1230,7kWh poupados 1230,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-2174250112
i

GC Images

GC Images

Da "volcel" Rosalía à "boy sober" Khloé Kardashian: o que motiva as seguidoras do celibato voluntário

Abdicam das relações para se focarem no autoconhecimento, para descobrirem as preferências sexuais ou por rejeitarem os padrões de género. Rosalía é um exemplo de abstinência.

Mónica (nome fictício) sempre foi mais reservada quando o assunto é sexo. A sua primeira relação foi aos 26 anos, não por “falta de interesses amorosos”, mas porque a “casualidade” fazia-lhe “confusão”. Quando aconteceu, com um namorado, “foi natural e fez sentido”. Depois, teve uma altura em que “levantou as reservas para perceber o que era”. Tentou o Tinder, mas diz que não foi capaz de permanecer na app por mais de dois meses. “O sexo casual ou mesmo precipitado não me trouxe nada de positivo”, diz, recordando uma conversa que a fez ter certeza que optaria pelo celibato como um estilo de vida.

Nascida numa família católica mas não praticante, Mónica reaproximou-se da Igreja aos 30 anos, mas garante que a religião não moldou a sua forma de encarar o sexo. Um dia, no confessionário, o padre disse-lhe que não precisava de evitar as relações sexuais se o intuito fosse encontrar um parceiro, mas colocou uma questão: “Vale a pena ceder parte do que Ele fez à perfeição a alguém que não a valoriza nesse nível?”.

"O melhor que tirei deste tempo foi o autoconhecimento. Saber que fazia sentido para mim e não precisava fazer sentido para mais ninguém. Ou seja, estar perfeitamente segura na decisão que foi tomada."
Mónica (nome fictício), 40 anos

A partir deste momento, Mónica diz que passou a respeitar mais a sua intuição. “A castidade vem trazer aqui a clareza de espírito. A perceção de que há o alguém que está interessado em nós e o alguém que está interessado em obter de nós“. Por outro lado, Mónica considera o celibato um ato de empoderamento feminino, em que assume o controlo da própria narrativa sexual. “Esta ideia da autodeterminação sexual da mulher só traz lucros ao homem, que encontra a facilidade na relação casual que ele procura… Eu acho que isso não é o verdadeiro poder.” Desde que iniciou a vida sexual, o período mais longo em que praticou o celibato foi seis anos. “O melhor que tirei deste tempo foi o autoconhecimento. Saber que fazia sentido para mim e não precisava de fazer sentido para mais ninguém. Ou seja, estar perfeitamente segura na decisão que foi tomada.”

Volcels, boy sobers e 4B

Recentemente Rosalía usou a palavra “volcel” para explicar a sua abstinência sexual. “Quero deixar claro que não dou mais espaço para paixões platónicas, essa fantasia, essa ilusão que não leva a lugar nenhum. Acabou. Mantenho-me solteira”, esclareceu, no podcast Radio Noia da Rádio Primavera Sound. A palavra é uma abreviação de celibatária voluntária, uma espécie de oposição aos “incels”, ou os celibatários involuntários, a comunidade online de homens que se consideram incapazes de atrair mulheres sexualmente e que podem promover comportamentos violentos contra elas. Contudo, as “volcels” têm uma postura diferente: a de que com o celibato é possível focarem-se no autoconhecimento e no crescimento pessoal. “Quando é, de facto, uma escolha voluntária e que está a trazer benefícios porque a pessoa sentia que, de alguma maneira, o sexo casual que estava a ter a fazia sentir mais ansiosa, com sintomatologia mais depressiva, sentia-se usada, enfim, não estava a trazer nenhuma mais-valia, pôr um limite a isso pode ser muito empoderador“, explica ao Observador a sexóloga Sara Malcato.

