De onde vêm os nomes do que comemos? Parte 3: maçãs de algodão e sicofantas /premium

22 Junho 2019

Se os frutos de que nos alimentamos fizeram um longo e retorcido percurso até serem o que hoje são, os nomes que lhes damos também têm histórias curiosas. Esta é a terceira de uma série de 5 partes.

[Esta é a terceira de cinco partes numa série sobre a origem dos nomes das frutas. Pode ler a primeira parte aqui e a segunda aqui]

Morango

O morango é o fruto da Fragaria x ananassa, um híbrido criado na Bretanha por volta de 1750, cruzando a Fragaria virginiana, da América do Norte, com a Fragaria chiloensis, do Chile. Os povos da Europa e das Américas há muito que consumiam os frutos das espécies locais de Fragaria – na Europa era popular a F. vesca, ou morango-silvestre – mas quase todos eles apresentavam o inconveniente de serem minúsculos.

F. vesca, o morango-silvestre europeu

Era o caso da Fragaria virginiana, bem conhecida dos índios norte-americanos, mas o aroma intenso e agradável terá pesado na decisão de os transplantar para a Europa. Mais ou menos pela mesma altura, o explorador, engenheiro militar e arquitecto francês Amédée-François Frézier (1682-1773) foi enviado numa expedição à América do Sul para avaliar os portos e fortificações espanholas na região (a França ainda alimentava esperança de colonizar esta parte da América). Nesta missão, Frézier descobriu, no Chile, a Fragaria chiloensis, cultivada pelos índios Mapuche e Huilliche, cujos frutos, esbranquiçados e menos aromáticos e saborosos do que os do morangueiro-silvestre europeu, “eram usualmente grandes como uma noz, por vezes, do tamanho de um ovo de galinha” – assim os descreveu Frézier numa carta ao botânico Antoine Nicolas Duchesne.

Fragaria chiloensis, num desenho de Amédée-François Frézier

Frézier trouxe para França cinco exemplares de “morangueiros brancos do Chile”, que Duchesne cruzou com a Fragaria virginiana, obtendo o melhor de dois mundos: frutos de cor, aroma e sabor intensos e grandes dimensões. Vale a pena mencionar que Frézier parecia predestinado ao papel que desempenhou: o nome da sua família era Berry, mas quando um dos seus antepassados serviu um prato de morangos-silvestres a Carlos II de França, o rei concedeu-lhe um título de nobreza e mudou-lhe o nome para “fraise”, a palavra francesa para morango. O nome de família converteu-se em Frazer quando esta se mudou para Inglaterra e passou a Frézier quando regressou a França.

Amédée-François Frézier

“Fraise” provém do latim “fraga”, plural de “fragum” (morango), tal como a designação espanhola “fresa” e a italiana “fragola”. O português desalinha-se dos seus primos, com “morango” a provir possivelmente do latim “moru” (“amora”). Na maior parte das línguas germânicas o morango é a “baga da terra”, provavelmente devido ao porte rasteiro da planta: “erdbeere” em alemão, “aardbei” em holandês, “jordbær” em dinamarquês e norueguês. A origem do inglês “strawberry” é enigmática, pois se “berry” é “baga”, a componente “straw” é alvo de muita polémica – a hipótese mais linear, de que significa simplesmente “palha”, por, nos climas frios, ser usual cobrir as plantações de morangos com este material durante o Inverno, não tem muitos adeptos.

Cereja

Cereja é o nome dado ao fruto de várias cultivares de Prunus avium (mais doce) e Prunus cerasus (mais azeda). O nome provém do baixo latim “ceresia”, a partir do latim “cerasum” e do grego “kerasós”, respeitante à região de Kerasous, na costa do Mar Negro – que era então uma colónia grega e é hoje Giresun, na Turquia – onde a árvore seria cultivada.

Giresun, Turquia

A primeira referência que se conhece à cerejeira é do historiador grego Heródoto, no século V a.C., que lhe chama “a árvore do Ponto” (Ponto era o nome dado pelos gregos à parte da Anatólia junto ao Mar Negro), embora seja possível que a referência de Heródoto diga respeito a uma espécie aparentada, a Prunus padus. Terá sido o general romano Lúcio Licínio Lúculo a trazer a cerejeira para a Europa, após uma campanha contra Mitridate VI Eupator, rei do Ponto.

