De "Gabriela" e "Tieta" ao Brasil sem lei: a glória, os dramas e a política de Jorge Amado /premium

Está publicada em Portugal a biografia do escritor brasileiro. Os livros, as novelas, as paixões, o comunismo e Portugal, Joselia Aguiar escreve sobre tudo. Entrevistámos a autora.

Joselia Aguiar confessa que em tempos tentou “de algum modo superar” Jorge Amado. Já tinha lido Terras sem Fim e “como iria contar aos colegas que um romance sobre luta de terras no sul da Bahia tinha se tornado um dos meus preferidos”, diz. Mas era jornalista em São Paulo, frequentava o círculo intelectual da cidade e Amado era o autor regionalista transformado em fonte santa para autores de telenovelas. Joselia era seguidora de Clarice Lispector, “intimista e experimental”, gostar de Jorge Amado não fazia sentido (ela que haveria de ser também curadora da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, um dos eventos mais importantes do mundo literário. Muitos anos depois é ela que assina a extensa biografia do escritor baiano que agora está publicada em Portugal pela Dom Quixote. Escrever esta biografia não decisão dela, mas Joselia Aguiar não podia estar mais agradecida pela sugestão do seu editor.

Precisou de sete anos para concluir o livro, sete anos de pesquisa, entrevistas e muita documentação a que teve acesso privilegiado. Esta é a história de como surgiram clássicos como Capitães da Areia, Gabriela Cravo e Canela ou Tieta do Agreste, assinados pelo homem que nasceu em 1912 e morreu em agosto de 2001. Mas é, sobretudo, a novela verdadeira de um dos mais importantes escritores brasileiros, dos seus amores e desencantos, da sua vida política e dedicação à causa comunista que o transformou em exilado, da sua relação com o Brasil, a família, os amigos — “sempre muitos amigos” — e um meio literário que muitas vezes o criticou e fez questão de o colocar num patamar de inferioridade criativa: “Acho que em Portugal não se tem a dimensão de certa reação pesada da crítica nas últimas décadas de vida do autor”, conta Joselia Aguiar nesta entrevista.

“Jorge Amado, uma biografia”, de Joselia Aguiar (Dom Quixote)

Ainda antes de começar a trabalhar nesta biografia, qual era a sua ligação com Jorge Amado?
Meu pai era leitor de Jorge Amado. Das minhas lembranças de infância mais felizes e antigas, tenho a do dia em que o vi com o volume Os velhos marinheiros nas mãos e a se divertir com o que lia. Ainda adolescente, na escola, tive uma professora de língua portuguesa que também gostava muito do autor e nos pediu que lêssemos em curto tempo, primeiro, Mar morto, depois, Os pastores da noite, como exercício e material de provas. Nas férias, por conta própria, procurei Terras do sem fim e Seara vermelha.

Terras do sem fim foi tão intenso para mim, que não conseguia interromper. E logo eu, leitora de Clarice Lispector — intimista e experimental. Como iria contar aos colegas que um romance sobre luta de terras no sul da Bahia tinha se tornado agora um dos meus preferidos? Passei o restante da juventude sem contacto com sua obra, pelo contrário. Era uma fase em que universitários como eu, na Bahia, tentavam de algum modo superar Jorge Amado. Quando já morava em São Paulo, e já jornalista de um grande jornal, peguei o Tenda dos milagres. A essa altura eu era já uma leitora mais experiente e admirei-me. De facto, ele é muito melhor do que queriam dizer dele na época. Acho que em Portugal não se tem a dimensão de certa reação pesada da crítica nas últimas décadas de vida do autor. Era um momento yuppie da vida intelectual do país, e as palavras “regionalismo” e “regionalista” eram usadas de modo muito pejorativo.

E como surgiu a hipótese de escrever esta biografia?
A biografia não foi uma decisão minha. Surgiu da encomenda de um editor, a quem agradeço no livro — Alcino Leite Neto. O projeto nasceu em 2011 e inicialmente seria menos ambicioso. A ideia era que eu produzisse um perfil mais breve, nada que me tomasse mais do que dois anos. Mas desde o começo vi que, se fosse desse jeito, não resolveria muitas das questões que pareciam pouco explicadas ou mesmo erróneas.

Precisou de sete anos para fazer o livro. O que foi mais difícil, mais exigente, a pesquisa? A recolha da informação? Os contactos?
Recolher informação e, depois, depurar o que encontrava. Certas fases possuíam fontes em abundância, de outras fui encontrando pistas a muito custo. O mais difícil é que sua vida foi repleta de acontecimentos, reviravoltas, amizades e leitores de dimensão transoceânica. Há biografados com vida um pouco mais pacata, ou trivial. Não foi o caso de Jorge Amado.

