João Cotrim Figueiredo lançou a candidatura a dizer que o caminho só parava no Palácio de Belém. Embora estivesse no Centro Cultural de Belém, a 10 minutos a pé do Palácio cor-de-rosa (dois minutos se fosse o Isaac Nader), o candidato liberal sabe que, excluindo a coincidência geográfica, está longe. “Sei que parto atrás“, admite. Ainda assim, Cotrim diz estar com muita vontade de contrariar os “tristes do costume” e não teve pejo em criar novos inimigos (“os comentadores do sistema” ou os “poderosos dos media”) para desmontar a “narrativa preguiçosa” de que não tem hipótese. A estratégia está centrada numa ideia, que o candidato repetirá até à exaustão para convencer todos: “Eu vou à segunda volta“.

Dentro da estratégia de João Cotrim Figueiredo está também provar que é melhor do que os adversários diretos. Não dispensou por isso, o ataque em todas as direções. Diz que, olhando para os adversários, ele próprio é o “único candidato da esperança, do inconformismo, da energia e do futuro.” E começa a atacá-los um a um. “Para mim ser Presidente da República não é um prémio de carreira. Já fiz melhor”, diz, visando António José Seguro. “Para mim ser Presidente da República não é continuar as funções de comentador, que nunca tive”, atira, numa farpa a Marques Mendes. “Para mim ser Presidente da República não é para ganhar mais tempo de antena para berrar nas televisões”, num ataque a André Ventura.

Mas Henrique Gouveia e Melo também teria os seus mimos, com referências do liberal à maçonaria, que tem vários membros entre os apoiantes do almirante: “É melhor dizer isto outra vez e dirigir-me diretamente aos meus concorrentes, para que eles percebam bem: eu não estou preso a lógicas partidárias, a interesses mais ou menos instalados,  a parâmetros, a cálculos eleitorais, nem a organizações discretas ou secretas”.

Os novos inimigos de Cotrim

João Cotrim Figueiredo também não teve problema em eleger os media como inimigos. Para convencer os eleitores que é possível ir à segunda volta, o candidato tenta impor primeiro a ideia de que todas as previsões que têm sido feitas nos canais de televisão estão erradas. O que fez descredibilizando essas opiniões — e até as sondagens.

“Há muitos, incluindo uma parte dos media, que ainda não perceberam a vaga de fundo que está à volta desta candidatura. São os tristes do costume. Com a preguiça de não querer ver. As narrativas em que tão preguiçosamente acreditam, mudam depressa”, atira Cotrim. O candidato diz que “Portugal está acordado e a acreditar e que, mais uma vez, os comentadores do sistema vão ficar surpreendidos”.

Na lógica de novos inimigos, Cotrim diz mesmo: “Eu não tenho medo.” E aí sugere que já alguém tentou condicionar a candidatura: “Não tenho medo de enfrentar os poderosos da economia e dos media, mesmo quando eles ameaçam retaliar”.

Júdice ajuda à estratégia: Cotrim pode ser Soares em 1986

José Miguel Júdice, o mandatário nacional, alinhou na estratégia de campanha e puxou dos seus galões de experiência política para dizer que João Cotrim Figueiredo tem hipóteses de passar à segunda volta. Para o advogado, o “jogo está totalmente em aberto” e diz que ter 76 anos lhe permite perceber que há reais possibilidades de Cotrim passar. E puxou de três exemplos.

O primeiro deles foram as eleições presidenciais francesas de 1974, quando Giscard d’Estaing bateu contra todas as expectativas o favorito candidato gaulista Chaban-Delmas na primeira volta, ficando em segundo lugar e depois vencendo na segunda volta ao socialista François Mitterrand por uma margem curta. O segundo exemplo foi o de Mário Soares nas Presidenciais de 1986. “Soares teve 25% e Cotrim nem precisa disso, basta-lhe 20%”. Nas sondagens, o liberal tem cerca de 8%.

O terceiro e último exemplo foi o de Isaac Nader, campeão do mundo dos 1500 metros por Portugal. “Isaac Nader, filho de imigrantes, o que muito me orgulha…”. A sala interrompeu o discurso para aplaudir Júdice e, por arrasto, atacar André Ventura. Mas o mandatário continuou: “Isaac Nader chegou à reta final em quinto lugar e, nos últimos 100 metros, ultrapassou quatro adversários e foi campeão mundial.” E concluiu: “Cotrim Figueiredo é o Isaac Nader desta campanha“.

Cotrim Figueiredo acabaria por agradecer e dizer que Nader é inspirador, mas que foi uma maldade do mandatário, já que ele “nem 100 metros consegue correr”. Sobre ser d’Estaing que venceu Delmas e Mitterrand, Cotrim nada disse, mas no discurso teve o seu momento “mon amie“ (como Soares com Mitterrand) quando agradeceu à outra oradora da manhã em francês, a antiga primeira-ministra belga e atual vice-presidente do Parlamento Europeu, Sophie Wilmès.

Voltando a Júdice, o mandatário atacou também pela frente que tenta provar que o candidato liberal é  melhor do que os outros candidatos, começando pelo ethos, pathos e logos  — que se refere a credibilidade, conexão emocional e racionalidade do orador. Júdice acredita que essa avaliação coloca Cotrim “como o melhor candidato em mérito absoluto”. Mas logo complementa que “olhando para os outros candidatos” é também o melhor candidato “em mérito relativo”. Explica depois, numa alusão ao slogan do candidato quando foi cabeça de lista às Europeias, que “Cotrim, ao contrário de outros, é apoiado porque sim, enquanto outros muitas vezes são apoiados porque não.”  Júdice denuncia que há quem apoie “outros candidatos por resignação ou perigosas ilusões”.

Na sala estava a líder da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, bem como muitos outros dirigentes liberais. Quando a sessão começou, um grupo de jovens liberais ainda tentou puxar um cântico: “Portugal, Portugal, Portugal”. Mas ninguém acompanhou. Havia bandeiras de Portugal, mas o patriotismo é contido e o nacionalismo inexistente. De tal forma que nem tocou o hino nacional, como é hábito nas apresentações de candidatos ao centro e à direita. É provável, apurou o Observador junto de fontes da campanha, que o hino nacional surja mais para a frente.

Além de liberais, estava ainda na sala uma antiga deputada do PSD, Liliana Reis, o advogado Jorge Bleck, que esteve na origem do PSD, o vereador e candidato derrotado do PSD em Vila Franca de Xira, David Pato Ferreira, o antigo dirigente do CDS e comentador da CNN Miguel Baumgartner, e ainda o antigo número dois e vice-presidente do Chega Nuno Afonso. Não sendo nomes sonantes, o que é certo é que todos apoiam Cotrim. Partindo da base sólida da IL, outro elemento da estratégia passa agora, precisamente, por alargar a base. Só assim a tal segunda volta pode ser possível.