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▲Conan deve-se ter fartado de ler que era apolítico e chutou o balde umas quantas vezes, mas também entregou a aleatoriedade que o caracteriza

AFP via Getty Images

▲Conan deve-se ter fartado de ler que era apolítico e chutou o balde umas quantas vezes, mas também entregou a aleatoriedade que o caracteriza

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Conan O'Brien e os apresentadores dos Óscares: sem alarmes, sem surpresas, com (alguma) graça e (pouca) política

Susana Verde viu a noite grande de Hollywood e prestou especial atenção aos anfitriões e respetivos esforços para alegrar plateia e espectadores. No fim, uma certeza: como não gostar de Conan O'Brien?

Vamos a um factóide, para abrir as hostilidades. Sabiam que o nome oficial do troféu mais desejado da indústria do cinema é Prémio de Mérito da Academia e que o apelido de Óscar só foi adotado em em 1939? Reza a lenda que Margaret Herrick, a bibliotecária da Academia (que viria a ser diretora executiva), olhou para o troféu e disse que lhe fazia lembrar um tio dela chamado Óscar. Cá para mim ela devia andar a tomar os anti-histamínicos para combater a alergia aos ácaros dos livros, porque olhar para aquela amálgama dourada e ver um parente, só pode ser o Zirtec a bater. Feito o introito, vamos ao que interessa e ao que me traz aqui. Os Óscares são um espectáculo televisivo e é sobre isso que esta croma da caixinha mágica vai escrever hoje, nomeadamente no que diz respeito à peça que define substancialmente o tom da noite: o apresentador. Fora um bitaite ou outro que não vou conseguir guardar para mim, não falarei sobre os filmes propriamente ditos. Deixo essa avaliação para frequentadores assíduos da Cinemateca, críticos que correm a medíocre tudo o que não é uma reposição de Fellini, e para o Mário Augusto.

Os dirigentes máximos da Academia de Hollywood resolveram dar-nos um bis. Descreveram-no como o “anfitrião perfeito”, tendo conduzido a gala do ano passado “com destreza, humor, calor e reverência”. Não podia concordar mais. A vírgula capilar laranja mais genial da comédia está de volta. Depois do brilharete do ano passado, Conan O’Brien, O Absurdamente Alto, Ruivo e Absurdo, é o apresentador da 98.ª edição dos Óscares. As minhas expectativas são tão altas como ele e espero ser servida com um buffet de comédia, despautério e desconchavo, como só Coco sabe servir. Numa entrevista à Hollywood Reporter, O’Brien assumiu que se preparou fisicamente, graças a aparelhos de ginástica do início do século XX, alguns deles encontrados nos destroços do Titanic. Partilhou que aprendeu muito com a cerimónia anterior, nomeadamente que o protocolo de segurança das estatuetas é fraco, pelo que tem neste momento em casa um Óscar para Melhor Curta de Animação e outro de Melhor Atriz Secundária. Por último, diz que o melhor de apresentar esta cerimónia é ver pessoas a ser premiadas pelo trabalho árduo e poder ser testemunha, na primeira fila, de um dos momentos mais felizes da vida dessas pessoas. Se este homem não é a mistura perfeita de tolice, empatia e graça, não sei o que é. Vamos a isto, então?

A abertura da cerimónia foi um sketch inspirado em Hora do Desaparecimento (curiosamente, o filme que vi hoje à tarde e ainda estou a processar se gostei, odiei ou sei lá, menina). Conan usa o look da macabra Gladys, que para quem não sabe consiste numa peruca ruiva com uma micro-franja, uma base muito branca, uma boca muito vermelha, ou como bem descreveu o próprio Conan, “I look like Betty Davis with lupus”. O apresentador vai “invadindo” cenas de alguns dos filmes nomeados, enquanto é perseguido por crianças possuídas pelo demo. Uma bela intro. Gostei especialmente do momento de Valor Sentimental, com Conan a falar em norueguês ou lá o que é com o patriarca Skarsgård. Segue-se o monólogo, em que Conan se anuncia como o último apresentador humano dos Óscares. Brinca, brinca… Ele lembra que no ano passado Los Angeles estava em chamas, mas este ano… está tudo espectacular, o que provoca uma reação cruzada na plateia, entre risos, assobios e palmas constrangidas. A comparação entre o parto na floresta de Hamnet e os cuidados de saúde nos Estados Unidos teve direito ao mesmo tratamento. E ele ainda estava só a aquecer os motores. “É a primeira vez, desde 2012, que não temos britânicos nomeados para melhor ator ou atriz. Um porta-voz britânico respondeu ‘Pelo menos, nós prendemos os nossos pedófilos’.” E a casa veio abaixo. Conan tira um minuto para falar a sério, reconhecendo o panorama atual não está propriamente famoso e como esta noite pode ser um momento de otimismo e esperança. Corta para um sketch sobre como Conan reagiria se ganhasse um Óscar, o que inclui um manto, uma coroa de louros, Josh Groban a cantar-lhe uma ode e um mocho empalhado a entregar-lhe o prémio. Coco deluxe. Vamos às estatuetas, avisando já que vos vou poupar à descrição de tudo e mais alguma coisinha, vou só relatar os melhores apresentadores, os discursos que se destacarem por melhores ou piores motivos e o Conan, claro.

