Falou-se em Marcos Perestrello (que esteve mesmo em cima da mesa) e até houve rumores sobre João Maria Jonet (que se ficaram por aí), mas o PS vai à luta com o presidente da concelhia, João Ruivo, para tentar reconquistar a liderança da autarquia de Cascais que já escapa há 24 anos. Ainda assim, os resultados das últimas seis eleições autárquicas obrigam a pôr o pé no travão. Ganhar é a ambição, claro – nem um candidato do PS poderia assumir o contrário – mas é preciso “ter os pés assentes na terra”.
Sobre Nuno Piteira Lopes, candidato pela coligação PSD/CDS, João Ruivo deixa reparos, mas não deixa de mostrar gestos de fairplay em relação ao adversário. Por exemplo, concorda que a constituição de arguido não é condição suficiente para abandonar um cargo político – uma ideia também defendida pelo social-democrata, quando questionado sobre eventuais consequências futuras na investigação dos negócios da Câmara Municipal de Cascais para a construção do Hotel Hilton. Essa decisão, explica João Ruivo, cabe à consciência de cada um.
Também aposta na sobriedade quando o tema é a Quinta dos Ingleses, o elefante na sala que continua a causar incómodo perto da Praia de Carcavelos. O PS teria feito diferente, sim, mas não é para entrar em utopias. Reitera que se trata de um terreno privado e que, por isso, mesmo que o objetivo continue a ser lutar pela preservação do espaço, os interesses do dono têm de ser salvaguardados.
A estratégia do PS em Cascais parece passar por aqui: não por dizer mal ou criticar desenfreadamente, mas por apontar soluções ou alertar para casos em que as coisas podiam estar a correr melhor. A diferença pode parecer subtil, mas é significativa para perceber a postura de João Ruivo na campanha e nesta entrevista. É notório que faz por se afastar do tom que identifica noutras candidaturas, e refere mais do que uma vez a necessidade de ser “sério” ou “intelectualmente honesto” nesta corrida.
Para João Maria Jonet, candidato independente a Cascais, não há tanta complacência. O jovem consultor político chegou a confirmar contactos com o PS para um possível apoio à candidatura que acabou por levar em diante, mas com João Ruivo, presidente da concelhia e parte crucial na decisão, ninguém falou. E ainda bem, provoca o candidato. É que para ser presidente é preciso alguém “que tenha cá estado”.
“Partido Socialista continua a ser o maior partido em Cascais”
Começamos na Baía de Cascais, mas vamos falar do sítio por onde acabamos de passar: a Câmara Municipal. O que é que tem corrido mal nestes 24 anos, que mantém o PS afastado da liderança da autarquia?
Não há como escondê-lo, as propostas, quer de candidatos, quer de ideias, que o PS apresentou não têm sido as propostas que a população e que os eleitores têm escolhido. A saída de José Luís Judas [último Presidente da Câmara de Cascais socialista] deixou algumas marcas no início destes 24 anos. Na altura, gerou-se uma perceção não muito correta sobre aquilo que foi o mandato do PS na Câmara de Cascais. Mas essa perceção passou e durante os primeiros mandatos, as primeiras eleições, ainda havia um peso muito grande sobre aquilo que era a herança do José Luís Judas. Temos conseguido fazer uma oposição responsável e também existe com certeza algum mérito dos nossos adversários.
Mas não há o perigo de que esta tendência do PSD sempre em primeiro lugar se torne na realidade a que já estão todos habituados em Cascais? Ou seja, que o PS fique visto como partido eternamente da oposição?
Não julgo isso. O Partido Socialista continua a ser o maior partido em Cascais na maior parte das eleições. Tem ganho as legislativas, quando o PS ganha a nível nacional, tem ganho as eleições europeias no concelho. O eleitorado do concelho de Cascais não é claramente um eleitorado só de direita, como muita gente diz. Nas eleições locais, o projeto e as pessoas, que eram neste caso o António Capucho e o Carlos Carreiras, foram candidaturas que tiveram a aceitação da população. Mas isso não faz com que o PS, enquanto partido no Concelho, seja constantemente relegado para segundo lugar. Pelo contrário, tem sido mais vezes primeiro no conjunto de todas as eleições do que o PSD.
