“Dedicada”, “ambiciosa” e “querida”. A história de Catarina Sequeira, a mãe que deu à luz em morte cerebral /premium

28 Março 20193.400

A jovem de 26 anos estava grávida de 19 semanas quando entrou em morte cerebral, em dezembro. O bebé nasceu esta quinta-feira. Os amigos ainda esperavam que acordasse durante o parto.

Rafael Moreira conhece Catarina Sequeira desde os 4 anos. Cresceram juntos, desde o infantário em Crestuma, terra-natal de ambos, à escola do Olival, onde completaram o 9º ano. “Éramos mesmo muito próximos um do outro, sempre nos demos muito bem. Fizemos um percurso juntos e posso dizer que era a minha amiga mais chegada”, conta.

Essa amizade acabaria por ganhar raízes mais profundas através do desporto. Foi com Rafael, aos 11 anos, que Catarina se aventurou na canoagem, no Clube Náutico de Crestuma, acabando por dar nas vistas e arrecadar vários prémios e 41 medalhas. “A Catarina era uma rapariga ambiciosa, com grandes objetivos, e sempre conseguiu conquistá-los, tanto na sua vida pessoal como na vida desportiva. Sempre foi uma pessoa muito bem sucedida. Aliás, os resultados que ela obteve foram alcançados com grande mérito e dentro nas perspetivas que ela queria”, explica o amigo de longa data.

O relato é feito em entrevista ao Observador numa semana que, para amigos e família, foi um misto de emoções. Esta quinta-feira, Catarina Sequeira foi mãe, pela primeira vez, de um rapaz. A jovem estava, porém, em morte cerebral desde dezembro, sem que houvesse qualquer possibilidade de reverter esse estado. Aconteceu alguns dias antes do Natal, na sequência de um ataque de asma agudo. Catarina estava grávida de 19 semanas e os médicos mantiveram-na viva para permitir o desenvolvimento do bebé até a um ponto da gravidez em que fosse possível fazer o parto, de cesariana — que chegou a estar marcado apenas para sexta-feira, mas acabou por ser antecipado um dia. “A malta ficou toda incrédula, ninguém estava à espera. É um sentimento de choque e injustiça muito grande”, conta Rafael Moreira.

Salvador nasceu no Hospital de São João. Partilha o nome com Lourenço Salvador, o bebé que em 2016 nasceu no Hospital S. José, em Lisboa, também de uma mãe em morte cerebral.

Percurso na canoagem começou aos 11 anos

“Querida, simpática e sociável” são alguns adjetivos que Rafael Moreira usa para descrever Catarina, alguém que “dava-se bem com toda a gente e que nunca teve inimigos”. Dos oito irmãos da antiga atleta de canoagem, Rafael Moreira tem uma relação próxima com o irmão gémeo, António, e era graças a ele que acabava por conviver mais com Catarina. No verão, eram raros os dias em que não estavam juntos. “A nossa infância foi muito vivida junto ao rio Douro, no verão estávamos praticamente todos os dias juntos, na canoagem, na escola ou noutro sítio qualquer. Vivíamos a três quilómetros de distância um do outro, por isso era fácil. Tínhamos uma amizade normal, mas bastante próxima.”

No Clube Náutico de Crestuma, José Cunha, antigo treinador da jovem, deparou-se com “uma miúda frágil, com uma compleição física que não fazia adivinhar grande sucesso”. Mas a dedicação e o trabalho levaram-na longe, tendo representado a seleção portuguesa na especialidade de maratonas. Esse caminho, pela maratona, foi uma segunda hipótese para Catarina Sequeira, que pretendia chegar aos Jogos Olímpicos. “É o sonho de todos os jovens atletas de canoagem”, explica José Cunha. Acabou por conseguir participar num campeonato europeu. Ao todo, conquistou 41 medalhas, segundo a contagem feita pela Federação Portuguesa de Canoagem.

Do Náutico de Crestuma, a atleta passaria, depois, para o Douro Canoa Clube, que ajudou a fundar, em 2010, com outros os colegas e amigos, depois de algumas divergências que incluíram José Cunha. O treinador fez o mesmo. “Eu achei que me devia de me dedicar mais ao treino e continuar só como treinador, deixar de ser dirigente, para acompanhar aos jovens. Houve eleições no clube, chegaram à conclusão que tinham que mudar de treinador e os miúdos não admitiram isso”. Catarina foi uma das líderes dessa mudança.

