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epa12294355 People participate in a demonstration in support of Venezuelan President Nicolas Maduro in Maracaibo, Venezuela, 11 Augst 2025. Hundreds of Chavistas mobilized in Caracas and other regions of Venezuela in response to what they described as threats from the United States after a recent announcement offering a 50 million dollar reward for information leading to Maduro's capture, twice the amount offered in January.  EPA/Henry Chirinos
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▲O governo de Maduro permitiu que o tráfico de droga tomasse conta da região de Sucre

Henry Chirinos/EPA

▲O governo de Maduro permitiu que o tráfico de droga tomasse conta da região de Sucre

Henry Chirinos/EPA

Com 12 metros de comprimento e 11 pessoas a bordo, lancha destruída pelos EUA seguia rota de tráfico de droga entre Venezuela e Europa

Vila piscatória de praias de sonho, San Juan de Unare tornou-se em antro de tráfico — de droga e pessoas. Foi daí que zarpou a lancha de 12 metros para Trindade e Tobago que celebrou a sua destruição.

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No nordeste da Venezuela, às portas do Parque Nacional da Península de Paria, fica a localidade costeira de San Juan de Unare, no estado de Sucre. Foi daí que, no passado domingo à noite, terão partido três lanchas com destino a Trindade e Tobago. A viagem até à ilha vizinha, um percurso frequente para os barcos que saem de Sucre, deveria durar cerca de duas horas. Mas o terceiro barco nunca chegou ao destino: a meio do percurso no sul do Mar das Caraíbas, o terceiro barco foi atingido por um míssil norte-americano, que matou as onze pessoas que seguiam a bordo.

A notícia do ataque foi dada pelo Presidente norte-americano na terça-feira. “Atacámos um barco que estava a vir da Venezuela. Era um barco que transportava muita droga. Vinha da Venezuela”, declarou Donald Trump numa conferência de imprensa na Casa Branca. A rota entre Sucre e Trindade e Tobago é popular precisamente por ser um ponto de passagem para a droga que sai da Venezuela, a caminho do Norte Global. Ronna Rísquez, jornalista que investigou o crime organizado na região, estima que, a bordo da lancha atacada, circulasse uma quantidade de droga no valor de 120 milhões de dólares.

O ataque aconteceu no âmbito de um escalar de tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela. Na semana passada, Trump enviou “a maior frota em décadas”, constituída por submarinos nucleares, contratorpedeiros e aparelhos aéreos para a costa da Venezuela. Esta sexta-feira, a Venezuela respondeu ao sobrevoar os navios com dois jatos F-16. Washington justificou o ataque à lancha da mesma forma que justificou o cerco marítimo: com o combate ao tráfico de droga na região. “Que isto sirva de aviso a quem esteja sequer a pensar em trazer drogas para os Estados Unidos da América”, escreveu no mesmo dia, na Truth Social, juntamente com um vídeo do ataque à embarcação, sendo dois dias depois surgiu nova versão do vídeo, com um plano mais aproximado em que se percebe melhor a dimensão do barco.

O Presidente Nicolás Maduro respondeu com acusações de que os Estados Unidos estão a criar uma “narrativa” para invadirem o país e ficarem com o petróleo venezuelano de graça. Sobre o ataque, o seu ministro das Comunicações, Freddy Ñáñez, chegou mesmo a dizer que as imagens partilhadas por Washington tinham sido criadas com inteligência artificial. A BBC Verify escreveu não ter encontrado “nenhuma prova de que as imagens são falsas”. O El Pitazo, um jornal venezuelano independente e focado em cobrir as áreas mais remotas do país, foi mais longe e apresentou vários detalhes sobre o barco e os tripulantes da lancha atacada.

Mais do que um evento isolado, o barco atacado e a terra de onde partiu traçam o retrato de uma região presa numa guerra entre gangues, que traficam tanto drogas, como pessoas e entre os quais se conta o Tren de Aragua (TdA), definido como alvo a abater pela administração Trump. Neste contexto, San Juan Unare passou a ser palco de um conflito mais alargado entre Washington e Caracas.

San Juan de Unare: a antiga localidade piscatória “dominada” pelo tráfico

Setembro de 2018. Entre San Juan de Unare e San Juan de Galdonas, irrompe uma guerra entre gangues que procuram controlar as rotas de tráfico de drogas nas Caraíbas. Em apenas dois dias, mais de 78 homens são mortos e desmembrados. Apenas dois corpos são enterrados: os restantes são atirados ao mar ou nunca são encontrados. O relato foi feito ao jornal El Pitazo pela jornalista Ronna Rísquez, que passou largos períodos de tempo na região, enquanto fazia investigações sobre o TdA para o seu livro El Tren de Aragua: La banda que revolucionó el crimen organizado en América Latina, publicado em 2023.

