Índice

    Índice

[este é o primeiro de uma série de artigos sobre a história de marcas da indústria química mundial]

Tal como na maioria das línguas europeias, a palavra portuguesa “química”, que designa a ciência que estuda os elementos e compostos e as reacções entre eles, provém da palavra “alquimia”, do árabe “al-kīmiyā”. Se esta origem é incontestada, já não é consensual de onde provirá “al-kīmiyā”: a maioria das opiniões divide-se entre o grego “khumeia”, que significa “juntar”, “fundir”, “caldear”, o persa clássico “kimia”, que significa “ouro”, e o egípcio “khem”, que significa “negrume”. Há quem sugira que “khem” está ligado ao nome que os antigos egípcios davam ao seu próprio país, “kemet”, que significa “terra negra”, ou seja, a terra escura do vale aluvial do Nilo, por contraste com a terra vermelha (“deshret”) do deserto em volta.

Curiosamente, o eventual vínculo etimológico entre química e negrume foi reatado a partir do final do século XX, quando a química adquiriu na opinião pública – pelo menos nos países desenvolvidos – conotações fortemente negativas. A aura negra que hoje envolve a química é particularmente evidente na expressão “os químicos”, uma nuvem de contornos imprecisos (nenhuma das pessoas que a usa sabe explicá-la), que tem implícita 1) a nostalgia por uma suposta Idade de Ouro em que tudo era natural, saudável, simples e luminoso e 2) a condenação deste nosso tempo, sombrio e traiçoeiro, em que estamos cercados de substâncias artificiais cuja origem e processos de fabrico desconhecemos e cujos nomes retorcidos, impenetráveis e, por vezes, tão longos como uma composição ferroviária, impressos em caracteres minúsculos nas embalagens e nos folhetos de instruções, são escrutinados com apreensão pelos consumidores mais inquisitivos, tentando adivinhar se produzirão efeitos cancerígenos ou se induzirão apenas náuseas, palpitações, tonturas, pruridos, eczemas, alopecia e esterilidade.

Oven with ampoules for producing nitric acid De Agostini via Getty Images

Fabrico de ácido nítrico, segundo gravura incluída em De re metallica (Sobre a natureza dos metais), de Georg Agricola, publicado em Basileia em 1561

No entanto, apesar da suspeição generalizada que hoje está instalada, a vida moderna seria inconcebível sem “os químicos”: eles estão na pasta dentífrica, no sabonete, no desodorizante, na toalha, no leite e no respectivo pacote, nos cereais de pequeno-almoço (mesmo que sejam “bio”) e na respectiva embalagem, no vestuário, na cadeira, no frigorífico (na sua caixa, na sua maquinaria e nos fluidos que correm nas suas entranhas), no guardanapo, no rato e no teclado do computador (sim, já há ratos e teclados em bambu, mas certamente que a sua superfície foi tratada com algum verniz saído das “dark satanic mills”). E a cada ano, surgem milhares de novas substâncias químicas e materiais sintéticos, destinados (consoante o ponto de vista) a tornar a nossa vida mais confortável, segura, higiénica e prática, ou a envenenar-nos insidiosamente.

Parte desta desconfiança dos consumidores em relação aos “químicos” tem fundamento: ao longo dos anos, a indústria química tem colocado no mercado vários produtos que acabaram por revelar ter efeitos nocivos, tendo as empresas umas vezes agido de boa-fé, outras vezes com negligência – por exemplo, não realizando os testes que se impunham – e outras vezes com dolo – sabiam das falhas desses produtos e ocultaram-nas ou minimizaram-nas deliberadamente. E também é sabido que, mesmo que os produtos possam ser inócuos para a saúde do consumidor, o seu processo de fabrico pode envolver etapas que não são inócuas para a saúde do planeta: a indústria química tem um curriculum de explosões, fugas, derrames, infiltrações, contaminações e devastação de ecossistemas que só tem rival na sua irmã, a indústria petrolífera.

