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MANUEL MANSO

MANUEL MANSO

Deborah Harris: "São as pequenas e médias galerias que sustentam o sistema internacional da arte" /premium

É especialista em arte contemporânea e vive em Lisboa desde 2018. Foi responsável pelo Armory Show, em Nova Iorque, mas acha que a crise do coronavírus pode trazer o declínio das feiras de arte.

A crise provocada pela resposta ao coronavírus está a gelar o mundo da arte contemporânea. Numa indústria de biliões (mas também de pequenos galeristas), de encontros pessoais e  viagens constantes pelos quatro cantos do planeta, todos querem saber se ao virar da esquina está a hecatombe ou se já podem respirar de alívio. Mas ninguém sabe.

As duas maiores leiloeiras do mundo, Christie’s e Sotheby’s, têm as vendas suspensas. As maiores feiras de arte foram adiadas: Frieze Nova Iorque, Art Basel, Art Brussels,  Art Cologne, Art Dubai (a lista é extensa). Museus, galerias e ateliers — tudo fechado. E ainda uma ironia: o Centro de Feiras e Congressos de Madrid, onde anualmente se realiza a feira ARCO Madrid, é agora um hospital de campanha com 350 camas. É certo que os sinais de abrandamento já vinham do ano passado, falava-se de “fairtigue”, a fadiga das feiras de arte. Segundo o Global Art Market Report 2019, que a economista Clare McAndrew assinou para a Art Basel e a consultora UBS, o volume de vendas a nível mundial foi de 64,1 mil milhões de dólares, contra 67,7 de 2018. Mas quem poderia adivinhar o que estava para vir e quem pode agora antever os próximos meses?

Será que a norte-americana Deborah Harris tem algumas respostas? Quando esta onda passar voltará tudo ao normal? É isso desejável ou terá de nascer um novo paradigma? Esta semana, em entrevista ao Observador, a antiga directora-adjunta do Armory Show, de Nova Iorque — uma das principais feiras mundiais de arte contemporânea — analisou as incertezas e concluiu que os próximos tempos serão especialmente difícies para galerias de pequena e média dimensão.

Em Lisboa desde há dois anos, Deborah Harris vive a tempo inteiro no Chiado e ali que tem passado os dias da quarentena. Ao telefone com o Observador, a partir de casa, referiu que “um dos aspectos positivos do isolamento sanitário é termos tempo para falar uns com os outros”. “Tenho família e amigos em Nova Iorque, a minha filha está na Alemanha e o meu filho está em Washington DC, tenho estado em contacto com todos eles.”

Nascida há 66 anos em Nova Iorque, estudou história da arte na Universidade de Stanford e antes do Armory Show foi directora de publicidade da publicação americana ArtNews e editora nas revistas Art in America, Modern Painters e W Art Edition. Considera-se reformada, mas está a descobrir a arte contemporânea portuguesa e tem sido consultora de coleccionadores e da feira ARCO Lisboa. Um dos projectos mais recentes em que participou é o da Muñoz Carmona Art & Gallery, que deveria ter sido inaugurada a 19 de Março na Rua do Alecrim, em Lisboa, e está suspensa devido à pandemia.

Quando lhe perguntámos quais os artistas portugueses que mais admira, Deborah Harris não respondeu de imediato e preferiu enviar mais tarde uma pequena lista por e-mail – onde constam não apenas consagrados, mas também nomes emergentes.

“O que faz mexer o mercado, do ponto de vista das galerias, é estarem sempre à procura de novos compradores, é para isso que servem as feiras de arte”, explica Deborah Harris

A crise provocada pelo coronavírus pode ser comparada a crises anteriores no mercado da arte contemporânea?
Para já, parece ser muito maior do que as anteriores. Lembro-me de que quando o mercado japonês entrou em recessão, há muitos anos, a retoma foi demorada, penso que só ao fim de uma década é que as coisas voltaram ao que eram. Pelo contrário, a crise de 2008 foi rápida a passar e em 2010 já estávamos quase de regresso à normalidade. Neste caso, parece-me que será uma crise prolongada, mais profunda. Aquilo que percebo é que os negócios não estão totalmente suspensos, há vendas a acontecer através da internet. Provavelmente, o online, como canal de vendas, ganhará ainda mais importância nos próximos tempos. Isto significa que provavelmente teremos muitas galerias que terão de fechar portas. As mais pequenas podem não aguentar o embate, o que se agrava pelo facto de não haver feiras de arte neste momento, que é onde essas pequenas galerias vão buscar uma fatia importante do rendimento.

