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▲A Justa Desproporção” e “Idade da Perda”: dois livros para a sinfonia amarga e doce de um poeta que se fez adulto

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

▲A Justa Desproporção” e “Idade da Perda”: dois livros para a sinfonia amarga e doce de um poeta que se fez adulto

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

Daniel Jonas. "Achava-me sem costela romanesca, mas ando a escrever um romance. Vamos ver o que acontece."

Entre lúcida melancolia da perda e desproporção da vida que não cessa, o poeta e tradutor Daniel Jonas desdobra-se ainda em ironista e desafia a língua portuguesa a ir mais longe e a rir de si mesma.

Este outono, o poeta e tradutor Daniel Jonas, publicou dois livros: A Idade da Perda, poesia, e A Justa Desproporção, micro-ensaios irónicos sobre coisas tão mundanas como filmes, musica pop e pimba, notícias, programas de TV, políticos, viagens. Em ambos, o autor continua a deslumbrar com o seu manejo virtuoso de uma linguagem onde as tradições eruditas medievais e renascentistas se põem ao serviço do desvendamento de uma condição humana poliédrica. Mas é com o segundo, saído na coleção de Não ficção da Companhia das Letras, que podemos surpreender o seu talento para a prosa curta de pendor sarcástico, onde as frases afiadas como um silex despedaçam o visco preguiçoso deixado por tantas crónicas, comentários, opiniões que tornaram o nosso espaço literário e mediático num pântano insalubre. Jonas, recusando a neotenia que afeta tantos poetas da sua geração, traz-nos dois livros atravessados pela experiência da perda, do envelhecimento, do desencanto que são como a face de Janus: onde passado e futuro se encontram e mutuamente se choram e se celebram.

Em Idade da Perda (Assirio&Alvim), Jonas continua a cantar o drama humano não como confidência nem como alegoria abstrata, mas como reencenação contínua de camadas biográficas, históricas e simbólicas que nunca são apenas individuais. Cada vida, parece dizer esta escrita, é atravessada por idades, por heranças linguísticas, mitológicas e familiares que não escolhemos, mas que nos constituem. O sujeito conhece-se porque representa um mundo e porque a linguagem, sabendo-se sempre separada das coisas, insiste em querer tocá-las.

Há nesta poesia uma atenção radical à palavra enquanto acontecimento. Cada termo transporta restos, ecos, culpas, alegrias breves, imagens do corpo e da história. Nada nasce no vazio. Nem a experiência, nem a língua. Jonas escreve a partir dessa consciência da falha, de que a experiência da perda nunca é capturada, apenas tangenciada. É nessa fissura entre o que se diz e o que escapa que o sujeito se forma e que esta poesia ganha uma densidade ontológica atemporal.

Essa tensão entre dizer e não poder dizer aproxima esta obra daquilo que Maurice Blanchot designou como a “metafísica do desastre”. Não o desastre como evento quantificável ou slogan político, mas como experiência-limite em que a linguagem reage contra os seus limites. Jonas não transforma a perda em espetáculo nem em capital moral. A escrita não enumera nem explica, mantém-se próxima do corpo ferido, recusa tanto o consolo como a domesticação da memória para adorno futuro.

O tempo, neste dois livros, não é cronologia nem projeto, é antes duração bergsoniana, fluxo em que cada instante já nos altera. E o poeta, que em tempos sonhou ser cantor, afina os seus instrumentos e nunca foi tão musical como aqui. Cada obra deixa o rastro de uma melodia, cujo sentido se constrói tanto pela sucessão das notas que soam, como pela memória das notas anteriores. Daí a presença insistente da caducidade, da decomposição, da consciência do corpo que envelhece. As referências barrocas, próximas das “Vanitas”, não são exercícios de estilo, mas meditações visuais e morais. Objetos quotidianos, notícias, cultura pop, fragmentos do presente acumulam-se como crânios e frutas apodrecidas. Recordam-nos que tudo passa, que tudo se dissolve.

A ironia desempenha aqui um papel decisivo. Não como ornamento nem como puro sarcasmo, mas como uma ética do distanciamento. Uma forma de liberdade perante as verdades absolutas, próxima da tradição socrática e da consciência moderna da contingência da linguagem. A ironia protege a escrita da solenidade vazia e da falsa autenticidade. Quem não suportar essa distância não diga que foi afastado “por excesso de referências”, mas por incapacidade de leitura.

