O dia era 14 de maio de 2010, uma sexta-feira. Pelo meio dia, Celso Kamura já estava na casa de Dilma Rousseff, em Brasília, e tinha a missão de transformar a imagem da então pré-candidata à Presidência do Brasil. “Assim que ela chegou, olhei bem para ela e falei assim: ‘Nossa, a senhora não é nada fotogénica, não é fotogénica!'”, recorda o cabeleireiro, sobre este primeiro encontro, que foi provavelmente um dos momentos decisivos da campanha eleitoral, que resultou na vitória na primeira volta, em outubro do mesmo ano.
A antiga chefe da Casa Civil tinha a difícil tarefa de suceder a Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro civil sem formação universitária a chegar a chefe de Estado e o primeiro membro do Partido dos Trabalhadores a ser eleito Presidente desde a restauração da democracia no país. Uma figura política popular, que liderou movimentos sindicais por décadas e foi uma voz ativa da oposição desde o regime militar nos anos 1970. A escolhida para concorrer nas eleições seguintes já havia sido anunciada em fevereiro, quando exercia um dos principais cargos decisórios no Governo. Também teve um passado político significativo, tendo sido presa e torturada pela ditadura militar por subversão e pela participação na luta armada das organizações de esquerda, o que nunca assumiu. Mas era conhecida pelo perfil mais técnico, tinha fama de “durona e antipática” na imprensa internacional, e nunca se havia candidatado a um cargo eletivo. Colocava pela primeira vez o carisma a teste.
O cabeleireiro Celso Kamura, por outro lado, já tinha um nome forte no mundo do showbizz brasileiro. Desde 1996 comanda salões em nome próprio e em 2003 abriu uma unidade focada no mercado de luxo nos Jardins, uma das zonas mais nobres de São Paulo, frequentada pela alta sociedade e a aristocracia brasileira. Tem como clientes algumas das personalidades mais importantes da televisão, da moda e da política no Brasil — como é o caso de Marta Suplicy, sexóloga que fez sucesso nos anos 1980 com o programa TV Mulher, na Globo, e que entrou para a política nos anos 1990, sendo prefeita de São Paulo nos anos 2000 pelo PT.
“Quem me chamou foi o João Santana, que era o marqueteiro. Já tinha trabalhado com a Marta e me escolheu. Disse: ‘Acho que quem vai se dar bem com a Dilma é o Celso'”, conta ao Observador o cabeleireiro, que recorda que recebeu o convite por telefone, juntamente com alguns conselhos do publicitário, que também foi o responsável pelas campanhas eleitorais de Lula da Silva, e que foi preso em 2016 na Operação Lava Jato, condenado por lavagem de dinheiro. “‘Você pode fazer o que você quiser para dar uma aparência de credibilidade, mas ao mesmo tempo você tem que dar uma suavizada, né?’ Aí eu falei tá bom. Aí ele falou assim: ‘Eu tenho que te adiantar que ela é uma pessoa difícil, muito séria.'”
▲ Dilma Rousseff antes e depois da intervenção de Celso Kamura em 2010
AFP via Getty Images
Na manhã daquela sexta-feira, Dilma participou na missa de encerramento da 48ª assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, em Brasília. “Cheguei em Brasília cedinho, nem dormi aquela noite”, assume Kamura, que já estava na casa da então pré-candidata quando ela chegou, no horário do almoço. “Achei que não era nada daquilo que tinham falado”, revela Kamura, que a seguir lançou, em voz alta, a sua opinião sincera sobre Dilma “não ser fotogénica”. “Ela disse: ‘Como assim? Eu falei: ‘Porque você é melhor ao vivo do que nas fotos que eu vejo, né?'” Em poucas horas Celso Kamura sugeriu um corte de cabelo mais curto e madeixas num tom mais claro, alterações que foram aceites sem protesto. À tarde, no Encontro Nacional de Negros e Negras do PT, a futura Presidente do Brasil apareceu transformada, numa mudança de imagem que foi notícia nos principais jornais brasileiros.