E o que é que explica essa diferença entre resultados?
Há uma explicação inicial, que é: o CDS em Cascais aportava muito, no início. No início desta coligação, o PS continuava a ser o maior partido em Cascais, mas o PSD e o CDS juntos tinham sempre mais votos que o PS. E conseguiram, com isso, consolidar uma ideia, uma maioria, uma coligação, que tem vindo ao longo dos anos a manter-se sólida. E isso tem feito com que o PS, sozinho, não tenha conseguido ainda destroná-la.
Estamos a chegar aqui ao primeiro ponto que nos indicou, a chamada Rotunda do Jumbo. E estamos perto do centro de saúde.
Escolhi este ponto para demonstrar aquilo que falta hoje: renovar Cascais. Nós estamos perante novas construções, muitos apartamentos. Estamos perante o CascaisVilla, que está a ser demolido, e esta zona, com as mesmas estradas de sempre, com todos estes apartamentos quando estiverem em carga, vai ser completamente intransitável. E essa é uma questão hoje importante. Toda a construção que está a ser feita, está a ser feita para o luxo, e o luxo procura o centro de Cascais, as zonas mais nobres. E sem nenhuma infraestrutura de apoio, não podemos continuar a trazer pessoas para o centro, a construir apartamentos no centro, e depois não ter nenhuma alternativa de infraestruturas. Aqui à esquerda é onde está a ser construído o centro de saúde de Cascais. O município tem substituído bem o Governo naquilo que é o apoio na construção de novas infraestruturas. Não seria intelectualmente honesto dizer que não fizeram nada. Fizeram: o centro de saúde de Carcavelos, o centro de saúde de Cascais, em termos de infraestruturas, estão a dar esse apoio e estão a cumprir. Mas a saúde depende em 70% de outros fatores que não o centro de saúde ou o hospital. O tratamento da doença representa 30% da nossa saúde, 40% depende da nossa situação socioeconómica. E 30% da nossa saúde depende dos nossos hábitos alimentares e dos nossos hábitos de atividade física. E aí a Câmara pode fazer alguma coisa e contribuir para a nossa saúde.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Não há varinha mágica para a saúde, no privado ou no público”
Cascais tem uma particularidade em relação a todos os outros concelhos do país, que é a PPP na saúde. Reconhece méritos a esta solução?
Aquilo que entendemos é que tem de existir uma fiscalização do caderno de encargos da PPP, tem de existir da parte do Estado uma fiscalização sobre aquilo que é o desenvolvimento da atividade da empresa privada que está a prestar um serviço ao Estado. Não somos contra a PPP. O Estado, na altura [em 2009], não tinha capacidade para a construção do hospital. Encontrou um parceiro privado que assegurou a construção do novo hospital e a gestão, são duas PPPs em simultâneo. E, funcionando bem, não temos nada contra.
E está a funcionar bem?
Nunca está bem. Nesta área não há nenhuma varinha mágica para que funcione, seja privado, seja público. Aliás, o atual administrador do hospital de Cascais já foi administrador de um hospital público em Portugal. Portanto, a pessoa é a mesma. Não ganhou qualidades, nem perdeu qualidades, deixando de ser um gestor público passando a ser um gestor privado.
O Governo tentou arranjar uma solução para as pessoas em Cascais que não têm médico de família e ficou aquém desse objetivo. Chegou a cerca de mil pessoas, salvo erro. O que é que uma autarquia liderada pelo PS pode fazer para mudar isso, para chegar a quem ainda não tem médico de família?