Refere-se à Europa e aos EUA?
Por todo o lado. Claro que o mundo da arte se tornou global, há muitas zonas em afirmação, mas os três maiores centros de venda de arte contemporânea são os EUA, principalmente Nova Iorque; a Europa, com Londres em primeiro lugar; e depois a China. Todas estas zonas foram fortemente atingidas pelo vírus, por isso, o cenário é devastador.

Será que a indústria da arte contemporânea precisa de regressar ao nível que tinha até agora ou é desejável que encontre novos caminhos?
Diria que vai mudar e transformar-se. É a minha intuição. É possível que as feiras de arte deixem de ser tão importantes como até agora, talvez as vendas passem a ser feitas sobretudo online e nas próprias galerias, o que significa, neste último caso, que teremos negócios mais personalizados, mais intimistas. A fase que estamos a viver está a assustar muita gente, a apresentar muitos desafios. As feiras de arte representavam até agora um volume de negócios extraordinário, muitas galerias chegavam a estar presentes em cinco feiras por ano, em média, e muitas dessas feiras têm lugar entre Fevereiro e o início do Outono. Se isto continua como está, por muitos meses, o paradigma do mundo da arte vai mudar por completo.

No início de Fevereiro, estive na Frieze Los Angeles e posso testemunhar que as vendas foram intensas. Isto pode querer dizer que os grandes compradores, os mais ricos, não estavam assustados no início da pandemia.

Até mesmo as leiloeiras suspenderam a actividade.
Pois, ainda há esse aspecto. Tem sido uma coisa aterradora. Sei que há quem procure alternativas, sobretudo o online, como já referi. A Art Basel Hong Kong reagiu com vendas pela internet e as galerias puderam apresentar-se virtualmente, como se a feira estivesse a acontecer normalmente, mas não é a mesma coisa. O que faz mexer o mercado, do ponto de vista das galerias, é estarem sempre à procura de novos compradores, é para isso que servem as feiras de arte.

Tem conversado com muitos profissionais da área?
Nem por isso, mas antes do coronavírus aquilo que me diziam era que as vendas estavam a abrandar um pouco, havia já uma grande competição e as galerias pequenas ou de média dimensão estavam a começar a sentir. Agora tudo depende do ritmo a que a vida colectiva volte ao normal. Se no Verão já estivermos todos em actividade, talvez as coisas não sejam tão más quanto agora parecem.

Podemos dizer que os grandes coleccionadores privados vão continuar a comprar e que os primeiros a retraírem-se são os pequenos compradores?
Provavelmente, sim. Um amigo que participou na ARCO Madrid há poucas semanas [26 de Fevereiro a 1 de Março], quando a crise do coronavírus já estava a acontecer noutros países, disse-me que conseguiu fazer vendas. Não foi nada de extraordinário, mas vendeu, incluindo a um coleccionador novo com muito dinheiro. No início de Fevereiro, estive na Frieze Los Angeles e posso testemunhar que as vendas foram intensas. Isto pode querer dizer que os grandes compradores, os mais ricos, não estavam assustados no  início da pandemia. A nível mundial, o valor médio de cada obra vendida não andará longe dos cinco mil dólares. Depois, claro, há valores astronómicos, mas são aqueles cinco mil dólares que alimentam o mercado. Parece-me que a partir de agora essas compras mais modestas terão maior dificuldade em acontecer. São as pequenas e médias galerias que sustentam o sistema internacional da arte, porque são também elas que apoiam quem está a começar e fomentam o talento dos artistas que mais tarde ganham muita visibilidade.

Melhores artistas portugueses

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Quais os contemporâneos mais relevantes ou com potencial de afirmação nos próximos anos? Deborah Harris respondeu com uma lista. Aos nove nomes que já conhecia antes de viver em Lisboa – Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, José Pedro Croft, Helena Almeida, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Joana Vasconcelos, Fernanda Fragateiro e Vhils – acrescentou mais 17 cujo trabalho descobriu nos últimos dois anos.

A saber, “entre muitos outros”:

Vasco Araújo, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Ângela Ferreira, Susana Mendes Silva, Luís Lázaro Matos, Joana Escoval, Rita GT, Mónica de Miranda, Alexandre Estrela, Nuno Sousa Vieira, Pedro Vaz, Paulo Lisboa, Sara Bichão, Jorge Santos, Luísa Jacinto, Jaime Welsh e Carla Cabanas.

