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Segundo reza a contracapa, O Clube de Leitura da CIA é “a espantosa história verdadeira do programa secreto da CIA que contrabandeou dez milhões de livros através da Cortina de Ferro durante a Guerra Fria. Uma missão clandestina que usou a literatura como arma silenciosa contra a censura do Bloco Soviético”. O programa, promovido pelo International Literary Center (ILC), dirigido por George C. Minden, sediado em Nova Iorque e financiado pela CIA, distribuiu “livros, revistas e cassettes na Polónia, Checoslováquia, Hungria, Roménia e Bulgária durante cerca de trinta e cinco anos”, entre 1956 e 1990, recorrendo aos mais variados métodos.
O Clube de Leitura da CIA, que foi publicado no início do corrente ano no Reino Unido, com o título The CIA Book Club: The best kept secret of the Cold War, onde recolheu o aplauso da imprensa de referência anglo-saxónica – The Guardian, Financial Times, The Observer, Los Angeles Times, por exemplo – chegou a Portugal, poucos meses depois, por iniciativa da Casa das Letras e com tradução de Pedro Branco.
O livro como arma de subversão maciça
Tudo na apresentação de O Clube de Leitura da CIA sugere que estão reunidos os ingredientes para uma história empolgante: o duelo da astúcia e temeridade dos dissidentes contra a pesporrência e tacanhez dos funcionários aduaneiros e dos censores; a luta do pensamento livre contra o dogmatismo; a frágil e impertinente poesia a escapulir-se entre as pernas dos brutamontes da polícia política; ou, para usar palavras da contracapa, “uma prova arrebatadora do poder da palavra impressa como meio de resistência e libertação”.
A perseguição a livros vistos como ameaça a quem detém o poder é muito anterior à imprensa. Um dos exemplos mais famosos de censura na era pré-Gutenberg visou a Ars amatoria (A arte de amar), do poeta romano Ovídio, cuja celebração do amor extraconjugal o imperador Augusto terá, alegadamente, entendido como contrária ao seu empenho em moralizar a sociedade romana; há, todavia, historiadores que defendem que a proibição da Ars amatoria e o exílio a que Ovídio foi condenado se deveu, na verdade, a Augusto suspeitar que Ovídio apoiava forças que contestavam a legitimidade do imperador. A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e os Contos de Cantuária (The Canterbury tales), de Geoffrey Chaucer, hoje consensualmente reconhecidas como obras magnas da literatura medieval, também foram alvo de perseguição pela parte das autoridades desde que foram publicadas – ironicamente, A Divina Comédia está hoje novamente sob ataque, agora vindo dos vigilantes da “correcção política”, que acusam o livro de racismo, anti-semitismo e islamofobia.
A supressão de obras pelas autoridades foi relativamente fácil no tempo em que o único processo para as reproduzir era a fastidiosa cópia manual, mas a imprensa veio desequilibrar o jogo em favor dos autores. Johannes Gutenberg parece ter tido como propósito principal a difusão de livros edificantes e instrutivos, como as Sagradas Escrituras e os clássicos gregos e romanos, mas a imprensa de tipos móveis foi rapidamente colocada ao serviço da reprodução maciça de todo o tipo de material, muito dele sensacionalista, especulativo e falacioso. A difusão da imprensa foi, inevitavelmente, acompanhada por uma intensificação da caça aos livros vistos pelas autoridades como subversivos, ou heréticos, ou com potencial para instilar nas massas ideias que pudessem, de algum modo, colocar em causa o statu quo.
Edição de 1564 do Index Librorum Prohibitorum, a lista de obras proibidas pela Igreja Católica, que vigorou entre 1560 e 1966
Desde então, o mundo tem assistido a uma acesa (ainda que surda) peleja, em que à força bruta das autoridades policiais e religiosas, dos censores e das turbas munidas de archotes se têm oposto a astúcia e determinação de autores, editores, livreiros e leitores irrequietos. Mesmo as polícias políticas mais repressivas foram incapazes de impedir que os livros proibidos fossem imprimidos em tipografias improvisadas, vendidos nas traseiras das livrarias e passados de mão em mão, por vezes sob capas falsas, em círculos de amigos ou correligionários.
Queima de livros julgados subversivos, imorais ou obscenos pelo regime nazi, Berlim, 1933
Enquanto, em praticamente todos os tempos e geografias, a circulação de publicações clandestinas em regimes autoritários se fez de forma espontânea, dispersa e “amadora”, o que O Clube de Leitura da CIA promete revelar é uma operação centralizada, premeditada e complexa, que o subtítulo do livro afiança ser “o segredo mais bem guardado da Guerra Fria” (“The best kept secret of the Cold War”). Já que estavam em maré de propaganda hiperbólica, English e o seu editor podiam ter ido mais longe e, recorrendo a um conceito hoje muito em voga nos meios geopolíticos, proclamar que o programa posto em prática pelo International Literary Center foi uma manifestação pioneira de “guerra híbrida”, ou, mais precisamente, de “literary warfare”, com antecedentes no plano da coroa espanhola, em 1583, de corromper a moral do povo inglês através do contrabando de revistas pornográficas (revelado ao mundo pelo sketch “Elizabethan pornography smugglers”, no 36.º episódio da série Monty Python’s Flying Circus).
