Entre o Natal e a passagem de ano, há quem aproveite os dias para se dedicar a quem mais importa: a família. As mesas ficam mais fartas. De comida. De pessoas. Mas o que acontece naquelas casas onde uma das cadeiras ficou vazia? O luto pode ser um sentimento que se intensifica nesta época e se há quem aproveite esta altura para saborear o tempo com os seus, há outros que sentem a sua falta. Com 2026 acabado de começar, como se pode enfrentar a perspetiva de 365 novos dias quando, ao nosso lado, fazem falta algumas das pessoas que nos são mais importantes? É altura de estabelecer metas, verbalizar desejos, manifestar um novo ano repleto de conquistas. Porém, viver o luto numa altura de recomeços, pode funcionar como um travão para um arranque que se desejaria positivo.
Cada um de nós enfrenta o luto de uma maneira diferente. Apesar de ser um tema universal, é vivido de forma muito particular. Mesmo dentro de uma mesma família, as necessidades podem ser muito diferentes. Na altura das festas pode haver quem tenha preferido manter a tradição e, em simultâneo, quem gostasse de a ter evitado. E nem um estado de espírito é positivo, nem o contrário é negativo. É essencial perceber e respeitar as diferenças como algo que apenas reflete aquilo que cada um está a viver.
“Há uma expectativa social de estar bem e celebrar, o que pode gerar conflito interno com a dor sentida. Além disso, os rituais repetem-se ano após ano, fazendo com que a ausência seja sentida de forma ainda mais concreta, nomeadamente com a realidade da cadeira vazia. Porque o luto não é apenas a falta da pessoa, mas também a perda do que se viveu com ela e dos planos que ainda se iria viver e partilhar”. Soraia Ferreira, Diretora e psicóloga da Equipa de Apoio Psicossocial (EAPS) da Unidade Local de Saúde da Guarda e Catarina Corte, também psicóloga da equipa, lidam diariamente com esta realidade. Porém, nas alturas festivas e inícios de ano, confirmam que os sentimentos se podem intensificar. “Dizem que o tempo cura tudo, mas a verdade é que o luto é do tamanho do amor e, na realidade, o tempo não cura o luto, pode ajudar a aprender a viver sem a pessoa, a criar novas memórias, a transformar as nossas relações. É um processo contínuo de conexão com a perda, sendo que há períodos mais complexos, como as datas mais marcantes”, acrescentam.
Se o luto é permanente, e tende a intensificar-se nestas alturas, como é que amigos e família devem reagir? A verdade é que não existe uma fórmula mágica. Cada família tem a sua dinâmica e dificilmente existirá uma solução que funcione para todas. Na verdade, “não há palavras ou frases feitas que satisfaçam as necessidades de todas as pessoas enlutadas”, esclarece Célia Oliveira, psicóloga da Equipa de Apoio Psicossocial do IPO Coimbra, reforçando: “a presença, e atitudes que transmitam estou aqui para ti, mas respeito o teu tempo e o teu espaço, são as melhores sugestões que podemos dar”. Não existindo formas certas ou erradas de celebrar as datas importantes, a psicóloga relembra que, independentemente da forma escolhida, “importa valorizar a intenção de honrar a memória de quem se perdeu fisicamente, mas que continua a ser tão importante e tão presente no mundo interno de cada pessoa enlutada”.
Filipa Batista perdeu o pai há um ano. Como presença forte que era para toda a família, a falta faz-se sentir todos os dias, mas especialmente em “dias assinalados”. “As festas fazem-nos lembrar mais que, apesar de ter passado um ano, continuamos de luto. Estes dias trazem muitas memórias, são carregados de sentimentos muito intensos”, partilha, confessando ainda que estes dias trazem consigo um misto de sentimentos e até “culpa por tentar sorrir”, reforça Filipa, dando especial destaque para a importância do apoio psicológico oferecido pela EAPS da ULS da Guarda nesta fase. Como um espaço seguro, afirma que “ali podemos desabafar e chorar sem nos apontarem o dedo como a nossa sociedade tanto faz. Ajuda-nos a ver as coisas de outra forma”.
