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Jens Kalaene/picture alliance via Getty Images

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De monge a magnata tecnológico: como Andy Puddicombe chegou à Netflix e aos nossos ouvidos /premium

Enquanto o mundo atravessa um ataque de pânico coletivo, a Netflix dá palco à meditação narrada por um ex-monge de Bristol que, após várias tragédias pessoais, encontrou o sucesso, a fama e Lisboa.

O arranque de 2021 fez-se, entre outras coisas, à boleia da meditação, com a Netflix a dar palco logo no primeiro dia de janeiro à arte milenar de aprender a estar no momento, aqui e agora. A primeira impressão da série “Guia Headspace para a Meditação” é a de um programa visualmente bonito, como se de uma aguarela animada se tratasse. As imagens acompanham uma voz calma e pausada que narra os oito episódios ilustrados, cada um de 20 minutos. Também num primeiro momento é difícil colar a voz que nos convence a desligar do mundo exterior ao corpo de um homem atlético de 48 anos, amante de surf e com o sotaque amigável de Bristol na ponta da língua. Mas qualquer dúvida desvanece assim que se explica que Andy Puddicombe é um ex-monge que noutra vida chegou a meditar cerca de 16 horas por dia. E depois de tantas voltas ao globo, o guru escolheu Lisboa para viver.

O trajeto incomum de Puddicombe levou-o à criação da Headspace com o cofundador Richard Pierson em 2010, numa altura em que Pierson era um executivo de publicidade londrino vítima de burnout. A necessidade de um e a vontade do outro em meter os britânicos a meditar eclodiu num projeto que hoje quase dispensa apresentações. Mas o caminho para o sucesso não foi fácil, sobretudo para Puddicombe. Uma sucessão de eventos trágicos na vida pessoal encaminharam-no para a meditação. Não foi só a rainha de Inglaterra que decretou 1992 como um annus horribilis: na véspera de Natal desse mesmo ano um condutor bêbedo atingiu um grupo de pessoas no exterior de um pub. Puddicombe estava entre elas e saiu ileso, no entanto, dois amigos acabaram por morrer. Alguns meses depois, a sua irmã perdeu a vida num acidente de bicicleta e a ex-namorada morreu durante uma cirurgia ao coração. Numa Ted Talk de 2012, o guru refere-se a “coisas muito sérias” que viraram a vida “de pernas para o ar”.

Voltar à vida normal tornou-se um exercício complicado e já por diversas vezes Puddicombe explicou como pensamentos e emoções difíceis de digerir estavam a atrapalhá-lo profundamente. “Viajei, comecei um curso de ciências do desporto, saí à noite e bebi. Todas as coisas normais. Mas nada realmente saciou a minha sede. A minha mente estava ocupada, sentia-me dominado pela emoção. E uma tarde tive um pressentimento. Não podia ignorar. Eu sabia que seria um monge”, disse à Fast Company em 2015. Mais do que uma viagem de introspeção a fazer lembrar histórias como a de “Comer, Orar e Amar”, Andy levou o desafio à letra e trocou o Reino Unido pelos Himalaias. Em 1994, no mesmo ano em que Nelson Mandela é eleito presidente, dá entrada num mosteiro e inicia uma viagem de 10 anos que o vai levar à Índia, ao Nepal, a Mianmar, à Austrália, à Escócia e até à Rússia. A meio do caminho, após cinco anos a meditar, recebe a ordenação completa como monge budista tibetano.

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“Viajei, comecei um curso de ciências do desporto, saí à noite e bebi. Todas as coisas normais. Mas nada realmente saciou a minha sede. A minha mente estava ocupada, sentia-me dominado pela emoção. E uma tarde tive um pressentimento. Não podia ignorar. Eu sabia que seria um monge.”
Andy Puddicombe em entrevista à Fast Company

A chegar ao final da década, a vontade de regressar à vida dita normal fá-lo pensar em como aproximar a meditação do comum mortal, despejá-la de ideias preconcebidas e dos excessos que no passado a tornaram inacessível. “E se a meditação fosse despojada dessas coisas todas sem perder a autenticidade? E se fosse apresentada de forma a que as pessoas pudessem controlá-la? Acho que foi aí que vi o potencial”, comentou nessa entrevista. O regresso à metrópole londrina aconteceu em 2004, no mesmo ano em que Portugal foi vice-campeão europeu de futebol, depois das muitas bandeiras e bandeirinhas à janela. A escolha que Puddicombe fez nessa altura não foi óbvia, optando por um curso de artes circenses (chegou a trabalhar, por pouco tempo, como artista no Circo de Moscovo). Só dois anos mais tarde integra a clínica privada, um período que o faz interrogar-se ainda mais sobre como modernizar uma prática secular com mais de 3 mil anos de existência.