“San Juan de Unare é uma área que tem sido dominada pelo tráfico de droga, identificada há vários anos pelas autoridades dos EUA”, declarou ao jornal venezuelano. “Eu vi com os meus próprios olhos uma localidade tomada pelo tráfico de droga”, relatou ao El País. A preponderância do tráfico na região explica-se por uma acumulação de fatores. Em primeiro lugar, a pobreza da região. Sucre é uma das regiões mais pobres da Venezuela, onde a principal indústria foi, durante muito tempo, a pesca.

Nos últimos 20 anos, contudo, Sucre tornou-se um centro do tráfico de droga na Venezuela, devidos às suas características geográficas. Por um lado, as longas praias fazem da região um local estratégico para controlar as rotas de tráfico de droga nas Caraíbas. Por outro, o facto de uma grande parte da região se localizar na península de Paria faz dela um local relativamente isolado e sem presença expressiva de forças de segurança. Rísquez descreve ainda que, nas últimas duas décadas, a região começou a ser utilizada por responsáveis militares de alta patente envolvidos no tráfico de droga.

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▲ O tráfico de droga na região é controlado por membros das forças de segurança

AFP via Getty Images

Estas atividades fazem parte do esquema conhecido como Cartel de Los Soles. O Insight Crime, um think tank norte-americano focado na investigação de crime organizado, define o Cartel não como uma organização formal, liderada pelo Presidente Maduro, mas antes como “um sistema de corrupção generalizado”, em que o governo facilita o tráfico de droga, ainda que não o controle diretamente.

Nos últimos anos, o tráfico na região ganhou uma outra vertente: o tráfico humano. A rota que liga Sucre a Trindade e Tobago passou a ser utilizada por lanchas com migrantes venezuelanos à procura de sair do país e os naufrágios no sul do Mar das Caraíbas tornaram-se mais frequentes. O jornal colombiano El Tiempo recorda a lancha “Ana María”, que desapareceu no mar em maio de 2019, com 32 passageiros a bordo.

Entre o “luto” e a ausência de “compaixão”. As reações ao ataque na região

O barco atingido pelos Estados Unidos esta segunda-feira não será muito diferente das centenas de embarcações que saíram de Sucre com drogas e migrantes a bordo nos últimos anos e que também são utilizadas pelos pescadores. “Era uma lancha rápida de 12 metros de comprimento por 2,5 metros de largura com 4 motores de 200 cavalos”, descreveu César Batiz, diretor do El Pitazo, citando fontes na região.

A bordo seguiam, tal como disseram os Estados Unidos, 11 pessoas. Oito eram de San Juan de Unare, as outras três de localidades vizinhas. Um dos mortos é o filho do dono do barco. A lancha, assim como as outras duas que partiram antes, estava equipada com um sinal de GPS, que era seguido pelo proprietário ds embarcação e, supõe Batiz, pelo dono do carregamento de droga.

Porém, a bordo da lancha podiam não seguir apenas traficantes de droga, escreve o Insight Crime. “Fontes na Venezuela disseram que podia estar transportar alguns migrantes além da tripulação de tráfico de droga“, escreveu o think tank. “Ainda que o relato inicial não tenha sido confirmado, encaixaria nos padrões de atividade criminal observados na área”, ressalvou.

"A dor e sofrimento que os cartéis infligiram na nossa nação é imensa. Não tenho compaixão pelos traficantes. O Exército dos Estados Unidos devia matá-los a todos violentamente. O nosso país foi arrasado pela violência sangrenta e a adição por causa da ganância dos cartéis. A matança do nosso povo é alimentada pelos cruéis traficantes dos cartéis."
Kamla Persad-Bissessar, primeira-ministra de Trindade e Tobago

Em Unare, os efeitos do ataque fazem-se sentir na população. “As pessoas estão em alvoroço: muitos dos membros da tripulação eram nossos conhecidos”, disse uma pessoa não identificada na localidade a Batiz. Nas redes sociais, o jornal venezuelano identificou uma série de tributos e homenagens aos traficantes, numa vila que diz estar “de luto“. Na sequência do ataque, começaram a chegar à região, ao longo desta semana, vários veículos da Guarda Nacional, a polícia militar das Forças Armadas da Venezuela. A visão é rara no território controlado por gangues, mas não inédita. Em janeiro deste ano, Caracas já tinha destacado a Guarda “como parte de operações para impor a paz no território”.