Canoagem era o abrigo de uma infância difícil em Crestuma

O caminho quase nunca foi fácil. Parte de uma família de nove irmãos, Catarina Sequeira cresceu no Bairro da Marroca, em Crestuma, Vila Nova de Gaia.  “A infância dela não foi nada fácil. Pelo contrário, foi muito difícil. Aliás, o clube era a segunda família dela e que a protegia”, conta o antigo treinador.

A vida desportiva era, também por isso, vivida com muita intensidade por uma jovem descrita como “muito extrovertida”. No clube, a atleta não encontrava apenas o ritmo frenético dos treinos de canoagem, diários e, muitas vezes, bi-diários. Ali também procurava apoio, sempre que precisava: “Quando era preciso um médico, era ao clube que se recorria, porque tinha uma rede que conseguia responder a essas situações”, diz José Cunha.

Não o fazia sozinha: entre os seus oito irmãos, tinha um gémeo, António, também atleta do Náutico de Crestuma, de quem era inseparável. “Eles passavam a vida no clube. O que um fazia, o outro também fazia”. Dessa relação entre os dois, o treinador lembra o carinho, mas também a mesma ligação àquela estrutura. “Eles passaram ali a juventude” e sempre se sentiram bem ao fazer parte de “um núcleo que agrega as pessoas”, sobretudo tendo em conta que “o pilar familiar falhou um bocadinho”. “Foram as circunstâncias, não atribuo culpas a ninguém”, explica José Cunha

Os outros irmãos de Catarina Sequeira também passaram por lá, mas foi “uma passagem muito breve”. Desses tempos, José Cunha ficou com um contacto mais próximo com António.

“A infância dela não foi nada fácil. Pelo contrário, foi muito difícil. Aliás, o clube era a segunda família dela, e que a protegia. Tinha um irmão gémeo, acompanhei-os desde muito cedo. Eles passavam a vida no clube e eram inseparáveis. O que um fazia, o outro também fazia."
José Cunha, treinador de canoagem

Como exemplo das amizades que se criaram ao longo dos anos na canoagem, o treinador refere a vinda ao Porto de um amigo de Catarina, que treinou com ela, e que já veio de França duas vezes desde que a jovem está internada no hospital. “Eles criam laços. É amigo da Catarina e também tinha os mesmos problemas de pertencer a uma família disfuncional. O clube, no fundo, atrai isso, porque é lá que eles sentem algum conforto, algum reconhecimento, alguma valorização pessoal, sentem que são como os outros”. José Cunha admira o que diz ser “gente muito humilde, que teve muitos problemas de infância, que não tem uma condição económica muito boa, mas têm os sentimentos muito fortes, foram ali criados. Noutros estratos sociais isso não acontece. As pessoas tratam da sua vida e lamentam muito e fazem telefonemas, mas eles não, eles estão presentes”.

O trabalho pôs um ponto final na canoagem. Depois veio a gravidez

Enquanto os irmãos tiveram dificuldades na escola, Catarina Sequeira concluiu o 12º ano. José Cunha conta que tanto a jovem como o irmão gémeo tinham boas notas e essa era uma exigência, até porque “o desporto sem uma formação académica não vale nada, e numa modalidade que em termos financeiros também não dá nada. A carreira desportiva funciona enquanto eles estudam, depois com a vida profissional é difícil continuar”. Foi isso que aconteceu com Catarina. Começou a trabalhar em 2014 e ainda tentou conciliar os dias num call center com a canoagem, com a ajuda do treinador que a ia buscar para garantir que fazia os treinos, mas a ligação acabou por perder-se.