Andy Puddicombe e Richard Pierson, fundadores da Headspace

Jonathan Wong/South China Morning Post via Getty Images

Os milhões de Andy e os famosos que investem nele

A importância de não fazermos nada e de tirarmos tempo para cuidar da mente são ideias basilares da meditação apresentadas na Ted Talk que Puddicombe deu em 2012 — numa altura em que o mundo atravessa uma pandemia ainda sem fim à vista, a mensagem com oito anos permanece mais atual do que nunca. Traduzida para 40 línguas e vista mais de 12 milhões de vezes, nesta talk o guru comenta como já então andávamos tão distraídos ao ponto de não estarmos presentes no mundo em que vivemos. A conversa acontece no registo informal que lhe é característico, com o orador a servir-se de três bolas para ilustrar cadeias de pensamentos e com malabarismos que piscam o olho à experiência circense. É neste ambiente que conta que a primeira aula de meditação aconteceu tinha ele 11 anos e estava apenas a acompanhar a mãe. A experiência, marcada por “todos os estereótipos que possamos imaginar”, incluindo pernas cruzadas e incensos intensos, fê-lo pensar na meditação como “uma aspirina para a mente”, mas a verdadeira descoberta viria com o tempo e com a experiência: a sua prática é preventiva.

“A meditação serve para que fiquemos mais mindfulness, mais presentes. A maior parte das pessoas assume que meditação é parar os pensamentos, controlar a mente de alguma forma. É mais sobre dar um passo atrás e ver o pensamento com clareza (…) Assistir à chegada e partida de emoções sem julgar, mas com a mente relaxada e concentrada.” 
Andy Puddicombe na Ted Talk de 2012

“Acho que o momento presente é muito menosprezado. Parece tão vulgar e, no entanto, passamos tão pouco tempo nele que é tudo menos ordinário. (…) A meditação serve para que fiquemos mais mindfulness, mais presentes. A maior parte das pessoas assume que meditação é parar os pensamentos, controlar a mente de alguma forma. É mais sobre dar um passo atrás e ver o pensamento com clareza (…) Assistir à chegada e partida de emoções sem julgar, mas com a mente relaxada e concentrada.” As palavras ditas em 2012 continuam a ter validade, tanto que passaram da conhecida aplicação para um serviço de streaming altamente capacitado para distrair-nos.

Para o projeto chegar a esta ceifeira de atenção plena foi preciso andar muito e que um esgotado Pierson pedisse ajuda àquele que seria o seu parceiro de negócios. Foi Andy Puddicombe quem ensinou o colega stressado a meditar, este que já várias vezes admitiu que os resultados tiveram um efeito profundo e imediato na sua vida.

Quando o duo cria a Headspace em 2010 fá-lo ainda longe de pensar que a tecnologia será o veículo de eleição para que a meditação chegue às massas do mundo ocidental. Durante os primeiros dois anos o foco inicial incide nos eventos corporativos. Porém, os pedidos de participantes, que com frequência solicitavam meditação em formato take-away, fazem com que algumas lições sejam acomodadas em CD, o que culmina, em 2012, com a primeira versão da app.

Em setembro de 2019, a BBC dava conta de mais de 54 milhões de downloads da Headspace em todo o mundo e receitas anuais estimadas em mais de 100 milhões de dólares (cerca de 82 milhões de euros). Com a pandemia as subscrições duplicaram, segundo resultados citados pela Forbes que dizem respeito aos primeiros sete meses marcados pela propagação da Covid-19. É, aliás, este meio que explica que a indústria da meditação está entre as poucas sortudas que beneficiaram dos acontecimentos inesperados do ano passado. Uma pesquisa da Data Bridge Market previa que as apps e os serviços de meditação atingissem pelo menos 2 mil milhões de dólares até ao final de 2020, um aumento de 11% face a 2019. Segundo outro relatório, de maio último e da empresa Sensor Tower, as 10 maiores apps de saúde mental na língua inglesa reportaram um total de 2 milhões de downloads a mais em abril de 2020 do que em janeiro do mesmo ano — e a app com mais downloads foi a Calm, a grande rival da Headspace.

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Outro detalhe interessante é o facto dos pedidos terem também aumentado após a eleição de Donald Trump enquanto presidente dos EUA, no final de 2016. O The New York Times escreve que a Headspace registou “um salto de 44% na meditação ‘SOS’ da aplicação, uma espécie de botão de pânico para os esgotados”.

Mas antes da pandemia já os serviços da Headspace eram requisitados, inclusivamente por celebridades, uma realidade que terá sido facilitada quando em 2013 os fundadores do projeto trocaram Londres — cidade marcada por “um dos mercados mais cínicos no mundo” — por Los Angeles, nos EUA. Isso e a vontade de ter uma vida familiar passada mais no exterior, bem como o gosto de ambos pelo surf, foi determinante na decisão. Duas semanas após a mudança, Puddicombe foi diagnosticado com cancro do testículo. Enquanto recuperava, a empresa repensava a própria dependência no seu fundador — curiosamente, desde o dia 1 de janeiro que CeCe Morken é a nova CEO da empresa, enquanto Richard Pierson e Andy Puddicombe ocupam novas funções como copresidentes executivos do conselho administrativo.

