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Boualem Sansal: o escritor que é um "problema franco-argelino" está preso há dois meses por “atentado à união nacional”

Opositor do totalitarismo religioso, está detido em Argel com saúde débil. Milhares pedem a libertação e Macron entrou na crise política. "É o pesadelo da ditadura argelina", diz editor português.

A 16 de novembro de 2024, Boualem Sansal regressava de França quando foi detido no aeroporto de Argel, na Argélia. Acusado de “atentado à união nacional”, está preso desde então. Tem 75 anos e o seu estado de saúde já o levou duas vezes ao hospital. Pelo mundo multiplicam-se os pedidos para que seja libertado e até Emmanuel Macron, presidente francês que concedeu a nacionalidade ao autor no ano passado, já se pronunciou.

A detenção acontece na sequência das declarações feitas ao meio de comunicação francês de extrema-direita Frontières: “Quando a França colonizou a Argélia, toda a zona oeste fazia parte de Marrocos: Tlemcen, Oran e mesmo até Mascara. Toda a região fazia parte do reino.” Há muito que Sansal defende a posição de Marrocos, que afirma que o seu território foi separado pela colonização francesa a favor da Argélia.

Na Argélia, a notícia da prisão não tem causado grandes ondas, já que Boualem Sansal é acusado de aderir às ideias da extrema-direita francesa, de adotar posições hostis em relação ao islão e aos muçulmanos. Para justificar a detenção, as autoridades citam o código penal argelino, que condena “qualquer ato que vise a segurança do Estado, a integridade do território, a estabilidade e o normal funcionamento das instituições”.

A editora Gallimard — responsável pela publicação das obras do autor em França — mandatou um advogado para a defesa, mas este ainda não conseguiu estar pessoalmente com o cliente. Apesar de já terem passado quase dois meses, a permissão para entrar no país continua a ser recusada pelas autoridades argelinas. “Há um problema franco-argelino, naturalmente, e Boualem Sansal é apanhado nessa guerra depois de ter mencionado que determinado território pertence a Marrocos e não à Argélia. Mas isso é uma desculpa, porque a querela com Boualem é muito anterior”, revela Francisco José Viegas, editor da obra do escritor em Portugal, através da Quetzal.

▲ A capa de "2084", de Boualem Sanal, na edição portuguesa da Quetzal

“Trata-se de um grande autor de língua francesa, que vive em França e foi premiado pela Academia. É unanimemente considerado uma das grandes vozes da francofonia, mas também da cultura mediterrânica, por ter recebido o prémio do Romance Árabe, ou ainda os prémios Constantinopla e Mediterrânico. Não é um escritor qualquer, nem pode ser considerado uma espécie de voz da direita francesa. Muito longe disso: é um moderado. E é disso que os islamitas têm medo, como as ditaduras têm medo dos moderados”, diz ao Observador.

Um caos diplomático

Boualem Sansal sempre foi um escritor com opiniões vincadas e polémicas, mas esta medida, quando o escritor tem 75 anos e uma saúde frágil, está a causar um caos diplomático que já arrastou o presidente francês, Emmanuel Macron. “A Argélia, que tanto amamos e com a qual partilhamos tantos filhos e histórias, entra numa história que a desonra ao impedir um homem gravemente doente de se tratar”, considerou o chefe de estado francês a 6 de janeiro perante um grupo de embaixadores franceses, no Palácio do Eliseu.

Pedindo a libertação urgente do escritor, Macron disse ainda que Sansal tinha sido “detido de forma totalmente arbitrária pelos responsáveis argelinos”.

Do outro lado, Abdelmadjid Tebboune, presidente argelino, chama “impostor” a Boualem Sansal e, em comunicado, a APN (Assembleia Popular Nacional da Argélia) classificou as declarações de Macron como uma “interferência flagrante nos assuntos internos da Argélia e uma violação da sua soberania e dignidade numa matéria que está a ser examinada em conformidade com a legislação argelina”.

Na Argélia, Boualem Sansal “assistiu à radicalização do regime e ao crescimento da sua dimensão totalitária, que o aproximava bastante do cenário de 1984, de [George] Orwell. Boualem quis mostrar como funcionaria esse regime bizarro, totalitário, prisional, concentracionário – e como ele exportaria a sua ideologia para lá das suas fronteiras”, explica Francisco José Viegas, responsável pela publicação de "2084 – O Fim do Mundo" (Quetzal).

O chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, levantou “dúvidas” sobre as intenções da Argélia de respeitar um acordo bilateral de relações que existe entre os dois países, uma vez que este caso surge na sequência de uma decisão tomada em julho passado, que não foi vista com bons olhos pelo governo argelino. Na altura, Paris apoiou o plano marroquino de independência do Saara Ocidental como “a única base para chegar a uma solução política justa, duradoura e negociada de acordo com as resoluções do conselho de segurança da ONU (Organização das Nações Unidas)”. Contra estão os independentistas saarauís da Frente Polisário, apoiados por Argel.

