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De um quarto em Alvalade para a história do punk: quem foi João Ribas /premium

“Um Punk Chamado Ribas” passa esta segunda-feira no IndieLisboa, dia em que o antigo vocalista dos Censurados faria 54 anos. Quem foi João Ribas?

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“Corria-lhe o palco nas veias, sempre correu”, afirma o músico João Pedro Almendra. “Era teimoso como o raio, exigente, tinha um mau feitio do caraças. Isso foi uma das coisas que o fizeram andar para a frente e manter-se na linha daquilo em que acreditava.” Aurora Pinheiro, antiga manager dos Censurados, descreve-o como “um ser muito sensível e inteligente, uma pessoa carismática.” E o sobrinho, João Diogo Ribas, resume: “O meu tio é o pai do punk rock em Portugal e minha avó é a avó do punk rock em Portugal.”

Os depoimentos surgem do documentário “Um Punk Chamado Ribas”, primeira obra do realizador Paulo Miguel Antunes, com exibição marcada para esta segunda-feira, às 19h00, no Cinema São Jorge, em Lisboa, no âmbito do festival de cinema IndieLisboa. Trata-se de um filme-homenagem ao estilo dos documentários televisivos, baseado em entrevistas com amigos, colegas e familiares e imagens de arquivo, fotos e sons de época. Chega ao grande público no preciso dia em que João Ribas faria 54 anos.

Mentor e vocalista das bandas de culto Ku de Judas, Censurados e Tara Perdida, além de integrante dos projetos N.A.M., Kamones e Osso Ruído, João Ribas é um dos músicos mais celebrados da música popular em Portugal – do punk rock, claro – e a sua morte aos 48 anos terá acelerado o estatuto de lenda, mesmo se muitos seguidores da ideologia punk fazem questão de rejeitar ideias de estrelato. Morreu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a 23 de Março de 2014, com paragem respiratória.

“Acima de tudo, ele era um músico, um amante da música e do palco, uma pessoa muito cordial e sem caganças. Acho que isso se nota muito bem no documentário”, diz o realizador.

Paulo Miguel Antunes, de 31 anos, nasceu em Pontével, vila próxima do Cartaxo, e fez licenciatura em estudos artísticos na Universidade do Algarve e mestrado com especialização em cinema na Universidade Nova de Lisboa. Uma versão inicial de “Um Punk Chamado Ribas” foi o trabalho de fim de curso. Vive agora na capital e pretende dedicar-se ao cinema documental sobre música portuguesa.

[trailer de “Um Punk Chamado Ribas”]

“Sempre gostei de música punk e claro que em Portugal as bandas do João Ribas sempre foram as que tiveram maior influência. Por volta de 2011 ou 2012 estava em Faro a ouvir um concerto dos Tara Perdida e a observar a interação do João Ribas com o público. Veio-me à cabeça que ele dava uma boa personagem para um documentário. Não sabia bem como concretizar, mas a ideia ficou e pouco depois de ele morrer contactei com o André Oliveira, que acabou por ser câmara e diretor de fotografia neste filme. Falei com o sobrinho do Ribas, porque tenho um amigo que tem amigos em comum com ele. Conseguiu o número de telemóvel. Na altura eu ainda estava em Faro, mas vim a Lisboa, conversámos e ele a ideia.” Assim começou o documentário.

Segundo Paulo Miguel Antunes, a ideia de homenagem sempre esteve presente, “para se mostrar a importância que o Ribas teve na música e no movimento punk”, porque “mesmo aqueles que conhecem as bandas nem sempre sabem pormenores sobre o percurso dele.” Nem o realizador sabia. “Já tinha lido um livro sobre Os Censurados, que voltei a ler, e fiz bastante pesquisa na internet, li muitos artigos sobre o João Ribas.”

