Para Lula da Silva não é suficiente vencer as eleições presidenciais de 2022, o seu objetivo parece ser o de ganhar também o centro. E há já vários sinais nesse sentido. Nos últimos dias, por exemplo, uma notícia veio agitar as águas e reforçar a tese de uma coligação à primeira vista pouco provável: Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, desfiliou-se do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de que foi fundador. De imediato ganhou força a ideia, que já vinha a ser discutida, de Alckmin se aliar a Luiz Inácio Lula da Silva para, juntos, concorrerem a Presidente e vice-Presidente.
Luciana Veiga, especialista em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, resume ao Observador o atual puzzle político do Brasil (e as alianças que se estão a construir) de uma forma simples: “Não basta vencer Bolsonaro, é preciso vencer muito bem Bolsonaro”
Esta ‘chapa’ eleitoral não foi ainda confirmada oficialmente, mas tanto Lula como Alckmin já deram fortes indícios dessa intenção. E, no dia 19, domingo, fizeram a primeira aparição pública juntos, num jantar promovido pelo grupo de advogados Prerrogativas, que contou com cerca de 500 convidados no restaurante A Figueira Rubaiyat, em São Paulo.
Os dois falaram aos jornalistas e deixaram a hipótese de uma possível aliança em cima da mesa, mas sempre sem concretizar. “O processo ainda está começando, agora é hora de ouvir bastante, de conversar bastante, hora de grandeza política, hora de espírito público, hora de união. Vamos aguardar”, disse Alckmin à Globo News.
Lula teve um discurso semelhante: “O Alckmin deixou o PSDB, ele ainda não tem partido filiado, ele vai se filiar a um partido político e eu não sei qual é o partido que ele vai se filiar. E quem vai dizer se a gente pode se juntar ou não é o meu partido e o partido dele. Então, nós temos que ter paciência, nada acontece para o vice antes de acontecer para o Presidente. Primeiro, a gente tem que definir quem vai ser a presidência, quando vai ser, para a gente discutir quem vai ser vice”.
Sondagens dão vitória a Lula. Com ou sem aliança
Com ou sem ‘chapa’, a verdade é que as muitas sondagens dão — a quase um ano de distância — vitória a Lula da Silva. A mais recente, da PoderData, divulgada na quarta-feira, diz que ex-presidente teria 40% dos votos na primeira volta, contra 30% de Jair Bolsonaro. Os dois são seguidos pelo ex-juiz Sergio Moro, com 7%.
“Nos cenários de 2º turno, Lula vence contra todos os candidatos. Em todos os cenários testados, contra Bolsonaro, Moro, Ciro ou Doria, o petista tem intenção de votos próxima de 50% e vantagem de pelo menos 20 pontos”, afirma a PoderData.
Na semana passada, outra sondagem, da DataFolha, dava ao ex-Presidente 48% das preferências de voto na primeira volta das presidenciais, seguido de Jair Bolsonaro, com 22%, e de Sergio Moro, com 9%.
Juan Ignacio Roncoroni/EPA
As intenções de voto ainda não estão a ser muito afetadas pelas notícias de uma possível coligação. Segundo a Folha de São Paulo, 70% dos eleitores dizem não ter qualquer efeito na escolha do próximo chefe de Estado. Ainda assim, 16% admitem que uma aliança com Alckmin aumentaria a possibilidade de voto no candidato do PT. Já para 11%, a presença do ex-governador de São Paulo diminuiria essa hipótese.
A primeira volta das presidenciais brasileiras acontece a 2 de outubro, e se, até lá, nada de radical vier dar uma guinada nas intenções de voto, Lula pode mesmo ser eleito Presidente para um terceiro mandato — algo inédito na história do Brasil.
Mas analistas ouvidos pelo Observador explicam que, para Lula da Silva ser bem-sucedido, não lhe basta vencer, é preciso unir o país.
Ao aliar-se a Geraldo Alckmin, Lula “sinaliza que é capaz de se entender com quem pensa diferente, que é capaz de dialogar com políticos mais ao centro”. “Isso dá-lhe uma base de sustentação para construir no Congresso. É a sinalização de que há uma relativa união nacional no próximo governo”, explica Cláudio Gonçalves Couto, cientista político da Fundação Getulio Vargas.
Embates entre os prováveis aliados
A relação entre os dois políticos é de longa data e foi marcada tanto por “ataques”, como por “namoro político”, descreve a Folha de São Paulo. O jornal fez mesmo uma compilação do “histórico de atritos” entre ambos.
Vítor Oliveira, analista da consultora Pulso Público, acredita que a aliança com Alckmin vem dar mais segurança que os “antipetistas” não escolhem outro candidato. “Alckmin é um político conservador, do estado mais populoso da federação, e é um político que tem uma base eleitoral no interior do estado de São Paulo. E o PT (Partido dos Trabalhadores) tem uma dificuldade grande no interior de São Paulo. Os pontos fortes de Alckmin são os pontos fracos do PT”, explica o analista.
Apesar de o antigo partido de Alckmin, o PSDB, se ter chegado muito à direita nos últimos anos, os analistas explicam que não foi sempre assim e que, nesse sentido, não existem diferenças ideológicas intransponíveis entre Lula da Silva e Geraldo Alckmin.