Em Cascais já existe um projeto, que é o projeto “Bata Branca”, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia, que está a tentar assegurar médicos de família ou consultas a quem não tem médico de família. E nós entendemos que o que precisamos de fazer neste momento é levar a saúde às pessoas. Porque é óbvio que se não há médicos de saúde pública, se não há médicos para médico de família, essa solução milagrosa que o Governo decidiu apresentar estava destinada ao insucesso, ao fracasso. Porque não é por ser privado ou por ser público que os médicos vão aparecer. A nossa proposta passa por ter unidades móveis de saúde que se desloquem às pessoas, e não pessoas que têm que se deslocar aos centros de saúde. Nomeadamente os mais idosos, com dificuldades de mobilidade, com dificuldades de transporte. Alargar esta unidade do “Bata Branca”, por exemplo, também para unidades móveis de saúde em que seja o médico e o enfermeiro que se desloquem aos pontos, aos bairros, às aldeias mais distantes. Essa é uma das principais propostas que acho que vai resolver um problema de horas e horas em que as pessoas passam à espera de uma consulta.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Imagine circular de Cascais a Oeiras sem ter de ir à A5”
Passamos para o tema da mobilidade. Estamos a fazer uma das longitudinais. Este caminho que aqui fazemos é uma boa alternativa à A5?
Esta longitudinal [norte] está projetada para ir até ao TagusPark. Imagine o que é poder circular de Cascais até Oeiras numa via 2×2 sem ter de ir para a A5. É uma alternativa muito importante porque melhora a mobilidade das pessoas que aqui andam e que a vão utilizar, mas também melhora a mobilidade das pessoas que estão paradas na A5, porque estamos a retirar também carros da A5 e estamos a tirar carros das áreas residenciais. A Câmara está a potenciar vias residenciais como alternativa às vias que já estão muito congestionadas. E, portanto, hoje em dia temos as crianças a não poderem andar na rua e nos bairros porque têm muito trânsito.
Mas nesta altura, quem quer ir trabalhar a Lisboa, e sabemos que é o caso de muita gente em Cascais, ainda não consegue usar esta estrada como uma alternativa mais rápida.
Há uns anos, sim, quem conhecia, que eram poucos, utilizava esta estrada. Ela foi passando a ficar conhecida. O truque perdeu-se e hoje já está também congestionada a horas de ponta em que a fila daquela rotunda ultrapassa o sítio onde nós estamos agora, que são centenas de metros de fila.
Então, o que é que propõe em concreto para facilitar a mobilidade interna aqui em Cascais?
Nós propomos construir as longitudinais. O espaço canal existe, o traçado está pensado se calhar há 30 anos, é executá-la. Houve momentos em que se calhar não havia uma disponibilidade financeira para fazer uma obra daquela dimensão, mas hoje há. O saldo de gerência do município de Cascais foi de 96 milhões. Foi o dinheiro que o município não conseguiu investir, gastar dos impostos que recebeu.
Enquanto não chegamos à próxima paragem, que será a área industrial de Trajouce, vamos passar pelo cemitério.
Perto de onde existe espaço para fazer a construção de um plano de habitação em condições. Naturalmente que a zona de Cascais está mais congestionada junto ao mar, e se nós queremos fazer projetos de expansão ou projetos de desenvolvimento, Alcabideche, São Domingos de Rana, são zonas que têm que ser mais estruturadas, têm que ser pensadas. Eu tenho um filho com 27 anos que está com imensas dificuldades em conseguir sair de casa porque não quer sair de Cascais. Nasceu em Cascais, gosta de Cascais e não encontra em Cascais capacidade com a idade que tem para começar o seu projeto de vida com a sua namorada porque a habitação não é acessível. Numa busca que fizemos no outro dia, o T2 mais barato em todo o concelho de Cascais era 1200€ de renda. Não é possível um jovem casal juntar-se e começar a pagar 1200€ de renda.
E a solução para isso seria um plano de rendas controladas para os jovens?