Amy Madigan ganhou o primeiro Óscar da noite, de Melhor Atriz Secundária, mandou uma gargalhada sincera e partilhou que ontem à noite, por esta hora, estava a rapar as pernas. E nem era preciso, porque decidiu usar calças. Identifiquei-me.

Projetando como será este certame a partir de 2029, altura em que os Óscares passarão a ser  transmitidos exclusivamente no YouTube, Conan é interrompido por sucessivos anúncios protagonizados pela hilária Jane Lynch (a coach Sue de “Glee”) em que faz propaganda a uma lanterna tão incrível que foi “usada na captura do Bin Laden”.

O momento musical da noite foi de Miles Canton, reproduzindo a cena icónica de Pecadores que homenageia os vários géneros musicais de matriz africana. Miles partiu a louça toda, mas a realização ficou aquém, sendo que a comparação com aquilo que Ryan Coogler fez no filme seria sempre ingrata.

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▲ Anne Hathaway (à direita) apresentou os Óscares de Guarda-Roupa/Figurinos e Melhor Maquilhagem e Cabelos ao lado da Cruella da moda, Anna Wintour

Penske Media via Getty Images

Segue-se mais um momento que só Conan podia trazer para o palco mais glamouroso do audiovisual. Depois de apresentar o maestro, anuncia a adição de um novo instrumento à Orquestra da Academia, em homenagem a Marty Supreme: “The Timothée Chalamet bum drum”. Isto é, um indivíduo a bater com raquetes num rabo de plástico pendurado ao peito. Querem mais Conan do que isto?

Em altura de contagem decrescente para a sequela d’O Diabo Veste Prada, Anne Hathaway apresentou os Óscares de Guarda-Roupa/Figurinos e Melhor Maquilhagem e Cabelos ao lado da Cruella da moda, Anna Wintour. Quando Anne pediu a opinião a Anna sobre o seu look, ela colocou os míticos óculos escuros e prosseguiu para “os nomeados são”. Ri-me. A seguir, tratou Hathaway por Emily, como era apanágio da personagem de Meryl Streep no filme, alegadamente inspirada na própria da Wintour. Ri-me outra vez. E sim, estou muito excitada com esta sequela. Revirem os olhos à vontade, seus snobes.

Entretanto, Conan surge com um soprador de folhas (não sei se é este o termo técnico, mas acho que perceberam do que se trata) e procede a soprar folhas no palco. Porquê? Porque é o Conan. E é neste momento que apresenta Matt Berry, a voz-off da cerimónia, diretamente de Londres. Berry é o Laszlo Cravensworth de What we do in the Shadows que tinha um Jardim de Vulvas e o Douglas Reynholm de The IT Crowd que gastava os fundos da empresa que herdou do pai em arte erótica para decorar o gabinete. Engraçado a valer e com uma voz daquelas. Britânico, teatral, shakespeariano, meio palerma. O match perfeito para os desvarios de Conan.

O Óscar de Melhor Curta-Metragem de Ação Real teve dois vencedores, graças a um empate nos votos, The Singers e Two People Exchanging Saliva, o que gerou um momento hilariante. Os vencedores foram anunciados à vez e subiram a palco separadamente. E claro que por motivos de tempo, decidiram cortar o pio prematuramente aos segundos vencedores que, ainda assim, não arredaram pé do palco. O que valeu um braço de ferro meio constrangedor, com um Conan absolutamente deliciado com o embaraço da situação, com cara de quem estava a achar um piado àquilo, o que viria a confirmar. Os vencedores venceram o impasse, passe o pleonasmo, lá os deixaram botar mais faladura e ainda houve tempo para mandarem uma bicada ao Chalamet: “Podemos mudar a sociedade através da arte, da criatividade, do teatro e do ballet… e também do cinema”. Valeu a pena o finca-pé. Ah, vejam o The Singers na Netflix, uma curta mas enorme maravilha.

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▲ Sigouney Weaver e Pedro Pascal (além do Baby Yoda) apresentaram o Óscar para Melhor Design de Produção

Getty Images

Tivemos direito a Conan e ao gato do Sterling K. Brown a reinterpretar uma cena do clássico Casablanca, com Brown ao piano totalmente entregue à imitação de Sam, a contracenar com um  O’Brien que não podia estar mais longe da personagem de Bogart, o que torna tudo perfeito.