O filme “foi-se construindo, principalmente na fase de edição”, explica o realizador. A versão que agora passa no São Jorge tem 107 minutos e os entrevistados que são Aurora Pinheiro, Dina Krasmann, Eduardo Pinela, Eduardo Vaz Marques, Henrique Amaro, Iolanda Batista, Miguel Newton, Nuno Calado, Orlando Cohen, Paula Guerra, Samuel Palitos, Tó Trips, muitos outros. Ora personagens da vida de João Ribas, ora protagonistas de um movimento musical que se instalou no país a partir do fim da década de 70.

Ku de Judas num Portugal Sex Pistols

No ambiente de livre circulação de ideias a seguir ao 25 de Abril de 1974, “praticantes dos diversos domínios musicais puderam começar a expressar-se”, o que permitiu que o punk, “com a sua vincada componente social e interventiva, entrasse sem barreiras e ganhasse adeptos em Portugal”, escreveu Paulo Bettencourt Lemos na tese de mestrado “A Importância do Punk em Portugal”, apresentada em 2011 na Universidade de Coimbra.

O punk tinha surgido como “atitude provocatória, de não conformidade com os valores culturais e políticos dominantes”, de acordo com a Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, e ganhou expressão musical, primeiro em Inglaterra e nos EUA, com bandas como The Stooges, Ramones ou os eternos Sex Pistols. Que o punk rock português apareceu sob influência anglo-saxónica é uma certeza, que a banda de Johnny Rotten foi decisiva, igualmente, com o disco de 1977 Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols, primeiro e único álbum de estúdio do grupo, elevado a referência preciosa.

Lisboa era então o epicentro do punk português: Bairro Alto, Cervejaria Trindade, café Munique, no Areeiro, restaurante Vá-Vá, na Avenida dos Estados Unidos da América. Ali ao lado, no número 96 da Avenida de Roma, bairro de Alvalade habitado por famílias de classe média-alta, João Ribas tinha passado os primeiros anos da adolescência a ouvir Dead Kennedys e Ramones, através do irmão mais velho, César.

Acredita-se que o punk sofreu influência dos movimentos artísticos de vanguarda do início do século XX, como o dadaísmo e o surrealismo, no que tinham de culto do inconsciente e de procura de liberdade individual. Mas, como registou Paulo Bettencourt Lemos, “torna-se extremamente difícil uma definição precisa e aceite pela maioria dos integrantes do movimento”, por este incluir diversas declinações e correntes de pensamento político e social.

“Em termos técnicos, na sua essência, a música punk é construída por três acordes de guitarra com efeito de distorção, linhas de baixo que repetem as mesmas notas tocadas na guitarra, acompanhadas por uma percussão veloz e uma vocalização declamatória”, lê-se na tese de 2011.

Entre nós, os pioneiros terão sido Os Faíscas, surgidos em 1977 pela mão de Pedro Ayres Magalhães e Paulo Pedro Gonçalves (a primeiro criou depois Corpo Diplomático, Heróis do Mar e Madredeus), a par de Aqui d’El Rock, cujo primeiro concerto teve lugar em 1978 no famoso Clube Atlético de Campo de Ourique (CACO). UHF e Xutos & Pontapés, afirmando-se rock, tinham também ligações ao universo punk.

A seguir vieram Minas & Armadilhas, cujo vocalista, Paulo Borges, chegou a ser um dos dirigentes do atual PAN, partido Pessoas-Animais-Natureza, e ainda Mata-Ratos e Ku de Judas. É esta última formação que João Ribas funda, em 1982, primeiramente ao lado de Fernando Serpa [que morreu em 2010], João Pedro Almendra e Bago d’Uva.

Faz 5 anos que a música portuguesa acordou mais pobre. João Ribas deixou-nos neste dia e com ele um legado enorme tanto…

Posted by Um Punk chamado Ribas on Saturday, March 23, 2019

O quarto em Alvalade

Lisboa era então o epicentro do punk português: Bairro Alto, Cervejaria Trindade, café Munique, no Areeiro, restaurante Vá-Vá, na Avenida dos Estados Unidos da América. Ali ao lado, no número 96 da Avenida de Roma, bairro de Alvalade habitado por famílias de classe média-alta, João Ribas tinha passado os primeiros anos da adolescência a ouvir Dead Kennedys e Ramones, através do irmão mais velho, César.

