Já há alguns anos que os espelhos com moldura ondulada conquistaram as redes sociais: com o seu formato perfeito para uma selfie despropositada, a peça é a estrela das casas de influencers e It Girls (de Mafalda Patrício a Olívia Rodrigo). Depois vieram as chávenas ‘gordinhas’, ou chunky cups, em candy colors como o rosa ou o azul, às cores fortes como o amarelo ou o encarnado. Há cerca de um mês, numa pop up em Paris, viralizou com uma espécie de carteira para baguetes. E agora, respeitando a identidade visual que o fez ser o rei do design trendy das redes sociais, o sueco Gustaf Westman abraça uma nova coleção com o IKEA, e apresenta a sua versão do Natal — com uma peça que já é viral antes mesmo de chegar às prateleiras.
▲ Gustaf Westman desvendou o prato de almôndegas em meados de agosto, uma antecipação da coleção que é agora anunciada
O prato para almôndegas é um dos 12 artigos que compõem esta coleção, limitada e feita especialmente para a temporada festiva, e que foi pensada e trabalhada durante dois anos e meio. “A minha primeira reação foi: ‘não quero fazer coisas de Natal’. Mas rapidamente mudei de ideias. Percebi que teria liberdade criativa e poderia trabalhar com uma ótima equipa. Então quis transformar isto em algo divertido, apresentar a minha interpretação das festas”, diz o designer. Para tal, estão lá os tons de verde e vermelho tradicionais do Natal mas não só — Gustaf Westman incluiu peças no seu azul e rosa já conhecidos, e muitos artigos chunky.
Porta velas, pratos e copos são alguns dos objetos presentes nesta mesa festiva, que segundo Westman, têm muita história. “A chávena com um prato grande é inspirada na minha avó, que fazia cookies e era sempre um problema carregar os biscoitos e o vinho quente simultaneamente. Então a ideia foi poder colocar os cookies ao redor do prato e beber na chávena”, explicou o designer numa mesa redonda com imprensa internacional, em que o Observador participou. Contudo, parece que a estrela é mesmo o prato para almôndegas. “São uma tradição sueca de Natal, mas nunca são apresentadas desta forma. Adoro como o Gustaf interpretou e celebrou as almôndegas. E é uma coincidência engraçada que o IKEA está a celebrar 40 anos das nossas almôndegas este ano“, explica Anna Granath, Range Identity Manager da gigante sueca.
Um chunky cup de Gustaf Westman custa 65 euros enquanto um prato sai por 55 euros no site oficial do designer. Contudo, com a nova coleção, será possível ter peças com a mesma identidade visual, pela metade do valor. Um desafio para o talento promissor, que aos 30 anos já tem um nome próprio no universo do design internacional. “Entender o escopo e como a minha estética funcionaria num ambiente IKEA foi parte do processo. É fundamental alterar o design. Foi muito interessante aprender sobre detalhes pequenos, como por exemplo a necessidade de fazer um prato ser menor para caber mais pratos numa palete e alcançar um preço mais acessível. Tive muitas ideias que não funcionariam, por diferentes motivos, mas foi divertido trabalhar de uma outra forma”, explica Westman. “É parte da ideia desta coleção, fazer as peças de Gustaf serem acessíveis a mais pessoas”, conclui Anna Granath.
▲ A IKEA propõe um Natal ao estilo Gustaf Westman
O Jonathan Anderson do design
O trabalho de Westman é facilmente reconhecido pela diversão, seja pelas cores ou pelas linhas arredondadas. Um design que o próprio assume que pode não ser reconhecido como estilo escandinavo, apesar de discordar. “Sinto que a simplicidade e a utilização dos materiais é bastante escandinava. Vejo-me a pegar na tradição e levá-la ao mundo moderno“, explica, citando como “heróis” arquitetos como Alvar Aalto, Arne Jacobsen e Otto Wagner. “A forma minimalista como usavam os materiais é muito interessante, além do facto de serem arquitetos e designers ao mesmo tempo”, diz, afirmando que uma das suas maiores inspirações contemporâneas é o trabalho do italiano Joe Colombo. “Adoro como usa peças técnicas de forma divertida”.
Mas é no universo da moda que o designer parece buscar cada vez mais inspiração. Em junho Gustaf Westman viralizou com uma carteira para carregar uma baguete, uma peça que apresentou na sua loja pop up em Paris e que custava 550 euros. No site oficial, o designer já vende T-shirts e meias. Nas redes sociais, é o nome preferido de influencers de moda e lifestyle e tem acompanhado as semanas da moda internacionais. “Atualmente vejo-me como um designer de objetos, mas posso criar qualquer coisa. Ser criativo em diferentes áreas é algo que quero muito fazer. O meu background é em arquitetura, então no futuro, gostava de desenhar casas ou sapatos. Estou aberto a tudo”, assume Gustaf Westman.