Billy Crystal, um dos meus apresentadores favoritos dos Óscares, voltou ao Dolby Theatre para uma homenagem póstuma a Rob Reiner e à mulher Michelle Reiner. Rob realizou uma das melhores comédias de sempre When Harry met Sally, protagonizada por Meg Ryan e Crystal, que lhe fez um merecido elogio fúnebre com emoção, saudade e piada, claro.

A divónica Sigouney Weaver, o meu marido-noutra-vida Pedro Pascal e o Baby Yoda apresentaram o Óscar para Melhor Design de Produção. E como dizem os jovens, “Name a more iconic trio”. Eu espero. Já Jimmy Kimmel, anterior anfitrião do certame, veio apresentar os Óscares para Melhor Curta-Metragem Documental e Melhor Documentário de Longa-Metragem. Afirmou que teve que vir substituir o Conan, porque ele “foi apanhar ar, expôs a cara ao sol e foi incinerado acidentalmente”. Kimmel referiu a coragem necessária para contar histórias, quando isso põe as vidas dos criadores em risco, já que os líderes de alguns países não apoiam a liberdade de expressão. “Não estou autorizado a dizer quais. Digamos apenas Coreia do Sul e a CBS.” Touché. Conan voltou para partilhar um fun fact. Então não é que o Brad Pitt tem a mesma idade que ele. “Facto que me foi trazido pela minha mulher, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela cara.” Eu escolhia-te a ti, todos os dias da semana, Conan. Ela não te merece.

Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Ellie Kemper, Maya Rudolph e Rose Byrne vieram celebra o 15,º aniversário de Bridesmaids, uma das minhas comédias favoritas deste século, e de caminho entregaram o Óscar para Melhor Banda Sonora Original. Durante a apresentação receberam uns bilhetinhos da plateia. Um deles dizia que elas estavam muito bonitas e que estavam a envelhecer bem. Assinado pelo Stellan Skarsgård. E a expressão dele de aprovação foi das coisas mais engraçadas da noite. E que melhor forma de  introduzir o Óscar para Melhor Som, do que Maya a partilhar: “Estava hoje a contar o meu dinheiro e pensei ‘O que é o som?’”. Também Kemper contribuiu para o debate com um “Uma senhora na montanha russa disse-me que se não houvesse som, não ouvíamos nada.” Amo-as por amor.

A Autumn Arkapaw é a primeira mulher a ganhar o Óscar para Melhor Fotografia. Visivelmente emocionada e supreendida, pareceu-me, pediu às mulheres na sala para se levantarem, porque sem elas não teria recebido o prémio. Foi lindo, foi importante, foi histórico e foi, para mim, um dos grandes momentos da noite.

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▲ Priyanka Chopra e Javier Bardem foram encarregados de entregar o prémio para Melhor Filme Internacional

Penske Media via Getty Images

Priyanka Chopra e Javier Bardem foram encarregados de entregar o prémio para Melhor Filme Internacional. E o espanhol, antes de ler uma palavra que fosse do teleponto, disse “No to war and free Palestine”. Haja cojones. O vencedor da categoria foi Valor Sentimental, (um dos meus preferidos da temporada, é para ver, digo-vos eu) e o realizador foi certeiro a citar James Baldwin: “Todos os adultos são responsáveis por todas as crianças”. E apelou a que não se vote em políticos que não levam isso em conta. Tudo certo.

Para entregar o galarão mais desejado, houve reunion de Moulin Rouge, que faz 25 anos, como é que é possível, não hei-de eu estar velha. Como fã do filme, adorei ver o Christian e a Satine, quer dizer, o Ewan McGregor e a Nicole Kidman, a dar um cheirinho daquela banda sonora que ouvi vezes sem conta e vou continuar a ouvir “until my dying day”. Depois, o Batalha Atrás de Batalha, e eu atirei uma pantufa à televisão, porque já estou com a birra do sono e já não consigo lidar com a frustração. Portanto, vou fazer de conta que só houve Melhor Filme Internacional este ano. Pelo menos, o Ryan Coogler ganhou Argumento Original e o gostoso do Michael B. Jordan o prémio de Melhor Ator. Mas bom, prometi que não ia falar de filmes, mas também prometi falhar como o Chagas Freitas, E é no momento que cito o Chagas Freitas que percebo que já estou a dever horas à cama e já não respondo por mim, por isso vamos fechar a loja.

Achei a cerimónia escorreita, com menos chouriços que o costume, tendo registado uma taxa de bocejo bem inferior ao habitual. O Conan deve-se ter fartado de ler que era apolítico e chutou o balde umas quantas vezes — e bem — mas também entregou a aleatoriedade que o caracteriza e que eu tanto gosto. Basta olhar para o sketch pós-créditos, um pastiche da cena da morte de uma personagem do vencedor Batalha Atrás de Batalha, passada num escritório. Conan vai à janela e vê um outdoor onde podemos ler “Got crabs? Get tested”. E se acabar a 98.ª cerimónia dos Óscares com uma referência a piolhos genitais não é o zénite, meus amigos… Volta sempre, Coco!

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