1241,6kWh poupados 1241,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Do Iraque ao Irão: PS recupera censura a Barroso para responder aos socialistas que criticam Carneiro

Críticas de Assis e Pedroso à forma como o PS tem gerido a questão da Lajes geraram tensão interna. Ferro defende posição dura e PS lembra que censurou Governo de Barroso pelo apoio à guerra do Iraque

A posição do PS sobre as declarações de Marco Rubio e a atuação do Governo na autorização para o uso da Base das Lajes continuam a provocar discussão entre socialistas. Nos últimos dias, alguns dirigentes e até um antigo líder do partido vieram lembrar que não é a primeira vez que se endurece o tom em relação a uma ação dos Estados Unidos, apontando a moção de censura, em 2003, contra o apoio do governo português à guerra no Iraque como exemplo disso mesmo. A mensagem tem um duplo alcance: tal como então, o PS quer agora marcar uma linha vermelha em relação à “complacência” com Washington, mas também lembrar a alguns dos críticos de hoje que, em 2003, foram críticos da posição dos EUA.

Há uma semana, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, elogiou Portugal por ter sido um dos países da NATO “que foram muito úteis” no ataque ao Irão, referindo que o país disse “‘sim’ antes mesmo de lhes dizermos qual era o assunto”. A declaração de Rubio fez o PS avançar com um pedido para ouvir o ministro dos Negócios Estrangeiros no Parlamento, em termos violentos que motivaram críticas internas, como as de Francisco Assis. Mas há quem, como o antigo líder Eduardo Ferro Rodrigues, tenha vindo lembrar que o partido deve “manter a verticalidade nas posições”.

Eduardo Ferro Rodrigues era o secretário-geral do PS em 2003, altura em que o partido apresentou, no Parlamento, uma moção de censura contra o governo liderado por José Manuel Durão Barroso “pelo seu apoio ao desencadear de ações militares contra o Iraque de forma unilateral e sem apoio em resolução específica do Conselho de Segurança”. A imagem utilizada pelo partido para criticar o Governo nessa altura era, à semelhança do que acontece hoje no PS, de subserviência do país face aos EUA.

Num debate com José Manuel Durão Barroso, o então líder socialista chegou mesmo a perguntar: “Com que direito vem agora com falinhas mansas abrir as portas da Região Autónoma dos Açores a um Conselho de Guerra do qual saiu o ultimato ao Conselho de Segurança das Nações Unidas? Com que direito disse que ia ser uma cimeira para dar espaço à diplomacia e à paz? Foi enganado ou enganou os portugueses 48 horas antes da reunião das Lajes?”

A memória desta posição e da censura ao Governo começou a circular nos últimos dias, entre socialistas, através da partilha da edição do jornal oficial do partido, Ação Socialista, de março de 2003. E aconteceu na sequência da notícia do Observador com declarações de Francisco Assis sobre o tom “excitado” do partido em relação a Marco Rubio, mas também do que disse, na RTP-N, Paulo Pedroso, igualmente num tom crítico sobre a forma como o PS falou do uso das Lajes no ataque ao Irão.

Ora, em 2003, Francisco Assis e Paulo Pedroso eram deputados quando o partido censurou José Manuel Durão Barroso pelo papel que Portugal estava a desempenhar na guerra do Iraque. Pedroso tinha mesmo responsabilidades na direção do partido — surge, aliás, numa das fotografias dessa edição da publicação do Ação Socialista, em cima do palco ao lado de Ferro no comício em que o então líder socialista anunciou a moção de censura.

Eduardo Ferro Rodrigues tem sido dos mais indignados com as críticas internas à direção do PS nesta matéria. Ao Observador, o ex-presidente da Assembleia da República confirma a posição que tem partilhado com alguns socialistas de forma mais privada, lembrando que participou como secretário-geral do PS numa “manifestação contra invasão do Iraque à margem da ONU e do direito internacional” e “por muito menos do que isto”.

Nessa manifestação, recorda o antigo líder do PS, “participou António Guterres que, apesar desse ato, foi eleito secretário-geral da ONU uns anos depois, com apoio americano”. Argumento que Ferro usa para procurar refutar a ideia de que uma posição mais dura em relação aos EUA pode comprometer as relações futuras de Portugal com os norte-americanos. Para Eduardo Ferro Rodrigues, “os neocons eram uma piada comparados com Donald Trump”. “Mas se não mantivermos verticalidade nas posições do PS, o que andamos aqui a fazer?”, questiona o antigo secretário-geral do PS.