Manifestação de vítimas do acidente de 1984 na fábrica de pesticidas da Union Carbide, em Bhopal, Índia

Não é, pois, inesperado que os consumidores de hoje recebam com cinismo os anúncios das grandes marcas da indústria química que asseveram que estão a trabalhar só para o bem-estar da Humanidade e para construir um mundo mais verde e sustentável. Mas também é verdade que muito poucas pessoas estão dispostas a juntar-se a uma comunidade Amish e a renegar todos os produtos e artefactos criados desde o início da Revolução Industrial.

Esta panorâmica sobre a origem dos nomes cimeiros da indústria química e dos seus produtos mais famosos e difundidos centrar-se-á nas empresas históricas, quase todas com raízes no século XIX ou no início do século XX, pois muitas das empresas que hoje dominam o sector são de criação recente – o que significa que a sua história é breve, burocrática e insulsa – e os seus nomes não encerram um significado – são combinações arbitrárias de letras geradas por computadores ou por brainstormings de “marqueteiros” e gestores.

As empresas e os investigadores alemães dominaram esmagadoramente a indústria química do século XIX e das primeiras décadas do século XX e a Alemanha ainda hoje é uma superpotência neste sector, pelo que a 1.ª parte deste artigo será exclusivamente dedicada a ela, ficando a 2.ª parte para o resto do mundo.

Athanor or 'Slow Harry', a self-feeding furnace maintaining a constant temperature, 1683. Print Collector/Getty Images

“Athanor”, uma fornalha de temperatura constante, numa gravura da edição inglesa de 1683 de Beschreibung allerfurnemisten minerlischen Ertzt

Bayer

No final da década de 1840, Friedrich Beyer (1825-1880) alterou a grafia do seu nome para “Bayer”, para evitar ser confundido com um homem de negócios homónimo, de Leipzig, que protagonizara um escândalo financeiro, o que sugere que, embora estivesse no início de carreira e fosse pouco conhecido, daria grande importância à sua reputação. Ironicamente, um século depois, a companhia que leva o seu nome ver-se-ia vinculada a vários eventos pouco honrosos, mas teria a arte de branquear a sua reputação, sem ter necessidade de mudar de nome.

Aos 23 anos, Friedrich Bayer, que provinha de uma família de fabricantes e comerciantes de tecidos, fundou na sua cidade natal de Barmen, na Alemanha, uma firma que comercializava corantes para a indústria têxtil. Até então, tinham sido empregues corantes de origem natural, difíceis de obter e caros, mas em 1856 o químico britânico William Perkin, inventou, acidentalmente, os primeiros corantes sintéticos, quando buscava  uma forma de sintetizar quinino. Perkin não conseguiu fazer progressos na luta contra a malária, mas os corantes sintéticos não só se revelaram muito mais baratos do que os naturais, como as suas cores eram mais consistentes e persistentes.

Friedrich Bayer, em 1863

A Fried. Bayer et Comp., fundada em 1863, em sociedade com o mestre tintureiro Johann Friedrich Weskott, teve tal sucesso com o fabrico de corantes sintéticos que teve de mudar-se, três anos depois, para novas instalações em Elberfeld e, quando estas também se mostraram insuficientes, instalou-se junto a Wiesdorf am Rhein, perto de outra fábrica de corantes, da Leverkus & Söhne, fundada pelo químico Carl Leverkus. Estas indústrias prosperaram de tal forma que, em 1930, toda esta fervilhante zona urbana e industrial foi reunida sob a égide de uma nova cidade, baptizada como Leverkusen. O nome soará familiar aos aficionados do ludopédio e, com efeito, o clube Bayer 04 Leverkusen foi fundado por futebolistas amadores que eram funcionários da Bayer (o clube data de 1904, o que explica o “04” no seu nome).

Em 1899, o departamento de investigação e desenvolvimento da Bayer apresentou o produto que daria fama imortal à marca: a aspirina.

