmo número de dias que o Dylan precisou para aprender a harmónica”.
A piada não está propriamente a gozar com o suposto trabalho árduo de Chalamet para encarnar Dylan, ou com o seu talento musical ou como ator – está a gozar com o tipo de discurso que por norma envolve este género de filmes: invariavelmente, os atores passam enormes provações para conseguirem assemelhar-se aos seus retratados; algo como tocar harmónica é publicitado como um esforço hercúleo. O cerne da piada está em captar o espírito de Dylan e mostrar como era oposto à corporate bullshit que a indústria de cinema nos vende: Bob Dylan não estava interessado em perfeição formal, fosse a cantar, tocar guitarra ou harmónica – ele simplesmente pegava numa harmónica e tocava.
E nesse sentido a piada acaba por realçar a principal diferença entre Dylan e Chalamet ou, se quiserem, entre o Dylan real e o retratado pelo filme: enquanto Chalamet é um rapaz bem comportado, esforçado, trabalhador, Dylan era simplesmente uma força da natureza, que usava todos os meios de que dispunha para chegar a uma canção — obrigava músicos a ensinar-lhe canções, pilhava temas antigos, escrevia sem parar obsessivamente porque queria desesperadamente ter êxito, porque não tinha identidade e nas canções estava a hipótese mais óbvia de encontrar a sua identidade – os cinco anos que Chalamet passou a praticar harmónica não são da ordem da obsessão vital que possuiu Dylan; são um exemplo de bom comportamento.
▲ Bom Dylan fotografado em Londres em 1965: destruiu a imagem que o mundo tinha dele próprio para finalmente fazer tudo o que quisesse sem dar satisfações a ninguém
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O próprio A Complete Unknown é um filme bem comportado – retrata Dylan como alguém que esconde o passado e até mente a esse respeito, como alguém ambicioso, mas quase torna essas características digestíveis, aceitáveis – quando Dylan era um mentiroso compulsivo, que roubava as pessoas (literalmente), ficava a dever dinheiro, um hustler sempre à procura de conhecer pessoas importantes do meio folk e da indústria musical, um tipo que fazia tudo e passava por cima de todos para atingir os seus objetivos. E era, já agora, bastante esperto a gerir a sua carreira, ao oferecer as suas canções a artistas mais populares que ele próprio e depois colher os royalties das vendas dos discos dos outros.
Do que se conhece de Chalamet, o mais próximo que este esteve de alcançar a fúria ambiciosa de Dylan foi com o alter ego que criou em miúdo, quando imaginava ter uma carreira no hip-hop e criou o rapper Lil Timmy Tim. Na altura estava no liceu, na Fiorello H. LaGuardia High School of Music & Art and Performing Arts, em Nova Iorque; depois de criar Lil Timmy Tim começou a pôr vídeos de rap no Youtube – para se ter ideia da matéria prima, um vídeo de 2011 é um rap sobre estatística para um projeto escolar – em que Lil Timmy Tim mostra imenso entusiasmo por, nem mais, estatísticas.
É, temos, de admitir, fofinho que em garoto Chalamet tivesse inventado um rapper que apreciava este tipo de matemáticas – e quando o ator se tornou mais conhecido o vídeo ressurgiu e foi visto dessa exata forma: como algo fofinho, querido, doce, até. Essa poderia ser a descrição da imagem pública de Chalamet: é um homem bonito, mas não parece um homem, antes um garoto e um garoto razoavelmente inofensivo.
Num aspeto, é parecido com Dylan: Chalamet tem aquele charme fácil do rapaz que parece simultaneamente ingénuo e maroto, o tipo de rapaz que é tímido, mas está à espera do momento certo para dizer uma piada sarcástica – é, aliás, assim que Bob Dylan é inicialmente retratado no filme, antes de este procurar complexificar o bardo, uma tentativa razoavelmente inócua.
O próprio Dylan, quando apareceu, era visto um pouco assim: um rapaz com rosto de querubim, bonitinho, mas bom menino, que cantava coisas bonitas de esquerda sobre os direitos civis, contra a guerra, etc. Dylan foi, inicialmente, o poster boy da folk política, da canção de intervenção, o poster boy dos que achavam estar do lado do Bem – e em muitas matérias estavam, embora fossem conservadores em muito outros aspetos, como só respeitarem música acústica ou tradicional ou de pendor político.