Quem é Boualem Sansal?

Nasceu a 15 de outubro de 1949 em Theniet El Had, na Argélia. O pai era de origem marroquina, a mãe recebeu uma educação ocidental. Formou-se em Engenharia e doutorou-se em Economia. As suas opiniões geraram consequências na vida profissional, já que ”foi despedido do seu emprego de funcionário público, na Argélia (era engenheiro e nunca mais pôde trabalhar)”, conta ao Observador Francisco José Viegas.

Em 2003, saiu ileso de um sismo em Boumerdès, mas esteve desaparecido durante vários dias. Foi encontrado após um apelo lançado na televisão argelina. Em 2024, naturalizou-se francês. Pretendia instalar-se em França, já que era lá que a mulher, Naziha, estava hospitalizada.

O que escreve e o que defende?

Na Argélia, Boualem Sansal “assistiu à radicalização do regime e ao crescimento da sua dimensão totalitária, que o aproximava bastante do cenário de 1984, de [George] Orwell. Boualem quis mostrar como funcionaria esse regime bizarro, totalitário, prisional, concentracionário – e como ele exportaria a sua ideologia para lá das suas fronteiras”, explica Francisco José Viegas, responsável pela publicação de 2084 – O Fim do Mundo (Quetzal), o único livro do autor traduzido para português e uma história violenta de radicalismo e resistência que se inspira precisamente em 1984.

“Encontrei o livro, achei que era importante publicá-lo. Foi o que fizemos. Acho que tivemos sorte, como editores, porque o romance esteve na corrida aos principais prémios literários desse ano e acabou por ganhar o da Academia Francesa.”

Desde o primeiro romance, Le Serment des Barbares (“O Sermão dos Bárbaros”), em 1999, venceu inúmeras distinções, entre as quais o Grande Prémio do Romance Árabe, o Grande Prémio do Romance da Société des Gens de Lettres ou o Grande Prémio da Francofonia da Academia Francesa.

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▲ O advogado de Boualem Sansal, Francois Zimeray; o presidente da Editions Gallimard, Antoine Gallimard; e o escritor e jornalista franco-argelino Kamel Daoud, numa conferência sobre a prisão de Sansal

Hans Lucas/AFP via Getty Images

Boualem Sansal sempre foi um escritor polémico nas suas declarações. Em 2011 disse à revista L’Express: “O islão tornou-se uma lei aterradora, que apenas impõe proibições, proíbe a dúvida e na qual os zeladores são cada vez mais violentos. Era necessário que reencontrasse a sua espiritualidade, a força inicial. É preciso libertar, descolonizar, socializar o islão”.

Sobre Abdelaziz Bouteflika, presidente da Argélia entre 1999 e 2019, afirmou em 2019: “É um autocrata da pior espécie […] É, ainda assim, aquele que as grandes democracias ocidentais apoiam e à cabeça a França de Sarkozy. […] Penso com frequência no exílio, mas onde, em [casa de] Bush, de Sarlozy? Substituir uma desgraça por outra não é propriamente aquilo a que podemos chamar boa decisão”.

Para Francisco José Viegas, são claros os motivos pelos quais o autor é tão incómodo. “Critica o totalitarismo religioso, o ‘lero-lero’ pós-colonial, a perseguição aos escritores e intelectuais na Argélia. Ele e o seu amigo Kamel Daoud, outro franco-argelino, que ganhou o Goncourt, são o grande pesadelo da ditadura argelina. Trataram de fazer a folha ao Boualem quando ganhou o prémio da Academia, tratando-o como um perigoso direitista (que não é) e fizeram a folha ao Kamel quando ganhou o Goncourt do ano passado, espalhando uma série de boatos lamentáveis [uma mulher argelina garantiu que o romance Houris se baseava numa experiência traumática e pessoal que tinha contado em confidência à mulher do escritor, psiquiatra].”

Resumindo, explica Francisco José Viegas, “o problema do Boualem, o seu pecado, é que em França não é de esquerda e na Argélia não é islamita. Isso não coincide com ‘o discurso’. O Kamel Daoud foi perseguido pelos mesmos motivos”.

Apoios e pedidos de libertação multiplicam-se

Kamel Daoud é um dos nomes que fazem parte de um comité de apoio internacional criado por Catherine Camus, filha do escritor Albert Camus. Com mais de mil membros de nacionalidades diferentes, a iniciativa pede às autoridades francesas que tudo façam a favor da libertação urgente de Boualem Sansal. Outros autores reconhecidos, como Annie Ernaux, Salman Rushdie, Jean-Marie Gustave Le Clézio e Orhan Pamuk, juntaram-se numa coluna publicada no jornal Le Point, que pedia a “libertação imediata de Boualem Sansal e de todos os escritor encarcerados pelas suas ideias”.