"Sou uma criatura razoavelmente solitária, sim, mas não por ódio gregário. Aliás, por mim, estaria sempre em modo Haight-Ashbury (um bairro de São Francisco, em tempos fortemente associado à onda hippie.), embora a minha adaptabilidade seja imprevisível."

Diga-se ainda que Jonas já traduziu obras monumentais como Os Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer ( a primeira tradução em verso rimado feita em língua portuguesa, e que lhe valeu o aplauso dos ciclos Chauserianos) e O Paraíso Perdido de Milton, enfrentando os núcleos fundadores da poesia em língua inglesa. As traduções, sobretudo de poesia, não podem ser desvinculadas das restantes obras deste autor e confirmam o seu diálogo contínuo com as origens da língua poética, com os seus ritmos primários, a sua dimensão narrativa, irónica, por vezes picara, reforçando a ideia de que traduzir é, para ele, a continuação de um modo de pensar a tradição a partir de dentro e de a reinscrever criticamente no presente.

Daniel Jonas, que não procura agradar nem confirmar identidades, gerações, grupos. Recusa a literatura anestesiada, a narrativa aprovada, a reação imediata. Exige leitura como experiência transformadora, não como consumo de informação. Não moraliza, mas também não oferece refúgio. A sua escrita funciona como exercício espiritual num tempo que prefere emocionar-se a refletir criticamente. Como se pode ver na entrevista que se segue, o escritor desafia leis, hábitos e confortos, porque sabe que a grande literatura nunca foi benigna.

Comecemos pelo principio. Onde nasceu?
Nasci no Porto, na freguesia de Massarelos, Maternidade Júlio Dinis, mais um distinto médico e escritor com quem compartilho o apelido Coelho. Não sou de “boas famílias” mas sou de uma família boa.

Começou a ler os clássicos com que idade?
Comecei a ler os clássicos quando tinha idade para ler o Corto Maltese, o Michel Vaillant, o Spirou e outros quejandos, como o Tio Patinhas, não esquecendo êxitos da editora Morumbi, nem o Recruta Zero.

E o que é que, a certa altura da sua vida, o levou a começar a escrever, e não a fazer outra coisa qualquer… tem memória disso?
Agora que penso nisso, a escrita vem um pouco como espuma do meu gosto musical, baladeiro. Andei a estudar dois ou três anos guitarra clássica, depois, mais canhestramente, piano, canto, e, a certa altura da minha vida, quis ser cantor e guitarrista, e comecei a escrever canções. Nessa altura, era melhor a fazer textos para canções. Escrevia, fui até vocalista numa banda, pela adolescência ganhei um concurso de voz na rádio Comercial (se bem me lembro) e depois disso fui viver para a Suécia e continuei um pouco nessa senda, gravei umas coisas, mas acabei por desistir. Não sei dizer quando começou a transposição para a escrita, mas deixei a guitarra e passei apenas a escrever no papel. O escritor de canções tornou-se um madrigal à antiga, suponho. O trovador ficou-se pelas trovas e pelas trevas.

Nunca pensou em trabalhar como sósia do Bob Dylan?
As minhas parecenças não se reduziram a essa, mas o Dylan realmente leva a palma. Uma vez, um brasileiro disse-me “Cara, você é iguau à Bobi Dylão”. Sou a versão em alto e sem talento. Mas preferia ser seu sócio a sósia dele. Era mais proveitoso financeiramente.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

Para além de Dylan, qual é a sua genealogia poética — ou genética?
Nunca fiz estudos sérios sobre a minha emancipação símia. Não sei se recebi algum germanismo da minha avó chamada Edviges, talvez responsável pelos olhos azuis do meu pai, a quem ressinto não mos ter passado. Quanto à genética poética, aprecio toda a boa poesia, seja boa seja má, logo que seja uma boa poesia má, já que há muito má poesia boa. Eu tenho escrito alguma de uma e de outra. Entre uma e outra, acho que fiz alguns bons poemas. Publicar parte da ilusão de que o que se faz é bem feito. Olhar para trás é, por vezes, decepcionante.