Celso Kamura conta-nos esta e outras histórias, dos seus quase 50 anos de carreira, encostado numa das bancadas do novo salão que abriu no número 76 da avenida Marquês de Tomar, numa zona central, em pleno triângulo Saldanha, Campo Pequeno e Praça de Espanha. Encontramo-nos à porta, enquanto supervisionava a colocação do letreiro do lado de fora da loja. Com feições orientais, que denunciam a ascendência japonesa, e os cabelos longos pretos com algumas madeixas brancas, usa uma camisola de gola alta preta e calças cinza largas. Uma discrição elegante, que curiosamente, nada tem de discreta. “Ainda temos muita coisa para fazer”, diz, ao encaminhar-nos para o interior do primeiro salão que abre fora do Brasil. “Mas vai dar certo”, completa o cabeleireiro, que fala com a calma de quem já fez aquilo muitas vezes. É embaixador da Wella há 20 anos, tem uma linha capilar em nome próprio com 140 produtos, uma marca de cuidados para as mãos e pés, e licenciou um modelo de salões acessíveis com cinco unidades no Brasil, além de ter aberto em 2024 a Escola de Beleza e Negócios, focada na formação de novos profissionais. Mas as suas unidades premium são os salões C.Kamura, presentes nos Jardins, em São Paulo, e no VillageMall, no Rio de Janeiro — onde atende os jogadores do Flamengo e recebeu Jorge Jesus. “Era um habitué do salão. Fazia umas mechas invertidas. Ele gostava de tirar um pouco do grisalho”, conta o cabeleireiro.
“Cortaria o cabelo do Bolsonaro, porque sou uma pessoa curiosa”
Agora, traz o negócio de luxo para Portugal com a ajuda de Otávio Lameiro, profissional com quem trabalhou por 10 anos nas cidades de Campinas e Rio de Janeiro, e a quem chegou a confiar clientes importantes, como as apresentadoras Angélica e Patrícia Poeta ou o apresentador Luciano Huck (o escolhido para entrevistar o príncipe William na sua recente viagem ao Brasil). Ao lado de Otávio, a conversa flui como numa roda de amigos. A loja com porta para a rua tem apenas uma receção minimalista, projeto da arquiteta Melina Marcati e execução do Studio Cecília Lara. Um prédio onde antes funcionava um call center mas que já foi uma agência de modelos. “Lá em baixo, no salão principal, era a catwalk. Olha que coincidência!”, conta Otávio, o profissional com 23 anos de carreira que vai estar à frente do espaço. Descemos as escadas em acrílico transparente até o andar inferior, onde longe dos olhos das pessoas que passam na rua, as clientes VIP podem ser atendidas em duas salas privadas. “As pessoas não querem ser vista com papel na cabeça, coloração, né?”, comenta. Outro lance de escadas leva-nos até uma sala maior, com cerca de dez cadeiras, onde a equipa deve atender o público em geral. “Temos dois cabeleireiros que vieram do Brasil e o resto da equipa contratámos aqui. A marca é muito diferenciada de tudo o que tem no Brasil, né? A gente faz semana de moda, a gente trabalha com celebridades e tudo mais. Então, nesse momento eu preferi uma equipa reduzida para poder fazer esse processo de educação. Então a ideia não era encher o salão de cabeleireiro, e sim construir a identidade da marca no país.”
▲ A loja tem três andares, sendo o rés-do-chão a receção, e os dois pisos inferiores voltados para o atendimento aos clientes
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O passo internacional veio com o impulso de Otávio Lameiro, que vive em Londres desde 2020 e sonhava com a Europa há mais tempo. “Eu comecei a trabalhar novinho em São Paulo, numa região que era onde ele começou. Então toda a minha referência, tudo que eu ouvia era que o Celso é o melhor profissional”, diz o diretor da unidade de Lisboa. Foi a admiração pelo profissional que fez Otávio regressar a Campinas, onde Celso Kamura se preparava para abrir a primeira franquia fora de São Paulo. “Quando eu descobri, fiquei enlouquecido. Eu sabia onde era o shopping, fui até a obra e falei: ‘Eu quero trabalhar no salão'”. Eventualmente Otávio entrou num processo seletivo e teve a primeira entrevista com Celso Kamura, onde diz que ambos tiveram “uma conexão muito rápida”. “Tanto que depois de duas semanas a gente tinha um congresso lá e ele disse: ‘Você vai ficar mais tempo comigo no congresso’. Dali eu já fui com ele para o Rio de Janeiro, fiz a primeira vez a Angélica e a Patrícia Poeta. Tipo, em menos de um mês. Então a gente se conectou mesmo nesse lugar de artistas, porque eu já era cabeleireiro, maquilhador, já gostava dessas coisas, que são a essência do Celso.”
