Festinhas, botinhas e muitas dúvidas. Os quatro meses de incertezas até nascer Lourenço

10 Junho 20161.889

As dúvidas dos médicos, o carinho dos enfermeiros, as complicações diárias, a história que levou Sandra até São José. A reconstituição dos bastidores da história do bebé-milagre, Lourenço Salvador.

Foram dias, semanas, meses de dúvidas, discussões, de avanços e recuos, de sucessos e de complicações, de esperança e ceticismo, de compromisso, de foco. De dor e de amor. De morte e de vida. Quase quatro meses de emoções fortes e contrastantes vividas pelos familiares e pela equipa da unidade de cuidados intensivos de neurocríticos do Hospital de São José, em Lisboa, que conseguiu um feito inédito em Portugal e raríssimo em todo o mundo: garantir que Sandra Pedro, em morte cerebral desde 20 de fevereiro, fosse, durante 15 semanas, a “incubadora viva” do filho que carregava no ventre. Lourenço nasceu no dia 7 de junho, com 32 semanas.

“Para nós foi sobretudo um desafio ético e profissional muito importante. Apesar de lidarmos todos os dias com a vida e com a morte, isto foi completamente diferente”, afirma o enfermeiro João ao Observador. “Dúvidas existiram sempre, só havia a certeza que tínhamos de preservar aquela vida [a da criança]”, enfatiza. E essa certeza era suportada pela decisão — que não terá sido unânime — da Comissão de Ética que avaliou o caso e que decidiu pela continuação da gravidez, numa visão “pró-vida”, mesmo que a família não o quisesse.

“Todo este processo, este esforço, só fazia sentido se corresse bem, se não deixava de fazer sentido. Todos nós fomos afetados do ponto de vista emocional. Eu sou mãe e senti uma dualidade de sentimentos muito grande, só pensava como é que aquela criança iria ficar”, conta a médica intensivista Susana Afonso.

A enfermeira Maria diz que toda a história “é super emocionante”. “A minha crença é que nesta vida nada acontece por acaso e eu acho que esta criança tem uma missão de vida”, acrescenta, dizendo-se “feliz porque ninguém acreditava que fosse possível isto acontecer”. Ninguém, ponto e vírgula. Beatriz garante que sempre acreditou. “Havia muita gente cética, mas eu sempre acreditei até porque para o fim já não havia grande instabilidade.”

Superar complicações, controlar tudo. Quatro meses a cuidar

Mas isso foi no fim, o mesmo não se pode dizer em relação ao início, nem se pode daí concluir que foi fácil conduzir este processo. Os cuidados intensivos são por natureza muito exigentes e num caso de morte cerebral é preciso assegurar que os restantes órgãos vitais não entram em falência. Mas no caso de Sandra o desafio foi ainda maior, porque os profissionais de saúde tiveram de garantir aquela situação durante quase quatro meses, assegurando o bem-estar do feto que se estava a gerar, contam vários profissionais da unidade. E sem saberem se resultaria.

Cada minuto contava. A cada momento — o primeiro mês foi o mais complicado — surgia uma complicação que tinha de ser, de imediato, atacada. Exemplos disso foram infeções, insuficiência respiratória, uma pneumonia, uma pielonefrite (que obrigou a colocar um cateter direto ao rim para que a urina pudesse ser expulsa do organismo), entre outros problemas.

Além disso, foi necessário controlar muito bem a nutrição — dando um preparado através de um tubo ligado ao estômago nas quantidades indicadas às necessidades de uma grávida —, a hidratação, a glicemia — fazendo análises de duas em duas horas — e as pressões arteriais, para que o feto tivesse glicose e oxigénio para se desenvolver. Também era preciso garantir a oxigenação e o bom funcionamento do fígado e dos rins.

“Houve momentos em que estivemos em permanência numa cadeira ao lado da cama com o monitor à frente e duas drogas antagonistas em curso ao mesmo tempo para controlar a tensão da Sandra”, exemplifica João, explicando que o ideal seria haver um único enfermeiro dedicado àquela mulher, mas que a falta de pessoal não permitia alterar o rácio de um enfermeiro para dois doentes. A maior parte do tempo, Sandra esteve sozinha no quarto duplo. Mas às vezes, até tinha de ter a companhia de outro doente em situação crítica.