Em Trindade e Tobago, onde a lancha nunca chegou, a notícia do ataque foi recebida com satisfação. “A dor e sofrimento que os cartéis infligiram na nossa nação é imensa. Não tenho compaixão pelos traficantes. O Exército dos Estados Unidos devia matá-los a todos violentamente. O nosso país foi arrasado pela violência sangrenta e a adição por causa da ganância dos cartéis. A matança do nosso povo é alimentada pelos cruéis traficantes dos cartéis”, declarou a primeira-ministra, Kamla Persad-Bissessar.

Direito do Mar, Tren de Aragua e o destino da droga. As questões sobre o ataque

No dia 20 de janeiro de 2025, quando tomou posse, Donald Trump assinou uma série de ordens executivas. Entre elas, estava a classificação do cartel Tren de Aragua como “uma organização terrorista estrangeira“. Esta terça-feira, na Truth Social, fez questão de relembrar o estatuto do cartel, “que opera sob controlo de Nicolás Maduro”. “O ataque ocorreu quando os terroristas estavam em águas internacionais a transportar narcóticos ilegais, a caminho dos Estados Unidos”, acrescentou.

Juanita Goebertus, diretora da Human Rights Watch (HRW) na América, reconheceu que o crime organizado é “uma ameaça enorme” por todo o continente, mas questionou a abordagem de Washington para fazer frente ao tráfico nas Caraíbas. “Se as circunstâncias deste ataque são exatamente como a administração as descreve, contam como uma execução extrajudicial, proibida pelo Direito Internacional”, notou, citada pela Associated Press.

Em causa está a Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar, que proíbe interferência com navios que circulam em águas internacionais — como era o caso. Em situações de tráfico como esta, o Direito permite que os barcos sejam parados e abordados pela força, mas sem que esta seja letal. Luke Moffett, professor na Universidade Queens de Belfast, apontou à BBC que, ainda que os EUA não ratifiquem esta convenção, “atuam de forma consistente com as suas provisões”.

epa12324867 United States President Donald J Trump answers a reporter’s question as he chairs a Cabinet meeting in the Cabinet Room of the White House in Washington, DC, USA, 26 August 2025.  EPA/AARON SCHWARTZ / POOL

▲ A classificação do TdA como organização terrorista pode dar a Trump o poder de ordenar o ataque

AARON SCHWARTZ / POOL/EPA

Além do Direito do Mar, impõe-se ainda a própria Constituição norte-americana, que proíbe o Presidente de aprovar ações militares sem aprovação do Congresso, exceto em casos de legítima defesa. No entanto, desde 2001, depois dos ataques do 11 de setembro, os Presidentes norte-americanos reservam-se o direito de aprovar ataques contra grupos responsáveis por ataques, ao abrigo da Lei de Autorização do Uso da Força Militar (AUMF).

“O âmbito [desta Lei] expandiu-se de forma substancial nas administrações posteriores. Não é imediatamente óbvio que cartéis de droga como o Tren de Aragua seriam contemplados pelos poderes do Presidente da AUMF, mas pode ser isso que [o termo] ‘narco-traficantes’ indica”, analisou ao canal britânico, Rumen Cholakov, especialista em Direito Constitucional dos EUA na King’s College. Ou seja, a ordem executiva de janeiro poderia permitir o ataque à luz da Constituição.

Mas, mesmo neste cenário, os especialistas em Direito questionam a legalidade do ataque a esta lancha. Por um lado, devido à classificação errada do TdA pela administração norte-americana, uma vez que o cartel não é controlado diretamente por Maduro e pelo governo venezuelano, como Trump justificou. Esta foi a avaliação feita pelo Conselho de Informação Nacional, que reúne todas as agências de serviços secretos norte-americanas. Apenas o FBI não subscreveu o documento, apresentado em abril, em que o governo de Maduro era acusado de ter permitido que o tráfico de droga “florescesse” no país, mas sem ter sido identificada qualquer ligação direta com o TdA.

A Administração para o Controlo de Droga (DEA), num relatório de 2024, identifica a Colômbia como a principal origem da cocaína apreendida nos Estados Unidos, sem nunca referir o país vizinho. O Relatório Mundial de Droga, publicado por uma agência das Nações Unidas já este ano, sublinha ainda o México como outro corredor de entrada de droga nos Estados Unidos. Já a droga saída da Venezuela segue principalmente o “corredor marítimo” para o leste das Caraíbas, ressalva o relatório. Daí, o think tank Insight Crime identifica outro destino final para a droga traficada da Venezuela: a Europa.

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