Perdera o pai aos 13 anos, era o filho mais novo de quatro, tinha com os pais uma relação de neto, como conta a irmã, Isabel, no documentário. Aos 16 anos, recebeu a primeira viola acústica, depois comprou ele próprio uma guitarra elétrica e um amplificador. Primeiro concerto a que assistiu: UHF no pavilhão do Belenenses em 1979, na primeira parte de Elvis Costello – refere no livro “Censurados Até Morrer!”, de Augusto Figueira e Renato Conteiro, publicado pela primeira vez em 2006 e com edição revista e aumentada em 2018. Os autores descrevem-se nas primeiras páginas como “fãs incondicionais com vontade de contar a história de uma das mais míticas bandas portuguesas”. Esse ponto de partida de apreciadores parece, aliás, uma das marcas dos que têm procurado fixar a história do punk português.

“Ele era um punk que teve aulas de equitação no hipódromo do Campo Grande, mas tinha uma relação com o dinheiro e o consumo muito descartável. Nunca chegava atrasado, nunca chegou atrasado a entrevistas, a reuniões da editora, pontualíssimo, e não usava relógio”, acrescenta a antiga manager.

“Quando começou com a onda punk, ele tinha problemas de andar na rua, as pessoas tinham medo e não compreendiam”, diz a irmã. Porém, o miúdo de Alvalade haveria de conquistar a simpatia dos vizinhos, mesmo que ao longo de anos, tivesse feito do quarto de casa a sala de ensaios. Desviava o colchão onde dormia, encostando-o à parede, e ali recebia os outros músicos. O barulho era ensurdecedor e ouvia-se a muitos metros (imagens do quarto em dia de ensaio surgem no filme “Punk Is Not Daddy”, de Edgar Pêra). Constança, a mãe, ficava em casa, ouvia tudo, opinava sobre as músicas, preparava lanches para os amigos do filho. Era a mulher da vida dele, ouve-se dizer no documentário.

Depois de Berlim, vieram Censurados

Ku de Judas tornaram-se populares num circuito alternativo e chegaram a atuar na famosa sala de espectáculos Rock Rendez-Vous, no Bairro Santos. Mas em 1988 chegaram ao fim.

Foi naquele ano que Ribas regressou de uma longa viagem à República Federal da Alemanha, durante a qual passou por Hamburgo e Berlim e assistiu a concertos de bandas punk oriundas de diversos países europeus. Os Censurados vieram depois disso, com Ribas, Samuel Palitos, Orlando Cohen e Frederico Valsassina na formação original. Gravaram três álbuns de estúdio, dois deles pela editora El Tatu, criada pela Movieplay e por Tim, dos Xutos & Pontapés.

Nos primeiros anos, passaram pelos palcos underground de Lisboa, incluindo dos bares Palmeiras, Oceano e Gingão. Deixaram letras sobre questões existenciais, com críticas ao sistema político e reflexões sobre o quotidiano urbano.

[“Angústia”, Censurados, 1991]

“Desde o primeiro concerto que o mosh, o stage-diving, o crowd-surfing e até o headbanging se tornaram uma constante nos concertos da banda”, lê-se em Censurados Até Morrer!, uma referência à interação dos músicos com o público. “Foram uma das bandas punk mais populares da década de 90, tendo conseguido granjear um vasto leque de simpatizantes dentro e fora do movimento punk”, registou Paulo Bettencourt Lemos.

Nos anos 80, as bandas eram bandos e os Censurados eram um bando de Alvalade com epicentro em João Ribas, ou no quarto dele, escreveu o vocalista dos Xutos & Pontapés no prefácio de Censurados Até Morrer. “Foram a vitória de um coletivo” e “só quando o individualismo se sobrepôs ao grupo, com os problemas de cada um a comprometerem o trabalho de todos, a banda se desfez”, acrescentou Tim.