Julia Fox Vanity Fair Óscares

▲ Julia Fox é uma das figuras públicas que defende o celibato. ""Deixe o passado no passado, arranje um vibrador e viva", recomendou a um fã

@extratv

Nesta mesma direção vão as mulheres que se afirmam “boy sober”, ou sóbrias de homens, um termo que ganhou tração no TikTok no começo de 2024 graças à humorista norte-americana Hope Woodard, de 27 anos. “Namoro desde o jardim de infância”, desabafa num dos vídeos partilhados na rede social. “Não sei quem eu sou quando não estou a namorar, a ter uma situação ou ter alguém ao meu lado para me distrair de mim mesma e dos meus problemas reais“, justifica a humorista, que cresceu numa comunidade rural cristã. No mesmo ano Khloé Kardashian revelou num episódio do reality show que tem com as irmãs que não quer namorar. “Não quero partilhar o meu tempo com um homem. Não vou partilhar a minha televisão, nem a minha cama“, disse, completando: “Vou ser celibatária para o resto da minha vida? Só não quero que ninguém interrompa a minha rotina agora. Estou confortável no meu próprio ritmo”. Também a atriz Julia Fox se assumiu celibatária há pelo menos dois anos e meio. Em entrevista à diretora da Marie Claire, Nikki Ogunnaike, Fox diz que a sua decisão é “consequência das ações repetidas dos homens”. “As mulheres estão cansadas”, desabafou, afirmando que outras pessoas a procuraram para dizer que “gostavam que mais mulheres entendessem o quão maravilhoso é não se envolver com homens dessa forma“. No jornal The Times, Julia Fox respondeu a um leitor que perguntou se ela recomendava quebrar o celibato com o ex-namorado, com quem tem feito sexting, ou sexo por mensagens. “Deixe o passado no passado, arranje um vibrador e viva”, aconselhou a atriz.

A ideia de abstinência como uma forma de “luta contra o patriarcado” é o que defende também o movimento 4B, criado na Coreia do Sul em resposta à divulgação de vídeos, feitos com câmaras escondidas, de mulheres a despirem-se em casas de banho públicas e hotéis. O nome faz referência aos quatro princípios do movimento, em que o B representa a palavra coreana para “não”: bihon, ou não se casar, bichulsan, ou não ter filhos, biyeonae, ou não namorar, e bisekseu, que significa não fazer sexo. Sara Malcato, que é também psicóloga clínica e assistente social, assinala que a prática é tida como uma forma de poder dentro de movimentos feministas, como os já citados. “Na lógica da performance e da satisfação do outro, muitas vezes as mulheres são vistas quase como acessórios do prazer masculino, não é? E não. Nós temos que reclamar o nosso prazer, o nosso direito à sexualidade, ao nosso corpo, e numa sociedade que é misógina, que é patriarcal, isto às vezes é muito difícil. E, portanto, é quase transgressivo a mulher poder dizer que não. ‘Eu não quero ter sexo contigo, não estou aqui como acessório do prazer, não estou aqui para te servir.’”

@livithegingy

and look how im glowing!!!!! happy one year to loving myself fully ????

♬ original sound - princess liv ????

“Com o celibato descobri-me bissexual”

No TikTok, jovens contam a sua #celibacyjourney, ou a “jornada de celibato”. Os passos incluem apagar as apps de namoro, não responder a convites para encontros amorosos e manter contacto apenas com homens que façam parte da família ou sejam amigos próximos, em que não exista um interesse romântico. Algumas escolhem interromper apenas as relações sexuais, enquanto outras dizem continuar com práticas como beijos ou a masturbação. Há mulheres a afirmarem-se celibatárias há meses ou anos: “Passar mais tempo comigo mesma, a focar no meu bem-estar físico e mental, nos meus objetivos e ambições, literalmente solidificou os meus padrões para homens”, diz uma jovem. Outra comenta que com o celibato não corre o risco de “engravidar e apanhar doenças”. E há ainda quem considere o celibato uma ótima forma de descobrir preferências na hora H: “Acho que ao explorar coisas diferentes sem ter que lidar com outra pessoa permitiu-me descobrir o que realmente gosto“.

