Três membros da equipa pessoal de Benjamin Netanyahu foram acusados em fevereiro de receber avultadas somas de dinheiro do Qatar para influenciar a imagem do país em Israel. Alvo de uma investigação judicial por parte do Shin Bet, o caso rebentou numa polémica que terminou com o primeiro-ministro a demitir Ronen Bar, o líder agência de segurança interna israelita, esta quinta-feira.
A polémica expõe algumas das maiores fraturas no país, da guerra contínua de Netanyahu ao poder judicial israelita ao apuramento continuamente adiado das responsabilidades quanto aos ataques perpetrados pelo Hamas a 7 de outubro. A oposição acusa o primeiro-ministro de perverter as instituições do país para seu ganho próprio; Netanyahu diz que a demissão era inevitável dada a “quebra de confiança” entre as duas partes.
As origens do “Qatargate” israelita
O atual desenrolar de eventos já tinha antecedentes, mas foi espoletado por uma reportagem emitida a 10 de fevereiro pelo Channel 12, acusando Eli Feldstein — ex-porta-voz do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — de trabalhar para uma empresa internacional contratada pelo Qatar para melhorar a sua imagem pública. Alegadamente, Feldstein mantinha contactos com jornalistas, passando-lhes informações estrategicamente escolhidas para retratar o Qatar de forma favorável, sublinhando ao mesmo tempo o seu empenho enquanto um dos países mediadores da guerra em curso — tudo isto, enquanto trabalhava num cargo com acesso direto ao líder do governo israelita.
Antes, em novembro, o Haaretz tinha revelado numa investigação que outros dois membros do núcleo duro do gabinete de Netanyahu tinham aceitado participar numa campanha de marketing para melhorar a reputação do Qatar mesmo antes da realização do Campeonato do Mundo de Futebol no país, em 2022. Tratam-se de Jonatan Urich e Yisrael Einhorn, ambos conselheiros do primeiro-ministro e que, à época, aceitaram esse trabalho através de uma empresa de consultoria detida pelo segundo, a Perception, quando já eram homens de confiança de Netanyahu e tinham trabalhado em campanhas suas. Após a notícia sobre Feldstein em fevereiro, o mesmo jornal fez saber que Eli Ben-Meir, chefe da investigação do exército israelita sobre o ataque de 7 de outubro, é coproprietário de uma empresa que trabalhou nessa mesma campanha antes do mundial em solo qatari.
A sucessão destas notícias gerou escândalo não só porque Israel e o Qatar não têm relações diplomáticas entre si, como o país do Golfo Pérsico é tido como um dos principais financiadores e apoiantes do Hamas. Por exemplo, o Israel Hayom, tablóide de inclinações conservadoras, reagiu ao caso a 14 de fevereiro com um artigo intitulado “Os principais assessores de Netanyahu e o Qatar: um forte fedor a dinheiro”.
Nesse mesmo texto, é recordado que foi o atual primeiro-ministro, durante a sua primeira passagem à frente do governo israelita (entre 2009 e 2021), que incentivou o Qatar a aumentar o seu financiamento de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e que, ao fazê-lo, abriu as portas a que parte desse dinheiro começasse a ser entregue ao grupo extremista. “Assim nasceram as malas de dólares, que se transformaram em financiamentos contínuos de 30 milhões de dólares por mês e que foram utilizados para vários fins – desde o apoio genuíno aos miseráveis de Gaza, ao apoio prático ao Hamas e aos seus objetivos civis e militares”, lê-se no Israel Hayom.
Tanto Urich e Einhorn como Feldstein, rejeitaram a seu tempo as suas ligações ao Qatar, mas uma outra investigação, desta vez do Channel 13, adensou as suspeitas ao avançar que o gabinete de Netanyahu teria recebido somas no valor de centenas de milhares de euros provenientes do Qatar. Essas verbas teriam sido transferidas para os assessores indiretamente através de várias empresas intermediárias, incluindo uma pertencente a Urich.
As reações a uma “suspeita de traição”
O caso deu novo ânimo ao movimento de oposição ao primeiro-ministro, com novos ajuntamentos na rua contra Netanyahu. Recorde-se que o chefe do governo israelita tem sido altamente criticado por alguns setores não só pelo seu desempenho na negociação dos reféns israelitas na Faixa de Gaza e pela suposta incapacidade de evitar o ataque de 7 de outubro, como também pelo facto de enfrentar neste momento três julgamentos por corrupção e por ter promovido uma reforma judicial encarada como violadora do princípio da separação de poderes.
