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Com menos anos que os seus pares, Chega acompanha tendência europeia: o crescimento da extrema-direita

Desde que Orbán chegou ao poder em 2010 que a extrema-direita contaminou rapidamente a Europa. Portugal não escapa à onda, apesar de ter uma democracia mais recente que os pares. Como foi a evolução?

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Menos de um século depois da consolidação das forças de extrema-direita na Europa, a tendência repete-se nos últimos anos. Nas duas maiores economias da União Europeia (UE), a oposição é liderada pela extrema-direita, noutros países do bloco europeu ocupam mesmo lugares no governo. Em Estrasburgo, as forças extremistas dividem-se já em duas famílias, com o nascimento dos Patriotas pela Europa, dos quais faz parte o Chega.

Portugal não foge à tendência. Isso já tinha sido comprovado nas eleições antecipadas de 2024, quando o Chega conseguiu o recorde histórico de 50 deputados na Assembleia da República. Pouco mais de um ano depois, as projeções apontam que, no mínimo, repetirá o feito. Portugal tem condições diferentes dos seus pares europeus — a sua democracia é bem mais jovem, do que as que resultaram do pós-II Guerra Mundial. Mas a evolução da extrema-direita é muito semelhante.

O Chega de Portugal

No melhor cenário das projeções, o Chega conseguirá 70 deputados. Mais: ultrapassa o Partido Socialista como segunda força política e abala o sistema que se consolidou nos últimos 50 anos e que favorece o bipartidarismo ao centro. Este cenário é uma evolução do recorde que já tinham alcançado em 2024, de 50 deputados.

Fundado apenas em 2019 — tal como a democracia, também o partido é mais recente que os seus pares europeus –, o Chega entrou no parlamento nesse mesmo ano, com apenas um deputado, o fundador André Ventura. As três eleições legislativas a que Portugal assistiu desde aí foram todas antecipadas. E, em todas, o Chega continuou a crescer: em 2022, chegou ao grupo parlamentar, com 12 deputados. Depois, em 2024, aos 50 lugares.

A ascensão meteórica não aconteceu apenas no número de deputados: o Chega conseguiu vencer distritos e assumir-se como terceira força política nas restantes eleições, incluindo as europeias.

A AfD da Alemanha

Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar a última eleição legislativa num estado europeu que tenha sido marcada por um aumento significativo da extrema-direita. No final de fevereiro, a Alemanha foi às urnas e viu a Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançar o segundo maior grupo parlamentar no Bundestag, com 20,6% dos votos e 152 deputados. Foi o maior crescimento no parlamento alemão — aumentaram a bancada em 69 lugares desde as eleições de 2021.

epa11918933 Alternative for Germany (AfD) party and faction co-chairwoman and top candidate for the federal election Alice Weidel (C) reacts to initial results during the Alternative for Germany (AfD) election event in Berlin, Germany, 23 February 2025. About 60 million Germans were eligible to vote in the elections for a new federal parliament, the 20th Bundestag.  EPA/FILIP SINGER

▲ A AfD é líder da oposição na Alemanha

FILIP SINGER/EPA

A AfD foi fundada em 2013 e logo em 2014 conseguiu eleger sete eurodeputados nas eleições europeias. Nos anos seguintes, o partido continuou a radicalizar o seu discurso — atirou aos países que precisaram de resgates financeiros e aos imigrantes que entraram na Alemanha em massa em 2015 — e foi somando resultados cada vez mais altos em eleições locais e regionais. Em 2017, estreou-se no Bundestag com 94 deputados. As eleições legislativas seguintes viriam a roubar-lhes 11 deputados.

Mas a queda nas urnas em 2021 revelou-se apenas um percalço no trajeto a longo prazo. Em 2024, alcançaram um resultado histórico ao vencer as eleições regionais da Turíngia: a primeira vitória da extrema-direita na Alemanha desde a II Guerra Mundial. Meses depois, nas legislativas antecipadas de fevereiro, conseguiram aumentar o número de deputados. Com o acordo de governação entre o primeiro e o terceiro partidos mais votados — a CDU, de centro direita, e o SPD, de centro esquerda, respetivamente — a AfD é agora a maior força da oposição na Alemanha.

A União Nacional de França

Em França, a extrema-direita também se senta em peso no parlamento. A União Nacional (Rassemblement National, RN, na sigla em francês), liderada por Marine Le Pen, conquistou 125 lugares dos 577 da Assembleia Nacional, nas eleições legislativas de julho do ano passado. O partido colabora com outras forças mais pequenas do mesmo espectro político, pelo que a sua bancada real ultrapassa os 140 deputados. Também estas eleições foram antecipadas, convocadas pelo Presidente francês depois da vitória expressiva do partido extremista nas eleições europeias no mês anterior.

