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CÈsar Santos

CÈsar Santos

Cinco camiões TIR, o pó e a Zambujeira: como um festival chegou ao Sudoeste há 20 anos

É um dos mais emblemáticos festivais de música do verão português. Ao mesmo tempo que começa uma nova edição recordamos a primeira vez com os que o fizeram e os que lá estiveram.

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A praia sempre ficou a uns minutos da Herdade da Casa Branca. Em 1997, na primeira edição do Festival Sudoeste (em 2013 o nome foi alterado para Festival MEO Sudoeste), a praia já estava lá mas esses minutos estendiam-se em horas para quem não foi de carro e sofreu com a organização caótica e de improviso do festival e das condições nas proximidades. Este ano o Sudoeste celebra vinte anos, muita coisa mudou em duas décadas, mas as memórias dessa primeira edição mantêm-se bem intactas em quem esteve lá. Foi um rito de passagem para alguns, dias de sobrevivência e felicidade para quase todos os que estiveram lá. Ficaram boas histórias para contar.

Quem não esteve ficou em casa a ouvir o que acontecia na Antena 3. A transmissão em direto da primeira edição do festival foi fulcral para propagar a mensagem, potenciar o entusiasmo que ali se vivia e mostrar que no sudoeste de Portugal existia um espaço à espera de um festival. E o cartaz? Entre 8 e 10 de Agosto Blur, Marilyn Manson e Suede apresentaram-se na Herdade da Casa Branca como cabeças de cartaz. Em 1997 isto era um luxo. E ainda havia dEUS, Xutos & Pontapés, Da Weasel, Veruca Salt, Urban Species e Rio Grande. Luther Allison estava no alinhamento, mas foi forçado a cancelar por motivos de doença (viria a morrer a 12 de Agosto).

"Como estava com a perceção de que as pessoas queriam mesmo este tipo de evento e como tinha gostado muito da Zambujeira do Mar, fui logo para lá", lembra Luís Montez

Em 1997 ficou imediatamente instaurada a ideia de que aqueles dias em Agosto naquele festival seriam um momento para muitos adolescentes portugueses. Apesar de nas primeiras edições existir um público mais adulto, desde cedo que se tornou numa espécie de Glastonbury português, onde muitos jovens perdem a trela dos pais e passam o seu primeiro fim de semana com amigos. A música era um elemento complementar (agora secundário) para aqueles que procuram os dias dessa ansiada liberdade. Com o tempo as coisas mudaram, atualmente o MEO Sudoeste é direcionado para um público mais jovem, o rock foi secundarizado para linguagens que a juventude que procura o Sudoeste percebe melhor: reggae, EDM ou hip hop.

Um chichi e uma aparição

Há quem encontre milagres no campo, outros encontram o recinto perfeito para um festival durante o chichi matinal. Foi assim com Luís Montez, diretor-geral da Música no Coração. Inicialmente o Sudoeste estava programado para acontecer num terreno no Brejão. Luís Montez conta que se lembrou de fazer um festival naquela zona de Portugal durante umas férias: “Fui passar férias com os Xutos & Pontapés na Zambujeira do Mar, porque o Tim é de São Teotónio. Gostei imenso do que ali encontrei, das praias, da comida, da sua beleza natural. Depois de ter feito Vilar de Mouros em 1996 e de ter sido um tremendo sucesso, fui lá no ano a seguir para pedir autorização à Câmara para voltar a fazer o festival. Como era ano de eleições não autorizaram, com medo de que pudesse acontecer alguma coisa no rio. Como estava com a perceção de que as pessoas queriam mesmo este tipo de evento e como tinha gostado muito da Zambujeira do Mar, fui logo para lá.

[reportagem da RTP sobre o primeiro Sudoeste:]

Ainda o Brejão. A Música no Coração tinha conseguido autorização para realizar o evento em 20 hectares que outrora foram propriedade de Thierry Roussel, um empresário francês casado com Christina Onassis, e que agora estavam ao abandono após alguns projetos mal concretizados. A promotora ofereceu-se para limpar o terreno em troca da realização do evento. Tudo estava a correr às mil maravilhas até que Luís Montez recebe um fax, a menos de duas semanas do festival começar, do novo proprietário do terreno (que o adquiriu em hasta pública) a pedir uma exorbitância pelo aluguer do espaço: cerca de 80% do valor dos patrocínios que estavam garantidos.

Resumindo: o festival não podia mesmo acontecer ali. Montez arregaça as mangas, telefona para a sua equipa que estava no Alentejo e pede para desmontar e recolher tudo e mete-se a caminho. Chegou, levou a equipa toda para a Zambujeira do Mar, arranjou-lhes um sítio para dormir. Era de noite e tinha de encontrar um local para colocar os cinco camiões TIR com todo o material. Pôs-se na estrada com os motoristas até encontrar um local plano. Encontrado o espaço, Luís Montez e o irmão (João Paulo Montez) ficaram no local a garantir a segurança dos camiões. Passaram lá a noite.