Num dos protestos provocados pelos casos do Qatar, escreve o Times of Israel, os manifestantes montaram um palco “decorado com malas abertas cheias de notas falsas de 100 dólares, juntamente com três bonecos insufláveis vestidos como Netanyahu e o que parecia ser um refém e um xeque do Qatar”, lendo-se #Qatargate atrás.
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Perante estes desenvolvimentos, Yair Golan — ex-ministro da Economia, presidente do partido Os Democratas e líder da oposição — pediu publicamente a abertura de uma investigação a Benjamin Netanyahu e à sua cúpula, afirmando haver “uma suspeita de traição no gabinete do primeiro-ministro que deve ser examinada”.
“O país está em guerra e os conselheiros mais próximos do primeiro-ministro receberam ou estão a receber dinheiro de um país inimigo que financiou o Hamas. Trata-se de uma infração de segurança muito grave”, declarou numa conferência de imprensa convocada devido ao escândalo a borbulhar. “A questão não é apenas saber quem recebeu dinheiro, mas se até Netanyahu o recebeu. Quanto? Para quê? O que é que ele deu ou prometeu em troca? Só há dois cenários possíveis: ou Netanyahu controlava tudo o que se passava no seu gabinete, e então é responsável. Ou então não controla e não está apto a exercer o seu cargo”, atirou Golan.
O líder da oposição citou nessa ocasião dois nomes que deveriam encabeçar as diligências ao caso: o chefe do serviço de segurança interna Shin Bet, Ronen Bar, e a procuradora-geral, Gali Bharav-Miara. Poucos dias depois, a segunda abriria mesmo uma investigação a Netanyahu e ao seu gabinete, entregando essa responsabilidade ao primeiro. O envolvimento de Bar no caso foi o catalisador para a passagem de uma guerra fria para um confronto aberto com Netanyahu.
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A guerra surda com o Shin Bet que se tornou ensurdecedora
Feldstein e Netanyahu já tinham enfrentado o Shin Bet antes da abertura desta investigação. Segundo o Haaretz, no quarto dia da guerra em Gaza, em outubro de 2023, o primeiro-ministro adicionou-o à sua equipa de conselheiros para os media, criando uma função que supervisionava as comunicações entre o Gabinete do Primeiro-Ministro e os repórteres militares. No entanto, em abril de 2024, Feldstein pediu que a sua posição fosse formalmente definida como porta-voz do Gabinete do Primeiro-Ministro para Assuntos Diplomáticos e de Defesa, tendo o Shin Bet intercedido para submetê-lo a um processo obrigatório de habilitação de segurança exigido para esse novo cargo, que lhe daria acesso a informações militares e de inteligência confidenciais.
O Shin Bet vetou a sua nomeação, mas o gabinete de Netanyahu recorreu a um expediente burocrático para colocá-lo numa posição idêntica e com iguais responsabilidades. Meses depois, Feldstein voltaria a enfrentar a agência, saindo desta vez derrotado. Em novembro, foi detido, encontrando-se em prisão domiciliária e com uma pulseira eletrónica desde então, por ser acusado de ter ajudado a divulgar documentos militares furtados às IDF à imprensa estrangeira — inclusive ao jornal alemão Bild. Mais tarde soube-se que agiu com dois membros da unidade de inteligência militar das IDF para roubar esses documentos e publicá-los numa aparente tentativa de influenciar a opinião pública contra um acordo de cessar-fogo e de libertação de reféns em Gaza, numa altura em que o governo se opunha à proposta.
Perante tal caso, apontou o Haaretz, o gabinete de Netanyahu apressou-se a negar qualquer associação com Feldstein, dizendo que o primeiro-ministro nem sequer o conhecia. No entanto, mais tarde, “aparentemente preocupado com o facto de Feldstein o poder implicar na fuga de informação confidencial, mudou a sua história, defendendo Feldstein e atacando o Shin Bet e o Ministério Público”, escreveu o diário israelita.
No entanto, as tensões entre o gabinete do primeiro-ministro e a atual direção do Shin Bet não são de agora, havendo uma espécie de “paz podre” desde o projeto de reforma da Justiça de Netanyahu, entretanto bloqueada no parlamento. Em causa está o facto da agência liderada por Ronen Bar não ter apenas como responsabilidade investigar ameaças de terrorismo e de espionagem, mas também, segundo a lei israelita, ser responsável pela salvaguarda das instituições democráticas do país. Ou seja, o intuito do governo em alterar o equilíbrio da separação de poderes — o projeto, entre outras coisas, pugnava pela limitação do poder judiciário na elaboração da legislação e nas políticas públicas, conferindo ao governo o controlo das nomeações judiciais — chocou diretamente com os princípios da agência.