“Não podemos ficar em silêncio. Está em causa a liberdade, o direito à cultura e às nossas vidas, nós escritores visados por este terror”, esclarecem.

“Fui informado por um colega francês, escritor, e, independentemente das questões políticas, considero inaceitável. A liberdades dos escritores, a sua opinião e criação devem ser sagradas”, diz Gonçalo M. Tavares, que inscreveu o nome num abaixo assinado internacional pela libertação de Boualem Sansal.

“Apesar das reações em França, quase unânimes em defesa do Boualem, e de muitos abaixo-assinados com escritores de todo o mundo, como o Gonçalo M. Tavares em Portugal, o regime de Argel tem uma coisa a seu favor – a sua grande indiferença. Estão quase a passar dois meses sobre a detenção de um escritor, que não está formalmente acusado, que tem dupla nacionalidade, que tem 75 anos de idade e pode morrer na prisão”, alerta Francisco José Viegas.

Tal como refere o editor, Gonçalo M. Tavares é um dos muitos escritores que assina um abaixo-assinado a pedir a libertação de Sansal. O autor português não teve dúvidas quanto ao que tinha de fazer. “Fui informado por um colega francês, escritor, e, independentemente das questões políticas, considero inaceitável. A liberdades dos escritores, a sua opinião e criação devem ser sagradas”, diz ao Observador.

Das três ocasiões em que privou com Boualem Sansal, Gonçalo M. Tavares recorda uma “pessoa com sentido de humor e também muito discreta”. A última vez que se viram foi na Islândia, há cerca de ano e meio, na altura em que foi publicada uma tradução de Jerusalém. “Passeámos um pouco, conversamos e é realmente alguém que me parece muito afetivo e carinhoso. Fiquei com uma imagem muito bonita dele.”

Estado de saúde preocupante

Já nessa altura, a condição física de Boualem Sansal chamou a atenção de Gonçalo M. Tavares. “Ele é uma pessoa já de uma certa idade e caminhava num passo ligeiro. Notava-se que tinha algumas restrições.”

Atualmente, o estado de saúde do escritor franco-argelino é uma das maiores preocupações. A 11 de dezembro, uma audiência que pedia a sua libertação não teve quaisquer frutos e a ordem de detenção manteve-se. Foi transferido para a prisão de Koléa, a pouco mais de 30 quilómetros de Argel, sem que o seu advogado ou a família tivessem conhecimento, denunciou então o advogado François Zimeray. Nessa altura, deu-se um primeiro internamento.

“As biópsias efetuadas não são boas. Portanto, lanço um apelo […] às autoridades argelinas de mostrarem, simplesmente, humanidade nesta questão”, disse então publicamente.

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▲ Diz Francisco José Viegas: “O problema do Boualem, o seu pecado, é que em França não é de esquerda e na Argélia não é islamita. Isso não coincide com ‘o discurso’"

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A 16 de dezembro, Antoine Gallimard, o editor francês do autor, e François Zimeray explicaram que Sansal tinha sido transferido, a pedido do próprio, para uma unidade hospitalar pela segunda vez desde o início da detenção. “Eles [os responsáveis pela detenção] perceberam que a saúde está muito frágil e que o seu desaparecimento seria muito grave, também para eles”, referiu Antoine Gallimard.

Francisco José Viegas não tem tantas certezas quanto à preocupação das autoridades argelinas. “Argel não quer saber e conta com o silêncio e a cumplicidade da esquerda radical francesa, como a França Insubmissa. Veja-se o caso da Sandrine Rousseau, que é uma estrela da esquerda ecologista e foi falada como possível líder de governo, que achou mal a prisão de Sansal, mas disse logo: ‘Atenção que ele não é um anjo’ e ‘alguns dos seus argumentos podem ser subscritos pela extrema-direita’. Já lá está o ferrete. Ai ele é de extrema-direita? Então pode ser preso. Pode morrer na prisão. Lamentavelmente, é isso mesmo que pode acontecer. Para nós, é dramático. Para a Argélia, e para o regime islamita, isso não quer dizer nada.”

O Observador tentou contactar a Embaixada da Argélia em Portugal, mas não obteve qualquer resposta.

A comunidade literária sente-se impotente, podendo apenas expressar apoio através de apelos e artigos de opinião que não deixem a história cair no esquecimento. “É um homem de 75 anos, e até podia ser de 20. É um escritor, mas mesmo que não fosse, é inaceitável qualquer limite desta liberdade de opinião e de escrita”, reitera Gonçalo M. Tavares.

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