Anúncio à Aspirina da Bayer, 1917

O princípio activo desta, o ácido acetilsalicílico (uma variante do ácido salicílico, tradicionalmente extraído da casca do salgueiro – Salix – como indica o seu nome), tinha sido sintetizado em 1853 pelo químico francês Charles Frédéric Gerhardt, mas foi Felix Hoffmann, um dos cientistas da Bayer, quem aperfeiçoou o seu fabrico, conseguindo eliminar o efeito secundário das dores de estômago que tolhiam o seu uso. Como o ácido salicílico podia também ser obtido a partir da Spirea ulmaria (uma planta hoje designada por Filipendula ulmaria), era conhecido na Alemanha por “spirsäure” (säure = ácido), a Bayer baptizou comercialmente o seu novo fármaco como Aspirin (com o “a” a denotar a soma do grupo acetil ao ácido salicílico).

A gama de produtos farmacêuticos da Bayer foi dilatada com a descoberta de vários barbitúricos e com a comercialização da heroína, ou diacetilmorfina. Esta tinha sido sintetizada pela primeira vez, em 1874, por C.R. Alder Wright, a partir da morfina, extraída da papoila-dormideira (ver De onde vêm os nomes do que comemos? Parte 21: Chiclete-de-baiano e aquelas-sementes-dos-Big-Macs), mas a nova droga passara despercebida no tempo de Wright e foi novamente Felix Hoffmann que, na Bayer, a redescobriu e conduziu à sua popularização. Hoffmann pretendia produzir uma versão menos potente da morfina, a codeína, e acabou, acidentalmente, por obter a diacetilmorfina, que é duas vezes mais potente que a morfina. Em 1898, a Bayer começou a comercializar a diacetilmorfina sob a designação “heroína” (que vem do grego “heros” = herói), sobretudo como medicamento contra a tosse e garantindo, na publicidade, que “não causava habituação”.

O mundo levou algum tempo a tomar consciência dos efeitos indesejáveis da heroína, mas, por fim, foi banida pelas autoridades de saúde dos EUA em 1924 e pelo Comité de Saúde da Sociedade das Nações (precursora da ONU) no ano seguinte.

Frasco de heroína Bayer, década de 1920

Entretanto, o florescimento exuberante da Bayer fora travado pela perda de todas as suas sucursais e operações nos países aliados, em resultado da I Guerra Mundial, pela perda de patentes e marcas registadas, estipulada pelo Tratado de Versailles e, finalmente, pela hiperinflação que se abatera sobre a Alemanha em 1921-23. Para fazer face a estas dificuldades, em 1925, as seis principais empresas químicas alemãs – as três gigantes BASF, Bayer e Hoechst, e quatro empresas de dimensão média, a Agfa, a Chemische Fabrik Griesheim-Elektron e a Chemische Fabrik vorm. Weiler Ter Meer – foram fundidas na IG Farben (Interessengemeinschaft Farbenindustrie AG, ou Corporação das Indústrias de Corantes). A IG Farben daria importantes contributos para o progresso da química, com cientistas seus a receber o Prémio Nobel em 1931 (Carl Bosch e Friedrich Bergius) e 1939 (Gerhard Domagk) e com Otto Bayer (sem relação com a família do fundador) a dar passos fundamentais para a síntese do poliuretano em 1937, e converter-se-ia na mais poderosa empresa do ramo na Europa e na 4.ª maior empresa do mundo.

O conselho de administração da IG Farben, conhecido como “O Concílio dos Deuses”, por Hermann Groeber, c.1926: em primeiro plano, o investigador Carl Bosch (à esquerda) e Carl Duisberg, presidente da Bayer (à direita)