O projeto termina em 1994. “Os seus músicos integram posteriormente outras bandas como Tara Perdida, Sitiados, Lulu Blind, A Naifa ou Rádio Macau.”

[“Animais”, Censurados, 1990]

[“O Que é que Eu Faço Aqui”, Tara Perdida, 2013]

O bairro de Alvalade rendeu-se aos acordes de Ribas. Nesta zona emblemática para o punk português, onde também nasceram os Peste & Sida, seriam filmados os telediscos de “Animais” e “Sopa”, hinos dos Censurados. Era por ali que Ribas e os amigos deambulavam, ali ensaiavam, se divertiam e passavam o tempo. Ele dizia que Alvalade era “a capital da capital”. Inevitavelmente, era adepto do Sporting.

Hoje, junto à Biblioteca Municipal dos Coruchéus, precisamente no coração deste bairro lisboeta, vê-se um mural com o rosto do músico e referência às suas três bandas principais. É da autoria de João Morais e foi inaugurado em setembro do ano passado. O jardim envolvente deverá em breve passar a chamar-se João Ribas, decisão aprovada pela Assembleia Municipal de Lisboa em 2014 e a aguardar o prazo legal de cinco anos sobre o desaparecimento da personalidade cujo nome seja atribuído como topónimo na cidade.

Drogas, equitação, um pirata

A relação de João Ribas com as drogas é abordada no documentário por alguns entrevistados. A socióloga Paula Guerra, investigadora do fenómeno punk, explica que Ribas e outros músicos contemporâneos “viveram toda a turbulência das drogas, da noite, da violência urbana”. Aurora Pinheiro conta que ele chegou a ter uma overdose de heroína, quase letal, a seguir a um concerto na conhecida sala Johnny Guitar, em Santos. E Hélio Moreira, baterista inicial dos Tara Perdida, que descreve Ribas como um irmão, lembra que viveram anos de “muita cerveja, muitos charros, pedradas muito grandes”. Eram os anos 80 e 90 portugueses.

Em 2009, antes de um concerto no Coliseu de Lisboa, João Ribas dizia continuar a sentir-se criança. “Continuo um Peter Pan”, afirmou. “Claro que há responsabilidades, mas ao nível musical sempre fui assim. Continuo a dizer que o punk é eterno, as regras estão feitas e não mudam."

“Ele era um punk que teve aulas de equitação no hipódromo do Campo Grande, mas tinha uma relação com o dinheiro e o consumo muito descartável. Nunca chegava atrasado, nunca chegou atrasado a entrevistas, a reuniões da editora, pontualíssimo, e não usava relógio”, acrescenta a antiga manager. “Um tipo meio pirata, daqueles piratas que a pessoa curte, um tipo carismático”, acrescenta o músico Tó Trips.

No pós-Censurados, Ribas formou Tara Perdida, no ativo entre 1995 e os dias de hoje, tendo sobrevivido ao desaparecimento do vocalista. É a banda a que as gerações mais novas costumam associar Ribas. “Vários discos e centenas de concertos de norte a sul do país, alguns dos quais com milhares de pessoas, são o legado que ficará de uma das maiores bandas que Portugal conheceu”, dizem Augusto Figueira e Renato Conteiro. “Acabou por ser a banda com a qual [Ribas] atingiu maior sucesso comercial, mas não foi nunca a sua banda mais importante”, defendem, colocando Censurados em primeiro lugar.

Em 2009, antes de um concerto no Coliseu de Lisboa, João Ribas dizia continuar a sentir-se criança. “Continuo um Peter Pan”, afirmou. “Claro que há responsabilidades, mas ao nível musical sempre fui assim. Continuo a dizer que o punk é eterno, as regras estão feitas e não mudam.” Zé Pedro (1956-2017), dos Xutos, recordou-o assim, em 2014: “Era sem dúvida o grande carismático da fação mais radical do rock’n’roll nacional. Foi um ótimo músico e letrista. Tinha uma maneira muito genuína de dizer as palavras e em palco sempre se mostrou um ‘frontman’ enorme.”

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