Nunca se “considerou atriz”, mas foi das maiores que o cinema italiano deu ao mundo. Aos 87 anos, com a morte Claudia Cardinale, desaparece um pouco da história e da cultura dos anos 60 (e não só), de uma época particular e definidora do cinema europeu. Muito desse cinema, de Visconti a Fellini, passando por Leone e Blake Edwards, tinha Cardinale no seu centro, ideal feminino de uma época.
Talvez a imagem que mais perdure seja a da chegada no comboio de Aconteceu no Oeste. Musicada por Morricone, Cardinale chega ao filme de Leone como uma visão de beleza num mundo onde a beleza escasseia. O plano-sequência, a fuga a um passado no horizonte do caminho de ferro rumo a uma promessa de futuro que já não existe, ainda hoje ressoa.
Não é, de longe, a única imagem duradoura de Cardinale. Nas palavras da própria, viveu muitas vidas, “prostituta, santa, romântica, todo o tipo de mulher”. Com Luchino Visconti, interpretou alguns dos maiores anjos sedutores da época. Federico Fellini fez dela um ideal feminino fantasmagórico no seu próprio retrato surrealista e autobiográfico. Outros realizadores italianos tinham-na como preferidas em comédias, dramas, romances e tudo pelo meio.
▲ Cardinale, icónica, como Jill McBain, no filme "Aconteceu no Oeste", de Sergio Leone
Corbis via Getty Images
A chave do sucesso estava num equilíbrio precário, entre símbolo sexual de uma geração e o sorriso inocente que sempre a caracterizou. Como descreveu o crítico Massimo Benvegnù: “As estrelas daquele tempo, Anita Ekberg, Sophia Loren, Brigitte Bardot e Jayne Mansfield – as ‘maggiorate’, como eram conhecidas, eram mulheres muito voluptuosas. (…) [Cardinale] tinha menos curvas, era mais ‘vizinha do lado’, era mais real”.
Atriz de força maior
A mais velha de quatro irmãos nasceu Claude Joséphine, no seio da comunidade siciliana de Tunis, capital da Tunísia, então colónia francesa. Falava o dialeto regional da mãe e o francês do pai; o italiano que ecoaria anos mais tarde no cinema só aprendeu quando começou a atuar. A sua beleza levou-a aos primeiros papéis, isto apesar de a representação estar longe dos seus planos – o que só aumentava o fascínio das revistas italianas, que a apelidavam de “a rapariga que não quer ser atriz”.
O começo da carreira surgiu como um acidente. Em 1957, após ter vencido uma competição para “A Mais Bela Rapariga Italiana da Tunísia”, viajou como prémio até ao Festival de Veneza, onde a beleza não passou despercebida aos olhares de produtores e gente do cinema. Cardinale, contudo, era uma estrela relutante, e abriu mão dos holofotes para voltar à terra natal, à Tunísia, e cumprir o seu verdadeiro sonho: ser professora.
O destino, porém, trocou-lhe as voltas, quando descobriu inesperadamente que estava grávida, ela que fora vítima de uma violação. Optou por manter o filho, Patrick, que lhe nasceu quando tinha apenas 19 anos e foi inicialmente criado na família como seu irmão, por forma a manter segredo da imprensa nos anos que se seguiram.
Para sustentar o filho, Cardinale virou-se para o cinema. Assinou um contrato de exclusividade com o produtor Franco Cristaldi, que lhe lançou a carreira nos filmes italianos — e com quem acabaria por se casar. Nesses anos iniciais, Cristaldi foi mentor, mas também captor, mantendo-a presa a um contrato que estipulava cada detalhe da sua vida profissional e privada, como recordaria anos mais tarde na sua autobiografia. “Deixei de ser dona do meu corpo ou pensamentos. Mesmo falar com um amigo sobre o que quer que me fizesse parecer diferente à minha imagem pública era arriscado, porque se se tornasse público seria um problema para mim.”
Alheio aos dramas da vida pessoal da atriz, o público cedo se apaixonou. Uma pequena aparição na comédia de Mario Monicelli, Gangsters Falhados (1958) – elenco estelar composto por nomes como Totò, Mastroianni ou Gassman – fez dela “a namorada de Itália” para a imprensa. Seguiram-se papéis de relevo em filmes como Tre straniere a Roma (1958), A 3.ª Chave (1958) e uma primeira incursão no Reino Unido no mesmo ano com Upstairs and Downstairs.
Nestes papéis iniciais, Cardinale ia-se acostumando às câmaras. “O cinema foi para mim como um analista”, diria mais tarde ao inglês The Times, para explicar a contradição da sua relação com a sétima arte quando ela própria era, naqueles anos, tímida e introvertida. Aos poucos, foi aprendendo a dominar a arte da linguagem corporal. Corporal porque a voz, essa, era sempre dobrada: o timbre rouco (fumou dois maços por dia ao longo de praticamente toda a vida) e as dificuldades iniciais com o italiano eram características pouco apetecíveis para os produtores da época.