"Cultivava os amigos, vivia cercado deles, levava-os até mesmo nas viagens. Adorava viajar. Tinha uma informalidade que, mesmo entre brasileiros, era peculiar. Detestava pessoas pedantes e fez o possível para fazer graça delas nos livros. Era absolutamente apaixonado pelo que fazia, viveu a literatura todo o tempo."

A família de Jorge Amado colaborou? Foi fácil ter acesso ao lado mais íntimo dele?
Acho que é o tipo de projeto que só dá resultados no longo prazo. Não poderia ter todas as respostas nos primeiros encontros, e creio que a seriedade da pesquisa fez com que, com o tempo, eu pudesse conseguir materiais inéditos muito preciosos – acesso a inéditos, a cartas, ao diário de Lila [Eulália Dalila Amado, primeira filha de Jorge Amado, que morreu em 1949, com 14 anos]. Não tive a colaboração da família da primeira mulher, Matilde Garcia Rosa. Os familiares que procurei não quiseram me receber para entrevista, o que nos colocou na situação delicada, na edição final, de não saber se poderíamos publicar fotos de Matilde e ele. Tenho muitas, e gostaria muito de ter feito isso. Mas preferi respeitar a posição deles e preservar o quanto pude certos detalhes da intimidade dessa primeira mulher do Jorge Amado.

A Joselia chegou a conhecê-lo e a entrevistá-lo. Como era ele?
Tive um encontro com Jorge Amado quando era repórter iniciante da área de cultura, na Bahia. Parecia impaciente com a entrevista, mal-humorado mesmo. Depois, quando desliguei o gravador, virou outra pessoa. Menos agoniado, me deixou no sofá da sala e foi buscar um livro para me dar de presente, Bahia de todos os santos — guia de ruas e mistérios. Não foi algo que fez especialmente para mim. Ele sempre dava seus livros de presente, sempre. Os filhos contam que, nas viagens, anotava o endereço de pessoas que o atendiam, garçons, camareiras, para depois enviar exemplares da Bahia. Um amigo da Bahia conta que, certa vez, o convidou para jantar, ao final Jorge Amado foi até à cozinha cumprimentar a cozinheira desse amigo, e chegou mesmo a pedir o endereço dela para enviar o livro.

De início, com quem não conhecia, parecia um homem muito sério. Só se abria quando havia intimidade, e então os amigos contam várias anedotas e trotes. Cultivava os amigos, vivia cercado deles, levava-os até mesmo nas viagens. Adorava viajar. Tinha uma informalidade que, mesmo entre brasileiros, era peculiar (considerando que os brasileiros são mais informais que os portugueses). Isto porque detestava pessoas pedantes e fez o possível para fazer graça delas nos livros. Sobretudo: era absolutamente apaixonado pelo que fazia, viveu a literatura todo o tempo.

Um detalhe interessante, ainda sobre meu encontro com ele. No final, mandou que Zélia me oferecesse sorvete. Veio uma taça imensa de sorvete de manga. Jorge Amado adorava dar ordens e dar de comer às  pessoas.

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Precisamente sobre Zélia Gattai, com quem teve dois filhos, João e Paloma: de que maneira ela foi fundamental na história de Jorge Amado?
Foi de tal maneira que considero o encontro com Zélia um dos três momentos decisivos da vida dele. Zélia o adorava! E passado um século de convivência, a atitude amorosa de Zélia era a mesma, sempre de admiração e respeito. Muito se faz piada sobre a infidelidade de Jorge Amado, mas a história que construíram como casal foi muito particular e decisiva para a estabilidade dele, o que contribuiu não só para sua vida pessoal, como para sua vida literária. Em cada página da biografia há muitos elementos para se compreender como essa parceria o fortalecia emocional e profissionalmente. Os livros de Zélia, como registo da memória do Jorge, são tão importantes quanto os livros de memória dele. Temos de pensar que foram publicados praticamente todos enquanto ele vivia, e mesmo que ele não tivesse contribuído para sua escrita, afiançava o que ali estivesse sido escrito. São memórias compartilhadas. Talvez poucos casais conseguem ter uma vida tão associada, tão conjunta quanto a que tiveram em vida. Não há dúvida de que existe um “antes” e um “depois”. Era uma companhia suave porém de muita fibra; sempre amorosa e incentivadora de tudo o que ele fazia.