Colheita da cereja no Tacuinum sanitatis, um manual sobre saúde que teve grande difusão na Europa Ocidental nos séculos XIII e XIV e que se baseava no Taqwim al-Sihha (Tratado de saúde), redigido em 1050 pelo médico iraquiano Ibn Bûtlan

Ao fim de todos estes séculos, a Turquia continua hoje a ser o maior produtor mundial de cereja, seguida pelos EUA, Rússia e Irão.

Na maior parte da línguas europeias, o nome para cereja tem a mesma raiz latina: “cereza” (espanhol), “cirera” (catalão), “ciliegia” (italiano), “cérise” (francês), “cherry” (inglês), “kers” (holandês), “kirsch” (alemão), “kirsebaer” (dinamarquês), “körsebär” (sueco), “kirsuber” (islandês), “kirsikka” (finlandês), “qershia” (albanês), “čerešna” (eslovaco), “kirši” (letão), “czereśnie” (polaco). Na Turquia, que foi onde tudo isto começou, é “kirazgiller”.

Natureza-morta com cerejas e pêssegos, por Paul Cézanne, c.1885-87

As cerejeiras do Japão, cujas floração exuberante tem um papel tão central na cultura nipónica, pertencem a outras espécies do género Prunus, em especial a P. serrulata, a que os japoneses chamam “sakura” (designação que tanto respeita à árvores como às suas flores). Os frutos da Prunus serrulata são pequenos e não-comestíveis, pelo que é cultivada para fins ornamentais. Assim, apesar da profusão de cerejeiras, o Japão é apenas o 24.º produtor mundial do fruto, logo atrás de Portugal.

“O Monte Fuji entrevisto através de flores de cerejeira”, por Katsushika Hokusai (1760-1849)

Damasco

Na Arménia encontraram-se vestígios do cultivo do damasqueiro (Prunus armeniaca) que remontam a 4000-5000 a.C. e o país alcandorou-o ao estatuto de “árvore nacional” (pretensão que encontra respaldo no seu nome científico). Porém, há botânicos que defendem que a planta será, como o seu primo pêssego (Prunus persica), originária da China.

Nalgumas línguas da Europa Ocidental, o nome do fruto tem origem no latim “praecoquus”, que significa “precoce” – um qualificativo que se aplica, possivelmente, à época de amadurecimento do fruto. “Praecoquus” deu origem ao grego bizantino “praikókion”, que os árabes do Norte de África assimilaram como “barkuk” (também grafado “barquq”). Na Península Ibérica sob domínio árabe, a palavra, precedida pelo inevitável artigo definido “al”, deu origem ao português “albricoque” e ao espanhol “albaricoque”.

Natureza-morta com damascos, por Louise Moillon, 1634

Da Península Ibérica, o nome migrou para norte, tornando-se em “aubercot” em terras francesas, forma que evoluiu para “abricot” e atravessou o canal da Mancha, convertendo-se em “apricot” nas Ilhas Britânicas. Entretanto, a designação de raiz latina completou o seu périplo mediterrânico regressando a Itália sob a forma de “albicocca”. É uma palavra onde é difícil de reconhecer o “praecoquus” de partida, o que deverá servir de advertência contra “etimologias populares” baseadas apenas em semelhanças fonéticas: é indispensável conhecer o caminho que as palavras fazem.

Natureza-morta com damascos, por Luis Egidio Meléndez, 1773

Para realçar que as palavras não são meras convenções e que o controlo da linguagem é também o controlo do pensamento, vale a pena mencionar que Al-Malik Barquq (c.1336-1399), o primeiro sultão mameluco da dinastia Burji (que governou o Egipto entre 1382 e 1517), quando ascendeu ao poder interditou que os vendedores de fruta do Cairo apregoassem os frutos da Prunus armeniaca com o nome “barquq”.

Natureza-morta com damascos e ameixas, por Jacob van Hulsdonck (1582-1647)

Em português e espanhol, o fruto da Prunus armeniaca tem duas outras designações além de albricoque/albaricoque: uma é “damasco” (idêntico em português e espanhol), que o associa à cidade síria, ou por esta ser, desde a Antiguidade Clássica, um ponto-charneira do ponto de vista comercial e cultural, funcionando como porta de entrada no mundo mediterrânico das novidades e riquezas vindas do Oriente, ou por confusão com a “prunus damascena”, nome dado pelos romanos a uma variedade de ameixa (Prunus domestica) originária de Damasco.