As estantes vazias do Clube de Leitura da CIA
Para Charlie English (n.1967, York, Reino Unido), que foi jornalista no The Independent (1995-97) e no The Guardian (1997-2014), O Clube de Leitura da CIA não é a primeira incursão no tema das obras proibidas, já que no livro The book smugglers of Timbuktu (Os contrabandistas de livros de Timbuktu), de 2017, revelara como “um grupo de arquivistas e bibliotecários tinham lutado para salvar antigos manuscritos da sua destruição às mãos da al-Qaeda”, quando uma “franchise” deste movimento jihadista invadiu o Mali em 2012. Seguiu-se, em 2021, The gallery of miracles and madness (A galeria dos milagres e da loucura), sobre a sanha repressiva do regime nazi contra a arte modernista e a arte criada por pacientes de instituições de saúde mental e sobre como muitos destes pacientes acabaram por ser vítimas do programa de extermínio em massa de “vidas indignas de serem vividas”.
English parece ter encontrado um nicho inexplorado no densamente povoado e ferozmente disputado território dos livros de divulgação da história do século XX, mas O Clube de Leitura da CIA lança sérias dúvidas sobre a competência do autor. Neste livro, English não só não consegue convencer o leitor do papel capital do programa de subversão-através-dos-livros no colapso do Bloco Soviético, como nem sequer dá mostras de ter grande interesse neste tema, preferindo divagar sobre minudências e peripécias da dissidência anticomunista na Polónia, em particular no que respeita ao movimento Solidariedade – um assunto que está muito longe de constituir um “segredo bem guardado” e que tem sido tratado, desde a década de 1980, de forma mais consistente e competente do que Charlie English dá mostras de ser capaz, e por autores que foram, nalguns casos, testemunhas presenciais dos eventos em apreço.
A crítica anglo-saxónica não só não parece ter-se dado conta de O Clube de Leitura da CIA não corresponder ao tema anunciado, como viu nele uma obra irresistível, envolvente e “vibrante”, com o The Guardian a descrevê-lo como “um livro que prende, magnificamente escrito”, e o Financial Times a afirmar que se lê “como um romance de espionagem”. É certo que English se esforçou por conferir atmosfera romanesca ao livro – abre-o com uma galeria de “personagens principais”, insere observações sobre elementos anatómicos das personagens, anotações meteorológicas e outros detalhes circunstanciais – mas English não só é confrangedoramente limitado como romancista, como nem sequer domina as regras básicas da escrita (por exemplo, é inconsistente no uso de tempos verbais e, por vezes, quebra desajeitadamente o registo narrativo objectivo para se dirigir a um “tu” que se presume ser o leitor). Em resumo, O Clube de Leitura da CIA junta o pior de dois mundos: é disperso, displicente e pouco rigoroso como obra de divulgação histórica e pastoso e entediante como thriller de espionagem.
No prólogo, English descreve assim a natureza das publicações contrabandeadas: “Para além de revistas brilhantes de lifestyle, como a Marie Claire e a Cosmopolitan, a CIA enviou exemplares da New York Review of Books e da Manchester Guardian Weekly, obras dos vencedores do Nobel Boris Pasternak, Czesław Miłosz e Joseph Brodsky; textos filosóficos de Hannah Arendt, Albert Camus e Bertrand Russell; ficção literária de Philip Roth e Kurt Vonnegut; conselhos de escrita de Virginia Woolf; as peças de Václav Havel e Bertolt Brecht; e os thrillers de espionagem de John Le Carré” (pg. 29).
Boris Pasternak, fotografado em 1959, um ano depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura. A distinção enfureceu o regime soviético, que não apreciava os livros de Pasternak, muito afastados dos cânones do “realismo socialista”, e forçou o escritor a rejeitar o prémio
English argumenta que estes livros foram o oxigénio que manteve viva a aspiração à liberdade e à independência de espírito entre “os povos oprimidos do Bloco Soviético” e reproduz estas pungentes palavras do dissidente polaco Adam Michnik: “um livro é um reservatório de liberdade, de pensamento independente, de dignidade humana. Um livro era como ar fresco. Permitiram-me sobreviver e não enlouquecer”” (pg. 28).