Que outros momentos foram decisivos?
Quando escrevia Capitães de Areia, estava muito chateado com a vida literária e pensou até em desistir. Mas por pouco tempo. Nas cartas que envia ao seu editor na época, José Olympio, nota-se que, conforme avança no livro, aquilo o toma, e já se empolga, e diz que aquele será “seu maior livro”, aquele que vai “abalar a sensibilidade do país”. O livro sai  em 1937, e é recolhido apenas um mês depois de chegar às livrarias, pois tem início o Estado Novo – no Brasil, a ditadura de Getúlio Vargas. A situação de Jorge Amado nessa época passa a ser bastante delicada. Tem dificuldade de publicar livros e de colaborar na imprensa. Mas segue no ofício. Acho que é um momento decisivo, de provação, que o leva a um exílio entre Argentina e Uruguai, e de superação de certos limites. É quando faz a biografia do Luís Carlos Prestes, líder comunista que estava preso, livro que lhe dá uma nova dimensão dentro do partido. E o romance seguinte é o grande Terras do sem fim.

Outro momento decisivo é o de escrita e lançamento de Gabriela Cravo e Canela. De certo modo, Subterrâneos da liberdade, de 1954, significou uma perda para ele como escritor. Anos depois, ele mesmo avaliava o livro como sectário, palavra dele. Podia ter de certo modo estagnado ali, e no entanto, quatro anos depois, lança um grande best-seller mundial, que abre seu caminho nos EUA e em Portugal – dois lugares onde não era aceite por ser comunista –, e mantém o seu caminho nos países da Cortina de Ferro. A sua literatura se impôs, de tal modo que é praticamente como se começasse uma nova vida. Depois foram muitos mais sucessos comerciais, com adaptações para TV e cinema.

"Nunca foi unânime. Aliás, como ele mesmo dizia, a unanimidade era impossível no caso dele. No entanto, muitos dos julgamentos que pareciam literários eram políticos. Do ponto de vista técnico, há uma questão curiosa: o Jorge Amado maduro é muito melhor que o Jorge Amado jovem."

As adaptações televisivas, as séries e as novelas, são um bom reflexo da escrita de Jorge Amado? Ou seja, quem não leu Tieta ou Gabriela, se apenas tiver visto as novelas vai ficar com uma boa ideia daquilo que era o universo de Jorge Amado?
Não são exatamente um bom reflexo, e ele sabia disto. Sabia que, uma vez cedida a obra, aquilo que seria feito era trabalho de outra pessoa a partir de elementos dados por ele, ou seja, a história, as personagens saíam de obras dele, mas o resultado final não era obra dele. Claro que as adaptações ajudavam a divulgar seus livros, mas criam uma situação peculiar. Muita gente acha que conhece bem a obra de Jorge Amado e nunca leu livro algum. Ainda temos o problema delicadíssimo de, muitas vezes, termos adaptações que contribuem para certa exotização. E veja que esse não era o caminho que ele queria seguir. Aliás, ele comentava sobre filmes que tinham ido por um caminho pitoresco, palavra dele. Não interessava a ele ser pitoresco.

O que é que Jorge Amado trouxe à literatura? Onde e em quem é que ele se inspirou e de que forma é que fez algo novo?
Jorge Amado dizia que, certa vez, para falar mal de sua obra, um crítico o denominou “autor de putas e vagabundos”. Amado contava que a definição era perfeita e o deixava imensamente orgulhoso. Um dado interessante é que, durante a pesquisa, tentei descobrir que crítico foi esse, e não há pista até agora. Pode ter sido alguém de menor importância que não deixou registo.

Mas o facto é que, literariamente, Jorge Amado construiu um edifício ficcional bastante próprio, encontrando na Bahia, de maioria negra e mestiça, o microcosmo ideal. Fez ao mesmo tempo humor, denúncia social e elogio a um modo de humanidade afro-brasileira. Foi o primeiro brasileiro do século XX a reiteradamente contar histórias dessa população negra e mestiça — houve antes dele autores que tiveram personagens negros (Lima Barreto, por exemplo), mas Amado percorreu todo o século XX a escrever romances em que essa cultura baiana dava o mote e o tom. Tinha preferência por personagens menores, o então chamado lumpen-proletariado; daí decorre seu orgulho por ter sido chamado de “autor de putas e vagabundos”. Por suas qualidades de romancista, fez seus livros circularem em 49 idiomas. Certas vezes considerado maniqueísta, com personagens bons e maus esquematizados nas histórias, seguia de certo modo a tradição humanista de autores que admirava, como Dickens. Novas aproximações consideram que pode se filiar à linhagem satírica de um Boccaccio. Vale dizer que, para além dos grandes nomes, Amado cultivava autores considerados menores também, como o checo Jaroslav Hašek. Do ponto de vista da linguagem, que foi depurada no decorrer dos anos, beneficiava-se da oralidade e do humor baianos, certo olhar de deboche e ternura.