Exatamente. Propomos um plano de construção de habitação. Não há uma solução única, tem que existir várias soluções a convergir para o mesmo objetivo. Apoiar as corporativas a desenvolverem as suas casas, ser o município a construir para arrendar a custos justos que as pessoas consigam pagar, o município a fazer parcerias com privados… Há diversos modelos que têm todos de convergir. Das contas que fizemos pelo menos 4000 fogos vamos num primeiro mandato conseguir pôr à disposição quer da classe média quer dos jovens porque mesmo a classe média, um casal de professores do ensino secundário em Cascais não consegue comprar uma casa.
Uma coisa que se nota do início da viagem para agora, ou seja, entre a zona do mar e esta zona mais interior do concelho, são as desigualdades. No mínimo, o luxo das casas é bastante diferente e isso também se há de refletir no perfil socioeconómico das pessoas que cá vivem. O que é que o PS propõe para combater essas desigualdades e para que Cascais não seja um concelho a correr em velocidades diferentes?
Há um fator que concorre imediatamente para essa melhoria e que depende exclusivamente da Câmara, que é a melhoria do espaço público. A qualidade que nós colocamos nas infraestruturas públicas, a qualidade que nós colocamos nos parques e jardins, a atenção que nós damos, concorre diretamente para isso. Como eu dizia há pouco, um bocado de alcatrão que substitui o passeio pintado vermelho não é uma ciclovia. Uma ciclovia é uma coisa diferente e uma ciclovia não é para ser colocada numa zona industrial. Se a Câmara contribuir para o espaço público nestas zonas, vai fazer com que as pessoas também tenham gosto em melhorar as suas habitações privadas e tudo isto vai crescer. Depois, também temos de pensar nas grandes infraestruturas municipais. Estão todas junto ao mar e durante 24 anos esta maioria não construiu um pavilhão desportivo nesta zona, não construiu uma biblioteca nesta zona. Não há nada, não há incentivo para melhorar aquilo que é o acesso à cultura, por exemplo, nestas freguesias. E estamos a falar de 24 anos, temos orçamentos disponíveis suficientes para conseguir proporcionar tudo isso.
Deixe-me interrompê-lo para aproveitar para perguntar a que papel é que o PS se propõe para este novo mandato? Isto porque já o ouvi dizer, quando apresentou a candidatura, que a vitória no dia 12 de outubro talvez não fosse o cenário mais provável ou mais realista. Como é que se vê a partir do dia das eleições? Como vereador?
Não foi bem isso que eu disse. O que eu disse nessa entrevista que dei foi: se eu, ao fim de 24 anos da oposição, num momento em que há uma maioria absoluta na Câmara, eu viesse dizer que vamos ganhar, ninguém me levava a sério. Há que ser coerente, é um desafio difícil, é um combate político duro, e não é de caras. Há que ter os pés assentes na terra. Nós estamos a trabalhar para ganhar, e não tenho outro cenário na cabeça, porque ao fim de todos estes anos existe um cansaço, uma falta de ideias, uma falta de capacidade de inovar, de fazer diferente, de pensar o território de forma diferente, porque são muitos anos as mesmas pessoas a pensar exatamente o mesmo, e é preciso uma mudança. E isso sente-se todos os dias na rua, eu sinto que existe uma vontade de mudança, que existe uma vontade de haver um novo sentido em Cascais. O PS tem demonstrado nos últimos anos da oposição que faz parte da solução, que está para construir, consegue olhar e perceber o que está bem feito e elogiar, consegue criticar e apresentar alternativas. Depois das eleições, não sei que configuração é que existirá, mas nós temos que fazer parte da solução.
Jonet? “Não lhe conheço nenhuma ideia sobre Cascais”
E pensando então nesse cenário. Houve ou não conversas entre o PS e João Maria Jonet para o apoio a uma candidatura independente? E no dia a seguir às eleições, Jonet seria um nome com quem estaria disposto a falar, a quem ofereceria um cargo de vereação?
Comigo, enquanto presidente do PS Cascais, ninguém falou. Comigo, o João Maria Jonet não falou. Não sei se falou com alguém do PS, não há ninguém do PS que me tenha dito que ele lhe falou. Aquilo que eu sei, é: comigo, isso nunca foi um assunto, e acho estranho, porque o João Maria Jonet era militante do PSD.