Designer de moda preferido? Jonathan Anderson. Entretanto, distancia-se do boom que o novo diretor criativo da Dior trouxe recentemente ao mundo da moda ao apresentar a primeira coleção que leva a sua jovialidade despreocupada para a maison francesa. “É meu criador preferido há muito tempo. Gosto muito da forma como usa ideias claras na moda, criando uma qualidade que é fácil de compreender. O seu trabalho tem sido uma grande fonte de inspiração desde quando comecei.”
▲ Olivia Rodrigo e Mafalda Patrício a posar para uma selfie diante do famoso "curvy mirror"
Quem vê Gustaf Westman e as suas criações, percebe logo as referências: da ousadia traduzida nos cabelos despenteados ao potencial de levar o frescor jovem para os artigos de luxo. “Nunca o conheci, apesar de ter feito coisas pequenas para a Loewe no passado. Mas já o vi do lado de fora de uma festa“, brinca o designer. Curiosamente, Anderson anunciou recentemente que também está a arriscar no mundo do design. A sua marca homónima, a JW Anderson, vai passar a produzir coleções de clássicos e abrir as portas das lojas a outros produtos — desde arte até peças de decoração e cerâmica, com uma curadoria do criador de moda.
Semanas antes de apresentar a sua primeira coleção pela Dior em junho, Jonathan Anderson usou o Instagram da marca para lançar algumas dicas da “nova era”, entre as quais as capas de livros clássicos da literatura ou os retratos feitos por Andy Warhol. Tal como Anderson, Gustaf Westman também tem usado uma linguagem que precisa de pouco para chegar a muitos. “Vindo de uma nova geração, para mim é mais fácil adaptar ao mundo digital“, diz Westman, que reconhece que a indústria da moda chegou mais cedo, mas que “o design está cada vez mais presente neste universo. Tudo o que eu faço tento conectar com as pessoas que vão querer comprar as minhas peças no fim. Não me importo muito com a indústria, só quero entender o que as pessoas querem“.
Pop ups em apartamentos nas capitais europeias
Perceber e criar objetos desejáveis faz parte do ADN do trabalho do designer, que começou “de forma muito orgânica”. Gustaf Westman estudou arquitetura, mas rapidamente percebeu que o trabalho não era exatamente o que procurava. “Comecei a fazer projetos de design de interiores. Então, as pessoas começaram a querer comprar os objetos que eu inseria nos projetos, e foi assim que começou a minha carreira como designer”, explica. “Desenho objetos desde quando era uma criança, então não foi uma mudança tão grande. Aprendi a desenhar sozinho. A arquitetura ensinou-me a ter um processo e como fazer uma ideia se transformar num produto finalizado”.
▲ As pop ups por cidades europeias têm gerado filas do lado de fora de edifícios residenciais, tudo para conhecer o apartamento instagramável de Gustaf Westman
Contudo, o designer garante que criaria da mesma forma mesmo se vivesse há 50 anos. “É como o meu cérebro funciona. Desde o começo, o meu ponto nunca foi criar coisas especificamente para as redes sociais, mas tive a sorte de que as minhas peças se encaixam”, diz Westman. “Os meus objetos são fáceis e rápidos de perceber — só precisas de um segundo para entender o que é uma chávena, por exemplo. E isto funciona bem nas redes sociais”, diz o designer, que reconhece que as peças criadas para a digressão europeia tem ajudado a gerar reações no mercado. “Faz parte do marketing, e é muito divertido trabalhar a imaginar qual será a reação das pessoas”.
As pop-ups têm feito o trabalho de Westman chegar a toda a Europa. O designer escolheu capitais estratégicas; entre as quais Madrid, Berlim ou Amsterdam; e em cada uma das cidades decora um apartamento temporariamente com as suas peças. As casas Gustaf Westman têm provocado filas à porta de edifícios comuns, tudo para ver de perto — e fotografar — as peças do designer. Na pior das hipóteses, Westman está a criar um cenário para muitas publicações divertidas e fora da caixa nas redes sociais, e na melhor, consegue alguns formulários de encomenda de artigos que custam centenas de euros. Para já, a parceria com o IKEA leva Westman a um público mais abrangente e desperta novas possibilidades. “Foi muito divertido e estaria disposto a repetir a parceria. Fazer algo maior com o IKEA seria um sonho, sem dúvidas.”