As críticas à posição oficial do partido no caso Rubio (como as de Assis e Pedroso) também caíram mal junto da atual direção socialista, que foi ao baú das memórias recuperar precisamente a censura ao governo de Barros, em 2003. Um destacado dirigente socialista também lembra ao Observador que Assis era deputado do PS e alinhou com a posição oficial do partido contrária à intervenção no Iraque e que Pedroso era porta-voz da direção de Ferro, altura em que apontava o dedo à guerra do Iraque por considerar não terem sido esgotadas as possibilidades de desarmamento pacífico no território antes de um ataque. Era, para o PS, uma guerra “desnecessária e ilegítima” e com a qual o país não devia ter “complacência”.

Nessa altura, Eduardo Ferro Rodrigues até ia mais longe e dizia que “Portugal, pela mão de Durão Barroso” estava a ser “um instrumento de divisão da Europa em benefício dos EUA”, apontando o dedo ao então primeiro-ministro por estar “alinhado com Aznar e Blair num apoio cego à administração Bush”. Foram também apresentadas moções de censura pelo PCP, Bloco de Esquerda e Os Verdes, todas chumbadas pela maioria formada pelo PSD e o CDS no Parlamento.

“Um país de cócoras e agachado”

Na última semana, Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, descreveu Portugal como “um país de cócoras” e “agachado” no momento em que os norte-americanos pediram para utilizar a base das Lajes em operações ligadas ao ataque dos EUA/Israel ao Irão. O PS chamou o ministro Paulo Rangel ao Parlamento para esclarecimentos.

Numa declaração ao Observador, quando confrontado com a posição oficial socialista neste assunto, Francisco Assis admitiu a necessidade da “aclaração” pedida pelo PS ao Governo perante “declarações ambíguas” de Marco Rubio, mas também disse que não era aceitável que o fizesse nos “termos excitados e inapropriados a que incompreensivelmente recorreu”. “O PS nunca usou retórica infantil e extremista para abordar temas de política externa”, lamentou Assis.

Paulo Pedroso disse, na RTP-N, que se tratava de “um excesso de reação” do PS e dizia que a instrução dada pelo Governo sobre as Lajes “não terá estado muito distante do que aconteceu em relação a outras dadas com governos do PS”. “Portugal nunca recusou essa autorização”, assinalou, deixando a pergunta: “Como faria o PS se estivesse no Governo?”.

Esta terça-feira à noite, numa entrevista ao canal Now, o líder do PS já pareceu atenuar um pouco a questão, ao dizer que basta que Paulo Rangel diga no Parlamento que o que Rubio disse não é verdade — o que já aconteceu em declarações públicas — para a questão ficar sanada.

“O senhor ministro dos Negócios Estrangeiros transmite essa mensagem em sede própria e com certeza que as questões ficam esclarecidas”, disse José Luís Carneiro sobre a audição parlamentar pedida pelo PS, descolando-se das iniciativas de PCP e do BE, que exigiram uma comissão parlamentar de inquérito ao caso. “Não é necessária uma comissão de inquérito, porque é normal que o ministro dos Negócios Estrangeiros responda às perguntas que lhe são feitas pelos deputados”, assinalou o líder socialista.  “Não justifica tanto nervosismo.”

Ainda assim, José Luís Carneiro não deixou de dizer que “países aliados de Portugal, como o Reino Unido, a Alemanha, a França e a Itália, atuaram de forma diferente daquela que foi a atuação do Governo português”, o que justifica mais esclarecimentos de Paulo Rangel.

Além disso, Carneiro, mesmo assumindo ter sido contactado pelo Governo português a propósito desse pedido de autorização, quer saber se as três condições exigidas a Washington para o uso da Base das Lajes foram ou não cumpridas. “Aquilo que nos foi transmitido não corresponde àquilo que foi transmitido pelo Secretário de Estado norte-americano”, notou o líder socialista.

Assis ataca “termos excitados” e “retórica extremista” do PS sobre os EUA e o uso das Lajes

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.