Voltando ao reino das celebridades, o furor foi tanto que entre os famosos há fãs — incluindo Bill Gates e a própria imperatriz do bem-estar Gwyneth Paltrow — e investidores, como é o caso de Jared Leto, Jessica Alba ou Ryan Seacrest. Com o tempo, Puddicome tornou-se numa pequena celebridade em Los Angeles e em 2017 fez história na televisão quando orientou uma curta sessão de meditação no The Tonight Show com Jimmy Fallon. Durante cerca de dois minutos, o guru meteu dezenas — senão centenas — de pessoas a meditar a partir dos seus lugares, guiadas apenas pelo som do seu sotaque britânico. A reação, finda a sessão, foi calorosa, sobretudo aquela vinda do próprio Jimmy Fallon. A somar a isso há parcerias bem sucedidas com a Virgin Atlantic, que em 2011 dedicou um canal a bordo só para a Headspace, e com a Selfridges no ano a seguir, com a loja na Oxford Street, em Londres, a apostar numa variedade de exercícios mindfulness no interior.

Em 1994, Andy Puddicombe deixou tudo para trás para meditar nos Himalaias. O ex-monge criou a Headspace em 2010

Getty Images

App, podcast e Netflix: ” A essência não muda, muda apenas o meio e a escala”

Andy Puddicombe tem sido ao longo do tempo comparado com Jamie Oliver: ele estará para a meditação como Oliver está para a comida, não fosse este o narrador dos conteúdos da Headspace — na app, nos podcasts e na série que desde o início do ano está disponível na Netflix. O guru tornou a meditação mais acessível e a sua voz é agora uma janela aberta para o mindfulness.

Apesar de esta ser uma altura em que, como escreve o The Telegraph, o mundo está a ter um ataque de pânico coletivo, não deixa de ser irónico que uma ferramenta útil como esta seja disponibilizada por aquela que é, muito provavelmente, a grande ladra da nossa atenção. “Para mim é apenas um meio. Houve um tempo em que para experimentar meditar tínhamos de procurar um professor, um mosteiro. Depois vieram os grupos, as cassetes, os MP3… a essência da prática não muda em nada, apenas o meio e a escala”, explicou ao jornal.

"Não é suposto isto substituir medicação. (...) Se a meditação e a atenção plena podem animar alguém, é realmente necessário um estudo revisto por pares?"
Richard Pierson ao The New York Times

Mas antes de chegar ao popular serviço de streaming, já a Headspace enfrentava críticas. Num artigo de 2016 do The New York Times, por exemplo, Zindel Segal, então professor de psicologia na Universidade de Toronto e associado à “Mindfulness Based Cognitive Therapy”, tratamento para a depressão à base de meditação, argumentava que não havia investigação que validasse os argumentos da Headspace nesta área e lançava críticas ao modelo de negócio, o qual obriga ao aumento constante da base de utilizadores. Atualmente, a app reúne milhões de utilizadores em mais de 190 países — à Forbes, a Headspace garantiu que estava no caminho certo para chegar, até ao final de 2020, com 3 milhões de assinantes mensais (a pagar).

Em resposta, Richard Pierson defendeu que a ciência é algo que a equipa leva a sério, com a empresa a ter, na altura, dezenas de estudos em curso e a empregar cientistas dedicados a perceber os benefícios da meditação. Pierson fez ainda notar que a app aconselha os utilizadores a procurar ajuda profissional em casos de depressão profunda. “Não é suposto isto substituir medicação.” No entanto, não deixou de exclamar: “Se a meditação e a atenção plena podem animar alguém, é realmente necessário um estudo revisto por pares?”.

É importante referir que há vários benefícios associados à meditação: o próprio The Guardian lembra isso na análise que faz à série da Netflix, onde salienta que a combinação de 10 minutos de teoria com 10 minutos de prática por episódio, juntamente com a animação alegre, torna a meditação menos assustadora. “Antes que se aperceba, já fez 80 minutos de meditação. E isso é bom”, lê-se. A série “Guia Headspace para a Meditação” — com episódios temáticos, dedicados ao stress, à dor ou à raiva, mas também à gratidão —, é a primeira de três produzidas em colaboração com a empresa de meditação e a Vox Media Studios, sendo que a próxima terá enfoque no sono.

O Observador tentou chegar à fala com Andy Puddicombe, mas sem sucesso. Curiosamente, segundo o britânico The Telegraph, o ex-monge budista de Bristol mudou-se com a mulher Lucinda e o filho Harley para a capital portuguesa por altura da passagem de ano para cuidar de um dos pais do casal que adoeceu em 2020. Por perguntar ao guru ficaram perguntas como estas: “Tem meditado mais desde que a pandemia começou? Quem medita tem mais ferramentas para lidar com a situação atual? As subscrições da Headspace continuam a aumentar com o avanço da pandemia? Depois da presença na Netflix, como procuram diversificar ainda mais o vosso serviço?”.

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