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Menos de um século depois da consolidação das forças de extrema-direita na Europa, a tendência repete-se nos últimos anos. Nas duas maiores economias da União Europeia (UE), a oposição é liderada pela extrema-direita, noutros países do bloco europeu ocupam mesmo lugares no governo. Em Estrasburgo, as forças extremistas dividem-se já em duas famílias, com o nascimento dos Patriotas pela Europa, dos quais faz parte o Chega.
Portugal não foge à tendência. Isso já tinha sido comprovado nas eleições antecipadas de 2024, quando o Chega conseguiu o recorde histórico de 50 deputados na Assembleia da República. Pouco mais de um ano depois, as projeções apontam que, no mínimo, repetirá o feito. Portugal tem condições diferentes dos seus pares europeus — a sua democracia é bem mais jovem, do que as que resultaram do pós-II Guerra Mundial. Mas a evolução da extrema-direita é muito semelhante.
O Chega de Portugal
No melhor cenário das projeções, o Chega conseguirá 70 deputados. Mais: ultrapassa o Partido Socialista como segunda força política e abala o sistema que se consolidou nos últimos 50 anos e que favorece o bipartidarismo ao centro. Este cenário é uma evolução do recorde que já tinham alcançado em 2024, de 50 deputados.
Fundado apenas em 2019 — tal como a democracia, também o partido é mais recente que os seus pares europeus –, o Chega entrou no parlamento nesse mesmo ano, com apenas um deputado, o fundador André Ventura. As três eleições legislativas a que Portugal assistiu desde aí foram todas antecipadas. E, em todas, o Chega continuou a crescer: em 2022, chegou ao grupo parlamentar, com 12 deputados. Depois, em 2024, aos 50 lugares.
A ascensão meteórica não aconteceu apenas no número de deputados: o Chega conseguiu vencer distritos e assumir-se como terceira força política nas restantes eleições, incluindo as europeias.
A AfD da Alemanha
Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar a última eleição legislativa num estado europeu que tenha sido marcada por um aumento significativo da extrema-direita. No final de fevereiro, a Alemanha foi às urnas e viu a Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançar o segundo maior grupo parlamentar no Bundestag, com 20,6% dos votos e 152 deputados. Foi o maior crescimento no parlamento alemão — aumentaram a bancada em 69 lugares desde as eleições de 2021.
▲ A AfD é líder da oposição na Alemanha
FILIP SINGER/EPA
A AfD foi fundada em 2013 e logo em 2014 conseguiu eleger sete eurodeputados nas eleições europeias. Nos anos seguintes, o partido continuou a radicalizar o seu discurso — atirou aos países que precisaram de resgates financeiros e aos imigrantes que entraram na Alemanha em massa em 2015 — e foi somando resultados cada vez mais altos em eleições locais e regionais. Em 2017, estreou-se no Bundestag com 94 deputados. As eleições legislativas seguintes viriam a roubar-lhes 11 deputados.
Mas a queda nas urnas em 2021 revelou-se apenas um percalço no trajeto a longo prazo. Em 2024, alcançaram um resultado histórico ao vencer as eleições regionais da Turíngia: a primeira vitória da extrema-direita na Alemanha desde a II Guerra Mundial. Meses depois, nas legislativas antecipadas de fevereiro, conseguiram aumentar o número de deputados. Com o acordo de governação entre o primeiro e o terceiro partidos mais votados — a CDU, de centro direita, e o SPD, de centro esquerda, respetivamente — a AfD é agora a maior força da oposição na Alemanha.
A União Nacional de França
Em França, a extrema-direita também se senta em peso no parlamento. A União Nacional (Rassemblement National, RN, na sigla em francês), liderada por Marine Le Pen, conquistou 125 lugares dos 577 da Assembleia Nacional, nas eleições legislativas de julho do ano passado. O partido colabora com outras forças mais pequenas do mesmo espectro político, pelo que a sua bancada real ultrapassa os 140 deputados. Também estas eleições foram antecipadas, convocadas pelo Presidente francês depois da vitória expressiva do partido extremista nas eleições europeias no mês anterior.
A história da extrema-direita em França é bem mais longa que noutros países europeus: o partido foi fundado em 1972 por Jean-Marie Le Pen, com o nome Frente Nacional. A estreia na Assembleia Nacional aconteceu mais de uma década mais tarde, com 35 deputados eleitos em 1986 — um resultado isolado ao longo das décadas seguintes, em que não passaram dos dois deputados. A então Frente Nacional foi, portanto, um dos pioneiros da primeira vaga da extrema-direita europeia depois da II Guerra Mundial. Mas essa vaga só se generalizou na última década.