Tudo de improviso, modo desenrascar português em ação: “Foi de tal maneira que estávamos a cortar bilhetes no primeiro dia e ainda estávamos a pregar chapas”, confessa Luís Montez.

“Às seis e meia da manhã, quando começa a clarear, vou fazer um chichi e vejo um sítio plano, com um pinhal ao lado. E penso: ‘isto dava!’. Não há nada cultivado em volta. Acordei o meu irmão e ele disse que não estava para isso, que não havia água, como é que se ia fazer com os chuveiros para as pessoas. Resolvemos atravessar a propriedade e encontrámos o canal, que tinha água em fartura. Problema resolvido. Começámos a fazer medições com pedras, a ver onde seria o palco, o pórtico, etc. E eu disse, ‘ou isto vai ser aqui ou não vai haver festival.” Luís Montez foi imediatamente para a Câmara Municipal de Odemira, que abria às nove. Mal as portas abrem vai falar com um vereador e fala-lhe do terreno que quer alugar. Sorte grande, o terreno pertencia ao vereador. Só era preciso falar com a mãe e a tia para desbloquear a situação.

Tudo de improviso, modo desenrascar português em ação: “Foi de tal maneira que estávamos a cortar bilhetes no primeiro dia e ainda estávamos a pregar chapas”, confessa Montez. Cláudio Percheiro, então presidente da Câmara Municipal de Odemira, revela que foi facilmente convencido pelas intenções da Música no Coração: “Disseram-me que ia correr bem, que ia ser um sucesso. Porque se estava a fazer este tipo de festivais internacionalmente, mas que em Portugal ainda pouco se fazia, mas que seria uma grande aposta para o concelho e para a imagem da região. Durante os dias do primeiro ano praticamente não dormi, andava pelo festival, fora do festival, nas povoações, a garantir que estava tudo a correr bem. As pessoas não estavam habituadas e nem sabiam o impacto de um evento destes.”

O pó? Mas qual pó?

O pó foi uma constante ao longo dos três dias do festival. O escritor e crítico literário Bruno Vieira Amaral esteve lá: “Foram três dias a comer pó. Havia poucas condições na altura mas ninguém se importou, porque o espírito era mesmo de improviso, uma questão de sobrevivência”. O pó foi de facto um problema na primeira edição e é uma manifestação de todos os outros que haveriam de ser resolvidos em edições posteriores: transporte, acessos, comida, condições de acampamento, entre outros.

O parque de campismo tornou-se numa das principais atrações do festival (Foto: Gobal Imagens)

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Isilda Sanches, hoje radialista na Antena 3: “Havia muito pó, muito. Durante os primeiros anos conheciam-se os carros do Sudoeste pelo pó, mas aquele ano foi infinitamente pior do que qualquer outro. Quando finalmente cheguei a casa após o festival, tinha pó nos ouvidos, no nariz, passava os dedos nos discos e abria uma estrada de pó”. No primeiro Sudoeste não existia propriamente uma tenda de dança, mas a organização convidou os DJs da XFM para tocarem na possível tenda chill-out do primeiro Sudoeste. Foram tempos especiais e tristes, relembra Isilda, a XFM tinha acabado dias antes (31 de Julho de 2017) e “aquela primeira edição funcionou como uma espécie de funeral da XFM. Passei a maior parte do tempo na tenda com o resto das pessoas da equipa, a carpir mágoas e a falar com quem vinha falar connosco sobre o fim da rádio. Foi muito intenso. Lembro-me de me baixar para escolher um disco, estava a tocar St. Germain, havia umas dezenas de pessoas a dançar, e quando me levantei a tenda estava à pinha, toda a gente feliz a dançar… confesso que chorei”.

Para Ana Markl, guionista e animadora de rádio, o Sudoeste, além das bandas que a levaram lá (Marilyn Manson, Blue, Suede e dEUS) teve também “um outro simbolismo mais pessoal: eram as minhas últimas férias antes de entrar para a faculdade e a ideia de ir de férias para longe, com os amigos do secundário, era muito emocionante. Foi também a primeira vez que acampei. Tinha uma tenda muito pequena e descobri que sofria de claustrofobia, por isso dormi as noites todas ao relento”. Para ela o pó “era insuportável”, apanhou boleia pela primeira vez naqueles dias e diz que “a Zambujeira não estava preparada para aquilo, os cafés e mercearias fechavam porque não suportavam a invasão”. Era um Vietname mas “eu adorei aquilo”. Na sua memória ficam os concertos — “foram incríveis” — e o bilhete que Tom Barman (vocalista dos dEUS) autografou.