E os cuidados não se ficaram por aqui. Os enfermeiros desta unidade tinham ainda de lhe dar banho completo todos os dias, lavar-lhe os dentes, cortar as unhas, aspirar as secreções (pois ela produzia saliva), hidratar os globos oculares com gotas de manhã e pomada à noite, hidratar a pele e ir reposicionando o corpo para evitar que se formassem feridas. Tudo aquilo com que têm de se preocupar em grande parte das pessoas que chegam habitualmente àquela unidade, mas que dez vez era diferente: a desta doente em morte cerebral, mas a gerar uma vida.

"Foi um processo muito desafiante, que implicou muito estudo e discussão clínica. Decidir que fármacos daríamos e se daríamos de forma intermitente ou contínua e perceber como o cérebro funciona. Íamos tomando decisões e voltávamos atrás."
Susana Afonso, médica intensivista da unidade de neurocríticos do Hospital de São José

“O mais complicado foi no início porque foi preciso decidir exatamente o que se ia fazer e acertar doses. Foi um processo muito desafiante, que implicou muito estudo e discussão clínica. Decidir que fármacos daríamos e se daríamos de forma intermitente ou contínua, perceber como o cérebro funciona e se estimula sempre. Íamos tomando decisões e voltávamos atrás. Íamos ajustando. O feedback dos obstetras da Maternidade Alfredo da Costa dava-nos força para continuar”, detalha ao Observador Susana Afonso, médica intensivista daquela unidade.

A força estava lá e o empenho também, mas ainda assim “foi muito, muito difícil prolongar esta situação de morte cerebral”, até porque é um caso tão raro que não havia muitas orientações que se pudessem seguir e todos sabiam que a qualquer momento tudo podia mudar. E foi precisamente a raridade do caso que despertou a curiosidade um pouco por todo o hospital. De tal forma que vários foram os profissionais que iam acedendo ao processo clínico de Sandra, tentando acompanhar tudo o que se ia passando. Ao ponto da equipa que liderava o caso ter-se visto obrigada a apagar o nome da doente da ficha, para manter o maior sigilo possível dentro do hospital e assim evitar que o caso se tornasse público.

Mas o interesse médico manteve-se, levando mesmo um médico a pedir para ser assistente do anestesista no momento da cesariana, assim que se soube que o “milagre” iria acontecer, só para poder referi-lo no seu currículo. Afinal de contas seria um momento histórico.

Foi. Mas até esse momento, houve um longo e instável percurso, com muitos altos e baixos. “A biologia é fantástica e o bebé acabou por estabilizar o organismo, porque um doente em morte cerebral não aceita a alimentação e a Sandra aguentou”, destaca a enfermeira Maria.

Festas na barriga, botinhas e a emoção do nascimento

E foi no bebé Lourenço que se concentraram os profissionais. Nunca o esqueceram durante aqueles mais de 100 dias. João conta que muitas vezes pegou “na mão da Sandra” e massajou “a barriga dela para promover um vínculo que não iria nunca existir e para que o Lourenço sentisse uma estimulação diferente do normal”. “O maior tempo de gestação ele passou-o em ambiente de cuidados intensivos, com apitos e barulhos a toda a hora, stress e ciclos de vigília de sono descontrolados porque trabalhamos tanto de noite como de dia”, sublinha o enfermeiro, lamentando as condições vividas pela criança cujas consequências, a existirem, só se manifestarão mais à frente.

“Quando íamos posicioná-la era difícil não massajar a barriga ou falar com a criança”, confirma Maria, contando que havia até uma colega que punha música no quarto para o bebé ouvir. E “houve enfermeiras que fizeram botinhas e casaquinhos. O Lourenço acabou por ficar o nosso menino, o nosso gordinho”, completa Beatriz.

"Houve até enfermeiras que fizeram botinhas e casaquinhos. O Lourenço acabou por ficar o nosso menino, o nosso gordinho."
Enfermeira Beatriz

E é por isso e tudo o resto que o momento em que Lourenço nasceu foi vivido com grande emoção por toda a gente. A cesariana teve lugar no bloco da própria unidade, onde a mãe esteve internada, com a ajuda da obstetra Ana Campos, da MAC, no início da tarde de terça-feira. Dentro do bloco, apesar da tensão, rolaram lágrimas de felicidade quando Lourenço chorou e lá fora, no corredor, também.