A história da extrema-direita em França é bem mais longa que noutros países europeus: o partido foi fundado em 1972 por Jean-Marie Le Pen, com o nome Frente Nacional. A estreia na Assembleia Nacional aconteceu mais de uma década mais tarde, com 35 deputados eleitos em 1986 — um resultado isolado ao longo das décadas seguintes, em que não passaram dos dois deputados. A então Frente Nacional foi, portanto, um dos pioneiros da primeira vaga da extrema-direita europeia depois da II Guerra Mundial. Mas essa vaga só se generalizou na última década.

▲ Le Pen deu novo folgo (e nome) à União Nacional

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Em França, isso traduziu-se em profundas mudanças na RN. Em 2011, Marine Le Pen assumiu a liderança, moderou o discurso do pai e alterou o nome do Partido de Frente para União Nacional. As mudanças refletiram-se nas urnas. Nas primeiras eleições sob a liderança de Le Pen, filha, a RN não passou dos dois deputados. Cinco anos depois, em 2017, conseguiu oito. Em 2022, disparou para os 89. E em 2024 voltou a subir e foi o terceiro partido mais votado. Contudo, os dois partidos à frente da extrema-direita são ambos coligações: o Ensemble macronista e a Nova Frente Popular da Esquerda.

Os Fratelli d’Italia de Itália

Apesar da preponderância da extrema-direita nas duas maiores economias da União Europeia, França e Alemanha conseguem manter os partidos extremistas fora das soluções de governação. O mesmo não se pode dizer da terceira maior. Itália é governada pelo partido de direita conservadora Fratelli d’Italia (FdI, na sigla em italiano) desde 2022. O FdI foi fundado em 2012, depois de uma cisão dentro da direita italiana. A inclusão de liberais e democratas cristãos no partido leva a que a sua classificação como extrema-direita não seja unânime e o título de direita conservadora seja utilizado de forma predominante.

Em 2013, o FdI conseguiu conquistar nove lugares no parlamento e, desde aí, continuou a crescer e a colher dissidentes de outras forças políticas à direita. Cinco anos depois, voltou às urnas para triplicar o número de lugares. Quando se apresentou pela terceira vez a eleições — em 2022, uma vez mais, uma eleição antecipada — fê-lo ao lado de um partido classificado sem hesitações como de extrema-direita: a Liga de Matteo Salvini. Numa vitória clara, conseguiu 44% dos votos e 112 lugares.

▲ A direita conservadora aliou-se à extrema-direita em Itália

Corbis via Getty Images

Os quase três anos de governo de Giorgia Meloni foram marcados por um suspiro de alívio na UE. Quando a extrema-direita fundou uma nova família europeia — os Patriotas pela Europa –, o FdI permaneceu nos Conservadores e Reformistas e Meloni tem sido umas das porta-voz da política externa de Bruxelas. Mas, internamente, a viragem acelerada à direita foi inegável e principalmente visível nas questões sociais.

O Partido para a Liberdade dos Países Baixos

Ainda no centro da Europa, há outro foco de poder da extrema-direita. Os Países Baixos são governados pelo Partido para a Liberdade (PVV, na sigla em neerlandês), de Geert Wilders, que é também o único membro registado do partido. O PVV é, portanto, um partido assente e dependente do seu líder. Nasceu em 2006, depois de uma cisão com o Partido para a Liberdade e a Democracia, mas o seu trajeto já viu muitas eleições — dada a diversidade de partidos no parlamento neerlandês, a incapacidade de formar governos e seguir para eleições antecipadas é relativamente comum.

No ano em que foi fundado, conquistou logo nove deputados. Quatro anos depois, mais do que duplicou o número de votos e alcançou 24 lugares. Enfrentou ainda eleições em 2012, em que perdeu lugares, e em 2017, em que voltou a subir para 20. A sua consolidação deu-se em novembro de 2023, quando conquistou 37 lugares de 150 e se tornou o partido mais votado. As características do sistema político neerlandês impediram-no de formar governo a solo — foi necessário coligar-se com outros três partidos para alcançar a maioria.

Ainda assim, foi a primeira vez que o partido de extrema-direita, anti-imigração e com uma retórica contra a comunidade muçulmana, conseguiu integrar um governo, o que torna o momento igualmente histórico.

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▲ Geert Wilders é uma das caras mais mediáticas da extrema-direita europeia

Corbis via Getty Images

Os cinco exemplos estão longe de ser os únicos países em que a extrema-direita é preponderante na Europa. No final de 2024, também a Áustria viu o partido de extrema-direita, o FPÖ, ser o mais votado nas eleições legislativas. Contudo, neste caso, os conservadores, os sociais democratas e os liberais conseguiram formar um governo de coligação — foi a primeira vez que a extrema-direita conseguiu uma vitória na Áustria e também que formou um governo a três, desde a II Guerra Mundial.

Todas estas evoluções podem ser rastreadas até à Hungria, em 201o. Foi aí que o Fidesz de Vikor Orbán chegou ao governo. Uma década e meia, aí continua e liderou a vaga de extrema-direita que assolou a Europa e a União Europeia desde aí. Ainda assim, é visível como a consolidação da extrema-direita nos governos europeus ou como líderes da oposição só aconteceu esta década, no pós pandemia.

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