O leitor espera, pois, que, nas 350 páginas que se seguem, o tema seja desenvolvido e que lhe seja fornecida informação pertinente: um top das obras mais contrabandeadas, as diferentes preferências literárias dos diferentes países do Bloco de Leste e a sua evolução no tempo, critérios usados na selecção dos livros a enviar para Leste, impacto das obras nos leitores comuns e nos escritores e intelectuais; paralelos entre situações descritas nas obras e a situação política e social nos países de destino. Porém, O Clube de Leitura da CIA vai avançando e os livros contrabandeados para Leste raramente se erguem acima do vago e genérico conceito de “livros contrabandeados para Leste”; aqui e ali, mencionam-se os nomes de Miłosz e de Orwell, mas estes limitam-se a desempenhar o papel de símbolos genéricos de denúncia do totalitarismo comunista.
Cartaz soviético de 1931, exaltando o plano quinquenal e argumentando que 2 somado a 2 e ao entusiasmo dos operários é igual a 5; a capacidade da propaganda soviética para distorcer as palavras, a lógica e até a mais elementar aritmética inspirou Orwell na concepção do romance 1984
Na verdade, contrariando as expectativas do leitor, o item de contrabando a que English dá maior destaque não são os livros vindos do Ocidente, mas o material tipográfico que permitiu produzir, atrás da Cortina de Ferro, os jornais, revistas, boletins e panfletos que desafiaram o poder comunista e alimentaram a dissidência. English esquece-se rapidamente dos livros vindos do Ocidente e gasta a maior parte da obra a descrever as manhas dos contrabandistas e dos editores e tipógrafos na Polónia, as contra-medidas da polícia política polaca e os imprevistos, contratempos e peripécias do movimento dissidente. Mais desconcertante ainda é que, embora refira explicitamente que o plano da CIA também envolveu a Checoslováquia, Hungria, Roménia e Bulgária, o livro se concentre exclusivamente na Polónia, sem dar qualquer justificação para tal. “Imprensa clandestina e movimentos dissidentes na Polónia comunista” poderá soar pouco apelativo, mas seria título muito mais rigoroso do que O Clube de Leitura da CIA.
Uma das máquinas duplicadoras usadas pelo movimento Solidariedade para a produção de material de propaganda
A fábrica de enchidos do Sr. English
O Clube de Leitura da CIA não se limita a fugir ao tema sobre o qual Charles English se propôs escrever. Acontece que, seja qual for o tema sobre o qual o autor discorra, desbarata o seu potencial, em resultado da sua propensão para a divagação e para a acumulação de detalhes espúrios, que decorre, porventura, da sua incapacidade em distinguir o acessório do essencial numa narrativa. Eis alguns exemplos:
● Após relatar o julgamento do editor e impressor clandestino Mirosław “Mirek” Chojecki pela justiça polaca, que resultou numa pena de 18 meses de prisão, suspensa por três anos, que foi acolhida pelo réu e pelos seus amigos dissidentes como uma “vitória tremenda”, English conclui assim o capítulo: “Alguém lhe passou para a mão uma cerveja gelada. Era meia-noite” (pg. 77). A cerveja gelada, vinda do nada, ao nada regressa de imediato, pois não desempenha papel algum na narrativa (não há outras cervejas no livro, Chojecki não precisava de molhar a garganta nem se menciona que fosse apreciador de cerveja e o regime comunista polaco não interditara o consumo de cerveja). A hora da intempestiva aparição da cerveja é igualmente irrelevante – até porque na descrição do episódio nunca o factor tempo foi mencionado.
● “Mesmo em jovem, o rosto de Jerzy Giedroyć reflectia uma expressão de alguma reserva, com lábios mais fechados do o habitual, que se inclinava [sic] para baixo mesmo quando sorria, e olhos brilhantes com pálpebras um pouco pesadas” (pg. 88).
● “[Giedroyć] trabalhava a uma modesta secretária rodeada de estantes duplas, expelindo nuvens de fumo azul-acinzentado dos seus cigarros mentolados Kool Filter King. Era um fumador inveterado, que fumava à mesa do pequeno-almoço e à noite com qualquer texto que levasse para a cama, deixando marcas de queimadura na roupa de cama e no chão (pg. 89).
● “Era Lech Wałesa, um colaborador do Coastal Worker, de trinta e sete anos, de farto bigode e com 1.74 metros de altura” (pg. 99). Uma vez que 1.74 metros é uma altura sem nada de excepcional num homem caucasiano, porquê mencioná-la? E em que medida o rumo da história da Polónia seria diferente se Wałesa tivesse mais cinco ou menos cinco centímetros?
Lech Wałesa, durante a greve dos Estaleiros Vladimir Lenin, Gdańsk, Agosto de 1980
● Na pg. 112, em jeito de prólogo à descrição da participação de várias editoras dissidentes polacas (e do movimento Solidariedade) na Feira do Livro de Frankfurt de 1981, English entende ser oportuno e pertinente ocupar ¾ de página com a evocação de Johannes Gutenberg e da sua prensa de tipos móveis. Ainda mais surpreendente é que conclua que, “depois de Gutenberg, era natural que o comércio de livros se reunisse aqui em Frankfurt”. “Natural”? Salvo alguns anos passados em Estrasburgo, Gutenberg está intimamente vinculado a Mainz, a cidade da sua família, onde nasceu, exerceu o mister de impressor e faleceu, e não há registo de que alguma vez tenha visitado Frankfurt. É tão “natural” ou “inevitável” a existência de uma Feira do Livro em Frankfurt como em Berlim, Paris, Lisboa ou Guadalajara.