Entretanto, já não é.
Sim, entretanto já não é, mas…
Mas então não há nenhuma realidade alternativa em que João Maria Jonet pudesse ser um candidato independente apoiado pelo PS?
Isso nunca foi um assunto, nunca foi nada que me passasse pela cabeça. Vamos ver, Cascais tem complexidades, tem uma história, tem problemas, tem soluções, tem muita gente. E ser presidente de uma Câmara Municipal, que tem neste momento mais de 500 milhões de orçamento… é preciso ter alguém que conheça bem aquilo que é a Câmara, que conheça bem o território, que conheça bem os problemas, e tem de ser alguém que tenha cá estado. Eu estou cá desde 2001, enquanto autarca. Estive nas Assembleias de Freguesia de Cascais, estive na Assembleia de Freguesia de Alcabideche, estive como vereador, tenho estado como deputado municipal, e mesmo assim não sei tudo, como é óbvio. E para me propor a presidente de Câmara, tenho de ter consciência, se tenho ou não capacidade e conhecimento para o poder fazer. Não estou a dizer que o João Maria Jonet não tem, não o conheço, nunca falei com ele, não sei se tem. Mas nunca percebi que tivesse. Nunca poderia, eu enquanto presidente do partido, propor um candidato à Câmara independente, que eu nunca conheci, não lhe conheço nenhum pensamento político sobre Cascais, nenhuma ideia sobre Cascais nos últimos anos, portanto isto nunca se poderia ter passado naquela altura.
E então também não sabe dizer, nesta altura, se é alguém com quem estaria disposto a trabalhar para uma solução de estabilidade.
A política tem de ser feita com soluções, ideias, projetos e propostas. E eu tenho ideias, projetos e propostas, e se alguém tiver ideias, projetos e propostas melhores que os meus, ou que eu não me tenha lembrado e que até concordo, não há nenhuma vergonha em copiar uma coisa que está bem feita, não há nenhuma vergonha em receber contributos para melhorar as nossas ideias, e toda a gente que esteja nesse caminho e nessa posição será bem-vinda.
E pegando nessa ideia, nesta campanha há dois candidatos que vêm do espaço político do Chega. O candidato do Chega [João Rodrigues dos Santos] e António Pinto Pereira, que vem desse universo, mas que não foi apoiado pelo partido. Isso, como estava agora a dizer, também se aplica a estes candidatos? Na política autárquica há espaço para linhas vermelhas?
Com certeza que há. Há ideias, há propostas, há pensamentos políticos que para mim são linhas vermelhas que eu não ultrapasso. Cada um tem o seu estilo, uns têm uma forma, outros têm outra. Uns mais agressivos, uns mais incisivos, uns mais vocais. Há estilos. Não é isso que define a política. As políticas, as ideias, são uma coisa diferente. Eu tenho visto algumas críticas fáceis, algumas críticas com que também concordo, naturalmente, mas não tenho visto quais são as soluções concretas para esses problemas. Eu não consigo avaliar esses candidatos porque, sem ter uma solução, não me basta estar na crítica, não me basta estar a dizer mal. É preciso dizer como é que eu faria diferente, como é que eu faria melhor.
Então, exclui conversas com candidatos que venham deste espaço político?
O Partido Socialista emitiu um documento nacional sobre qual é que deve ser a conduta de todos os candidatos a nível nacional, com o qual eu me revejo na íntegra. Está lá escrito que não nos coligamos com partidos, com propostas xenófobas, com propostas racistas, com propostas dessa índole. A adivinhar por aquilo que tem sido a história e tem sido a posição desse partido e dessa área política no passado recente, eu diria que sim, provavelmente eu vou meter uma linha vermelha, porque se as propostas forem aquelas que costumam ser, eu não vou concordar com elas, eu não vou querer estar com pessoas e políticos que defendem esse tipo de políticas, com as quais discordo profundamente. Agora, ainda não as conheço, portanto, não posso dizer isso.