O transporte foi bastante rápido mas na altura em que o bebé chegou ao corredor e destaparam a incubadora — Lourenço nasceu prematuro, embora com 2,350 quilos, um bom peso — muitas das pessoas que lá estavam (todos os familiares mais diretos, profissionais da unidade e conselho de administração) choraram e até houve quem tirasse fotografias ao bebé. “Foi um momento bonito de se ver”, relata uma das enfermeiras.

Lourenço nasceu de boa saúde e foi levado para a unidade de cuidados intensivos da neonatologia da Maternidade Alfredo da Costa pelo transporte inter-hospitalar pediátrico do sul, que funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano.

Esta quinta-feira, dois dias depois, continua internado nos cuidados intensivos, mas está estável, já com respiração autónoma e a ser alimentado com recurso ao banco de leite materno, segundo o Centro Hospitalar Lisboa Central. Tal como Teresa Tomé, diretora da unidade de neonatologia da MAC, disse, na conferência de imprensa no dia a seguir ao nascimento, tudo correndo bem o bebé terá alta daqui a três semanas.

E nessa altura deverá ir para junto do pai, que já disse que quer ficar com o bebé. Ao Observador, Miguel Ângelo revelou que já registou mesmo a criança. Respeitando a vontade da mãe, chamou-lhe Lourenço. Ao qual juntou Salvador porque diz que o filho lhe salvou a vida e que lhe dará “um novo rumo”. Mas avós maternos também devem pedir a guarda do menino.

Os enfermeiros que acompanharam o caso estranharam esta decisão agora tomada pelo pai pois, segundo contaram ao Observador, ele não foi uma presença muito assídua no hospital. Mas não lhe condenam a atitude.

"Um pouco a brincar, um pouco a rir dizíamos entre nós que tínhamos de adotar o Lourenço. Aliás, nós já tínhamos batizado com 1.000 nomes, até que a avó verbalizou que o desejo de Sandra era que se chamasse Lourenço."
Enfermeira Maria

“Um dos nossos maiores receios, quando olhávamos para a família, era que este esforço fosse em vão. Um pouco a brincar, um pouco a rir dizíamos entre nós que, no fim, tínhamos de adotar o Lourenço. Aliás, nós já tínhamos batizado com mil nomes, até que a avó verbalizou que o desejo de Sandra era que se chamasse Lourenço”, conta Maria, lembrando que “o pai do Lourenço numa primeira fase disse que queria a criança, mas depois nunca mais o vi”.

“A família era complicada”, completa a enfermeira Joana, também daquela unidade, explicando que nunca falou com o pai da criança, mas que se percebeu desde início que o companheiro de Sandra e os pais dela não se relacionavam. Todos concordaram porém, segundo o presidente do Conselho de Ética, em levar por diante a gestação, sempre muito pouco esperançosos.

As visitas a Sandra, nestes quatro meses, estavam reservadas aos familiares próximos e a uma lista muito limitada de pessoas definida pelos familiares. Foram pouco frequentes e duravam muito pouco tempo. “O companheiro a primeira vez que a viu chorou o tempo todo e a mãe, que foi quem veio mais vezes, acompanhada de uma familiar mais nova, chorava sempre. A nós restava-nos apoiá-la durante a visita”, explica Beatriz, garantindo que era muito difícil. Houve oferta de apoio psicológico.

"Eu acho que eles mesmo assim foram uns heróis porque suportaram a presença física de alguém que lhes era querido e que estava morto, a bem de uma incerteza que era o nascimento daquele bebé."
Enfermeiro João

“Eu acho que eles mesmo assim foram uns heróis porque suportaram a presença física de alguém que lhes era querido e que estava morto, a bem de uma incerteza que era o nascimento daquele bebé”, defende João.

E todos os profissionais salientaram o quão difícil começava a ser encarar Sandra, mesmo para eles, que estão habituados. A mulher estava a ficar “com um aspeto cada vez mais cadavérico”, muito magra, com os “olhos encovados e olheiras gigantes”, sem músculos, com cabelo e unhas enfraquecidos e onde só se notava a barriga bem grande. Assinalaram ainda assim um “resultado extraordinário” — Sandra chegou ao fim de quase quatro meses sem uma única ferida no corpo.