● As páginas 135-37 são ocupadas com transcrições do discurso feito pelo general Wojciech Jaruzelski, chefe do Governo polaco, a 13 de Dezembro de 1981, anunciando a instauração da lei marcial. Foi um momento decisivo na história do país, mas o espaço que lhe é concedido é desproporcionado face ao (suposto) escopo do livro. O mesmo pode ser dito das descrições detalhadas e dramatizadas de peripécias ocorridas durante as greves desse ano nos estaleiros de Gdańsk e a criação do movimento Solidariedade.
O general Jaruzelski, momentos antes de anunciar a imposição da Lei Marcial
● “[Marian Kaleta] foi acordado às 5h30 pelo telefone e passou pelo cão adormecido para pegar no auscultador. […] Lavou-se, faz [sic] uma chávena de café muito forte e, às sete da manhã, iniciou uma ronda de teleconferências que durou o dia todo” (pg. 151). Se Kaleta preferisse café fraco ou chá e se entre ele e o telefone estivesse um gato angorá desperto, a história teria sido diferente?
● “Mirek [Mirosław Chojecki] conduziu pelos subúrbios de Paris até à hora marcada, estacionou numa rua lateral da Avenue de Poissy e caminhou por entre os pinheiros até à vivenda coberta de hera [onde vivia Jerzy Giedroyć]. Como era habitual, a campainha da porta provocava uma cacofonia no interior da casa, causada pelo spaniel mal-humorado de Giedroyć, razão pela qual os habitantes do edifício tinham instalado uma placa que dizia cave canem, ‘cuidado com o cão’, na porta da frente” (pg. 213).
Entre as generosas quantidades de excipiente com que English insuflou o volume do livro estão trechos que poderão ser classificados na categoria de “lirismo de boletim meteorológico”. Eis alguns exemplos:
● “A temperatura estava a descer e a neve ligeira começava a engrossar, esbatendo as arestas da cidade e redobrando o brilho ténue e amarelo dos candeeiros de rua” (pg. 126).
● “Quando a manhã despontou em Varsóvia, a neve que caíra durante a noite deu lugar a uma luz solar dura e brilhante, que dançava sobre o manto de cristais de gelo que cobria a cidade” (pg. 137).
● “Em Annandale […], as cores vivas do Outono na Virgínia [tinham-se] desvanecido num cinzento invernal” (pg. 147).
● “As temperaturas árcticas continuavam a assolar o país desde a declaração de Jaruzelski, o frio intenso do clima polaco reflectia o clima político. […] Sentinelas com Kalashnikovs permaneciam ao lado de braseiros incandescentes por toda a Varsóvia, afastando a geada que se infiltrava, batendo com as botas e esfregando as mãos nas brasas de coque, que enchiam o ar com um cheiro acre” (pg. 164).
Operários em greve, Estaleiros Vladimir Lenin, Gdańsk, Agosto de 1980
Desnecessário será dizer que nem a cor das folhas nas árvores, nem a neve, nem a geada desempenham qualquer papel na narrativa.
Inépcias, displicências, lapsos e tolices
● “Esse dia [14 de Agosto de 1980] não foi a primeira vez que a palavra S foi usada em relação à polícia polaca” (pg. 101). A menção à “palavra S” cai do céu e é tola e despropositada (mesmo no original inglês) e deixará intrigados a maioria dos leitores não-anglófonos.
● “[Chojecki] disse a Minden que não se podiam dar ao luxo de se deixar intimidar, uma vez que isso os paralisaria na inacção” (pg. 119). English crerá que existem “paralisias activas”?
● “A operação mais desastrosa [de William J. Casey enquanto director da CIA] foi a conspiração para financiar a direita com dinheiro obtido através da venda de armas a Teerão, em violação da lei americana. O encobrimento do caso Irão-Contras implicaria o próprio Reagan e criaria o maior escândalo a atingir Washington desde o Watergate” (pg. 157-58). Obviamente que esta crapulosa operação, que decorreu em 1985-87, não tinha por fito financiar “a direita” em abstracto e um pouco por todo o mundo, mas, muito especificamente, os Contras, um grupo de guerrilheiros de extrema-direita que, na Nicarágua, lutavam contra o governo comunista da Frente Sandinista. O leitor que não esteja a par do caso Irão-Contras poderá pensar que o programa da CIA vendia armas à Guarda Revolucionária iraniana para financiar o CDS português e a CDU alemã.