Catarina despediu-se em 2014 da canoagem, dedicando-se à sua atividade profissional como secretária. Neste momento estaria a trabalhar em Oliveira do Douro. @DR

O amigo Rafael Moreira, que, na mesma altura, seguiu para a faculdade, conta que a jovem estava agora a trabalhar como secretária numa empresa do ramo automóvel, em Oliveira do Douro. Talvez também por essa diferença de rumos, Rafael manteve um contacto mais próximo com o irmão gémeo de Catarina, António. Foi ele, aliás, quem lhe deu a notícia de que a irmã estava à espera do primeiro filho. “Na altura, ela juntou-se ao namorado e, por isso, já não a via há muito tempo, mas é óbvio que fiquei muito contente.” Segundo Rafael, Catarina namorava com Bruno, o pai de Salvador, “há mais de cinco anos” e acredita que o primeiro filho foi desejado. “Creio que tenha sido uma gravidez planeada, tanto a Catarina como o Bruno já tinham a vida deles bem definida e de certeza que era aquilo que eles queriam.”

“Quando ele falou comigo, estava bastante abalado. Contou-me que estava sozinho com ela em casa, ela começou a sentir-se mal, com falta de ar, e depois entrou em coma. O António apercebeu-se de tudo o que estava acontecer, chamou logo a ambulância e foi com ela o mais rapidamente possível para o hospital."
Rafael Moreira, amigo

Agora, lamenta não ter visto a amiga grávida. A última vez que estiveram juntos foi no aniversário da jovem, em setembro. Meses depois, a 20 de dezembro, chegou a notícia: foi novamente o irmão gémeo de Catarina quem contou Rafael do estado de saúde grave da amiga. Na sequência de um ataque agudo de asma, tinha perdido os sentidos e estava internada. “Quando ele [António] falou comigo, estava bastante abalado. Contou-me que estava sozinho com ela em casa, ela começou a sentir-se mal, com falta de ar, e depois entrou em coma. O António apercebeu-se de tudo o que estava acontecer, chamou logo a ambulância e foi com ela o mais rapidamente possível para o hospital”, descreve o jovem.

José Cunha que treinou Catarina na canoagem, confirma que era o irmão gémeo que estava com Catarina naquele momento. “Sei que ela estava em casa, num dia à tarde, e, por coincidência, estava lá o irmão gémeo que tinha ido pela primeira vez à nova casa dela”. O treinador pensa que, por esse fator, terá havido dificuldades em conseguir que o socorro chegasse rapidamente: “O irmão não conhecia a rua, não sabia a morada porque não percebeu bem a localização. O tempo foi demasiado. Ela estaria no quarto de banho quando lhe deu o ataque”.

Choque e revolta entre os amigos

O problema da asma não era novo — Catarina Sequeira tinha a doença diagnosticada desde criança. Rafael Moreira garante que, mesmo nesses primeiros anos, sempre foi muito cuidadosa. “Ela era asmática, mas tinha os cuidados todos, nunca falhou com isso. Além disso, nunca teve problemas de saúde ou coisas alarmantes. A asma não é algo grave, é uma coisa que qualquer pessoa pode ter e ele sempre soube lidar com isso e nunca teve problemas maiores. Era uma pessoa completamente saudável, mesmo depois de ter deixado a canoagem, em 2014, era uma rapariga regrada, comia bem, gostava de fazer exercício físico, claro que depois da gravidez passou a ter mais cuidado.

Para a família e amigos, o processo continua a ser “muito doloroso”. “Era uma rapariga jovem, que estava a construir a vida dela. A família e o namorado estão todos abalados e até hoje o sofrimento ainda dura. Ninguém estava à espera de uma situação destas, principalmente pela pessoa que ela era. Toda a gente a conhecia como uma pessoa muito forte e muito alegre”, recorda. Dos amigos que têm em comum, o sentimento de choque e injustiça prevalece em nas conversas. “A malta ficou toda incrédula, ninguém estava à espera. É um sentimento de choque e injustiça muito grandes.”