E a música?

Os Da Weasel ocuparam a vaga deixada por Luther Allison, Carlão recorda que a sensação de subir àquele palco “foi uma experiência, foi como subir à primeira liga, foi a primeira vez que tocámos num festival daquela dimensão, àquela hora”. Na altura sentiu que “tudo era possível”, não só enquanto músico mas também como público: “diverti-me à brava”. Bruno Vieira Amaral ia ao festival para ver os Blur, que tocaram na sexta. À última decidiu ficar os três dias com amigos e descobriu o melhor concerto para si naqueles três dias: Suede. “Foi um concerto muito compacto, não foi muito longo, mas Brett Anderson partiu a loiça toda. E já ninguém estava à espera. Os Suede tinham lançado um bom álbum, mas ninguém estava à espera que o concerto fosse tão bom. Foi mesmo o melhor concerto dos que vi. E foi o último. Aquilo acabou por volta das 2 da manhã e saímos logo para apanhar o autocarro na Zambujeira do Mar: fomos a pé e dormimos no adro da igreja, não estávamos muito preocupados com as condições”.

“Havia um largo mistério do que poderia acontecer qualquer coisa má a qualquer momento com o Marilyn Manson, naquela altura ele gerava esse tipo de curiosidade mórbida. As pessoas estavam muito tensas, ansiosas, para o ver”, lembra António Freitas, da Antena 3.

Na memória de muitos ficou o concerto de Marilyn Manson. O concerto e as histórias. Luís Montez diz: “A GNR e a política tinham medo, pela associação ao satanismo, que poderia acontecer isto ou aquilo. A dado momento ele simulou que se cortava em palco e, quando acabou o concerto, tinha uma data de enfermeiros da Cruz Vermelha para o socorrer. Ele fartou-se de rir porque aquilo era algo que ele tinha feito com gelo, não se tinha cortado”.

António Freitas, da Antena 3, que esteve lá a fazer os diretos, recorda que lhe contaram que no raider técnico de Marilyn Manson estavam um pedido de quinhentos quilos de carne para cão e que havia a dúvida do que ele iria fazer com aquilo: “Havia um largo mistério do que poderia acontecer qualquer coisa má a qualquer momento com o Marilyn Manson, naquela altura ele gerava esse tipo de curiosidade mórbida. As pessoas estavam muito tensas, ansiosas, para o ver”.

Nuno Calado, que também esteve lá a cobrir o evento para a Antena 3, recorda que “os dEUS tiveram montes de problemas técnicos nesse dia. O Tom Barman confessou-me uns anos mais tarde que estiveram quase para acabar naqueles dias, andaram aos socos uns com os outros por causa dos problemas que tinham tido”.

Passou tudo na rádio

Para quem estava fora do mundo do Sudoeste, ouvir o festival através da Antena 3 foi também um acontecimento. As ondas da rádio passavam a mensagem de que o sítio para estar naquele fim de semana era no Sudoeste. As condições precárias do festival (o pó, os transportes, as boleias, a escassez de comida) eram manifestadas frequentemente sem qualquer desânimo e, sim, como um manifesto de entusiasmo para a festa incrível que estava a acontecer para aqueles lados. De como o improviso por vezes pode ser um milagre.

Carlão, ou Pac Man, com os Da Weasel, em 1997 (Foto: Gobal Imagens)

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Nuno Calado recorda como também foi apanhado na inocência de ir para ali: “Ficámos na Arrifana, que não era logo ali ao lado, tínhamos de conduzir um bocado. Um dia antes de sairmos do festival começámos a perceber que ainda não tínhamos comido e de que não havia comida. Não tínhamos tempo para ir buscar, porque estávamos a fazer uma emissão non-stop, e então lançámos um SOS na emissão, a pedir ao pessoal que estava a vir para nos trazer comida. Houve um amigo que parou num supermercado e que nos comprou algumas conservas e todos os mantimentos que precisávamos. Ninguém se lembrou dessas coisas, só nos preocupávamos em fazer a emissão”.

Além de espalhar o gospel daqueles dias intensos que se viveram no Sudoeste em 1997, a Antena 3 também serviu para acalmar os pais preocupados em casa. Em anos em que os telemóveis não estavam nos bolsos de cada um de nós (nessa altura já cabiam sequer?), as vozes de António Freitas, Nuno Calado e Álvaro Costa garantiam que estava tudo a correr bem na Herdade da Casa Branca. Não havia motivos para preocupações. A festa só estava a começar.

O MEO Sudoeste começa esta terça-feira, dia 1, com a receção ao campista, e continua até domingo, dia 6. Todas as informações aqui.

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