● Na pg. 256, escreve-se que a Propaganda Assets Inventory, a rede de “agências noticiosas, jornalistas e fontes de informação” que a CIA montara para combater o comunismo no mundo “era apelidada de ‘Wisner’s Wurlitzer’ na CIA, em homenagem ao primeiro chefe do pessoal de acção secreta da Agência, Frank G. Wisner, que a tinha criado. A ideia era que, ao premir um botão, o Wurlitzer tocaria qualquer melodia”. Poucos leitores não-melómanos farão ideia do que é “o Wurlitzer” e mesmo estes tenderão a associar o nome ao piano eléctrico Wurlitzer, não às jukeboxes que fizeram a fama da marca até meados do século XX e que, mediante a pressão de um botão, permitiam seleccionar uma faixa no menu, que, nos modelos mais completos da Wurlitzer, podia conter 200 canções, alojadas em 100 discos de 7’’ e 45 rpm (para um dispositivo capaz de tocar “qualquer melodia” seria preciso esperar pelo Spotify).
● Na pg. 261, ao tratar os documentários encomendados pelo editor e produtor dissidente Mirosław Chojecki com o fito de exaltar a identidade polaca, escreve-se que “outros temas históricos incluíam a história do Exército Anders, Józef Piłsudski, KOR e o grupo Parasol de combatentes da resistência”. Serão raros os leitores não-polacos que farão ideia do significado do Exército Anders, do KOR e do grupo Parasol e English nada diz sobre elas (apenas a figura de Józef Piłsudski é aflorada no livro).
Józef Piłsudski (aqui numa foto da década de 1920), primeiro marechal do Exército polaco, comandante dos exércitos polacos que travaram o avanço bolchevique para Ocidente em 1919-21, presidente da Polónia em 1918-22 e primeiro-ministro da Polónia em 1926-28 e em 1930, é uma figura central do nacionalismo polaco e, logo, visto como inimigo pelo regime soviético
● Na pg. 300, relata-se que, em Agosto de 1988, quando toda a equipa da principal publicação da dissidência polaca estava de férias, a dissidência voltou a ganhar força nos estaleiros de Gdańsk, cujos operários ameaçaram entrar em greve. Helena Luczywo, uma das editoras da revista, estava nas “belas montanhas de Beskid” e “como os telemóveis ainda não tinham chegado ao país, ela estava felizmente fora de alcance” (entenda-se: “incomunicável”). Charlie English, que nasceu em 1967, é suficientemente velho para ter presente que, em 1988, os telemóveis também não tinham chegado ao resto do mundo. Os aparelhos e as respectivas redes já existiam há alguns anos, mas o seu uso estava limitado a uma minúscula elite e as redes apenas cobriam as principais cidades e vias de comunicação; em 1988, a percentagem de utilizadores de telemóveis era ainda residual, mesmo nos países mais abastados e tecnologicamente desenvolvidos do Mundo Livre, como sejam os EUA (0.8% de utilizadores na população), a França (0.2%), a República Federal da Alemanha (0.2%) ou o Japão (0.1%).
Evolução do número de assinantes de telefones móveis nos EUA (em milhões)
A conquista da Polónia pelos ingleses
Uma das pragas na tradução em Portugal é a prática, assaz difundida, de, nos livros traduzidos do inglês, os títulos das obras literárias e artísticas serem mantidos em inglês, mesmo quando o autor e o seu contexto cultural não são ingleses, ou até se situam num tempo muito anterior ao surgimento da língua inglesa. É uma prática inexplicável e visivelmente incongruente, que faz com que se credite a Santo Agostinho a autoria de The city of God e se atribua a Rembrandt o quadro The night watch. É natural que um autor inglês use as versões inglesas dos títulos de obras provenientes de outras culturas, mas qual é a justificação da tradução portuguesa para manter as versões inglesas? Esta “tendência” também afecta livros traduzidos do francês ou do espanhol, mas é mais evidente nos livros de origem anglo-saxónica, por, hoje, estes dominarem esmagadoramente a edição em Portugal.
No caso d’O Clube de Leitura da CIA as “anglicizações” são recorrentes e afectam não só autores, obras e publicações polacas como entidades polacas, o que perturba a imersão do leitor na realidade descrita no livro. A estranheza criada pela manutenção da versão inglesa poderia ser minimizada se o tradutor português providenciasse também (eventualmente em nota de rodapé) uma versão portuguesa e/ou o original polaco, o que nunca é feito.
Entre as vítimas da “anglicização” está Adam Mickiewicz (1798-1855), que, embora seja figura cimeira das letras polacas e seja celebrado como poeta nacional na Polónia, Lituânia e Bielo-Rússia e nunca tenha tido qualquer vínculo com o mundo anglo-saxónico, vê O Clube de Leitura da CIA atribuir-lhe a peça Forefather’s eve, cujo título original é Dziady e é conhecida no mundo francófono como Les aïeux, no mundo germanófono como Totenfeier ou Ahnenfeier e no mundo hispanófono como Víspera de los antepasados.