Quinta dos Ingleses? “Não posso ser utópico e dizer que isto é um jardim”
Passamos aqui perto da Quinta dos Ingleses, um terreno muito polémico, para além de tudo o que envolve a venda de terrenos para construir o Hotel Hilton. Assim que iniciar o mandato, qual é a primeira medida que vai ter em relação à Quinta dos Ingleses? Sei que o PS defende a preservação deste espaço, mas como é que isso se garante?
O Estado, a Câmara, tem de ser uma pessoa de bem, e o PS, como partido fundador da democracia, não defende outra coisa: defende que o Estado é uma pessoa de bem, é uma pessoa de palavra. Nós estamos num momento eleitoral em que o PS está a propor a captação de investidores novos, a fixação de empresas com mão de obra qualificada para Cascais. O município que quer fazer essa captação e quer trazer essas empresas tem de se apresentar como alguém sério, porque alguém que compra um terreno, como foi aqui neste caso, alguém que compra um terreno com um projeto aprovado já, de construção, tem de conseguir desenvolver aquilo que foi o seu projeto, as suas legítimas expectativas, e nós temos de saber respeitar isso. Nós, se fôssemos Câmara, teríamos conseguido desenvolver um projeto diferente que não fosse tão danoso para este território, mas não posso ser utópico e dizer que isto é um jardim. Isto é privado, isto não é municipal, isto tem um dono. Eu tenho de negociar com o dono aquilo que quero ou não quero fazer aqui – compro isto e pago tudo aquilo que tenho de pagar ao promotor? É utópico. O esforço de investimento e aquilo que íamos deixar de fazer noutras áreas de Cascais era demasiado para esse esforço. Mas teríamos conseguido, se calhar, diminuir a altura das construções, conseguir encontrar uma negociação com o promotor que o fizesse. Esse não foi o entendimento e nós, a partir de agora, temos de fazer com que se consiga melhorar tudo aquilo que ainda se consiga melhorar na perspetiva de preservar mais espaço verde, preservar o uso do espaço público, o acesso à praia, ao estacionamento. Mas também existe muita desinformação sobre aquilo que é este projeto.
Está a falar da questão do Hotel Hilton?
Sim. A questão do Hotel Hilton ou a questão do Plano Pormenor do El Corte Inglês, de que não tenho ouvido falar, num local onde a Câmara comprou por 18 milhões, mas podia ter comprado por 8 milhões. É um escândalo que lesou Cascais em 10 milhões. No caso do Hilton, é uma questão diferente, é uma questão em que existe um terreno encaixado, que era natural que o município o pudesse vender. Agora, a forma como foi feito é que lança muitas dúvidas, naturalmente.
É o preço?
É o preço. Estamos a falar num contrato de promessa, compra e venda com 10 anos. Quando os 300 mil euros foram colocados em cima da mesa, era o preço certo na época. Na época em que o contrato de promessa, compra e venda foi feito, os 300 mil euros era o preço correto para aquele terreno que não tem capacidade especial de construção. Agora, o problema foi conseguir que esse contrato de promessa, compra e venda fosse cumprido e fosse o mesmo contrato de promessa, compra e venda ao fim de mais de 10 anos pelo mesmo preço. Devia ter sido atualizado o preço e então vendido. Não é ir buscar o preço de lá atrás, onde já se tinha falado sobre a venda deste terreno que não foi concretizado e depois mais tarde é concretizado com uma transferência de direitos entre empresas e aí está algo que eu não consigo compreender.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Era óbvio que o PSD se revia em Pinto Luz para candidato”
Nuno Piteira Lopes (candidato pela coligação PSD/CDS) frisou que se neste caso do hotel Hilton fosse constituído arguido, não havia razão para pôr o lugar à disposição. Também vê as coisas assim?