Publica e traduz desde os anos 90, mas é com estes micro-ensaios, ou micro-crónicas de A Justa Desproporção, que dá a conhecer a sua capacidade de ironia. Ela já se entrevê na poesia, mas aqui ganha outro fulgor. Quem diria que o poeta, o aedo, era também um ironista?
Creio que a ironia talvez seja mais visível naqueles textos fruto de uma liberdade de pensar que pode ser entendida como provocação, mas são modos afinal de ver de qualquer cabeça usando a sua liberdade de pensar. A prosa permite um espaçamento que a concatenação da poesia não me permitia e a possibilidade de divagar sobre assuntos. A poesia é séria, é por isso que é tão difícil escrever poesia boa. A seriedade passa por poesia sem que haja nela poesia.

Os textos que compõem este livro surgiram como? Traz um “moleskine” no bolso enquanto deambula pela cidade, qual pintor da vida moderna?
Este livro parte da vontade de reunir alguns textos esparsos, publicados anteriormente, aproveitando para os complementar com outros textos, tanto quanto possível, do mesmo género, nisso espevitando o lado mais prosaico do meu cérebro, que por razões várias não tinha ainda ditado nada à escrita. A sua génese é um processo curiosamente rápido; vi-me praticamente a declamar esses textos para a escrita, como se eles já estivessem de alguma maneira gravados no meu espírito. O seu processo foi estranhamente automático. Sempre tive essa costela mais cronista, digamos, mas não tinha espaço ou justificação para a desenvolver. Chamam-me normalmente poeta, em função da minha prática, mas considero-me escritor latu sensu. Aliás, ando a escrever um romance…

"Certas pessoas podem cantar no Avante e ser mandatárias de pessoas afectas ao Pontal sem que disso venha o espanto público e a ideia de haver nisso falta de princípios. Por isso, estranho de certo modo a forma como a liberdade de pensar de alguns seja vista como uma singularidade e as carambolas ideológicas de outros uma espécie de instituição portuguesa sem mal."

Um romance? Quer dizer há algum lugar da experiência humana, a que queira chegar que só através do romance é possível ou é antes um desejo de experimentar com a linguagem?
Talvez isso venha de uma paleta literária razoavelmente ampla. Achava-me sem costela romanesca, mas alguma coisa aconteceu e comecei a escrever nesse registo também. Mas o romance pede organização e disponibilidade, coisa que não tenho muito. Vamos ver o que acontece.

Tem traduzido clássicos monstruosos como Milton e Chaucer, dá aulas, está mais ocupado com a realidade do que em fazer o tal trabalho de “networking” que engendra celebridades literárias?
Sou uma criatura razoavelmente solitária, sim, mas não por ódio gregário. Aliás, por mim, estaria sempre em modo Haight-Ashbury (um bairro de São Francisco, em tempos fortemente associado à onda hippie.), embora a minha adaptabilidade seja imprevisível. Julgo que tenho uma autoconsciência severa. Gosto de andar por aí a recolher intuições. Gosto de participar sem ter de ser participante. Nesse sentido, sou tão entrevistador quanto tu. Prefiro observar a ser observado. Não sendo jornal, sou observador. Prefiro dar a preferência da atenção a ter a atenção da preferência. Quer dizer, tendo a medir cada vez mais o que tenha a dizer e sinto que tenho cada vez menos a dizer.

Nestes ensaios, onde exerce o seu talento de ironista, não se esquiva sequer a tomar posições políticas polémicas, algo raro nos escritores atuais.
Apesar de rosnar com frequência a Portugal, o lado bom da nossa comunidade é permitir-nos de alguma maneira exercer livremente a nossa identidade. Por isso espanta-me que certas liberdades de pensamento sejam olhadas com mais desconfiança do que outras, como se umas fossem mais excêntricas. Certas pessoas podem cantar no Avante e ser mandatárias de pessoas afectas ao Pontal sem que disso venha o espanto público e a ideia de haver nisso falta de princípios. Por isso, estranho de certo modo a forma como a liberdade de pensar de alguns seja vista como uma singularidade e as carambolas ideológicas de outros uma espécie de instituição portuguesa sem mal.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

Nesta ditadura da felicidade e da emoção, da catarse narcisista, neste tempo em que todos se tornaram seguidores de pseudo-pensadores, escreve como se o mundo digital não existisse. Tudo neste livro é tão analógico que podemos sentir o nosso cérebro a descongelar.
Claro. O lado bom da minha prosa é poder relaxar o meu lado grave de poeta. Sou mais Janus do que Jonas. Tenho o lado grave e o lado em que faço greve a esse lado, embora os dois não sejam incompatíveis. Em tempos, tentei retificar a minha má relação com as redes sociais, mas não consigo. Tinha uma conta no antigo Twitter, por uma questão de conveniência de agrupamento de informação, não porque fosse um gorjeador de excelência, já que não escrevia nada. Deixei-a, entretanto, quando passou a comité central do projeto 2025 nos EUA. No resto, o Instagram era uma forma de curar o meu gosto pela imagem, mas não lhe dou grande atenção. E resume-se a isto. Estou a tentar o Bluesky.