Adam Mickiewicz, num daguerreótipo datado de c.1842
Mais infortunado foi o escritor russo Aleksey Nikolayevich Tolstoy (1883-1945, não confundir com Lev Tolstoy, nem com o seu primo Aleksey Konstantinovich Tolstoy), a quem é atribuída a autoria de The road to Calgary, que nada tem a ver com a cidade canadiana de Calgary e cujo título resulta, provavelmente, de uma deformação acidental, ocorrida na tradução portuguesa, de The road to Calvary, título dado no meio anglófono à trilogia de romances intitulada originalmente Khozhdeniye po mukam e que é conhecida no mundo francófono como Le chemin des tourments.
Também as obras dos autores dissidentes polacos são mantidas na versão inglesa: assim, temos Adventures with story, de Marian Brandys; Tumult and spectrum, compilação de conversas com Józef Czapski; War against the nation, de Józef Lebenbaum; Fight for truth, compilação de artigos escritos no exílio por Adam Ciołkosz; e Fight for the world, de Stefan Kisielewski. Do padre católico Jerzy Popiełuszko, assassinado em 1984 pela polícia política polaca, mencionam-se Patriotic sermons, uma compilação de sermões; Dear Father Jurek, uma compilação de cartas; e uma biografia/hagiografia intitulada The price of loving the homeland.
O padre Jerzy Popiełuszko (segundo a contar da esquerda), num encontro com operários nos estaleiros de Gdańsk
Deve sublinhar-se que as obras dos dissidentes foram, como seria natural, escritas em polaco e publicadas pela imprensa clandestina polaca e tinham por alvo o público polaco (que, naquela época não possuía conhecimentos de inglês – a língua estrangeira que se aprendia, obrigatoriamente, nas escolas da Europa de Leste era o russo, não as “línguas do capitalismo”).
Como já se viu, a anglicização não poupa os autores russófonos: segundo O Clube de Leitura da CIA, Nadezhda Mandelstam é autora de Hope against hope, um livro de memórias da vida partilhada com o esposo, Ossip Mandelstam (vítima da repressão stalinista); o livro foi originalmente intitulado Vospominaniya, que significa “memórias” ou “reminiscências”, mas a tradução inglesa optou por criar um jogo de palavras que se baseia no significado do nome próprio russo “Nadezhda”: “esperança”.
À “anglicização” sistemática escapam dois romances célebres, O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Solzhenitsyn, e Doutor Jivago, de Boris Pasternak, assim como o não tão célebre O pássaro pintado (1965), de Jerzy Kosiński, título que até poderia fazer sentido manter em inglês, uma vez que Kosiński, que se mudara para os EUA em 1957, o escreveu e publicou originalmente em inglês, como The painted bird.
Aleksandr Solzhenitsyn, um dos dissidentes que mais incómodo causou ao regime soviético, fotografado em 1974
As publicações periódicas e os panfletos publicados na Polónia e tendo como destinatário o povo polaco têm tratamento similar. Assim temos, do lado dissidente, o boletim Coastal Worker (leia-se: Robotnik Wybrzeża); o jornal Mazovia Weekly (Tygodnik Mazowsze); The Little Conspirator (Mały konspirator, “o folheto clandestino mais popular na Polónia, na Primavera de 1982”); e Calendar of war, documentário sobre manifestações antigovernamentais na Polónia. A “anglicização” mais incongruente é a que envolve a Election Gazette, jornal do movimento Solidariedade, surgido poucos meses antes das primeiras eleições livres, em 1989, e cujo título polaco – Gazeta Wyborcza – é conhecido para lá das fronteiras polacas, pois converteu-se rapidamente num dos jornais europeus de referência (chegou a ter, na era pré-internet, uma circulação diária de meio milhão de exemplares). O Clube de Leitura da CIA contém várias menções à Election Gazette, mas em lado algum se refere a Gazeta Wyborcza. O único título da imprensa dissidente a ser vertido para português é o boletim Informação do Solidariedade.
Do lado do regime comunista polaco, temos People’s Tribune (Trybuna Ludu), jornal oficial do Partido Operário Unificado (entenda-se: comunista); Soldier of Freedom (Żołnierz Wolności), jornal oficial das Forças Armadas; Guest from space or space invader?, “publicação do Ministério da Defesa”; e Closer to the World, programa da TV estatal polaca.
É também em língua inglesa que surgem os nomes de muitas organizações e entidades da sociedade polaca: Paris Commune Shipyard (estaleiro naval em Gdynia), Free Trade Union of the Coast (Wolne Związki Zawodowe Wybrzeża, um sindicato independente), Solidarity Press Agency (a agência de comunicação do movimento Solidariedade), e Fighting Solidarity (grupo radical da dissidência polaca, que, na pg. 318, surge na forma híbrida “Fighting Solidariedade”). Também uma operação desencadeada pela polícia polaca contra os dissidentes mantém a designação inglesa: Fir Tree (abeto).