Nesse ponto, não pode haver dúvidas. A constituição de arguido não significa nada. Nós políticos não podemos estar sujeitos a que alguém faça uma denúncia, e através dessa denúncia que o denunciado seja constituído erguido para haver uma investigação, e isso leve a que essa pessoa fique inibida de poder prosseguir com a sua carreira política.
Vem aí um “mas”.
Claro. O próprio é que tem que perceber, quando tem acesso à prova que lhe é apresentada, que tem acesso aos factos que lhe são apresentados no momento da constituição de arguido, se aquilo tem pernas para andar, se isso vai gerar problemas, e sair. Se eu cometer uma ilegalidade e for condenado por isso, se eu olhar e perceber que vou ser condenado porque cometi consciente ou inconscientemente – não interessa – eu tenho de sair. Se eu perceber que estou a ser alvo de uma denúncia anónima, de uma tentativa de ataque rasteiro, não tenho de sair. O facto de ser arguido não deve per si significar a saída de uma corrida política, porque senão era fácil: faço queixas ao Ministério Público anónimas de todos os meus concorrentes, são todos constituídos arguidos e só sobro eu, ganho por falta de comparência.
Nuno Piteira Lopes é o seu grande adversário nesta corrida.
Certo.
Esperava que fosse Piteira Lopes a avançar? Houve sempre a perceção de que seria Miguel Pinto Luz o “herdeiro” de Carlos Carreiras.
Se me fizesse a pergunta há dois anos, ou há três… sim. Naturalmente [Pinto Luz] era o vice-presidente, e era quem estava a tomar as rédeas de alguns assuntos, portanto seria, dentro daquilo que é o PSD, o sucessor natural. O dr. Nuno Piteira Lopes, pessoa que eu conheço, não vejo com surpresa que seja ele o candidato, porque é alguém que também sempre esteve na equipa. O que é uma coisa boa, mas também pode trazer coisas más.
Por exemplo?
É verdade que conhece muito, naturalmente, está há 20 anos na Câmara, todos esses anos também lhe podem trazer alguma incapacidade de abrir, de ver fora, de ver mais longe, porque está há demasiado tempo a olhar para o micro, a olhar para a mesma coisa, e não ter a capacidade de abrir horizontes, e trazer para Cascais outra visão, um refrescamento que é necessário e que é urgente para o município.
Não há um sucessor designado, mas o facto de Miguel Pinto Luz ser até há pouco tempo visto como esse sucessor natural de Carlos Carreiras, faz de Piteira Lopes uma pessoa menos preparada, porque até há bem pouco tempo não esperava avançar para a corrida?
Não longe disso. Os partidos políticos, em cada eleição, tentam encontrar quem melhor preparado está para poder encabeçar as listas do partido, e com disponibilidade. Quem esteja disponível e bem preparado. E era natural, era óbvio que o PSD em Cascais, se revia também no Miguel Pinto Luz na altura, para ser ele o próximo indicado pelo partido e pela estrutura para ser candidato. Mas a estrutura também sempre foi dando sinais de que também tinha confiança em Piteira Lopes. Naturalmente que são dois jovens da mesma geração, cresceram juntos dentro do partido, portanto não sendo um, sendo o outro, é perfeitamente natural.
Não vê Piteira Lopes como uma solução de recurso?
Não quero, não vou de forma alguma catalogar um adversário político dessa forma, até porque não é justa.
“Marcos Perestrello foi ponderado para ser o candidato”
Estamos agora a passar pela Parede. Houve uma altura em que se falava do nome de Marcos Perestrello para candidato do PS. O João Ruivo quis avançar ou esperou que Perestrello saísse da corrida?
Não, pelo contrário. Eu sou o presidente do partido também em Cascais. Fui eu que liderei sempre todo este processo da escolha de candidato à Câmara e os candidatos às Juntas. Tocava ao partido fazer essas escolhas. Como lhe dizia há pouco, é preciso encontrar um candidato que tenha qualidades, características, capacidades para poder encabeçar as listas. Na altura da escolha, naturalmente, são colocados em cima da mesa, um, dois, três nomes, aqueles que se conseguirem.