Damasco, início do século XVI: o governador mameluco da cidade (presumivelmente Sîbay) concede audiência aos embaixadores venezianos (chefiados, presumivelmente, por Nicolò Malapiero); quadro de um discípulo de Gentile Bellini, 1512

A outra designação ibérica do fruto da Prunus armeniaca é o par “alperce” (português”) e “albérchigo” (espanhol), que resulta de uma confusão com o seu primo pêssego (Prunus persica), pois os romanos, que o introduziram na Europa a partir da Pérsia, julgavam que ele era originário desta região, pelo que lhe chamavam “malum persicum” (maçã persa).

Os maiores produtores mundiais de damasco são hoje a Turquia, o Uzbequistão, a Itália, a Argélia e o Irão; a Arménia é o 13.º país do ranking, posição modesta para quem fez do damasqueiro a árvore nacional.

Pêssego

Apesar de o seu nome científico remeter para a Pérsia, o pessegueiro (Prunus persica) é cultivado na China desde o Neolítico e foram encontrados vestígios fósseis de uma árvore muito semelhante na região de Kunming com 2.6 milhões de anos. Da China, o pessegueiro difundiu-se para o Japão, c.4700-4400 a.C., para a Índia, c.1700 a.C., e para a Pérsia, que serviu de plataforma para a introdução na Grécia, no século IV a.C. (algumas descobertas arqueológicas sugerem o século VII a.C.).

Natureza morta com pêssegos, por Adriaen Coorte, c.1693-95

No século I a.C. chegou a Roma, onde foi denominado de “malum persicum” (maçã persa), o que viria a dar origem às designações “pesca” (italiano), “pêche” (francês), “peach” (inglês), “pfirsich” (alemão), “perzik” (holandês), “persika” (sueco), “fersken” (dinamarquês e norueguês), “ferskja” (islandês), e, claro, a “pêssego”. Os espanhóis são excepção na Europa Ocidental, ao chamar-lhe “melocotón”, que provém de outro nome dado ao fruto pelos romanos: “malus cotonus”, ou seja “maçã de algodão”, numa referência à penugem que o recobre.

Natureza morta com pêssegos, por Jean-Siméon Chardin, c.1759-60

Esta penugem constitui para alguns humanos um entrave ao seu consumo – o botânico americano Luther Burbank (1849-1926) proclamava que “muitos de nós estão tão dispostos a dar uma dentada num cacto espinhoso como num pêssego penugento” – , pelo que, na década de 1930, surgiu nos EUA uma máquina de “barbear” pêssegos. Esta solução nunca se implantou e os partidários da depilação integral acabaram por ser salvos pela difusão da nectarina, que, ao contrário do que por vezes se diz, não resulta de uma hibridação recente do pêssego com a ameixa promovida pela agro-indústria: é uma variedade de pêssego – nucipersica – que já era cultivada na China, Pérsia e Grécia há muitos séculos. A designação desta variedade como “nectarine” terá surgido na Grã-Bretanha no início do século XVII e acabou por ser adoptado pelas outras línguas.

Nectarina

A nectarina é apenas uma de cerca de 2000 variedades de pêssegos, de nomenclatura raramente universal e às vezes equívoca. Veja-se o caso da variedade platycarpa, de forma acentuadamente achatada, que é designada em Portugal (e Espanha) por “pêssego paraguaio”, mas que é originária da China, onde é conhecido há 2500 anos e é designado por “pantao”. Nos EUA, é designado por “Saturn peach”, e também por outros nomes que aludem à sua bizarra forma, como “UFO peach”, “donut peach”, “squashed peach” (pêssego espalmado), “pumpkin peach” (pêssego-abóbora) ou, mais objectivamente, por “Chinese flat peach” (pêssego achatado chinês).

A China não só é o berço de quase meio milhar de variedades de pêssego como continua a ser o seu maior produtor (48% do total mundial).

Amêndoa

Poderá parecer estranho que se mencione um fruto seco numa lista de frutos carnudos, mas acontece que a amendoeira (Prunus dulcis ou Prunus amygdalus) e o pessegueiro (Prunus persica) são parentes muito próximos – são, aliás, os únicos membros do sub-género Amygdalus. As afinidades entre amêndoa e pêssego só não são mais óbvias porque, sob o ponto de vista alimentar, encaramos os dois frutos de perspectivas muito diferentes.