Em contrapartida, a versão portuguesa tem o mérito de incluir um verdadeiro índice remissivo, isto é, um índice estruturado e muito completo, que permite “navegar” dentro do livro, e não o índice onomástico simplificado que em muitas versões portuguesas substitui o índice remissivo original e se limita a listar todos os números de página em que um determinado nome ocorre – isto, claro, quando o índice remissivo não é simplesmente suprimido, o que é o mais frequente.
O estaleiro naval de Gdynia, fundado em 1922, foi, durante o período comunista, rebaptizado em homenagem à Comuna de Paris, o que não impediu os seus operários de desempenharem importante papel na luta contra o regime comunista
Andrei Sakharov e os três eixos da liberdade intelectual
Um dos capítulos de O Clube de Leitura da CIA abre com uma epígrafe proveniente do ensaio “Reflexões sobre progresso, coexistência pacífica e liberdade intelectual”, redigido em 1968 pelo físico nuclear e dissidente soviético Andrei Sakharov: “A liberdade intelectual é essencial para a sociedade humana – liberdade para obter e distribuir informação, liberdade para um debate aberto e sem medo e liberdade contra a pressão do oficialismo e dos preconceitos. Esta trindade da liberdade de pensamento é a única garantia contra a infecção das pessoas por mitos de massa, que, nas mãos de hipócritas traiçoeiros e demagogos, podem transformar-se em ditadura sangrenta” (pg. 307).
Andrei Sakharov com Ronald Reagan, em 1988, na Casa Branca: Sakharov, Prémio Nobel da Paz em 1975, pela sua actividade em prol dos direitos humanos, não era benquisto na URSS, tendo cumprido pena de exílio interno em 1980-86
Eram palavras sábias em 1968, mas terão ainda validade em 2025?
Hoje, nos países democráticos, cada cidadão desfruta de:
1) Liberdade para obter, gerar e distribuir informação; na verdade, nunca o acesso à informação pelo cidadão comum foi tão rápido, fácil, barato e abrangente e nunca o cidadão comum dispôs de meios tão poderosos, instantâneos e equitativamente distribuídos para fazer ouvir a sua voz.
2) Liberdade para debater todo e qualquer assunto e de exprimir as ideias mais esdrúxulas (desde que não incorra em práticas sancionadas pela lei, como a calúnia ou a incitação à violência) sem receio de ser censurado ou de ser alvo de represálias efectivas pela parte do Estado.
3) Liberdade para exprimir e defender ideias contrárias aos preconceitos dominantes na sociedade, a quaisquer crenças e dogmas associados a fés religiosas e ideologias políticas, ou à visão oficial da realidade endossada pelo aparelho de Estado.
Estas três liberdades, que são, em abstracto, virtuosas e benéficas, têm sido, na prática, deturpadas, abusadas e redireccionadas de forma a que, em vez de fomentarem uma sociedade mais informada, pluralista, tolerante, democrática e racional, estão a servir, em grande medida, para:
1) Disseminar desinformação – nomeadamente sob a forma de teorias conspirativas – de uma forma maciça e insidiosa.
2) Instaurar um clima de intimidação e de “cancelamento”, imposto por “guardiões da virtude” que patrulham o ciberespaço em busca de motivos para se indignarem.
3) Incentivar o maniqueísmo, o sectarismo, o “clubismo” e a intolerância, criando “bolhas de realidade” impermeáveis.
4) Desacreditar as instituições democráticas e científicas, impor o relativismo ontológico e esvaziar os próprios conceitos de “democracia”, “ciência” e “realidade”.
Władislław Ciastoń foi director, em 1981-87, do SB (Służba Bespieczeństwa ou Serviço de Segurança), a polícia política polaca. Foi detido por suspeita de envolvimento no assassinato de Jerzy Popiełuszko e libertado por falta de provas; em 2019, foi julgado pela actuação enquanto director do SB e condenado a dois anos de prisão
A liberdade intelectual em 1968 e em 2025
No século XXI, devido a desenvolvimentos revolucionários na comunicação e no relacionamento entre os seres humanos, que passaram a ser (dominantemente) mediados por plataformas tecnológicas – e, em particular, pelos smartphones e pelas redes (ditas) sociais – a “trindade da liberdade de pensamento” definida por Sakharov está, aparentemente, em vigor, mas está a favorecer o que, supostamente, deveria combater: a “infecção das pessoas por mitos de massa” e a entrega do poder a “hipócritas traiçoeiros e demagogos” com inclinações ditatoriais.