Porém, como escritor e professor, e apesar de escrever que a juventude é sempre igual pelo menos na sua potência de vida, nota mudança na experiência social, política e mesmo verbal, no mundo pós-internet? (E aqui estou a pensar na sua crónica sobre os filmes do Zurlini e do Kazan, os professores e a juventude…)
Sim, a juventude a que aludo é uma permanência anónima. A experiência do professor é esse atendimento a clientes sempre jovens, como naquela canção dos Alphaville. Só ele envelhece. Mas o seu envelhecimento não é apenas de forma, ele acusa o choque dos materiais, os materiais envelhecem com ele. Os seus clientes escolares confrontam-no com o seu erro humano, apontam-lhe as debilidades e o cansaço do seu material estafado e estagnado porque, apesar da manutenção dos seus verdes anos, as suas expectativas afastam-se cada vez mais do mestre imobilizado na sua torre de sapiência, mas empedernida. Há ali também um confronto de gerações e um lugar de distorção.

Falemos um pouco mais desses seus textos sobre a escola e a educação, porque quem normalmente escreve sobre eles nunca atinge essa camada, tão delicada e, ao mesmo tempo crucial que toca. Foi, durante muitos anos, professor do ensino básico e agora ensina na Universidade.
Eu detesto o eduquês e espanta-me que fale da escola com interesse. É um elogio que não esperava. Sou professor do ensino preparatório e do ensino superior. A certa altura aspirava apenas a ser professor universitário. Gostava da liberdade que antecipava nesse ensino e de me ver desamarrado em relação a grelhas e ao primado do burocrático. Para minha desilusão e contentamento, apercebi-me de que o primado burocrata aprisionava também os docentes nesse grau de ensino, imobilizados num pântano de imposições dessa ordem. Mas essa é uma crítica que se pode espalhar por todos os graus de ensino. Os professores estão transformados em máquinas de economato, em conhecedores de medidas e aplicações tecnocratas em nada parecidas com aquilo que deveria ser a sua preocupação. Em nada se estimula a leitura, o refresco de conhecimento, a expressão livre de conhecimentos. Essa que deveria ser a condição natural do professor, que foi brutalizado em nome de uma confusão de papéis. O papel de professor confunde-se com o papel do funcionário. Nem as universidades escaparam a esta doença do eduquês. Ainda vou ouvindo de exceções a esta regra e saúdo-as profundamente. Tirando os ensinos mais especializados e técnicos, das quais se espera maior rigor e minúcia nas aquisições, nenhuma universidade deveria servir para formatar. Julgo que o espaço do dandismo e da livre expressão de ideias e leituras deveria ser o desiderato, poder providenciar os jovens com referências e modelos de comportamento, e não fazer professores em rama, transformando-os em simples regurgitadores de textos e aplicadores de fôrmas. Não há espaço para a formação pessoal e autónoma. As pessoas são cilindros compressores e são elas próprias cilindradas pelas exigências da burocracia, essa forma capciosa de esconder a ignorância através da aparência de rigor.