"Hoje sei o que me faz bem ou não. Às vezes acabo tendo deslizes, mas depois vejo como foi ruim."
Luísa (nome fictício, 31 anos

O Observador falou com algumas mulheres que adotam a prática de tempos em tempos, que preferiram não se identificar, mas relatam o que as levaram à abstinência — e o que tiraram da experiência. Catarina (nome fictício), de 30 anos, conta que foi durante um período de celibato de três meses que se descobriu bissexual. “Envolvia-me muito com ‘boys lixo’, então foi como uma desintoxicação, para começar a fazer escolhas melhores”, explica, afirmando que “se não estivesse nesse momento de celibato talvez não me tivesse aberto para isso”. Já Luísa (nome fictício), de 31, diz que depois de viver experiências casuais não sente mais vontade de ter relações “com qualquer um”. “Hoje sei o que me faz bem ou não. Às vezes acabo por ter deslizes, mas depois vejo como foi mau”, diz. “Não é bom viver sem sexo”, pondera, mas agora procura “ligações mais genuínas”.

É sobre este autoconhecimento que escreve Catherine Gray em The Unexpected Joy of Being Single, ou, em português, a “alegria inesperada de ser solteira”. Ao The Guardian, a escritora britânica fala sobre o ano em que decidiu abdicar do namoro — e do sexo. “Entre os 16 e os 34 anos não passei mais do que alguns meses solteira. Sentia-me incompleta sem alguém e constantemente em busca de aprovação. Desabei completamente e atingi o fundo do poço depois de um relacionamento de seis meses que falhou”, revela a escritora, que diz que o celibato ajudou-a a descobrir mais sobre si mesma. “Ao invés de fazer o que o meu namorado queria, descobri o que eu gostava. Desenvolvi amor pelo yoga, fotografia e viagens. Passei a vestir-me de forma diferente e não me preocupava mais em atrair homens. Comecei a ver-me como uma pessoa ao invés de uma namorada ou objeto sexual“, assume, destacando que o ano de celibato serviu também para alterar as suas dinâmicas de namoro. “Se me sinto insegura nos primeiros estágios de uma relação sei que é porque estou a sair com alguém que está emocionalmente indisponível, então afasto-me”. De acordo com a sexóloga Sara Malcato, abster-se de relações íntimas por um período permite “parar, desacelerar e focar-se no que se quer, deseja e procura, quem é que se é na relação com o outro e consigo: “Quando paro e me exploro, descubro coisas incríveis sobre mim”.

O celibato como forma de “redirecionamento da energia sexual”

Paralelamente aos movimentos pelo empoderamento feminino, há cada vez mais quem associe a abstinência sexual a uma componente holística. Um dos vídeos mais populares do TikTok com o tema “celibato” é um trecho do podcast do influencer britânico Jay Shetty no qual dá a definição do termo “Brahmacharya” e fala sobre como o sexo é também uma “troca de energias”. Shetty viveu como um monge védico por três anos, e partilha nas redes sociais as suas experiências — o podcast do influencer já recebeu nomes como a atriz Emma Watson ou Madonna. “A palavra para a vida de monge em sânscrito é “Brahmacharya”, que significa o direcionamento correto da energia. Não se está a tentar suprimir a energia sexual, mas direcioná-la de uma forma saudável. Não incentivo ninguém a abandonar os relacionamentos. Não estou a dizer para as pessoas serem celibatárias, mas terem um período na vida em que pratiquem a solitude, para que estejam confortáveis com quem são”, explica, em entrevista à Vogue Singapura.

@jayshetty

It’s about energy ❤️

♬ Stories 2 - Danilo Stankovic

Em conversa com a própria terapeuta, Haesue Jo, no podcast On Purpose, Shetty considera que estes três anos permitiram-lhe “clarificar o que o amor” era para si e “o tipo de relacionamento que queria”, destacando que trabalhou ferramentas essenciais para um relacionamento, como a “paciência, o comprometimento, o saber ouvir e a compreensão”. “Monges não namoram e a principal razão é criar um senso de foco e alinhar a energia. É o mesmo que ter uma carreira: como monge, não temos trabalho. Não usámos a nossa energia para mais nada ou mais ninguém. Assim temos a oportunidade de focar no interior, mais profundamente. Não é sobre mulheres serem más, ou certo género é mau. É sobre limitar as distrações, para perseguir a autorealização”, explica. “Não é preciso tornar-se monge, mas podes dedicar tempo à terapia, por exemplo. O conceito de investir a sua energia em autorealização é muito bom.”