▲ Com Klaus Kinski, na rodagem de "Fitzcarraldo", de 1982
Passar-se-iam anos até que os espectadores ouvissem a sua voz, mas havia já quem lhe reconhecesse qualidades interiores. Uma dessas figuras foi o realizador Luchino Visconti, que a apelidou de “tigresa” e a contratou para o elenco do clássico Rocco e os Seus Irmãos (1960). Foi o começo de uma década auspiciosa para Cardinale, que se viria a cimentar com um ícone no Velho Continente, a sua beleza e sensualidade aliados a uma qualidade inocente e térrea, que a ninguém passava despercebida.
De Marcello Mastroianni a Alain Delon, contracenou com os principais galãs do cinema europeu, sob as ordens dos principais realizadores italianos da época. Para Mauro Bolognini, que descreveu como “um homem de grande gosto e cultura” e “um sensível e sincero amigo” rodou O Belo António (1960); já com Valerio Zurlini, filmou aquele que seria um dos seus papéis mais determinantes: Aida, em A Rapariga da Mala (1961). E com A Rapariga de Bube (1964), de Luigi Comencini, venceria o prémio Nastro d’Argento para Melhor Atriz de Itália.
1963 seria, proventura, o seu apogeu. Nesse ano, estrearam-se três dos seus filmes mais marcantes. Com Visconti, foi Angelica, a sedutora de O Leopardo; para Federico Fellini, era Aida, a atriz de Fellini 8 ½, mítico retrato autobiográfico do seu realizador (foi Fellini, de resto, quem finalmente deu a conhecer a sua voz ao grande público); por último, Blake Edwards trá-la-ia para o outro lado do Atlântico, onde rodou em Hollywood A Pantera Cor-de-Rosa, a sua princesa Dala ao lado do Clouseau de Peter Sellers, um sucesso internacional.
Uma europeia em Hollywood
Foi o começo da aventura americana, que duraria durante os anos seguintes e produziria títulos como Os Centuriões (1966) com Anthony Quinn, Os Profissionais (1967), ao lado de Burt Lancaster (o seu filme preferido deste período), ou a comédia Não Faças Ondas (1967), protagonizada por Tony Curtis.
E claro, há o épico western revisionista de Sergio Leone, co-produção Europa-América e onde a sua ex-prostituta Jill tem destaque central. “A sua aparência de deusa do sexo combina com as suas associações iconográficas mais místicas para facilitar o progresso de Jill de prostituta a construtora de cidades, mãe terra, de pecadora a símbolo da América – a apoteose da prostituta com um coração de ouro”, escreveu em 2008 o biógrafo de Leone, Robert C. Cumbow.
A maturidade de Cardinale na tela acompanhava par e passo a sua emancipação pessoal. “Gosto de viver a minha vida normal, passear-me sozinha na rua. E na Europa faço isso sempre. Ao contrário, em Hollywood estava sempre a ser intercetada na rua, por exemplo, pela polícia, que estava sempre a inquirir-me para onde eu ia – ‘eu vou para onde me apetece’”, dizia na referida entrevista de 2001 ao jornal Público.
Cansada das correntes de Hollywood, retornou sempre ao cinema europeu, onde se sentia em casa. E, na década de 1970, rompeu o casamento com Franco Cristaldi para começar uma relação com o cineasta Pasquale Squitieri – uma decisão pessoal que viria a ter repercussões na sua carreira, já que o primeiro usou a sua influência para a “banir” da indústria italiana. “Foi um momento muito delicado. Descobri que não tinha dinheiro na minha conta bancária”, recordou mais tarde, isto porque o produtor, por virtude do tal contrato de exclusividade, havia ficado com boa parte dos seus ganhos de carreira. “Era uma empregada, como se trabalhasse num escritório”.
▲ Manoel de Oliveira e Claudia Cardinale, na rodagem de "O Gebo e a Sombra", de 2012
Alguns amigos vieram em seu auxílio, como o realizador Franco Zefirelli, que a incluiu no elenco da minissérie italo-britânica Jesus de Nazaré (1977). E o estatuto que conquistara ao longo dos anos enquanto grande dame do cinema europeu faziam dela uma comodidade apetecível a qualquer realizador. Caso, por exemplo, de Werner Herzog, nome da vanguarda alemã, que a trouxe para fazer par com Klaus Kinski em Fitzcarraldo (1982), Palma de Ouro em Cannes. E, dirigida pelo companheiro Squitieri (com quem entretanto teria uma filha, Claudia), vencia em Veneza o prémio de melhor atriz pelo filme Claretta (1984). Mais tarde foi também dirigida por Manoel de Oliveira em O Gebo e a Sombra (2012), a última longa metragem do mestre português.
As últimas décadas foram sobretudo feitas de honrarias, papéis secundários e trabalho humanitário. Mulher de causas e convicções, Cardinale apoiou publicamente o movimento feminista ao longo da vida e no início do século criou fundações de apoio às artes e foi nomeada embaixadora da UNESCO. Residente em França a partir da década de 1990, nunca deixou, contudo, de se identificar como italiana, sendo agraciada em 2018 com a Ordem de Mérito do país.
Pelo meio, sempre a representação, uma forma de vida para uma estrela de modos simples, que rejeitava vedetismos e guarda-costas e parava sempre que lhe pediam um autógrafo. “Não quero parar”, dizia, sorridente, ao jornal The Guardian em 2013, tinha então 74 anos. “É fantástico poder continuar a trabalhar, é importante. Porquê? Não sei.”