Com esta distância irónica, por vezes suave, por vezes cortante, juntando (perigosamente) as chamadas “alta” e “baixa” cultura, a erudição e a pop, o passado da língua para melhor duvidar do presente prosaico das coisas, como crê que os seus leitores habituais vão receber este livro de prosa, com tantas camadas, entrelinhas, latências?
Este modo de refletir é um modo de fazer incidir o foco sobre certas dimensões do meu gosto pessoal, normalmente não elegível em certos corredores mais augustos, e normalmente negligenciado pela poesia dita maior, que é por definição tendente a uma linguagem mais eucarística. Embora não tenha certeza se a concessão à chamada baixa cultura seja um sintoma de decadência, já que, por outro lado, se assiste a uma degradação do gosto e da linguagem, um indicador de rasura democrática. A linguagem grave de estado, e nesse sentido mais poética, vem sendo substituída pela linguagem de taberna e a taberna chegou, infelizmente, ao capitólio sem que pareça haver grande escândalo com isso. Eu fico escandalizado. Subir ao povo é romântico, mas não me interessa. Temos de pensar em fazer subir o povo. E quem diz povo, diz nós, o povo, como o Mutimati Barnabé João. Mas é sempre o polvo quem mais ordena. Não no sentido de grandes educadores da classe operária, mas não deserdando uma certa exigência formal e linguística. Os nossos líderes deveriam ser os melhores de nós. A verdade é que, com poucas exceções, se tornaram os piores de nós. A arrogância da democracia é o seu fim. E cada alma cidadã é uma vaidosa conhecedora de tudo o que não está bem. Não há uma viagem de táxi ou Uber (esses novos donos do alcatrão) que não esteja ao volante um Platão. Esse voto degrada-se em pessoas parecidas connosco que são o pobre juízo da nossa expressão pessoal. E a linguagem é uma forquilha, só nos falta o regresso aos autos-de-fé. Em relação ao texto “Versos Pastoris, por exemplo, é um modo sereno de abordar os meus gostos, razoavelmente versáteis. Aliás, não vejo por que não pode a música country ambicionar o tipo de respeito que se dá ao fado. Atualmente, ninguém retira ao fado essa elevação cultural, até patrimonial. Mesmo pessoas que gostem muito de gerúndio já se habituaram a aceitar o fado. À medida que piorou e se modernizou, o fado ficou um bocadinho mais marxista. Eu gosto de algum fado, não de todo. Tal como não gosto de toda a música erudita. Tento explicar o meu gosto, sabendo que posso estar a gostar de coisas sem gosto.

"A linguagem grave de estado, e nesse sentido mais poética, vem sendo substituída pela linguagem de taberna e a taberna chegou, infelizmente, ao capitólio sem que pareça haver grande escândalo com isso. Eu fico escandalizado. Subir ao povo é romântico, mas não me interessa. Temos de pensar em fazer subir o povo. E quem diz povo, diz nós, o povo, como o Mutimati Barnabé João."

Não deixa de ser curioso que estes ensaios saiam ao mesmo tempo que Idade da Perda. De certa forma, um como tragédia, outro como tragicomédia, ambos falam da perda. O poema “Demasiado Mar “e o texto “ Aloquetes Apaixonados” parecem ser duas faces da mesma moeda: o (inevitável) desencanto amoroso. A perda não como fim, mas como possibilidade de florescer obliquamente?
É bem observado, não me tinha ocorrido. Sim, a fadiga presente na lírica corresponde à ferrugem presente no texto em prosa. É curioso que fado seja parecido com fadiga. Que os livros tenham saído ao mesmo tempo foi apenas contingencial, não estava programado. No caso de Idade da Perda, é um livro que sai um pouco por uma questão de calendário, na medida em que já perfazia cinco anos desde o último. Não gosto de publicar com grande frequência por uma questão de prevenir o enjoo, o meu e o dos outros. E nem a propósito saem dois livros ao mesmo tempo! Enfim. Um servirá para desenjoar do outro.

Não se diz de si que é “político” como se diz que é “neo-barroco” ou “erudito”. Como se a linguagem não fosse sempre política. Mas, de facto, na prosa, isso é mais evidente. O seu texto sobre os keffiyehs no pescoço de Isadoras Duncan nos seus Bugattis vai cair mal a muita gente. Quer falar sobre isto ou prefere não entrar em polémicas?
Esse texto serve para dizer que o meu posicionamento político não é arredondado à cor. Não tenciono militar em causas que tenham o valor de provérbios. Abomino formas de expressão que apelem à violência, e que um pseudo-humanismo oblitere o seu próximo com a sua espuma ideológica de raiva clubística. A ideologia é uma vaidade, a liberdade é um dom. Esse texto alude globalmente a uma posição que brutaliza a independência de espírito, que a obriga a posicionar-se contra um acto de agressão a favor de outro acto de agressão. A complacência do nosso cansaço é criminosa. Para alguns, russo está bem, hebreu é que não. E vice-versa. A razão pela qual não integro manifestações pró-isto, pró-aquilo, é porque o pró qualquer coisa é normalmente anti outra coisa. Por mais que simpatize com o 25 de Abril, ir à rua por Abril (esse mês tornado causa) faz-se normalmente junto de outras pessoas que não têm a minha ideia de liberdade. Não quero festejar a liberdade junto de pessoas que defendem o fim da liberdade de outras. Certas posições que passam por libertárias e humanistas são, no fundo, autoritárias e racistas. Do rio até ao mar não é bem a mesma coisa que “da Ribeira até à Foz”.