E Marcos Perestrello foi um desses nomes?
Marcos Perestrello é alguém que mora em Cascais há muito tempo, mora aqui na freguesia da Parede. É alguém com uma experiência política larguíssima. É alguém que, sendo de Cascais, conhecendo Cascais, conhecendo os problemas de Cascais, tendo experiência política, tendo experiência autárquica, sim, foi ponderado e considerado para ser o candidato à Câmara. É verdade. Eu, no meu caso, tenho um percurso político diferente, porque, como lhe disse, sou autarca desde 2001, licenciei-me em Gestão Autárquica, exatamente porque é uma área em que sempre tive muito interesse. Sou militante em Cascais do PS há 31 anos, sou autarca há 24, há muitos anos que penso em Cascais. E, portanto, foi a solução que os militantes de Cascais e o PS entenderam ser a melhor para a Câmara.
E quer dizer quem eram os outros nomes que estavam a ser pensados? Não. Em dois ou três?
Não, não vou fazer uma indelicadeza dessas. Muitas deles nem sabem que, se calhar, os nomes estavam a ser pensados.
Estamos a chegar ao fim da viagem, a caminho da Praia de Carcavelos.
E aqui estamos a passar no centro de Carcavelos, que perdeu a pujança do comércio local, e que deveria ganhar de volta. Devíamos conseguir voltar a ter aqui uma economia local a funcionar, o comércio local em Cascais é o que mais tem sofrido.
Vê a economia em Cascais demasiado virada para o turismo? Que setores é que gostava de atrair?
Há uma questão importante: o urbanismo tem de deixar de ser o pilar mais importante em Cascais, a economia tem de passar a ser o pilar mais importante. Nada contra o urbanismo, mas vai-se construir se a economia assim o ditar. Neste momento o orçamento municipal está assente exclusivamente em IMI e IMT. Isso é um problema porque qualquer empresa, qualquer instituição, que tem a sua receita a vir apenas de um setor, estará fragilizada se esse setor tiver uma quebra. Das 10 ruas mais caras do país, 5 estão em Cascais. E porquê? Porque também existe uma vontade deste executivo de aumentar o valor do metro quadrado, porque estão altamente dependentes daquilo que é o IMI e o IMT, e dessa receita. Temos de diversificar a receita e a economia tem que passar por manter o turismo, com certeza, mas o turismo de Cascais está a passar por problemas. Neste momento estamos com 10% de decréscimo em termos homólogos ao ano passado dos nossos hotéis. A economia tem de florescer em Cascais, tem que ganhar um outro ânimo. Não tem de ser uma inevitabilidade sair de Cascais para viver e para trabalhar. Não pode ser uma inevitabilidade.
E há algum setor em específico que gostava de ver mais representado em Cascais?
Nós temos de olhar para o potencial que temos e tentar explorá-lo. Cascais é o único concelho em Portugal que tem em simultâneo um Aeródromo, um Autódromo e uma Marina. Mas eles não falam entre eles. Aquilo que nós pretendemos é criar um cluster ligado ao motor. O aeródromo, o autódromo e a marina têm equipamentos que em comum têm um motor. E conseguir trazer desenvolvimento e investigação na área da motorização é essencial e nós temos condições para os atrair. Porque temos um local lindo, uma costa magnífica, onde as pessoas se sentem confortáveis a morar. Engenheiros que queiram vir para cá têm sítio para morar. Têm um sítio onde podem fazer os testes dos novos protótipos, dos novos modelos. E conseguimos fixar aqui todo esse conhecimento e dar um novo ânimo à economia de Cascais. E depois, também, a parte do que é a indústria verde, indústrias tecnológicas, onde nós conseguimos atrair o talento. Se já conseguimos atrair muitos nómadas digitais que encontram em Cascais condições de vida e de lazer para cá ficar, mais rapidamente conseguimos atrair empresas que também têm o mesmo tipo de profissão, o mesmo tipo de investigação, cá se conseguem fixar e cá conseguem construir os seus negócios.