De acordo com a dupla de cabeleireiros, Portugal foi o destino de muitas das suas clientes brasileiras nos últimos anos — que continuavam a frequentar os salões no Rio e em São Paulo por se recusarem a entregar os cabelos a outro profissional. “Na hora que a gente soltou o projeto e começou a mostrar o nosso marketing, todo mundo ficou enlouquecido. ‘Pelo amor de Deus! É perto de casa, perto de casa. É o lugar onde eu vou.’ Foi uma conexão muito rápida, sabe? A gente tem muitas clientes que estão vivendo aqui”, diz o diretor geral e criativo do salão, citando nomes como a atriz Vanessa Giácomo, mas também empresárias brasileiras que não são conhecidas do grande público. “Olha, eu vou te falar, a política é uma coisa que acontece. A gente atende pessoas, né? Ele (Celso Kamura) criou a imagem da Dilma para ser Presidente. Então é isso, a gente já sabe, já tem contactos de alguns políticos, inclusive brasileiros, que estão aqui. Mas o foco, na verdade não é esse. A gente é super imparcial sobre política, né? A gente vive um movimento político bem diferente no mundo nesse momento”, diz Lameiro.
▲ Otávio Lameira é o diretor criativo do novo espaço em Lisboa, onde garante que vai estar 100% do tempo nestes primeiros meses de funcionamento
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Já Kamura é mais direto. “Chove vereador, deputado. Menina, é uma loucura. Acham que eu dou sorte”, dispara o cabeleireiro, responsável pelas imagens de campanha de muitos políticos que conquistaram a vitória nas urnas. “A política, eu não acho que me atrapalhou não. Sempre me posicionei bem assim. Tanto é que eu acho que a minha clientela, 90 ou 80%, é de direita. E eu convivo muito bem, porque eu também acho que democracia é isso, você entender e respeitar os outros, né?”, diz o cabeleireiro, que na política trabalhou principalmente com figuras do PT, como é o caso do ministro da Fazenda Fernando Haddad — que passou pelas tesouras de Kamura na sua primeira campanha para prefeito de São Paulo, que venceu, em 2012, mas perdeu a eleição presidencial para Jair Bolsonaro em 2018. “A única coisa que me afeta eu acho que é, na minha rede social, falar de política. Já tentei fazer. Eu acho que foi um momento importante numa eleição. Botei uma camiseta com uma cor lá no Brasil, e aí tem disso. A gente perde muito seguidor. Mas eu acho que eu sei conviver com essa coisa da política, porque quando alguém não é do meu partido, eu fico quieto. Respeito. Acho que democracia é isso. Tanto é que eu convivo bem com minhas clientes.” E se fosse o antigo Presidente Jair Bolsonaro, agora condenado, a pedir-lhe um corte de cabelo? “O Bolsonaro? Eu ia cortar o cabelo dele, porque eu sou uma pessoa curiosa, né amiga? Se eu ia perder essa oportunidade? Claro que não, eu ia adorar.”
“Queria fazer umas camadas na Demi Moore”
Autodidata, Celso Kamura largou um trabalho fixo num escritório de contabilidade em São Paulo aos 16 anos para ser maquilhador no salão de beleza de um vizinho. Cresceu profissionalmente num ambiente de liberdade artística e aceitação, no contexto de repressão dos anos 1970. Na década de 1980 foi para Paris estudar, e quando regressou passou a trabalhar também nos bastidores da moda. “Olhava para as capas e queria tanto ver um trabalho meu. E aí uma agência me contratou e eu comecei a trabalhar com imprensa, fazer editorial de moda e tal. Foi quando começou os desfiles da Fashion Week”, conta o cabeleireiro, que trabalhou em muitas semanas da moda internacionais com o designer brasileiro Alexandre Hercovitch.