Começou a publicar há mais de 20 anos com o André Jorge, na editora Cotovia. Quando olha para trás como vê o curso dos seus anos? Como poeta, como pessoa, tem conseguido tornar-se naquilo que é?
É uma pergunta interessante, uma pergunta de tipo mantra que carrego em formato assombração. É como se não escapasse a um descontentamento técnico que parece pulverizar as realizações passadas, uma constante insatisfação do dever cumprido. Por um lado, tenho a veleidade de pensar que a importância de um ou outro trabalho já deveria bastar como o trabalho de uma vida, mas não deixo de sentir uma frustração contínua, uma crónica “irrealização”, não obstante a eventual envergadura do que possa ter já feito. Ou é falha de fabrico meu ou Portugal é um país sui generis. Promove muito e conserva pouco. Eu também não serei o mais competente dos networkers. Mas também tenho reservas quanto ao eventual carácter de excepção que se dá às figuras literárias. É uma questão que tenho comigo mesmo.

E mantém-se saudavelmente à margem dos grupos e grupinhos, das guerras da poesia portuguesa. Será um poeta sem qualidades ou anda de Bugatti como Isadora Duncan?
O tempo é escasso. A glória precária. Gostaria de ter um Bugatti. Mas preferia um Bentley Continental. Ainda assim, trocava isso por andarmos todos confortavelmente nos STCP. Tinha era de haver cumprimento de horários.

Sendo um tradutor de autores mortos, inatuais, o que pensa da arte do século XXI, da arte em geral, musica, plástica, poesia. Há coisas novas que o fazem vibrar ou prefere esperar que o tempo os revele?
O facto de ser uma espécie de exumador das letras não quer dizer que não tenha ídolos vivos; Dylan é, a talhe de foice, um. E fiquei feliz com o seu Nobel. Talvez tivesse atribuído ax-aequo com o Leonard Cohen. Como também fiquei feliz com o prémio ao Chico Buarque. E espero que o do Sérgio Godinho não demore. Poderia enumerar dezenas de cantores, compositores, cineastas, escritores. Nas artes plásticas preciso mais da mediação da curadoria, mas tento frequentar tudo o que posso. Gosto muito de dança e quase não existe possibilidade disso.

Neste século XXI, saturado de imagens e de fantasmagorias tecnológicas, e sendo o Daniel um homem de palavra[s], como se orienta nesta torrente? Ou seja, que imagens são estas que retira do caos? Que qualidades é que elas têm que ter para lhe servirem de argamassa poética?
Realmente, tenho vindo a preparar há uns anos um livro de poemas que respondem a imagens, quadros que retratem execuções. Talvez isso se entreveja em alguns dos poemas que tenho feito e este último também não seja exceção. Mas aqui há de novo um cansaço da coisa cantada, modalizada no poema que alude ao turista cansado por via da resposta a um excesso de Tintoretto. O que suscitou a integralidade deste livro (Idade da Perda) foi uma espécie de cansaço civilizacional que se manifestava numa certa depressão pessoal. A idade da pedra a que se alude por paronímia aponta a esse futurismo que se relaciona com o passado ancestral. O nosso futurismo descreve-se por uma certa falência histórica em que nada do que se fez contribuiu positivamente para a lição presente. Somos leitores provisórios da História. É incrível verificar que pessoas que esperávamos pertencer ao jurássico dos anos 50 sejam ainda ou novamente os nossos líderes. Ao invés, menosprezamos as vozes da temperança, apoucamo-los com certos expedientes derrogatórios, usando o seu passado profissional, por exemplo, como os reaganistas da actualidade que um dia foram atores e veem a sua antiga atividade cultural brandida como um labéu para as suas pretensões políticas. E nós como sociedade olhamos sempre com mais respeito o economato. O colarinho branco merece-nos sempre uma admiração de continência. O campo do debate de ideias é invadido por sound bitaiteiros que nos chegam de um almanaque antigo. A nossa idade é da perda porque da repetição. A parábola do ser humano é uma trajetória de pedra em pedra: da idade da pedra à idade da pedra rara, a da tecnologia de ponta, a da economia verde. Atribui-se a Einstein a frase “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Ora bem, pedras e paus não aguentarão uma guerra mundial por motivos técnicos, mas percebe-se o ponto. O título é um tratamento metafórico de uma preocupação, mas aproveita o global para descrever também uma idade pessoal, a minha, que aproveita o climatério do mundo para descrever questões pessoais.