A situação era delicada e ninguém se atreve a condenar os familiares que estiveram menos presentes fisicamente. Eles não puderam fazer o luto da Sandra Pedro quando ela morreu, disseram em coro os profissionais ouvidos pelo Observador.

“É estranho. A Sandra já não está cá”

E foi só no dia em que Lourenço nasceu que o corpo de Sandra foi libertado para que a família pudesse fazer o funeral. Morta desde as 23h43 do dia 20 de fevereiro de 2016, Sandra Pedro deixou a cama 4 do quarto 2 da unidade de cuidados intensivos de neurocríticos de nível III no dia 7 de junho.

No dia seguinte, quem foi trabalhar sentiu a ausência. “É estranho. Eu sabia que ela já não iria estar na unidade, mas, ainda assim, quando entrei ao serviço, entrei no quarto e pensei ‘já cá não está’. Custa sempre deixar de a ver e se nos custa a nós, nem imagino à família”, desabafou o enfermeiro. E não ficou só neste desabafo.

“É estranho ela não estar lá. Houve dias complicados, é triste cuidar de uma pessoa que está em morte cerebral, mas valeu muito a pena”, confirma a enfermeira Maria. Já Beatriz não consegue deixar de falar naquilo que, no fundo, manteve Sandra naquela cama durante mais de 100 dias. “Nós íamos falar com o Lourenço, dar festinhas na barriga, e agora ela já não está lá. É um bocadinho estranho.”

Uma história que tornou, de repente, os profissionais desta equipa em heróis nacionais, elogiados na rua e pelos seus pares. Mostrando que é muito fácil passar de besta a bestial. Afinal, foi também neste serviço que morreu o jovem David Duarte, enquanto esperava por uma cirurgia para tratar de um aneurisma roto, em dezembro do ano passado. Caso que tantas críticas valeu aos profissionais daquele hospital.

Sandra estava em casa quando se sentiu mal

A casa de primeiro andar na rua principal do bairro das Bragadas, na Póvoa de Santa Iria, continua vazia e por arrendar. É o que os papéis colados na janela significam. Foi para ali que Sandra Pedro foi viver há oito anos. Tinha acabado de separar-se do companheiro, com quem tinha um filho — agora com doze anos. E queria começar uma vida nova.

A casa fica por cima do salão de cabeleireiro da irmã, por isso Sandra rapidamente travou amizades no bairro. Uma dessas amizades foi com Susana Magalhães, que explora o “Café Central”. “A certa altura precisei de uma pessoa porque fui trabalhar para o clube. E foi ela que ficou aqui”, recorda ao Observador.

Durante quatro anos Sandra serviu ao balcão. Deixou de o fazer no último ano, mais ou menos quando começou a namorar com Miguel Ângelo, de 38 anos. E engravidou dele, ainda em 2015.

Era ali, na casa das Bragadas, que Sandra e Miguel estavam quando ela começou a sentir-se mal naquele dia 20 de fevereiro. Susana, a amiga, recorda-se de quando a ambulância chegou para prestar assistência. Miguel Ângelo conta ao Observador que a acompanhou sempre. Dali ao Hospital de Vila Franca de Xira e, depois, ao Hospital de São José, em Lisboa.

Sandra trazia na barriga o primeiro filho de Miguel Ângelo. Quando o teste de gravidez deu positivo ela desejou uma menina, mas a amniocentese anunciou-lhe que seria um rapaz e ela não se importou. “Já tinha nome para menina e para menino. Ficou Lourenço”, conta Susana atrás do balcão, enquanto serve mais um copo de vinho.

Susana já foi entrevistada por várias vezes. Diz que assumiu o papel de porta-voz da família, porque esta se encontra a “sofrer muito”. Assim que Sandra Pedro chegou ao São José, os médicos perceberam que já nada havia fazer. Sandra estava em coma profundo irreversível, provocado por uma hemorragia intracraniana, e já na unidade de cuidados intensivos de neurocríticos foram-lhe feitas provas cerebrais e declarada a morte cerebral ainda no mesmo dia, às 23h43.