A IG Farben começou por ser acusada pelos nazis de ser um bastião do capitalismo internacional judeu, mas, na sequência da reunião secreta de 20 de Fevereiro de 1933 entre Hitler e 19 líderes das indústria alemã, acabou por ser o mais generoso contribuinte da campanha eleitoral do Partido Nazi nas eleições de 5 de Março de 1933, que cimentaram definitivamente o poder de Hitler. Seria recompensada com uma profusão de contratos com o Estado alemão e contribuiu decisivamente para o esforço de guerra nazi. Beneficiou, nas suas fábricas espalhadas pela Europa, do trabalho escravo arregimentado pelos nazis (que, em 1943, representava cerca de metade dos 300.000 trabalhadores do grupo empresarial), e alguns campos de concentração foram, convenientemente, erguidos próximo de unidades da IG Farben. Só no complexo de campos de Auschwitz, onde a IG Farben construiu uma gigantesca fábrica de borracha sintética, a Buna-N (que nunca entrou em produção), chegou a haver 30.000 prisioneiros a trabalhar para a empresa. O sistema de campos de concentração também colocou à disposição da IG Farben (e em particular da Bayer) cobaias humanas para experiências médicas macabras.

Heinrich Himmler visita a fábrica Buna-N (em fundo, ainda em construção) em Auschwitz III, Julho de 1942

Para coroar este sinistro conúbio com o nazismo, a Degesch (Deutsche Gesellschaft für Schädlingsbekämpfung MbH, ou Sociedade Alemã de Controlo de Pragas), uma subsidiária da IG Farben, foi a fornecedora de Zyklon B, um insecticida à base de cianeto usado em fumigações e que foi o agente letal seleccionado pelos nazis para o extermínio em massa nas câmaras de gás.

Em 1947, 24 elementos da direcção da IG Farben foram levados a julgamento pelos Aliados, pelo seu envolvimento nos crimes nazis, de que resultou a condenação de 13 a penas de 18 meses a 8 anos de prisão, que foram cumpridas apenas parcialmente – praticamente todos os condenados reassumiram funções directivas na IG Farben, nas empresas deste grupo ou noutras empresas químicas alemãs.

Latas vazias de Zyklon B, encontradas em Auschwitz-Birkenau quando da libertação do campo

Em 1952, as empresas que tinham dado origem à IG Farben voltaram a ganhar autonomia, embora a mega-empresa tenha continuado a ter uma existência fantasma, justificada pela necessidade de dar seguimento aos inúmeros processos judiciais movidos contra ela pela actuação nos tempos do nazismo, servindo, assim, de bode expiatório e permitindo às empresas que a tinham integrado um recomeço com o cadastro em branco.

Tal como acontecera na I Guerra Mundial, uma das consequências da II Guerra Mundial foi a perda de todas as sucursais da Bayer no estrangeiro, mas a empresa voltou a apostar no desenvolvimento de novos produtos e em pouco tempo recuperou o seu prestígio e poderio, afirmando-se nas áreas farmacêutica, agroquímica, petroquímica (esta última foi alienada em 2004) e, mais recentemente, biotecnológica (cultivos geneticamente modificados). Parte do crescimento fez-se pela absorção de empresas rivais, processo que culminou em 2018 com a aquisição da Monsanto, assegurando uma posição de dominância no sector das sementes geneticamente modificadas.

Hoechst

Em 1863, no mesmo ano da fundação da Bayer, iniciava actividade, por iniciativa de Wilhelm Meister e Eugen Lucius, a fábrica de corantes Teerfarbenfabrik Meister, Lucius & Co., situada em Höchst am Main (hoje parte da área metropolitana de Frankfurt), topónimo que provém do alemão medieval “hostat” (“lugar alto”) e da sua localização nas margens do Rio Main (a que os portugueses chamam Meno). Passados dois anos, a empresa acolheu outro sócio, Adolf Brünning, e o seu nome foi alterado para Farbwerke Meister, Lucius & Brünning, mas, a partir de 1880, foi passando a ser conhecida pelo nome do povoado onde tinha sede, ainda que grafado como “Hoechst”, para que o “umlaut” (trema) não fosse um empecilho à internacionalização.

Se, na sua génese, estava focada na produção de corantes a partir do alcatrão de hulha (“Teer”, em alemão), a Hoechst expandiu a actividade aos fármacos a partir de 1883, tendo, em 1904, sido pioneira na síntese da adrenalina (foi a primeira vez que uma hormona foi sintetizada).