Noutra reviravolta inesperada para um observador situado em 1968, as ditaduras que hoje ameaçam tomar o lugar das democracias liberais não necessitam de ser “sangrentas”. A tecnoditadura moderna não necessita de recorrer à violência física: assenta na alienação, no narcisismo, no consumismo, na dependência da gratificação instantânea, na atracção pelo sensacionalismo e no instinto tribal. Hoje já não é necessária uma polícia política que faça escutas telefónicas, abra a correspondência e torture os cidadãos para lhes extrair segredos, pois eles mesmos fornecem espontaneamente os mais ínfimos detalhes do seu quotidiano e expõem a sua intimidade, os seus sonhos e os seus temores perante uma audiência (potencial) de milhares de milhões. E este jugo é tão “suave” que as massas subjugadas de hoje nem sequer se dão conta da sua condição, pelo que não lhes passará pela cabeça rebelarem-se contra os seus tiranos.
Gdynia, Dezembro de 1970: Manifestantes carregam o corpo de Zbigniew Godlewski, um operário de 18 anos morto pelas forças de segurança. As manifestações de Dezembro de 1970 foram a maior ameaça ao regime comunista polaco (antes do surgimento do Solidariedade) e foram duramente reprimidas, causando 44 mortos e um milhar de feridos
Outra mudança relevante ocorrida após o termo da Guerra Fria é que, hoje, uma potência que pretenda manipular os cidadãos de uma potência rival (ou de um dos seus satélites), espicaçando o descontentamento, a animosidade contra o statu quo, a aspiração a uma mudança de regime ou o apoio a um líder político conivente com os seus interesses, não lhe passará pela cabeça recorrer ao contrabando de livros “subversivos”, sejam eles da autoria de Hitler, Lenin, Mussolini, Orwell, Rand, Gramsci, Arendt, Hayek, Sakharov, Chomsky, Scruton ou Žižek. Em 2025, a luta pelo espírito das massas não se faz com livros de filosofia política (ou livros de qualquer outro género), mas com clips inanes no TikTok e arengas ébrias e divagantes em formato podcast.
George Minden via o programa de contrabando de livros que dirigiu como “uma ofensiva do pensamento livre e honesto e de informação exacta”, assente no pressuposto de que “a verdade é contagiosa” (pg. 60). Ora, em 2025, a verdade está desacreditada e inerme e é a mentira que é altamente contagiosa, e o fact-checking, os desmentidos e a argumentação racional pouco podem fazer para combater a célere propagação de atoardas, por mais grosseiras e inverosímeis que sejam. A prevalência da mentira sobre a verdade não é uma constatação nova – já em 1710 Jonathan Swift observara que “a mentira voa e a verdade vem a coxear atrás dela” (ver capítulo “Os computadores e as redes estão a criar populistas?” em Nexus: As redes de informação, a humanidade e as (revira)voltas de Yuval Noah Harari) – mas as vantagens da primeira sobre a segunda nunca foram tão esmagadoras como no nosso tempo.
Jonathan Swift retratado c.1718 por Charles Jerves
Quando escreveu “Reflexões sobre progresso, coexistência pacífica e liberdade intelectual”, Sakharov começou, ingenuamente, por remeter o documento ao Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, crendo que poderia servir de base a um debate sobre o rumo do país, mas, perante a ausência de resposta, acabou por fazer o ensaio chegar ao Ocidente, onde foi publicado no The New York Times, a 22.07.1968. O ensaio está, inevitavelmente, formatado pelo contexto geopolítico, tecnológico e social do seu tempo e Sakharov não poderia ter previsto que o progresso vertiginoso na área das comunicações e da informática iria reconfigurar o espaço público e as relações de poder na sociedade e revelar que o cumprimento da “trindade da liberdade de pensamento” é insuficiente, por si só, para evitar a deriva totalitária e pode até ser usado para persuadir as massas das vantagens de serem comandadas por um “homem forte”.
Isto porque, sem o compromisso com a verdade, as liberdades de acesso à informação, de expressão e de debate acabam por fazer com que o espaço público se converta numa algaraviada caótica, onde as vozes sensatas são submersas pela assuada dos mentirosos compulsivos, dos demagogos histriónicos e dos sandeus comuns.
Sem o compromisso com a memória, as liberdades de acesso à informação, de expressão e de debate acabam por favorecer a dispersão, a frivolidade e a volubilidade, de maneira que o colossal acervo de dados raramente se consolida sob a forma de conhecimento, as mentiras não são punidas, os argumentos racionais não conseguem suplantar os argumentos irracionais e os debates estão condenados a retornar sempre ao ponto de partida.
Sem o compromisso com a empatia, as liberdades de acesso à informação, de expressão e de debate acabam por dar primazia no espaço público aos trolls, aos bullies, aos machos-alfa e aos predadores de topo, por promover o culto do sucesso a qualquer custo e o regresso da lei do mais forte e por impor alcateia digital como modelo de organização social.