No mundo da moda, penteou as top models brasileiras, como Izabel Goulart ou Gisele Bundchen. “Acho que o primeiro editorial dela (Gisele) foi comigo. Foi no segundo dia depois do concurso (The Look of the Year de 1994, concurso da agência Elite que ‘descobriu’ a modelo brasileira).” Kamura recorda que Bundchen era “uma menina”. “Tinha 13 ou 14 anos. Lembro que era, meu Deus do céu, magérrima ao vivo! Aí você monta uma pessoa magra, fica maravilhosa na foto. Linda, incrível. Mas ao vivo, não imaginava que ela viria a ser a Gisele que ela é agora“, assume. O cabeleireiro continua a ser o escolhido de nomes da moda, mas confessa que a exigência das clientes muda com o passar dos anos. “Quando elas começam, deixam tudo, tudo é maravilhoso. Agora que elas já são consolidadas, já têm a opinião delas, não é? Aí elas começam a perturbar um pouco, porque já são conhecidas. Ficam exigentes, marcam desesperadas porque vão passar por São Paulo, chegam lá e só querem cortar as pontas! Não que elas sejam chatas, mas elas têm vontade própria”, ri-se Kamura, que reconhece que as figuras públicas são parte importante da sua imagem profissional.
“Tenho assim várias madrinhas. A Angélica, que é uma estrela lá no Brasil, foi quem me apresentou o mundo das celebridades“, afirma o cabeleireiro, sobre a apresentadora que iniciou a carreira ainda criança, pelas mãos de Chacrinha, uma personalidade da televisão brasileira que teve vários programas de entretenimento entre 1950 e 1980. Angélica passou a apresentar programas infantis e chegou a lançar músicas para crianças, antes de nos anos 2000 decidir mudar o rumo da carreira. “Ela estava deixando de trabalhar com os baixinhos e tinha que ter uma imagem mais de mulher poderosa. E a foto estava marcada ao meio dia no Copacabana Palace, porque tinha que ser feita com a luz do dia. E ela chegou às quatro da tarde”, recorda Kamura, sobre o primeiro encontro com a apresentadora, numa sessão fotográfica para a revista Mundo Mix, em 2000.
“Mito desde criança, a menina vira mulher e se prepara para conquistar o mundo”, diz a manchete, que traz a fotografia de Angélica com um cropped top e cuecas. “Escovei o cabelo, coloquei mechas pretas e vermelhas, fiz uma maquilhagem muito over, e em duas horas ela estava pronta. Acabou a luz, acabou a foto, e ela ficou impressionada. Ela falou: ‘A gente tá acostumada a se arrumar todo dia, né? Anota o nome dessa pessoa porque eu adorei.'” Foi a partir deste momento que o cabeleireiro passou a atender Angélica em outros trabalhos — o que o levou a outras celebridades brasileiras, como o marido da apresentadora, Luciano Huck, ou a apresentadora e modelo Ana Hickmann, e ainda a atriz Paolla Oliveira. “Tenho muita intimidade com as imagens que os veículos querem, não é? Cada veículo quer uma beleza”; destaca o profissional, que também já fez os cabelos dos portugueses Ricardo e Francisca Pereira. Uma celebridade internacional que gostaria de arranjar? “Ai, queria fazer umas camadas na Demi Moore. Eu acho que ela está precisando. Acho que ela ia ficar maravilhosa.
O palpite ao cabelo de Suplicy, e as “fofocas” com Dilma
Mas ainda antes de cair no goto das famosas, Kamura colocou-se nos bastidores da política. “Foi no México. Fui experimentar medicina ortomolecular. Quando entrei no consultório, dei de cara com a Marta Suplicy”, recorda, sobre o primeiro encontro com a então personalidade da televisão que transitou para a política. “Sempre foi uma mulher que eu admirei. Ela luta pela causa desde que começou na política. Então já puxei papo”, conta. “Dei palpite no cabelo dela. Disse: ‘Ai, se eu fosse você faria assim'”, revela. Um passo ousado, já que na altura Celso Kamura ainda “não era famoso”. Cerca de dois meses depois da viagem, Marta Suplicy “apareceu no salão para fazer o look para a estreia de um programa na Band. Nunca mais larguei dela, acompanhava gravações e tal. É minha amiga desde o começo dos anos 1990, desde quando começou a vida política dela.”