Como é que Jorge Amado é visto hoje no Brasil? É visto de maneira diferente pelo público e pelos críticos, pelos intelectuais?
Nas últimas décadas da vida dele, houve uma avaliação mais rígida. Decidiu desde cedo que seria popular, e isso tem um peso quando do outro lado há particularmente um crítico mais ligado às vanguardas. Mas o que entendi durante a pesquisa é que, para se tornar quem foi, ele teve receção muito favorável desde o começo. Nunca foi unânime. Aliás, como ele mesmo dizia, a unanimidade era impossível no caso dele. No entanto, muitos dos julgamentos que pareciam literários eram políticos. Do ponto de vista técnico, há uma questão curiosa: o Jorge Amado maduro é muito melhor que o Jorge Amado jovem. Então, se você considerar os primeiros livros, ele perde um pouco. Mas se considerar apenas os livros mais bem realizados, seu valor cresce. Como é muito popular, ele está todo em catálogo, o que é algo muito raro na trajetória de um escritor. Após sua morte, com a reedição da obra no centenário e um esforço editorial para que ele fosse relido, inclusive pelos críticos, encontrei muitos novos olhares, não só no Brasil, como no exterior. É nítido o crescimento dele, hoje, nas universidades, na comparação com o que havia na década de 1990, por exemplo.

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Até que ponto as escolhas políticas de Jorge Amado influenciaram a sua obra?
Não há como dissociar a política de sua obra. Na fase de aprendiz, a opção pela esquerda faz uma reviravolta em sua literatura. Tinha lançado O país do carnaval, o de estreia, ainda sem ser um autor de esquerda. Era um livro mais à moda francesa cujo protagonista acha que o Brasil não tem jeito por causa da miscigenação. Mas daí surgem Cacau e Suor, em que está seguro do caminho que seguirá. Quer ser um escritor popular; defende uma liberalidade linguística; faz a escolha por personagens das camadas baixas, seus dramas. Após 1956, temos um escritor que trabalha muito mais o texto, mantendo a oralidade mas de modo laborioso; que não deixa de fazer as mesmas defesas de antes, no que se refere à luta pela terra, contra a discriminação e, agora, a favor da liberdade, que é mais explícita quando trata de sexualidade.

Foi sobretudo por causa da política que precisou de tantos anos para conseguir ter sucesso enquanto escritor?
Teve sucesso desde o começo, mas o facto é que o sucesso vai crescendo. Quando sai como candidato a deputado, em 1945, pelo partido comunista brasileiro, era porque o julgavam suficientemente popular. No slogan, era apresentado como “o escritor do povo”. Só que, depois de Gabriela, em 1958, seu sucesso se tornou maior, podemos dizer que é aí que pode ser considerado um best-seller internacional, superando barreiras geográficas até então impossíveis por causa de razões ideológicas.

Há um lado de intervenção política ao publicar este livro agora, dado o atual momento político e social do Brasil?
Nunca imaginei que lançaria a biografia com esse estado de coisas. Que a democracia estivesse ameaçada, que precisássemos voltar a defender o óbvio – o respeito às diferenças, o respeito à divergência. A cada dia temos no Brasil dez ou quinze notícias assustadoras, do crescimento das milícias ao cancelamento de bolsas de pesquisa, de ameaças de censura ao ataque articulado de fazendeiros na Amazónia, botando fogo deliberadamente nas árvores para comemorar vitórias que julgam garantidas para eles pelo atual governo. Achava que quando lançasse o livro haveria debate sobre Jorge Amado, que parte das controvérsias que existiram no passado viriam à tona. E no entanto noto que deram uma trégua ao meu biografado. Porque as bandeiras que levantava são muito maiores, além de muitos questionamentos que poderiam ser feitos.

"Pensou em ter uma casa em Lisboa, mas concluiu que não iria conseguir trabalhar, seria como no Rio Vermelho, seu bairro em Salvador, sempre muito frequentado de amigos. E foi assim que comprou o último apartamento, em Paris."