A coexistência, todavia, piorou drasticamente após o 7 de outubro, sendo que Ronen Bar — à frente do Shin Bet desde 2021 e com o mandato a terminar apenas em outubro de 2026 — foi o único líder de uma agência relacionada com a segurança de Israel a não demitir-se na sequência do que foi desde cedo encarado como um falhanço em toda a linha. Segundo um editorial do The Jerusalem Post, há meses que Netanyahu tem pressionado subrepticiamente Bar a demitir-se, sem sucesso.
Bar, de resto, indicou que se demitiria assim que todos os reféns em Gaza fossem resgatados, desempenhando um papel fundamental nas negociações sobre a sua libertação até ao mês passado, altura em que Netanyahu o afastou das conversações — outro dos episódios que levaram ao divórcio em curso.
A gota de água, no entanto, decorreu não só na sequência desta abertura de investigação do Qatargate, como na publicação a 4 de março de um relatório com um inquérito interno ao 7 de outubro. No documento, o Shin Bet reconheceu falhas na recolha de informação, que teria permitido alertar as autoridades da dimensão do ataque inédito a Israel, mas não sem criticar também o governo israelita, e Netanyahu indiretamente, considerando que “a política de acalmia permitiu ao Hamas construir um impressionante arsenal militar”.
Netanyahu, recorde-se, tem resistido aos pedidos de uma comissão de inquérito estatal que examine as políticas governamentais que conduziram aos ataques do Hamas de 7 de outubro, uma recusa que tem sido encarada como um temor da parte do primeiro-ministro em ver-se implicado com responsabilidades diretas ao não conseguir impedir esse acontecimento.
À medida que as tensões foram aumentando, um último episódio ajudou a “espalhar as brasas” que levariam Netanyahu a finalmente demitir Bar. Na semana passada, o antecessor do líder do Shin Bet, Nadav Argaman, deu uma entrevista ao Channel 12 na qual sugeriu que sabia de muita informação comprometedora para o primeiro-ministro.
“Estou muito perturbado pelo facto de o primeiro-ministro prejudicar deliberadamente a sociedade israelita e provocar fricções na população para governar”, afirmou, acrescentando o seguinte aviso: “Se chegar à conclusão de que o primeiro-ministro decidiu agir em contradição com a lei, não terei escolha. Direi tudo o que sei”.
Tais declarações provocaram uma reação imediata de Netanyahu, que não só acusou Argaman de “extorsão em direto na televisão”, como Bar de ser o cérebro por trás de tal aparição pública. Segundo o primeiro-ministro, a agência lançou-se numa “campanha de ameaças e fugas para a comunicação social” realizada com o objetivo de “o impedir de tomar as decisões necessárias para devolver a autoconfiança ao Shin Bet, depois do seu fracasso devastador de 7 de outubro”. O Shin Bet reagiu, em comunicado, denunciando uma acusação “grave” e “destituída de qualquer fundamento” contra o chefe de uma agência do Estado cujo objetivo é designadamente o de “proteger a democracia”.
Enquanto a troca de farpas decorria em público, Netanyahu terá finalmente exigido a Bar a sua demissão — em privado — tendo este recusado a saída. Assim, a conclusão lógica do caso ocorreria finalmente este fim de semana.
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Uma demissão que pode encaminhar o país para uma “guerra civil”
“Decidi propor ao Governo a cessação do mandato do chefe do Shin Bet”, declarou Netanyahu em comunicado datado de 16 de março, justificando-o com a necessidade de “restaurar a organização, atingir todos os nossos objetivos de guerra e evitar a próxima catástrofe’. Seguir-se-ia então a apresentação de uma moção ao governo para votação esta semana para efetivar essa decisão.
Apesar do primeiro-ministro israelita citar a “perda de confiança” no seu oficial de segurança como causa legítima para a sua demissão, o caso foi imediatamente identificado pela imprensa nacional e internacional — do Jerusalem Post ao Axios — como sendo, pelo menos em parte, consequência da investigação do Shin Bet aos assessores de Netanyahu no Qatargate.
Bar reforçou essa tese, ao reagir dizendo-se alvo de uma demissão ao ser obrigado a uma “expectativa ilegítima de lealdade” a Netanyahu — sugerindo ter sido pressionado a deixar cair investigações incómodas ao primeiro-ministro. “O dever de lealdade do Shin Bet é, antes de mais, para com os cidadãos israelitas. A expectativa do primeiro-ministro de um dever pessoal de lealdade, cujo propósito contradiz o interesse público, é uma expectativa fundamentalmente ilegítima”, disse, numa declaração divulgada pelos meios de comunicação social israelitas.