Os familiares e amigos começaram mesmo a tratar do funeral que ela sempre quis ter: ser cremada. Mas um novo telefonema viria a trocar-lhes as voltas. Ao contrário da indicação que vinha com a doente do Hospital de Vila Franca de Xira, o feto teria viabilidade. O coração do bebé batia e ele aparentava estar bem de saúde. Decidiu-se que se iria manter o corpo daquela mãe a funcionar de forma a que pudesse chegar o dia de Lourenço vir ao mundo. E, por isso, o funeral teria de ser adiado.

"Tenho três filhos pequenos que a conheciam. Tive que explicar-lhes que ela morreu. Depois que o funeral não seria logo realizado. E, agora, que nasceu o filho dela."
Susana Magalhães, amiga de Sandra

Nos últimos quase quatro meses Sandra ficou internada no Hospital de São José. Enquanto o seu corpo definhava, o bebé crescia. “Quando fui lá para me despedir dela, parecia que estava a dormir. O corpo estava quente”, disse Susana ao Observador. Os médicos explicaram sempre que Sandra estava morta. Mas Susana, no fundo, alimentava a esperança de um milagre maior. Que ela acordasse quando o bebé nascesse.

O pior foi explicar o fenómeno às crianças. “Tenho três filhos pequenos que a conheciam. Tive que explicar-lhes que ela morreu. Depois que o funeral não seria logo realizado. E, agora, que nasceu o filho dela.” A história tocou tanto o filho de onze anos de Susana que ele acabou por contá-la na escola. “A professora ligou-me para lhe explicar que história era aquela. E eu lá contei. Que ela servia de incubadora do bebé. Foi assim que os médicos explicaram.”

Nesses quatro meses, só a família próxima — e quem a família escolhesse para ir ver Sandra, como explicou ao Observador a médica intensivista Susana Afonso — a podia visitar. Susana garante que a visitou várias vezes e que até assinalou a data do 37.º aniversário de Sandra ali no café. Foi em março e ela já estava em morte cerebral.

Quem era Sandra Pedro?

Os pais são de Coimbra, mas foram viver para Vialonga, no concelho de Vila Franca de Xira. Sandra e a irmã cresceram ali. Ela completou o secundário na escola do Forte da Casa e, mais tarde, acabaria por se apaixonar pelo pai do filho que tem agora 12 anos. A relação entre os dois correu mal e Sandra pôs um ponto final no caso. Pegou no filho ainda pequeno e arrendou uma casa perto de Vialonga, no bairro das Bragadas.

“Era uma mulher muito independente e forte”, caracteriza Susana. Uma descrição bem diferente de quem a viu crescer e que a descreve como “frágil e carente”.

Sandra adorava cozinhar. E já depois de deixar o trabalho no café “Central”, nas Bragadas, continuou a usar a cozinha para fazer cozinhados. “Ela cozinhava muito bem. Chegava aqui e fazia um bacalhau com pimentos para todos”, recorda Susana. Incluindo para o filho que agora foi viver com o pai, depois de ter ido ao hospital despedir-se da mãe.

A amiga desconhecia que Sandra tivesse algum problema de saúde. Só lhe conhecia um “pequeno problema pulmonar há uns anos”. “Mais nada”, garante Susana. Mas, ao que o Observador apurou junto de fonte hospitalar, não seria bem assim. Em 2006 foi-lhe diagnosticado, pela primeira vez, um tumor da suprarrenal. Sandra ainda chegou a ser operada e começou a ser seguida em consulta externa, num hospital de Lisboa, mas em 2013 recusou ser operada novamente e abandonou o seguimento e a medicação. Esta patologia poderá ter sido a responsável pelo pico de hipertensão que terá resultado na hemorragia intracerebral que, no passado dia 20 de fevereiro, a deixou em morte cerebral.

Sandra foi cremada, como era sua vontade, na última quarta-feira, dia 8, no cemitério da Póvoa de Santa Iria. Horas antes foi velada por um pequeno grupo de família e amigos. Mas se o adeus a Sandra foi discreto, o olá de Lourenço Salvador à vida foi notícia em todo o mundo. Um caso raro de sucesso, depois de quatro meses de muitas incertezas. O percurso do bebé-milagre só agora está a começar, mas já tem uma história única.

Os nomes dos enfermeiros são todos fictícios pois o Centro Hospitalar Lisboa Central proibiu aqueles profissionais de falarem com a comunicação social, desde o episódio da morte de David Duarte, em dezembro do ano passado.

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