▲ Marta Suplicy num desfile de Alexandre Hercovitch em 2010
LatinContent via Getty Images
“Ela nunca deu palpite, mas eu sei que ela entende de beleza, sempre trabalhou com isso. Então ela sabia a imagem que tinha que ter. Na campanha era o cabelo mais discreto. Mas em festas deixava fazer uma maquilhagem mais forte. Foi capa de revista fashion, com cabelo de chapinha de lado. Às vezes era um olho preto, uma boca vermelha, um cabelo mais armado. É uma pessoa que eu adorei brincar com a imagem, sempre passando uma coisa séria, mas mudava. Foi muito bom trabalhar com uma política que mudava, mas ainda assim tinha a sua marca”, destaca Kamura, sobre a parceria, que permaneceu mesmo depois de um momento de tensões políticas. Em 2015, durante o mandato de senadora e com Dilma na presidência, Marta mudou-se para o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o mesmo do então vice-Presidente Michel Temer, e apoiou o impeachment de Rousseff em 2016.
“Celso Kamura entre as “inimigas” Dilma Rousseff e Marta Suplicy”, escrevia a revista Veja em 2017, comparando o cabeleireiro à Suíça, “neutro e que não se mete em conflitos”. Sem entrar nas polémicas entre ambas, ao Observador o cabeleireiro faz uma comparação. “Marta era diferente de Dilma, que era ‘sem marca'”, diz, sobre a imagem da ex-Presidente. A relação com a agora presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do Brics, dura até hoje — Kamura garante que é o único que lhe corta o cabelo. “No início deixava fazer tudo, depois foi ficando com algumas exigências. Ela dizia: ‘Não quero que você use navalha no meu cabelo’. Até hoje eu estou cortando na tesoura.”
▲ Celso Kamura conheceu Marta Suplicy numa consulta de medicina ortomolecular no México. É o cabeleireiro da sexóloga e política brasileira até hoje
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Entretanto, na mesma altura em que corria o processo de impeachment no Congresso brasileiro, entre 2015 e 2017, o nome de Kamura apareceu em registos da investigação de desvios na Petrobrás, que colocavam sob suspeita as ações de Dilma enquanto ministra da Casa Civil (em 2021 o Tribunal de Contas da União absolveu-a da responsabilidade no caso). Emails entre os envolvidos no negócio afirmavam que a ex-Presidente pagava viagens do cabeleireiro para a acompanhar em eventos com dinheiro da estatal petrolífera, o que obrigou o próprio Kamura a emitir um comunicado à imprensa brasileira a afirmar que era pago pela própria Dilma ou pela agência responsável pela campanha, gerida por João Santana e Mônica Moura, e que tinha notas fiscais de todos os serviços. O casal de marqueteiros fechou um acordo de delação premiada com a justiça brasileira quando foi condenado na Operação Lava Jato, e revelou num dos depoimentos partilhados pela revista Veja que as primeiras quatro diárias de Kamura no Palácio da Alvorada, que custaram 1.500 reais cada, não terão sido pagas nem por Dilma, nem por Mônica, nem com dinheiro público, mas pela assessora da Presidente, Marly, que terá sido ressarcida ao longo dos quatro primeiros anos do mandato.
Presente e íntimo nos anos em que Dilma esteve sob pressão e foi afastada da presidência brasileira, Kamura garante que os temas polémicos ficavam do lado de fora. “Sempre encontrava ela muito tensa, muito nervosa, sabe? Comigo era o único momento de paz que ela tinha. Sabe, eu acho que ela relaxava, a gente conversava de outras coisas. Era o momento dela de descontração. Tanto é que às vezes tinha uns momentos difíceis que ela ligava e dizia: ‘Pelo amor de Deus. Você tem que vir aqui cortar o meu cabelo”, confessa. Mas se não falavam de política, falavam do quê? “Ela adorava saber do mundo da fofoca. Eu levava a Caras e ela queria saber da vida dos artistas, queria saber de tudo. Era um momento bem relaxante para ela.”