A decisão de Netanyahu mereceu também o repúdio imediato da sua procuradora-geral — outra figura rival e da qual tem tentado forçar uma demissão. Numa carta enviada ao primeiro-ministro israelita, Gali Baharav-Miara disse-lhe que não podia despedir unilateralmente Bar por existir “a preocupação de que esta decisão seja ilegal e sofra de um conflito de interesses”. A procuradora-geral deixou ainda uma advertência a Netanyahu na linha do que Bar tinha afirmado, dizendo que “o papel do Shin Bet não é servir a confiança pessoal do primeiro-ministro”.
O chefe do governo israelita reagiu ao acusar Baharav-Miara de uma “perigosa traição” e “tentativa de usurpação do governo”. “A tentativa de se apoderar do poder discricionário do governo em matéria de segurança em tempo de guerra, sob a capa de um parecer jurídico, é uma traição perigosa — e não a primeira — à autoridade expressa do governo”, lê-se numa carta de Netanyahu enviada ao procurador-geral.
O primeiro-ministro israelita, que vinha a ser comparado a Donald Trump por tentativas discricionárias similares de colocar figuras da sua confiança nas principais posições de poder do estado, equiparou-se mesmo ao Presidente norte-americano — aliado e amigo pessoal. “Nos Estados Unidos e em Israel, quando um forte líder de direita ganha uma eleição, os esgotos estatais esquerdistas instrumentalizam o sistema judicial para frustrar a vontade do povo”, publicou nas redes sociais.
Entretanto, a oposição — encabeçada por Yair Lapid — fez um pedido conjunto dos vários partidos que a compõe a pedir ao Supremo Tribunal para vetar a demissão de Bar. “Assim que o Shin Bet começou a investigar o seu executivo, Netanyahu decidiu despedir Ronen Bar num procedimento precipitado e ilegal, e com um claro conflito de interesses”, justificou Lapid em declarações divulgadas pelo seu gabinete.
Mass demonstrations by Israeli continue in Jerusalem in protest against Benjamin Netanyahu's decision to dismiss the head of Shin Bet . pic.twitter.com/HgrrsbHSEi
— Sprinter Observer (@SprinterObserve) March 20, 2025
Seguiram-se três dias consecutivos de protestos — o desta quarta-feira chegou mesmo até à residência de Netanyahu — contra o recomeçar da guerra na Faixa de Gaza, pela libertação dos reféns e, mais concretamente, contra a tentativa de demissão de Ronen Bar. Esta quinta-feira, milhares reuniram-se à chuva em frente ao gabinete do primeiro-ministro, após uma tarde de confrontos com a polícia.
Antes da derradeira reunião de Netanyahu com os seus ministros, Ronen Bar lançou uma nova declaração, explicando a sua recusa em tomar parte no processo de destituição ao qual foi convocado, manifestando-se contra as “alegações infundadas do Governo, que não passam de uma cobertura para motivos completamente diferentes, estranhos e fundamentalmente inválidos, destinados a perturbar a capacidade do Shin Bet de cumprir o seu papel”.
Na mesma missiva, Bar considera que concluir a investigação ao Qatargate é “um dever público da mais alta ordem” e que demiti-lo durante o decurso da mesma representa “um conflito de interesses pessoal e institucional que não podia ser mais grave”, já que “corre o risco de pôr em causa a investigação, o que constitui um perigo para a segurança do país”. O líder do Shin Bet deixa ainda um aviso: ao tomar medidas desta natureza, Netanyahu está a enfraquecer Israel “tanto internamente como contra os seus inimigos”.
O atual executivo israelita, porém, mostrou-se insensível aos seus argumentos. No final da noite de quinta-feira, o voto pela sua demissão foi unânime e Bar terá de deixar o cargo a 10 de abril, senão antes mesmo, no caso dos ministros aprovarem entretanto o seu substituto.
Horas antes, junto aos protestantes, Carmi Gillon, outro antigo líder do Shin Bet, disse que “é possível que esta noite estejamos a assistir a um dos últimos protestos democráticos no Estado de Israel”.“Em nome da sua sobrevivência pessoal, Netanyahu está a sacrificar o Shin Bet esta noite, o procurador-geral no domingo e, no final desta semana, a destruição do estatuto do Supremo Tribunal. Na próxima semana, a crise constitucional explodirá sobre nós como uma bomba atómica, pondo fim ao regime democrático de Israel”, alertou.
Sem estar no calor das manifestações, Aharon Barak — ex-juiz do Supremo Tribunal de Justiça israelita e um dos mais respeitados juristas do país —, ofereceu um veredito igualmente pesaroso: “Há uma grave fratura entre os israelitas e eles próprios. Esta fratura está a deteriorar-se e, no final, receio que seja como um comboio que sai dos carris e se precipita num abismo, provocando uma guerra civil”, avisou.