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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Das honras de Estado ao adeus dos portugueses. A despedida do "herói firme mas doce" /premium

Começou no protocolo de Estado e acabou com transporte da urna nos ombros do filho e dos seguranças. Adeus a Sampaio feito de salvas de artilharia, mas também de aplausos anónimos e cravos vermelhos.

No chão da rua 7 do cemitério do Alto de São João, em Lisboa, há quase um tracejado de cravos vermelhos pelo caminho. Segui-los leva às gigantes coroas depositadas mais à frente, junto do jazigo de família onde a urna de Jorge Sampaio foi colocada. Já não está ninguém, no final de uma manhã de pompa, da cerimónia fúnebre com honras de Estado com altos representantes de vários países, do Governo nacional, do Parlamento, de antigos governos, um rei, salvas de artilharia. “É aqui que está o nosso Presidente?”, pergunta uma senhora que passa solitária no local ainda vazio. Na pedra limpa já está inscrito: “Jorge Sampaio. 1939-2021”.

O segundo dia de homenagens e de luto nacional foi o de discursos das três principais figuras de Estado e da família, representada, no púlpito junto à urna no centro do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, pelos filhos do antigo Presidente da República. Vera e André Sampaio repetiram a memória de “um homem bom”, de um “pai extraordinário, carinhoso, emotivo, atento, próximo e disponível. Foi lutador e pacificador”.

“Era resiliente e perseverante. Um homem generoso e inspirador. Com a coragem de deixar a emotividade exprimir-se em lágrimas, porque um homem chora quando precisa de chorar”, disse depois o primeiro-ministro. E o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa descreveu, também, a forma como Sampaio “amou Portugal pela fragilidade e na fragilidade. E fez dessa fragilidade, que é sua, nossa, de todos nós, uma força sua, nossa, de todos nós”.

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À porta do cemitério do Alto de São João, estavam dezenas de pessoas que aguardavam o cortejo, no passeio atrás da guarda de honra composta por 165 militares dos três Ramos das Forças Armadas. O reconhecimento da descrição deixada pelas altas figuras de Estado ouvia ali o reconhecimento em forma de aplauso. Mal a urna que transportava o antigo Presidente foi retirada do carro funerário, ouviu-se uma longa salva de palmas só interrompida por uma outra salva, de tiros.

Ao Presidente da República, dentro do cemitério, coube a entrega da bandeira nacional que cobria a urna a Maria José Ritta, a mulher de Jorge Sampaio, depois de militares terem entregue às famílias as insígnias recebidas pelo antigo Presidente. Minutos depois de a família ter abandonado o cemitério, após a cerimónia discreta onde já só participaram cerca de 20 pessoas, foram muitos cidadãos anónimos os que foram até ao jazigo, por curiosidade ou para prestar uma última homenagem ao antigo Presidente que morreu na sexta-feira passada. Era a vez do povo.

A última homenagem a Jorge Sampaio, o “homem bom” que não quis ser herói. “Mas foi”

“Nunca quis ser herói, mas foi herói em tantos dos seus lances de vida heróicos, daquele heroismo discreto, mais lírico do que épico, mais doce do que impulsivo, firme mas doce. E também por isso o recordamos com doçura e lhe reconhecemos o amor que nunca negou a Portugal. Para Jorge Sampaio, Portugal nunca foi uma abstração, uma fortaleza fechada, para Jorge Sampaio, Portugal foi os milhões de portugueses, mais os milhares de milhões de nossos irmãos a sul e a norte deste mundo que é um só”, descreveu Marcelo Rebelo de Sousa nos Jerónimos. O mesmo que ao mesmo tempo que é intelectual, não teve receio de “sujar as mãos de intelectual para construir casas, ruas, cidades”, numa referência mais concreta ao trabalho de Sampaio como autarca de Lisboa e pelo plano de erradicação das barracas.

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Antes do Presidente, já António Costa tinha registado o seu “testemunho pessoal” de Sampaio, onde recordou o “homem de causas e valores praticados arduamente” de quem foi “desde muito jovem seu camarada e amigo, estagiário na advocacia, diretor da sua primeira campanha eleitoral. Com ele aprendi política e direito, concordei, discordei, conspirei e testemunhei a combinação única da exaustiva ponderação com a capacidade da decisão fulgurante”.

Também apontou a “revista de imprensa” que nos últimos dias lembrou como Sampaio teve um papel importante para abrir um caminho que, em 2015, deu jeito ao líder socialista. Falou daquela “coragem da sua candidatura” à Câmara de Lisboa, nas eleições de 1989, e ainda da “ousadia pioneira numa aliança política que se tornou vitoriosa”, na referência ao acordo pré-eleitoral com PS/PCP nas autárquicas de 1989.

Uma questão de confiança. Como Sampaio esteve na origem das alianças que uniram PS e PCP

Também citou o “não há portugueses dispensáveis”, que foi usado por Sampaio no discurso de posse como Presidente da República, em 1996, para dizer que o país também “não pode dispensar Jorge Sampaio”. A cerimónia tinha ficado marcada, até aí, pelo emotivo momento em que um conjunto de crianças da Escola de Portuguesa em Díli tinha cantado o “Ai Timor”, dos Trovante, numa mensagem gravada em vídeo para aquela ocasião. Na mesma gravação ouviu-se também Ramos Horta a recordar “o amigo de Timor” que deixou um legado de peso, naquele caso particular, com a intervenção na libertação do povo timorense.

Já Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, descreveu a “dor” que sente “pelo amigo de longa data” perdido, uma amizade retomada depois de um desaguisado político em 2004, quando era Ferro líder do PS e Sampaio nomeou Santana Lopes primeiro-ministro, em vez de convocar — como algum PS pedia — eleições antecipadas.

No mesmo palco onde discursaram políticos, passou também a atriz Maria do Céu Guerra, convidada para ler o poema “Uma pequenina Luz”, de Jorge de Sena, em honra do antigo Presidente. Marcelo havia de aproveitar a deixa para marcar “o grande senhor no seu e nosso mundo, uma pequenina mas enorme luz bruxuleante que deu e dá vida a Portugal, que deu vida e dá vida ao mundo”.

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No auditório, no claustro, a cerimónia foi seguida, em pessoa, pelo Rei de Espanha, Filipe VI, pelos primeiro-ministros de Cabo Verde e de São Tomé, representantes dos governos de Guiné Bissau, Moçambique, Angola, Luxemburgo, o vice presidente do Parlamento Europeu e também do secretário-geral da ONU, António Guterres — que em 1992 disputou a liderança a Sampaio, numa guerra fratricida no PS de que acabou vencedor.

Estiveram também, noutra ala e atrás da família e das três principais figuras de Estado, vários membros do Governo, deputados socialistas, conselheiros de Estado e representantes dos partidos com assento parlamentar. Uma reunião rara e onde estava também o antigo primeiro-ministro José Sócrates, Pedro Passos Coelho (que tiveram um cumprimento breve e distante), Cavaco Silva, Ramalho Eanes.

O friso de altas individualidade foi ficando para trás no funil desta cerimónia de Estado que terminou, no Alto de São João, já apenas com os três principais representantes do Estado português e os familiares e amigos mais próximos de Sampaio. E com a passagem da urna da guarda de honra, cumprida por militares dos três ramos das Forças Armadas, para os ombros do filho André e dos membros do corpo de segurança pessoal do antigo Presidente. Foram eles que deixaram Sampaio no jazigo de família. Por fim.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

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