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

Esta sua resposta fez-me pensar no “Mito de Sísifo de Camus”. Não a perda melancólica porque envelhecemos, mas porque nos descobrimos condenados à repetição absurda, dos mesmos erros, das mesmas esperanças vãs, das mesmas injustiças? Se é assim, o que o faz continuar a viver, a escrever, a questionar? A busca de um verão invencível dentro do mais profundo inverno?
Sim, continuar vivo parece absurdo. A repetição é uma característica do absurdo. A nossa salvação é a capacidade de esquecer. É isso que explica também a nossa perdição. Como é possível voltarmos a testar os mesmos modelos de agressão e destruição? E por outro lado é esse lugar de consolo e de esquecimento terapêutico que facilita o nefasto ecossistema daquelas primeiras bactérias que vêem propor as suas adversativas capciosas contra a agressão que está diante dos nossos olhos. Elas são as que aparecem pouco tempo a seguir ao 7 de Outubro e são também as que comparecem depois do outro lado. Aqueles “sim, agrediu, invadiu, mas…” Realmente o ser humano é um animal perdido, profundamente irracional e limitado. A capacidade de esquecer é uma força de consolo, mas também uma fonte de tragédias. E cada criança brutalizada por uma guerra sem sentido, telecomandada por um torcionário obscenamente rico, é injustiçada vezes sem conta de cada vez que exercemos a apologia da nossa ideologia. Nós admiramos os oligarcas, somos seus voluntários escravos. Por exemplo, vivi alguns meses obcecado após o estalar da invasão da Ucrânia. E depois, para meu acrescentado horror, comecei a ver os primeiros passinhos das vozes subtis e baixas que começavam a causa da apologia, a vanguarda de infantaria daquele regime horroroso comandado por aquela galeria de velhos absolutamente disfuncionais que aplicam um regime de chauvinismo, iconólatras, pessoas decadentes que impõem o seu machismo violento a qualquer espaço de fuga dessa prisão mental. E temos no nosso convívio muitos admiradores dessa forma de asfixia democrática. É o tal texto sobre os amantes de liberdade que não amam verdadeiramente a liberdade. Por outro lado, a livre expressão democrática das nossas admiráveis repúblicas levam-nos por cansaço a uma rota de colisão com os nossos princípios de prudência e temperança. E escolhemos livremente os mesmos líderes decadentes que deveriam estar cristalizados em formol desde os anos 50 do século passado. É o regresso do mundo eliotiano de J. Alfred Prufrock. “Vamos, tu e eu, quando o crepúsculo se borrifa no céu como um paciente anestesiado sobre a mesa.” Esse é o mito de Sísifo. O da nossa anestesia e o dos nossos eternos trabalhos. A idade da pedra e da perda repetidas.

Apesar da recorrência da perda, o livro “A Justa Desproporção” tem na capa a imagem da criança a correr no meio de um pinhal e a infância também é um tópico recorrente nos livros, ainda que indirectamente.
Sim, acontece ser o meu filho, muito ao longe. Achei que era bom para ilustrar a desproporção em relação ao pinhal (que não o José).

Enquanto fazíamos esta entrevista, foi contactado por um leitor que se deu conta que, num dos poemas de Idade da Perda, na página 89, confunde Galileu e Copérnico. Quer aproveitar este momento para aceitar (mais esta) perda e fazer uma errata a esse poema?
Pois por falar em perdas, há um lapso que deve ser corrigido e que foi percebido por um leitor a quem queria agradecer muito a acuidade e a observação que me espantou. Espantou porque não acreditava que num poema onde deveria constar o nome“Galileu” estivesse “Copérnico”. Ora, o poema fala em telescópio e cegueira, atributos de Galileu, não de Copérnico, aliás um não contemporâneo dos telescópios. Talvez esse nome derivasse de um lapso freudiano, já que o poema associa “copo” (cop) érnico a “telescópio” (o cop novamente). Seja como for, ainda que não saiba como foi, tenho de admitir com muita frustração a gralha. Por mim, chamaria todos os livros a essa intervenção técnica. Os leitores que me perdoem e passemos à idade do perdão.

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