“Classificaria Alckmin como um democrata cristão ao estilo alemão, é um homem mais conservador, recatado. Parece aquele dono da farmácia da cidade pequena do interior, dá essa imagem, muito sóbrio. Faz sentido eleitoralmente e faz sentido para governar. Setores da classe média alta, empresarial, os media, todos têm uma certa desconfiança em relação a Lula. E Alckmin ajuda a combater essas resistências”, descreve Cláudio Gonçalves Couto.
De acordo com os analistas, mais do que vencer as eleições, Lula da Silva quer assegurar que o Brasil consegue ultrapassar a polarização dos últimos anos.
“Este governo de agora está a destruir muita coisa, do ponto de vista institucional, de políticas públicas, do ambiente político geral. Um governo pós-Bolsonaro tem de ser um governo de reconstrução. Ao ser moderado, [Lula] consegue um governo de reconstrução nacional”, analisa o cientista político.
É uma ideia reforçada por Luciana Veiga: “Não basta a Lula e ao PT ganhar. 20% do eleitorado brasileiro está com Bolsonaro, e é muito expressivo, muito barulhento, muito ativo. É muito importante que a vitória seja incisiva para passar este turbilhão. É preciso ganhar o centro”. Esta “chapa eleitoral” ainda por oficializar, entre Lula e Alckmin —”um nome super forte da social-democracia”, governador de São Paulo por quatro vezes —, “é um certificado de moderação”, resume a professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Joedson Alves/EPA
A coligação poderá ser reforçada se Geraldo Alckmin decidir filiar-se no Partido Socialista Brasileiro (PSB), um cenário que já começa a ser apontado como hipótese. “Se isso acontecer, você tem uma aliança” além do simbólico, frisa Luciana Veiga. Uma federação PT, PSB e PCdoB (Partido Comunista do Brasil). “Partidos que se unem numa federação, agem como um partido só. Vão ter de estar juntos, votar juntos durante quatro anos. É uma coesão e força muito grande”, explica a académica.
E se Bolsonaro não se candidatar?
Para os analistas brasileiros, as probabilidades de Jair Bolsonaro perder as eleições em 2022 são elevadas. “Perdeu enormemente o eleitorado com a posição em relação à pandemia. Continua negacionista. Acho muito difícil que ganhe, tem 60% de taxa de rejeição”, aponta Luciana Veiga.
“A pandemia explicitou todos os problemas que esse governo tem, desde a corrupção até à falta de empatia, completo desprezo pela vida das pessoas. Parecia que pouco se importava com as consequências que a pandemia trazia para o país e os brasileiros. É um político extremista, está sempre a ameaçar as instituições, com um comportamento que não é presidencial”, sublinha Cláudio Gonçalves Couto, chamando a atenção também para a elevada taxa de rejeição, entre os 50% e os 68%, indicada pelas sondagens.
Bolsonaro pode enfrentar acusações de homicídio em massa por má gestão da pandemia
Mas o consultor Vítor Oliveira lembra também que há “um caminho para que o favoritismo de Lula não se confirme” — o que se afigura altamente improvável.
É uma hipotése “pouco provável”, mas que, ainda assim, existe: a de Bolsonaro não se candidatar. “Pode fazer algum tipo de acordo, pressionado por investigações criminais que existem em cima dele, pela conduta na pandemia, pelas investigações sobre os seus filhos. Ele vendo que não há chance de ganhar, pode fazer um acordo de bastidores no sentido de não concorrer à presidência e buscar uma vaga no Senado. Especula-se, fala-se nos bastidores, mas o próprio Bolsonaro não admite. Caso isso ocorra temos uma boa perspetiva de mudança e não confirmação do favoritismo de Lula”, explica o analista da Pulso Público.
Joedson Alves/EPA
A hipótese de Sérgio Moro e as buscas a Ciro Gomes
Nesse cenário seria possível um fortalecimento do juiz Sérgio Moro (Podemos), que, por enquanto, tem apenas 9% das intenções de voto e, apesar de contar com a “simpatia de parte dos media e da elite empresarial”, “não é uma figura carismática nem bem vista por grande parte do eleitorado”, no entendimento de Vítor Oliveira.
Em quarto lugar nas preferências surge (7%) Ciro Gomes (PDT, Partido Democrático Trabalhista), que na semana passada foi alvo de buscas pela Polícia Federal. Em causa alegadas fraudes e pagamentos de subornos a agentes políticos e funcionários públicos.
O cientista político Cláudio Gonçalves Couto acredita que esta operação não vai inviabilizar a candidatura de Ciro Gomes, até porque “nunca chegou a ser concorrência” para Lula da Silva. “A candidatura já estava instável. Teve a pior estratégia possível: queimou pontes à esquerda e nunca as construiu à direita”, resume.
A quase um ano de distância da primeira volta das eleições, ainda não foram oficializadas as candidaturas, mas há já vários nomes em cima da mesa. Além de Lula, Bolsonaro, Moro e Ciro Gomes, deverão estar na corrida João Dória (PSDB), Simone Tebet (MDB, Movimento Democrático Brasileiro), Alessandro Vieira (Cidadania), Luiz Felipe D’Ávila (Partido Novo) e Rodrigo Pacheco (PSD).