Para José Manuel Ferreira, a família assume um papel central no seu processo de luto. Depois da perda da mulher, as filhas assumiram as rédeas e, com a sua presença, fazem minorar a ausência do amor da sua vida. “Felizmente tenho umas filhas das quais me posso orgulhar e que estão sempre presentes”, admite José, sublinhando: “e o manter algumas tradições, faz com que a ausência da minha esposa não seja tão ausente. Não foi preciso mudar praticamente nada sem a sua presença”. A par com as filhas, e tal como no caso de Filipa, o apoio psicológico foi um passo imprescindível para o percurso de José. No IPO de Coimbra, na pessoa da Célia Oliveira, encontrou o “ombro” de que precisava. “, Logo que teve conhecimento do falecimento da minha esposa, telefonou-me para me pedir que me deslocasse ao IPO para podermos conversar. Foi uma atitude que muito me sensibilizou e a conversa ainda mais. Ajudou-me muito logo no período após a partida da minha esposa. Não posso esquecer de modo algum a sua atitude e disponibilidade para me ajudar”, confidencia, acrescentando ainda: “quem perdeu alguém e pode partilhar a dor com quem está na mesma circunstância, ajuda-nos a perceber que não estamos sós e que podemos enfrentar a situação com olhos postos no futuro enquanto cá estivermos”.
O apoio que humaniza
O Programa para o Apoio Integral a Pessoas com Doenças Avançadas – Humaniza, da Fundação ”la Caixa” tem promovido o apoio integral através de intervenção psicológica, social e espiritual, que complementa a assistência de saúde, e que vem amparar familiares e cuidadores na hora de lidar com um doente em fim de vida. Para além de cuidar de quem precisa, presta apoio a quem cuida, tanto durante o processo da doença como no momento do luto, recebem o acompanhamento necessário para assumir a perda de um ente querido. A Equipa de Apoio Psicossocial do IPO de Coimbra e a Equipa de Apoio Psicossocial da Guarda são dois exemplos do trabalho que tem sido feito até então.
Para além do apoio prestado de forma diária e contínua, o apoio da Fundação ”la Caixa” permitiu ainda que espaço se abrisse para grupos de apoio, neste caso em Coimbra. “A Equipa de Apoio Psicossocial, apoiada pelo IPO Coimbra e pela Fundação “la Caixa” tem organizado vários Grupos de Suporte a Pessoas Enlutadas. Este modelo de ajuda permite o encontro e a partilha de diferentes vivências e experiências do processo de luto”, explica-nos Célia Oliveira. O Grupo possibilita o reconhecimento e a validação da vivência emocional de cada participante, ao mesmo tempo que propõe, de forma respeitosa, alternativas alinhadas com a mesma linguagem emocional e comportamental. “Ao longo das várias sessões do Grupo, é de esperar que os participantes encontrem formas de estar em contacto com a pessoa falecida, mas também em contacto consigo mesmos (reencontro com o EU), de alargar as redes de suporte formal e informal, e de reconstruir sentimentos de confiança e de esperança em si mesmos, na Vida e no futuro”, remata.
Na Guarda, os grupos de apoio ainda não são uma realidade, mas a esperança é a de que se materializem. Palavras de Soraia Ferreira e Catarina Corte: “não temos grupos de apoio no luto, por agora. É um projeto que esperamos poder vir a ser dinamizado a curto prazo, dada a potencialidade e os benefícios terapêuticos do mesmo. Prestamos apoio individual, o Programa Humaniza veio abrir a possibilidade de proporcionar mais apoio a estas famílias. O facto de as profissionais da EAPS estarem apenas direcionadas ao acompanhamento de doentes e família permite alargar a resposta dos cuidados. Com este apoio do Programa Humaniza é missão da equipa oferecer um espaço seguro, confidencial e acolhedor, onde pessoas enlutadas possam partilhar a sua experiência, ao seu ritmo”.
O que é certo é que toda a partilha é bem-vinda na hora de aprender a viver com o luto. Ainda que as histórias não sejam as mesmas – e a dor não se divida -, estes são espaços seguros onde cada pessoa consegue perceber que este não precisa de ser um percurso solitário. Acima de tudo, são também uma forma de honrar a memória de quem já cá não está, ocupando a cadeira vazia com lembranças e recordações felizes. Costuma dizer-se que “recordar é viver” e o luto pode tornar-se mais leve ao trazer para a conversa aqueles que perdemos. Afinal, e nas palavras do escritor José Luís Peixoto: “…na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco”.