O pêssego como exemplo de drupa e a sua estrutura

Enquanto o pêssego (como os frutos das outras Prunus) possui um mesocarpo espesso e suculento – é a parte que consumimos –, o mesocarpo da amêndoa é pouco desenvolvido e não-comestível e, no processo de maturação, seca e torna-se coriáceo, deixando à vista o endocarpo (caroço), que é semelhante ao do pêssego: pontiagudo e com uma superfície rugosa e irregular.

Endocarpo e semente de pêssego

Endocarpo e semente de amêndoa

A semente no interior do endocarpo é a parte comestível da amêndoa, mas descartamo-la no caso do pêssego e há boas razões para o fazermos, pois é amarga e contém elevadas concentrações de amigdalina, substância que também é abundante noutras espécies de Prunus e que por acção das enzimas intestinais liberta ácido cianídrico, que é extremamente venenoso. A amigdalina é uma forma de as plantas dissuadirem os animais de comerem a semente – o “contrato” prevê que comam apenas a polpa e espalhem as sementes, intactas. Nesse domínio, as prunóideas estão bem defendidas, com concentrações de amigdalina de 14 g/Kg na semente do damasco, 6.8 na do pêssego e de 4 a 17.5 na da ameixa.

Originalmente, as amendoeiras “selvagens” – o ancestral provável é a Prunus fenzliana, nativa de regiões de altitude na Turquia, Cáucaso, Norte do Irão e Tadjiquistão – seriam todas amargas (e venenosas), mas o Homo sapiens apercebeu-se da ocorrência de mutantes não-amargos e favoreceu a reprodução destes. A Prunus dulcis, produtora de amêndoas doces (e não-venenosas), terá sido uma das primeiras árvores de fruto a ser “domesticada”, o que terá acontecido no Próximo Oriente na Idade do Bronze.

Colheita, pesagem e comércio da amêndoa em Kand-i-bandam (literalmente “Vila da Amêndoa”, hoje Konibodom, no Tadjiquistão), numa iluminura de c.1598

Hoje, apesar da predominância da variedade doce, continuam a existir árvores que produzem amêndoas amargas, cujo teor de amigdalina ronda os 54 g/Kg, oito vezes mais do que a semente do pêssego e 850 vezes mais do que a amêndoa da variedade dulcis , cujo teor é de apenas 0.063 g/Kg. As amêndoas amargas são apenas cultivadas para fabricar licores como a amarguinha portuguesa ou o amaretto italiano (“amaretto” significa “amarguinho”), mas os apreciadores podem desfrutá-lo sem receio de tombarem envenenados, pois o ácido cianídrico é removido no processo de fabrico do licor.

Uma “amarguinha” italiana: o Amaretto Disaronno, produzido em Saronno, orgulha-se de manter inalterada a receita original de 1525

O nome “amêndoa” provém, via latim, da designação grega do fruto, “amygdále”, e é similar na maioria das línguas da Europa Ocidental: “almendra” (espanhol), “mandorla” (italiano), “amande” (francês), “almond” (inglês), “amandel” (holandês), “mandel” (alemão, dinamarquês, sueco). A palavra portuguesa “amígdala” tem a mesma origem e aplica-se a estruturas com forma de amêndoa, como sejam os dois aglomerados de tecido que temos no fundo da boca (ainda que em português do Brasil sejam designadas por “tonsilas”, próximo do inglês “tonsil”).

Os maiores produtores de amêndoa são os EUA, Espanha e Marrocos, com Portugal num modesto 19.º lugar, o que não é de estranhar pois na região que em tempos mais produziu este fruto seco, o Algarve, a amendoeira quase só subsiste na toponímia e nas lendas de mouros e mouras.

Ameixa

Apesar de existirem várias espécies de ameixeira, as que têm hoje relevância comercial são a Prunus domestica (conhecida como ameixeira europeia, ainda que originária da região da Anatólia, Cáucaso e Irão) e a Prunus salicina (conhecida como ameixeira japonesa, ainda que originária da China), surgindo em segundo plano a Prunus simonii, que tem alguma relevância na China.

Foi uma das primeiras árvores de fruto a ser “domesticada” e há quem alvitre que foram introduzidas na bacia mediterrânica pelos gregos, na sequência das campanhas de Alexandre Magno na Pérsia e mais além, embora seja possível que já antes fosse cultivada na Síria. No século I, o poeta romano Marcial elogiava o poder da ameixa “na soltura do ventre obstipado”, mas foi preciso esperar pelas cruzadas para que a ameixa se tornasse popular pela Europa fora.