O mesmo defendia o controverso Osho, líder espiritual indiano que chegou a esconder-se em Sintra em 1986 depois de ser condenado por fraude na imigração e deportado dos Estados Unidos da América. O homem que chegou a ser chamado “guru do sexo” por pregar a liberdade sexual e liderar rituais que envolviam práticas sexuais, dizia que o celibato “não deve ser forçado violentamente”. “A pessoa precisa de estar consciente dos atos sexuais e, com consciência, deve mudar aos poucos para o celibato”, disse, numa das suas palestras que se tornou livro. “O celibato deve ser adotado lentamente. Tudo o que o trouxer à sexualidade deve ser abandonado aos poucos, em passos. E quando começar a desfrutar da energia que se torna disponível, quando não estiver mais obcecado pelo sexo, quando aquela energia se tornar pura dança dentro de si, a isto chama-se ‘enriquecer’”, disse o líder da comunidade Rajneeshpuram, que foi retratada na série da Netflix Wild Wild Country.

Quando a escolha pode não ser saudável

Jovens nascidos a partir dos anos 2000 parecem ter menos relações sexuais e com menor frequência, segundo relatórios como o da Health Behaviour in School-aged Children, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde, que documenta atrasos na iniciação sexual e no uso de métodos contracetivos e estudos como o feito em 2020 pelo Instituto Karolinska, na Suécia, em conjunto com a Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, que ouviu pessoas de 18 a 24 anos e revelou que 31% dos homens e 19% das mulheres não haviam tido nenhuma relação sexual nos 12 meses anteriores à entrevista.

"As relações têm que ser desaceleradas, construídas e pautadas por esta lógica da autenticidade, e não constantemente a comunicar por emojis, atrás de um ecrã, em que acho que posso dizer tudo sem a mínima cortesia em relação à outra pessoa."
Sara Malcato, sexóloga

“Sabemos que a geração Z pratica menos sexo do que as gerações anteriores. Há aqui uma faixa etária que nasceu ali no final dos anos 90, início dos 2000, que faz menos sexo do que as gerações anteriores“, explica Sara Malcato, justificando que a redução na frequência está relacionada com a “dificuldade de interações pessoais, ou seja, a relação interpessoal e as competências sociais que são necessárias estabelecer com o outro e muitas vezes estão pouco desenvolvidas nestas gerações“. A especialista considera que o excesso de interações através de plataformas digitais estará por trás da dificuldade. “Não existe uma relação verdadeiramente autêntica quando estou constantemente camuflado. Seja por um ecrã, seja por performance que acho que tenho que ter para corresponder à expetativa que acho que o outro tem sobre mim. Estamos sempre nesta lógica da performance, do desempenho, da coisa muito rápida. As relações têm que ser desaceleradas, construídas e pautadas por esta lógica da autenticidade, e não constantemente a comunicar por emojis, atrás de um ecrã, em que acho que posso dizer tudo sem a mínima cortesia em relação à outra pessoa.”

A profissional destaca ainda que o celibato voluntário só é saudável quando quer interromper um padrão prejudicial. “Pode ser muito importante, de facto, dizer que não a este tipo de relacionamentos que não estão a fazer bem. Não sentir a pressão social para corresponder e dizer que não, é normalmente um bom indicador. Se, pelo contrário, estou a dizer que não porque sinto-me pressionada pela minha família, pela religião, por um influencer das redes sociais a ter que entrar nesta lógica de celibato voluntário, ou seja, quando ele é sustentado pelo medo, pela vergonha do próprio corpo, pela vergonha do desejo que sinto, ou se está ligado a expectativas irrealistas, aí a abordagem tem que ser diferente.”

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.