“Quando lá cheguei, senti pena, porque é injusto, completamente injusto. A vida prega-nos partidas e é injusta a partida que a vida pregou à Catarina. Eu tenho esperança que ela vai ter o bebé na sexta feira e que vá acordar. Podem-me dizer que não, mas é a minha esperança e ninguém me tira”.
Rafael Moreira, amigo, numa entrevista ao Observador quando o parto estava previsto apenas para sexta-feira

O amigo não queria “ver a Catarina naquele estado”, mas mesmo assim foi visitá-la ao hospital de Vila Nova de Gaia uma vez, não sabe precisar quando. “Quando lá cheguei, senti pena, porque é injusto, completamente injusto. A vida prega-nos partidas e é injusta a partida que a vida pregou à Catarina.” A esperança de ainda poder ver um quadro clínico diferente “nunca morre”. Na terça-feira, quando ainda faltavam três dias para a data marcada para o parto, o amigo mantinha isso mesmo: “Eu tenho esperança que ela vai ter o bebé na sexta feira e que vá acordar. Podem-me dizer que não mas é a minha esperança e ninguém me tira”. O parto acabou por ser antecipado para esta quinta-feira. O funeral de Catarina Sequeira deverá acontecer já na sexta.

Segundo a Federação Portuguesa de Canoagem, Catarina recebeu 41 medalhas, 17 delas de ouro, 18 de prata e 6 de bronze, em várias categorias, dos infantis aos seniores. @DR

José Cunha não sabe se Catarina Sequeira teria tido ataques recorrentes nos últimos tempos, antes de ser internada em dezembro do ano passado. “Nunca tivemos no clube nenhum problema”, conta o treinador.

O problema respiratório nunca condicionou a sua vida desportiva. O treinador afirma que essa dificuldade era contornada com esperteza, mesmo quando era preciso parar o barco: “Nunca tivemos uma competição em que ela tenha desistido por causa do problema da asma. São provas de duas horas, ela sempre venceu isso de uma maneira muito esperta. Por vezes, no treino, encostava o barco à plataforma e ia ao balneário e nós percebíamos, andava sempre prevenida com a bomba (da asma) e nós estávamos sempre atentos a isso”. O problema quase não se sentiu quando Catarina praticou canoagem e o treinador garante que era uma situação vivida de forma “muito discreta”, e que “não implicava limitações em provas de fundo”. Noutros casos, José Cunha precisou de acompanhar atletas ao hospital, mas no caso de Catarina isso nunca aconteceu.

"Nunca tivemos uma competição em que ela tenha desistido por causa do problema da asma. São provas de duas horas, ela sempre venceu isso de uma maneira muito esperta. Por vezes, no treino, encostava o barco à plataforma e ia ao balneário e nós percebíamos, andava sempre prevenida com a bomba (da asma), e nós estávamos sempre atentos a isso."
José Cunha, treinador

As limitações de Catarina eram outras: “Era fisicamente muito frágil, era muito pequenina. Até era tratada com carinho, exatamente por isso, porque destacava-se por ser muito mais pequena do que os outros. Num desporto como o nosso, a habilidade, só, não conta, é preciso estrutura física. Mas ela esforçava-se muito, fazia um trabalho intenso, treinava todos os dias, nunca faltava ao treino, ela passava a vida no clube”, diz José Cunha.

Segundo caso em Portugal de mulher em morte cerebral a dar à luz

Depois de, em 2016, ter nascido Lourenço Salvador, este é o segundo caso em Portugal de uma mulher em morte cerebral dar à luz. Lourenço nasceu a 7 de junho de 2016, no Hospital de São José, em Lisboa, prematuro e com 2.350 quilos. O bebé esteve dentro da barriga da mãe 15 semanas após o óbito damãe ter sido declarado, em fevereiro do mesmo ano. Sandra Pedro estava em morte cerebral, mas a equipa de cuidados intensivos da neurocirurgia do São José, em articulação com a Maternidade Alfredo da Costa (MAC), conseguiu manter a gravidez até às 32 semanas.

Após o parto, Lourenço Salvador foi transferido para a MAC e ficou internado na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Já só com 29 dias de vida teve alta, a 4 de julho do mesmo ano.

“É com grande regozijo que o Centro Hospitalar de Lisboa Central informa que o pequeno Lourenço, nascido a 7 de Junho, agora com 29 dias de vida, teve alta da maternidade, enquadrando os vários aspetos clínicos, sociais e psicológicos, pressupostos que constam de relatório próprio”, informou o hospital na altura.

O nascimento de Lourenço, apelidado de “bebé milagre”, foi um feito inédito em Portugal. O caso foi noticiado noutros países, dada a sua raridade. Não há, à data da publicação deste artigo, informações sobre o estado de saúde de Salvador, que nasceu esta quinta-feira.

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