Natureza morta com ameixas, por Jean-Siméon Chardin, c.1728

A designação latina da ameixa, “prunum”, deu origem a “prugna” (italiano), “prune” (francês), “plum” (inglês), “pruim” (holandês), “pflaume” (alemão), “blomme” (dinamarquês) e “plómma” (islandês). Portugueses e espanhóis desafinam desta unanimidade, os primeiros derivando “ameixa” do nome dado pelos romanos a uma variedade de ameixa originária de Damasco, “prunus damascena” (não confundir com o damasco); os segundos, derivando “ciruela” do latim “prunus cereola”, uma designação alternativa para a ameixa que realçava o aspecto ceroso da sua superfície.

Em português, o étimo latino “prunum” deu origem a “abrunho”, o fruto da Prunus spinosa, um parente muito próximo da ameixeira. Em inglês, ramificou-se para dar, além de “plum”, “prune”, que designa apenas as ameixas secas.

Natureza morta com ameixas, por Louise Moillon, 1629

Tal como acontece com a cerejeira, a ameixeira é estimada no Japão sobretudo como árvore ornamental, de forma que as espécies são seleccionadas mais em função da beleza da flor do que da doçura do fruto – a mais usada como árvore ornamental é a Prunus mume (de que existem 300 variedades e que, na verdade, é mais próxima do damasqueiro do que da ameixeira).

A China é o maior produtor de ameixa (55% do total mundial), seguida, a grande distância, pela Roménia e pela Sérvia.

Ameixas, por Édouard Manet, c.1875-85

Figo

A figueira-comum (Ficus carica) é originária da Anatólia – o que se reflecte no seu nome latino, que alude à região de Caria, no que era então a costa da Jónia – e foi uma das primeiras plantas a ser “domesticada”, precedendo até o trigo e o centeio. Os vestígios mais antigos do cultivo de figueiras datam de c.10.000 a.C., no Vale do Jordão, e daí espalhou-se por toda a bacia mediterrânica, constituindo uma parte importante da dieta de gregos e romanos, e expandiu-se também para Oriente, até ao Afeganistão.

Os dois maiores produtores de figos do mundo actual coincidem com a sua área primordial de cultivo na Antiguidade: Turquia e Egipto.

“Figo” vem do latim “ficus”, como vêm o italiano “fico”, o francês “figue”, o espanhol “figo”, o inglês “fig”, o holandês “vijg”, o alemão “feige” ou o sueco “fikon”. A palavra grega para figo era “sykon”, que deu origem ao termo botânico “sicónio” e a “sicofanta”.

Sicónio é o termo formal para designar o “fruto” das plantas do género Ficus, que não são verdadeiros frutos mas uma bizarra inflorescência, uma espécie de caule carnudo contendo numerosas flores no seu interior. Este “saco de flores” comunica com o exterior apenas por um pequeno orifício no seu ápice, que apenas permite a entrada de vespas minúsculas que fazem a polinização das flores (sim, cada figo é o túmulo de pelo menos uma vespa e espera-se que este lúgubre facto não dissuada ninguém de comer figos).

Figo em corte

Quanto a sicofanta, vem do grego “sykophántes”, que designava literalmente “revelador de figos”, com o sentido de alguém que denunciava quem roubava figos. O significado preciso de “sicofanta” na Grécia Antiga tem sido muito discutido e há várias teorias em conflito, mas parece que a palavra ganhou o sentido genérico de alguém que faz uma qualquer falsa denúncia ou acusação infundada (não envolvendo necessariamente o furto de figos); na Atenas do século V a.C. ganhou conotação pejorativa, designando quem ganhava a vida extorquindo dinheiro (a pessoas com posses e bem colocadas na sociedade) sob a ameaça de fazer falsas denúncias.

A palavra desenvolveu significados diversos em diferentes línguas – em português é sinónimo de delator, caluniador, e, mais genericamente, patife; em francês, “sycophante” comporta também o significado de espião; em inglês, “sycophant” designa “alguém que age de forma obsequiosa, de forma a disso tirar proveito”, ou seja, um “adulador servil”, um entendimento que é comum ao espanhol “sicofanta”.

Embora os figos tenham hoje perdido o papel central que tiveram na alimentação dos povos da Europa do Sul e tenham passado à categoria de “fruto exótico” ou ingrediente de iguarias gourmet, o número de sicofantas não tem parado de aumentar.

Natureza-morta com figos, por Luis Egídio Meléndez, década de 1760

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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