A arte contemporânea costuma ser vista como um mundo de privilegiados. Que impacto terá esta crise do sector na vida do comum dos cidadãos?
Penso que se reflecte na quebra dos fluxos de turistas, o que empobrece a vida cultural das cidades. Foi, aliás, por isso que decidi trabalhar nesta área: não é só pelo sistema do mercado, é porque há galerias, museus, artistas. Tudo isso contribui para a dinâmica cultural, torna as cidades atraentes, tem reflexos económicos e sociais na vida de cada um. Uma das razões pelas quais Lisboa se tornou um fenómeno como destino turístico foi precisamente por ter uma vida cultural intensa. As pessoas vêm, vistam museus, frequentam a zona histórica da cidade, consomem, isso gera emprego. Nem sempre se consegue medir o impacto, há benefícios intangíveis.

Que soluções podem artistas, curadores e galeristas encontrar para os próximos tempos?Acho que a colaboração pode aumentar. Até agora, temos assistido a uma grande competição entre todos, mas é preciso pensar mais na entreajuda: entre galerias, instituições culturais, leiloeiras, etc.

Há seis anos, quando cheguei a Lisboa pela primeira vez, muitas galerias nunca tinham sequer participado em feiras internacionais de arte. Fez-me lembrar Nova Iorque nos anos 80.

Fale-nos um pouco sobre si: porque é que decidiu trocar Nova Iorque por Lisboa?
Já andava a pensar numa mudança há algum tempo. Há seis anos visitei Lisboa pela primeira vez, durante umas férias, e apaixonei-me imediatamente. Graças à minha profissão, viajei muito ao longo de mais de 30 anos. EUA, Europa, África, Ásia. E nunca tinha estado em Portugal. Há seis anos estive aqui, conheci a galerista Vera Cortês, fui até ao Algarve. Comecei a pensar viver em Lisboa, foi um sonho que começou a despontar. A partir de 2017, as coisas encaminharam-se nesse sentido. O sítio, as pessoas, tudo isso me atraiu.

Que sensação lhe ficou ao começar a descobrir a cena artística em Lisboa?
Confesso que a princípio me fez lembrar Nova Iorque nos anos 80, quando não havia grandes hierarquias e os curadores e artistas gostavam de se encontrar nas inaugurações das exposições. Há seis anos, quando aqui estive pela primeira vez, muitas galerias nunca tinham sequer participado em feiras internacionais de arte. Vera Cortês é um exemplo, ela queria ter maior visibilidade, convidámo-la na altura para estar no Armory Show. Havia poucas galerias com artistas de alcance internacional, muitos galeristas apostavam em nomes novos, de artistas portugueses, que de outra forma não teriam oportunidade. Encontrei um enorme potencial, uma energia jovem.

Agora é sobretudo consultora?
Sim, tenho feito alguns projectos com o [designer] Juan Carmona, visito muitas galerias e exposições, tenho ajudado a estabelecer contactos. Pode-se dizer que sou consultora. Até me estabelecer, conhecia alguns nomes de repercussão internacional, como Joana Vasconcelos, Lourdes Castro, Helena Almeida. Os mais recentes, não conhecia. O meu primeiro ano em Lisboa, e ainda agora, serviu para me familiarizar com os nomes. Sou muito curiosa, por isso tenho falado com muitas pessoas, vou aos ateliers, estoucom artistas. É uma fase de formação e devo dizer que tenho encontrado muita abertura. Quando amigos dos EUA e de outros pontos da Europa vêm a Lisboa faço questão de os levar às galerias e de os apresentar a artistas. Também tenho ajudado a ARCO Lisboa, ao trazer alguns coleccionadores. É assim que ocupo o tempo.

Consegue resumir aquilo que aprendeu enquanto directora-adjunta do Armory Show? O que é que destaca?
Consegui criar uma plataforma de galerias de arte moderna dentro de uma feira em que a arte contemporânea é central. Apresentar artistas contemporâneos no contexto de grandes nomes modernos era um dos nossos objectivos. Mais tarde, envolvi-me no projecto Armory Focus, que consistiu em apresentar artistas e galerias da América Latina, da China e de África. Conheci gente extraordinária, coleccionadores, artistas, curadores, galeristas, jornalistas, pessoas de todo o mundo verdadeiramente apaixonadas pela arte.

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