Trabalhadores da Hoechst, 1894

A eclosão da I Guerra Mundial destruiu a componente internacional do negócio da Hoechst, como aconteceu com tantas empresas alemãs, perdendo unidades fabris, patentes e marcas, o que acabou por conduzir à integração na IG Farben em 1925. Quando Hitler subiu ao poder em Janeiro de 1933 não teve de aliciar ou intimidar a Hoechst, pois Ludwig Hermann, o director da empresa, que ascendera ao cargo na mesma altura, era um entusiástico apoiante do nazismo.

Vista actual do edifício administrativo (Peter-Behrens-Bau) do parque industrial da Hoechst, em Frankfurt-Höchst. O emblemático edifício – que figura, de forma estilizada, no logótipo que a Hoechst usou entre 1952 e 1974 – foi desenhado em 1920 pelo célebre arquitecto Peter Behrens

A partir de 1952, a Hoechst voltou à actividade em nome próprio, complementando o ramo dos corantes e dos fármacos com as fibras sintéticas, nomeadamente a Trevira, que começou a produzir em 1956. A marca Trevira tinha sido registada em 1933 e designava uma seda sintética criada por uma fábrica da IG Farben em Bobingen, perto de Augsburg. Porém, o baptismo assentava num equívoco: o director da fábrica pretendera aludir ao nome romano de Augsburg (Augusta Vindelicorum), mas recorreu antes ao nome romano de Trier (Augusta Treverorum), a mais de 400 Km de distância. Quando a IG Farben foi dissolvida, a fábrica de Bobingen foi parar ao quinhão da Hoechst e a marca Trevira foi atribuída a uma fibra de poliéster da Hoechst que se tornou num sucesso a nível mundial (e assim se comprova como algumas marcas comerciais são completamente destituídas de significado, sendo escolhidas apenas porque soam bem, apesar das ficções construídas a posteriori pelos “marqueteiros” para as justificar).

Em 1999 a Hoechst fundiu-se com o gigante químico francês Rhône-Poulenc, dando origem à Aventis, que, por sua vez, se fundiu em 2004 com a Sanofi-Synthélabo, de que resultou o maior grupo farmacêutico europeu, a Sanofi-Aventis, que é designada, desde 2011, apenas por Sanofi.

BASF

A Badisch Anilin und Soda Fabrik (Fábrica de Anilina e Soda de Baden) foi fundada em 1865 (dois anos depois do nascimento da Bayer e da Hoechst) por Friedrich Engelhorn (1821-1902), na sua cidade natal de Mannheim (então parte do Grão-Ducado de Baden). Engelhorn, filho de um cervejeiro, abandonara a escola aos 13 anos, para começar a trabalhar como aprendiz de ourives e, graças à sua diligência, ascendera ao cargo de responsável pelo sistema de iluminação a gás de Mannheim. Tal como Friedrich Bayer, Engelhorn foi dos primeiros a perceber as potencialidades das descobertas do químico britânico William Perkin no domínio dos corantes sintéticos e abriu em Ludwigshafen uma fábrica para produção de anilina, um corante sintético azul, cujo nome provém do anil (Indigofera suffruticosa, ex-Indigofera anil), uma planta da América tropical e subtropical usada tradicionalmente para tingir tecidos de azul.

Fábrica da BASF em Ludwigshafen, c.1866

A empresa cresceu a um ritmo impressionante, mas, devido a querelas com os outros sócios, em 1883 Engelhorn abandonou a sua direcção. A BASF continuou a prosperar e a diversificar os seus produtos, que, além de corantes, incluíam carbonato de sódio (Na2CO3), ácido sulfúrico (H2SO4) e amoníaco (NH3).