O que diria Jorge Amado da realidade atual do Brasil?
Ficaria arrasado, mas não surpreso. Agora que vivemos este momento tão terrível do país, como achávamos que jamais se repetiria, percebo ainda mais suas posições. Acho que Jorge Amado, sabiamente, sempre soube que o reacionarismo nos rondava. Que a qualquer momento as forças mais perigosas – autoritárias e discriminatórias – poderiam se fortalecer. Essa convicção, me parece, explica uma posição extremamente estratégica dele, de diálogo total com aqueles que preenchiam certo “check-list”. Suponho um “check-list” que funcionava assim: essa pessoa defende a reabertura política? Essa pessoa defende o candomblé? Ou seja, para além de quem era o seu interlocutor, se coincidiam no que era importante, estava valendo.

Qual diria que foi o legado mais importante que Amado deixou?
Brasileiros de todas as idades e lugares dizem que se tornaram leitores por sua causa. Isso é fascinante, porque foi exatamente o que desejou. Do ponto de vista literário e político, levantou as bandeiras da tolerância e da liberdade, esta particularmente defendida após a reavaliação política pós-1956. De algum modo se usa, no Brasil, a expressão “solar” para falar de sua obra. Discordo um pouco. Acho que a palavra é “vitalidade”. Sua obra é de grande vitalidade. Quem leu mesmo Jorge Amado sabe que não existe isso de que tudo é festa nas obras; a quantidade de drama é enorme.

O que descobriu sobre Jorge Amado que mais a surpreendeu? É uma figura muito popular mas certamente descobriu coisas que desconhecia, coisas que os leitores só vão conhecer ao ler esta biografia.
Acho que a maior surpresa foi encontrar o seu lado triste, com questões bastante doídas. É notável como ele passa a trabalhar a morte de maneira bastante lúdica nos livros após a década de 1960, quando retorna à Bahia. Creio que para elaborar internamente as mortes que começava a acumular já àquela altura.

Que mortes são essas? E como é que o afetaram?
Jorge Amado conta que sempre foi testemunha da morte desde a infância em Ilhéus, as mortes por doenças contagiosas e por lutas de terra. Mas especificamente me refiro à morte da primeira filha, Lila, aos 15 anos, em 1950, quando ele vivia no exílio na então Checoslováquia. E pouco antes da mudança do Rio para a Bahia, em 1963, morreu seu pai, o coronel João Amado de Faria. Penso que a elaboração tem a ver com uma perspetiva menos ocidental e mais africanizada, quando você chega a ter um personagem morto que “caminha” pela cidade na noite do próprio velório — Quincas –, outro morto que aparece na trama — Vadinho, de Dona Flor e seus dois maridos; e a entrada no seu universo ficcional de tantos orixás da cultura afrobaiana, convivendo com as personagens — como se vê exatamente em “O compadre de Ogum”, uma das partes de Pastores da noite.

A autora da biografia de Jorge Amado, Joselia Aguiar (foto de Silvia Constanti)

Qual o seu livro favorito de Jorge Amado e porquê?
Para escolher apenas um volume, escolho Os velhos marinheiros, que inclui duas “histórias do cais da Bahia”: A morte e a morte de Quincas Berro D’Agua e o pouco conhecido O capitão de longo curso. Por razões ligadas à minha história pessoal — ainda tenho o exemplar do meu pai –, também pelos personagens e enredo, sua defesa da imaginação e da liberdade.

Nesta biografia há um capítulo dedicado a Lisboa. Qual era a relação de Jorge Amado com a capital portuguesa?
Portugal – e os portugueses – estão presentes em muitos momentos, desde o começo. Como não lembrar do padre Cabral, o jesuíta português que adivinhou sua vocação e lhe emprestou os melhores livros da infância? Mas a certa altura decidi que precisávamos de um capítulo inteiro, chamado “Lisboa”, como centro, não apenas para marcar essa ligação de toda vida, e sim como marco de uma determinada trajetória, a de um autor que, antes proibido por uma ditadura, vai aos poucos furando o cerco. Os autores de língua portuguesa foram grandes interlocutores seus – no começo, por exemplo, Ferreira de Castro, no fim da vida, José Saramago. Assim como a África, Portugal tinha grande peso na ideia de Bahia de Jorge Amado, e ele amava esses laços. Pensou em ter uma casa em Lisboa, mas concluiu que não iria conseguir trabalhar, seria como no Rio Vermelho, seu bairro em Salvador, sempre muito frequentado de amigos. E foi assim que comprou o último apartamento, em Paris.

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