▲ Le Pen deu novo folgo (e nome) à União Nacional
EPA
Em França, isso traduziu-se em profundas mudanças na RN. Em 2011, Marine Le Pen assumiu a liderança, moderou o discurso do pai e alterou o nome do Partido de Frente para União Nacional. As mudanças refletiram-se nas urnas. Nas primeiras eleições sob a liderança de Le Pen, filha, a RN não passou dos dois deputados. Cinco anos depois, em 2017, conseguiu oito. Em 2022, disparou para os 89. E em 2024 voltou a subir e foi o terceiro partido mais votado. Contudo, os dois partidos à frente da extrema-direita são ambos coligações: o Ensemble macronista e a Nova Frente Popular da Esquerda.
Os Fratelli d’Italia de Itália
Apesar da preponderância da extrema-direita nas duas maiores economias da União Europeia, França e Alemanha conseguem manter os partidos extremistas fora das soluções de governação. O mesmo não se pode dizer da terceira maior. Itália é governada pelo partido de direita conservadora Fratelli d’Italia (FdI, na sigla em italiano) desde 2022. O FdI foi fundado em 2012, depois de uma cisão dentro da direita italiana. A inclusão de liberais e democratas cristãos no partido leva a que a sua classificação como extrema-direita não seja unânime e o título de direita conservadora seja utilizado de forma predominante.
Em 2013, o FdI conseguiu conquistar nove lugares no parlamento e, desde aí, continuou a crescer e a colher dissidentes de outras forças políticas à direita. Cinco anos depois, voltou às urnas para triplicar o número de lugares. Quando se apresentou pela terceira vez a eleições — em 2022, uma vez mais, uma eleição antecipada — fê-lo ao lado de um partido classificado sem hesitações como de extrema-direita: a Liga de Matteo Salvini. Numa vitória clara, conseguiu 44% dos votos e 112 lugares.
▲ A direita conservadora aliou-se à extrema-direita em Itália
Corbis via Getty Images
Os quase três anos de governo de Giorgia Meloni foram marcados por um suspiro de alívio na UE. Quando a extrema-direita fundou uma nova família europeia — os Patriotas pela Europa –, o FdI permaneceu nos Conservadores e Reformistas e Meloni tem sido umas das porta-voz da política externa de Bruxelas. Mas, internamente, a viragem acelerada à direita foi inegável e principalmente visível nas questões sociais.
O Partido para a Liberdade dos Países Baixos
Ainda no centro da Europa, há outro foco de poder da extrema-direita. Os Países Baixos são governados pelo Partido para a Liberdade (PVV, na sigla em neerlandês), de Geert Wilders, que é também o único membro registado do partido. O PVV é, portanto, um partido assente e dependente do seu líder. Nasceu em 2006, depois de uma cisão com o Partido para a Liberdade e a Democracia, mas o seu trajeto já viu muitas eleições — dada a diversidade de partidos no parlamento neerlandês, a incapacidade de formar governos e seguir para eleições antecipadas é relativamente comum.
No ano em que foi fundado, conquistou logo nove deputados. Quatro anos depois, mais do que duplicou o número de votos e alcançou 24 lugares. Enfrentou ainda eleições em 2012, em que perdeu lugares, e em 2017, em que voltou a subir para 20. A sua consolidação deu-se em novembro de 2023, quando conquistou 37 lugares de 150 e se tornou o partido mais votado. As características do sistema político neerlandês impediram-no de formar governo a solo — foi necessário coligar-se com outros três partidos para alcançar a maioria.
Ainda assim, foi a primeira vez que o partido de extrema-direita, anti-imigração e com uma retórica contra a comunidade muçulmana, conseguiu integrar um governo, o que torna o momento igualmente histórico.
▲ Geert Wilders é uma das caras mais mediáticas da extrema-direita europeia
Corbis via Getty Images
Os cinco exemplos estão longe de ser os únicos países em que a extrema-direita é preponderante na Europa. No final de 2024, também a Áustria viu o partido de extrema-direita, o FPÖ, ser o mais votado nas eleições legislativas. Contudo, neste caso, os conservadores, os sociais democratas e os liberais conseguiram formar um governo de coligação — foi a primeira vez que a extrema-direita conseguiu uma vitória na Áustria e também que formou um governo a três, desde a II Guerra Mundial.
Todas estas evoluções podem ser rastreadas até à Hungria, em 201o. Foi aí que o Fidesz de Vikor Orbán chegou ao governo. Uma década e meia, aí continua e liderou a vaga de extrema-direita que assolou a Europa e a União Europeia desde aí. Ainda assim, é visível como a consolidação da extrema-direita nos governos europeus ou como líderes da oposição só aconteceu esta década, no pós pandemia.