Ao longo do século XIX, a agricultura tornara-se cada vez mais dependente dos fertilizantes azotados, que eram produzidos a partir de depósitos de guano (excrementos de aves marinhas) no Peru e, quando estes entraram em declínio, também a partir de depósitos de salitre no Chile (originalmente também no Peru e na Bolívia, antes de o Chile se ter apoderado dos seus territórios ricos em salitre na Guerra do Pacífico, de 1879-84). “Salitre” (do catalão “salnitre”, com origem no latim “sal nitrum”) era o nome tradicionalmente dado à ocorrência natural de nitratos sob forma mineral, consistindo numa mistura, de proporções variáveis, de nitrato de potássio, KNO3, e nitrato de sódio, NaNO3. Na viragem dos séculos XIX/XX, estas matérias-primas tornaram-se também vitais para a florescente indústria química e, em especial, para a produção de explosivos, que estava a ser extraordinariamente estimulada pela vertiginosa corrida ao armamento das potências europeias.

Anúncio ao Nitrato do Chile, em azulejo, início do século XX; nalguns locais de Portugal ainda subsistem exemplares da versão portuguesa deste anúncio

Porém, em 1909, o químico alemão Fritz Haber desenvolveu um processo que, recorrendo a pressões e temperaturas elevadas, permitia obter amoníaco (NH3) a partir do azoto atmosférico (N2), amoníaco esse que podia ser convertido, através do processo de Ostwald (inventado em 1902 pelo alemão Wilhelm Ostwald), em ácido nítrico (HNO3); combinando amoníaco (NH3) com ácido nítrico (HNO3) obtinha-se nitrato de amónio (NH4NO3), que tinha aplicação como fertilizante e no fabrico de explosivos. A BASF adquiriu de imediato a patente registada por Haber e colocou este a trabalhar com Carl Bosch, químico da casa, no aperfeiçoamento do processo, o que valeu Prémios Nobel da Química a Haber, em 1918, e a Bosch, em 1931.

A síntese de Haber-Bosch comprovou a sua validade em 1912 e, no ano seguinte, a BASF abriu uma nova fábrica em Oppau, perto de Ludwigshafen, vocacionada para produzir amoníaco através deste processo. Esta unidade fabril revelar-se-ia crucial durante a I Guerra Mundial, uma vez que o bloqueio imposto pela marinha britânica privou a Alemanha do acesso às fontes sul-americanas de nitratos sob a forma mineral.

O nitrato de amónio tem o inconveniente de, em certas condições, ser explosivo e a fábrica de Oppau não só armazenava grandes quantidades deste composto e de sulfato de amónio, (NH4)2SO4, como a sua manipulação era feita com alguma displicência, por se presumir que uma mistura de partes iguais de nitrato de amónio e sulfato de amónio não era susceptível de explosão. Era um pressuposto sem fundamento: a 21 de Setembro de 1919, um silo contendo 4500 toneladas de uma mistura destes dois compostos explodiu, matando 600 pessoas e ferindo 2000 – o estrondo foi ouvido a 300 Km de distância.

Ruínas da fábrica da BASF em Oppau, após a explosão de 1921

Não se ficou por aqui o historial trágico do nitrato de amónio: a 28 de Abril de 1947, no porto de Texas City, na Baía de Galveston, um incêndio a bordo de um navio carregado com 2300 toneladas de nitrato de amónio causou uma explosão que incendiou tanques de combustível, refinarias e outras instalações industriais ao longo da frente de mar e um segundo navio carregado com 870 toneladas de nitrato de amónio, que também explodiu por sua vez. O saldo desta formidável cadeia de explosões foram 580 mortos, o que faz dela o mais mortífero acidente industrial da história dos EUA. Como a memória humana é aflitivamente curta, em 2020, houve quem ficasse genuinamente surpreendido com a catastrófica explosão de 2750 toneladas de nitrato de amónio, que estavam, há seis anos, armazenadas negligentemente no porto de Beirute.