Sabemos hoje que para Dylan a canção de protesto foi só um meio para ser músico – ele tinha uma paixão por Woody Guthrie e quando chegou a Nova Iorque foi no universo das gentes da folk política que se conseguiu introduzir, não só pela sua capacidade de aprender depressa canções antigas como pela vertigem da sua composição.
Mas Dylan era um garoto e, como acontecia com todos os garotos, gostava de rock’n’roll e gostava das novas modas; era também extremamente curioso, razoavelmente indiferente ao que pensavam sobre si e, desde cedo, demasiado desafogado financeiramente para ponderar em exagero como devia seguir a sua carreira – pelo que não só experimentou o rock como o reinventou por completo num par de disco, Highway 61 Revisited (1965) e Blonde on Blonde (1966), antes de se borrifar para o rock, ir à country e depois desaparecer.
▲ Chalamet como Dylan numa cena de "A Complete Unknown", na qual participa também Edward Norton, que no filme interpreta o cantor Pete Seeger
Chalamet não é desta cepa; como ator é obrigado a mudar de filme para filme e tem carisma e presença, mas convenhamos que não vai alterar o curso da representação, muito menos o imaginamos a simplesmente desaparecer e depois, ao regressar, mudar de filme para filme até ninguém compreender quem ele é (Joan Baez disse-me uma vez que ninguém sabe quem Dylan é, e a pessoa que menos sabe é o próprio Dylan.)
Chalamet trabalhou muito para chegar onde chegou, note-se: já em garoto entrava em anúncios, estudou representação, foi a todas as audições e mais algumas, ouviu nãos, com 13 anos já aparecia na televisão e aos 16 anos fez oito episódios da série Homeland, até explodir em 2017, com um papel corajoso em Call Me By Your Name.
Mesmo que demoremos quase 50 anos a descobri-lo, também somos Bob Dylan
Mas o que Chalamet não tem, o que o distingue de Dylan, é desespero. Dylan cresceu em nenhures, sem nenhuma esperança no futuro, exceto aquela estranha e viciante música que aparecia na rádio, exceto naquilo que Buddy Holly e Elvis pareciam querer revelar-lhe. Dylan saiu de casa e andou de canto para esquina desesperado por ser aquilo – por ser um Elvis, um Cash, e não descansou até ser Dylan e depois destruir a imagem que o mundo tinha de Dylan para finalmente fazer tudo o que quisesse sem dar satisfações a ninguém.
As horas que Dylan passou a praticar, a ouvir discos, a aprender canções, a compor, a escrever – nada disto é da ordem do trabalho, mas da fratura ontológica: é um homem que não é nada a procurar sofregamente ser algo. Dylan não podia falhar – porque, se falhasse na sua demanda, simplesmente não existira na sua ontologia interna.
Já Chalamet cresceu em Nova Iorque, filho de mãe que andou em Yale e de pai que trabalhou na UNICEF, numa família que sempre apoiou as ambições artísticas do filho – aliás, ele tem mais uma irmã que é atriz e a própria mãe foi bailarina da Broadway. Chalamet é o produto de uma educação culta, boémia e funcional, o que lhe permite representar (com bastante classe) desgraçados como Dylan. Mas Dylan é, e sempre será, um desgraçado – um Zé Ninguém nascido no meio do nada, sobre quem ninguém tinha expectativas, que tinha horror ao sítio de onde vinha, à forma como os seus pais e vizinhos viviam a vida e que precisava furiosamente de se reinventar; de ser.
A Complete Unknown é um filme competente e inócuo sobre um homem que escapa à compreensão humana e que definiu a segunda metade do século XX. O desempenho de Chalamet é irrepreensível, aquele tipo de atuação com os sinais todos de acting de qualidade que permite nomeações para os Óscares — e é um passaporte para mais e mais importantes papéis enquanto protagonista.
Mas tudo isso está muito longe do radicalismo e da subversão que guiou Dylan durante toda a vida – e ainda guia, ao ponto de ninguém reconhecer as suas canções nos seus concertos, de tão alteradas estão. Chalamet terá uma linda carreira, cheia de prémios e respeito dos pares – Dylan tem meio século que é definido por ele.