Parque de estacionamento junto ao porto de Texas City, após o acidente de 1947

De regresso à Alemanha: em 1925, a BASF foi incorporada na IG Farben e, inevitavelmente, esteve envolvida nos crimes nazis, nomeadamente através da fábrica IG Auschwitz, que ocupava uma área de 24 Km2 no complexo prisional-industrial de Auschwitz. As fábricas principais da BASF, sendo centrais para o esforço de guerra alemão, foram duramente bombardeadas pelos Aliados (um total de 65 ataques) e ficaram em ruínas. O fim da guerra não significou tranquilidade para a BASF, já que uma explosão numa unidade fabril em Ludwigshafen, em 1948, matou 200 pessoas, feriu 3800 e danificou 3000 edifícios, naquele que foi o 2.º maior acidente industrial da Alemanha (desta vez a culpa não foi do nitrato de amónio mas do éter dimetílico). Ainda assim, a BASF reergueu-se a partir de 1952 (com a dissolução da IG Farben), adicionando polímeros sintéticos como o poliestireno (inventado pela BASF nos anos 30) e o nylon à sua carteira de produtos.

Apesar da enorme diversidade de produtos hoje comercializados pela BASF (que vão da agroquímica à biotecnologia), para os portugueses que estão hoje na meia idade, a marca será provavelmente associada às cassettes áudio que proliferaram nas décadas de 1970 e 1980.

Anúncio a cassettes BASF, década de 1980

Agfa

Os corantes sintéticos estiveram para a década de 1860 como os semicondutores para a década de 1980, com a Alemanha a desempenhar o papel de Aniline Valley. Em 1867, dois anos após a fundação da BASF e quatro após a da Bayer e da Hoechst, iniciava laboração em Rummelsburg (hoje um subúrbio de Berlim) a fábrica de corantes da Aktiengesellschaft für Anilinfabrikation (Agfa ou Corporação para o Fabrico de Anilina), por iniciativa dos químicos Paul Mendelssohn Bartholdy – filho do compositor Felix Mendelssohn, que provinha de uma família de banqueiros judeus – e Carl Alexander von Martius, que em 1863 tinha dado um contributo para a inovação no ramo dos corantes sintéticos com a descoberta do “castanho Bismarck Y”.

Paul Mendelssohn Bartholdy (1841-1880), por volta de 1863

Em 1898 a Agfa diversificou a produção para as placas de raio-X e para as películas, apresentando em 1903 a sua primeira película cinematográfica, cuja aceitação levou a que a empresa iniciasse, em 1910, a construção de uma fábrica dedicada exclusivamente a este produto, em Wolfen, tendo a Filmfabrik Wolfen sido pioneira na produção em massa de filme fotográfico a cores – Agfacolor – a partir de 1936. Quando, em 1925, a Agfa foi incorporada na IG Farben, na divisão de tarefas entre as diversas empresas do grupo coube-lhe o sector da fotografia e filme.

Trabalho escravo numa fábrica da Agfa, 1943

Após o término da II Guerra Mundial, as instalações da Agfa ficaram divididas entre os territórios da República Democrática Alemã e da República Federal Alemã e, durante algum tempo, ambos os ramos comercializaram produtos similares sob a marca Agfa, com a Agfa da RDA, ou seja, a Filmfabrik Wolfen, a ficar com o mercado da Europa de Leste e a Agfa da RFA a usar a marca Agfa no resto do mundo. A Agfa da RDA acabou por contornar este acordo, que lhe era desfavorável, deixando de usar a marca Agfa e assumindo a marca ORWO (de “Original Wolfen”), o que lhe permitiu vender em todo o mundo.

Em 1964, a Agfa da RFA fundiu-se com a empresa belga Gevaert Photo-Producten NV, que tinha sido fundada em 1894 por Lieven Gevaert e se especializara em material fotográfico (sobretudo papel), dando origem à Agfa-Gevaert. Em 1990, a Agfa-Gevaert desfez-se da divisão de fitas magnéticas e em 2004 fez o mesmo com a divisão de fotografia (máquinas, filmes e papel), antevendo que estas duas áreas de negócio seriam esvaziadas pela ascensão das tecnologias digitais. Simultaneamente, foi incrementando a actividade na área do processamento de imagem, impressão digital, materiais e software para a indústria gráfica e em tecnologia de saúde.