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[Esta é a terceira parte de um especial dividido em quatro capítulos. Siga os links para ler a primeira e a segunda partes]

Cantão, 1839: A Grã-Bretanha como narco-estado

“O Vosso país fica a 60 ou 70 mil li [o li, a milha chinesa, equivale a 500 metros] da China e, todavia, os navios bárbaros obstinam-se em vir aqui em busca de vultosos lucros. A riqueza da China é usada para benefício dos bárbaros […] Com que direito usam então os bárbaros uma droga para envenenar o povo chinês? Mesmo que os bárbaros não pretendam deliberadamente causar-nos dano, ao porem o lucro acima de tudo, mostram desprezo pelo sofrimento alheio. Diga-nos, pois, onde está a Sua consciência?”.

O excerto provém de uma carta redigida em Cantão (Guangzhou) em 1839 por Lin Zexu, um alto funcionário imperial chinês, e era endereçada à Rainha Vitória. Lin perguntava também à rainha como era possível que a Grã-Bretanha achasse moral que os seus mercadores lucrassem com a venda na China de uma droga que era ilegal na Grã-Bretanha e manifestava a sua determinação em “acabar de vez com esta droga”.

Lin Zexu, numa imagem de Doings in China (1843), de Alexander Murray

A Rainha Vitória nunca respondeu – a carta não lhe chegou às mãos, mas foi publicada no The Times – mas a questão levantada por Lin era pertinente. O comércio do Ocidente com a China que começara no início do século XVI, sob o controlo de portugueses e espanhóis, aumentara extraordinariamente de volume e era dominado no início do século XIX pelos britânicos, que, entretanto, se tinham esquecido das teses sobre o mare clausum e tinham abraçado o comércio livre – com tal entusiasmo que tentavam impô-lo à força a outras nações. A China tinha porém outro entendimento do comércio internacional e restringiu as actividades comerciais europeias aos portos de Cantão e Macau (onde os portugueses tinham obtido autorização para se instalar logo em 1557).

A zona das feitorias europeias ou “bairro internacional”, em Cantão, gravura de autor anónimo, c.1850

Os produtos chineses superavam em quantidade, qualidade e variedade quase tudo o que a Europa era capaz de produzir, de forma que não havia muitos produtos europeus que pudessem contrabalançar a insaciável fome dos europeus por produtos chineses, pelo que o pagamento das mercadorias chinesas se fez sobretudo em metais preciosos – estima-se que metade da prata e ouro extraídos no Novo Mundo tenha acabado nos cofres chineses. Mas, no século XVIII, com as minas do Novo Mundo a dar sinais de esgotamento e o apetite dos europeus por seda, porcelana e mobiliário de luxo a manter-se em alta, os europeus começavam a ficar sem forma de prosseguir os intercâmbios comerciais. No entanto, a Grã-Bretanha descobriu uma solução expedita (mas nada ética) para o esvaziamento das suas reservas monetárias: o ópio, que era consumido pelas classes altas chinesas, e podia ser facilmente produzido na Índia britânica.

Fumadores de ópio chineses, gravura de Thomas Allom em The Chinese Empire illustrated (1858)

Assim , à medida que o chá, a seda, a porcelana e o mobiliário chineses iam sendo embarcados para a Europa, a entrada de ópio com origem na Índia no porto de Cantão aumentou 20 vezes entre 1729 e 1800, altura em que o número total de toxicodependentes na China rondaria os 100.000. Mas o surgimento de uma nova variedade de ópio, mais potente e mais barata, fez a procura aumentar a pique e em 1839 o ópio que entrava em Cantão já dava para alimentar o vício de 10 milhões de chineses.

Perante esta gravíssima ameaça à sociedade, à saúde pública e às finanças do Estado chinês (dado que o tráfico de ópio representava uma quebra na entrada de prata), em 1839 o imperador Daoguang encarregou Lin Zexu, que, na qualidade de governador das províncias de Hunan e Hubei, já dera mostras de determinação no combate ao comércio de ópio, de suster a entrada de ópio através de Cantão. O agora comissário Lin actuou com firmeza: deteve 1700 traficantes de ópio chineses, apreendeu milhares de cachimbos e tentou convencer os mercadores ocidentais a trocar as existências de ópio em armazém por chá. Estes recusaram e Lin empregou a força para confiscar-lhes 1200 toneladas de ópio, cuja destruição, numa praia perto de Cantão, ocupou 500 trabalhadores durante 23 dias.

Lin Zexu supervisiona a destruição de ópio, pintura chinesa

O Governo britânico ficou desagradado com a actuação do governo chinês, sobretudo depois de o lobby dos mercadores no Parlamento britânico ter conseguido que o Estado indemnizasse os comerciantes de Cantão pelo ópio confiscado pelos chineses. Havia que recuperar aquela enorme soma, pelo que a Grã-Bretanha tomou o caminho do conflito: após alguns meses de atritos, bloqueios, represálias e escaramuças, em Setembro de 1839 eclodia a Primeira Guerra do Ópio.

Em Why the West rules, for now: The patterns of history and what they reveal about the future (editado em Portugal pela Bertrand como O domínio do Ocidente), Ian Morris traça uma analogia cáustica: “é como se em resposta a uma grande operação de apreensão de droga pela Drug Enforcement Agency, o cartel de Tijuana conseguisse convencer o governo mexicano a tomar San Diego e exigir que a Casa Branca reembolsasse os barões da droga pelo valor de venda nas ruas de toda a cocaína confiscada (acrescido de juros e custas) e ainda suportasse o custo da operação militar. Imagine-se ainda que […] uma frota mexicana ocupava a Ilha de Catalina [território americano ao largo de Los Angeles] para o usar como base de operações e ameaçava Washington com um bloqueio até que o Congresso concedesse aos barões da droga de Tijuana direitos de monopólio em Los Angeles, Chicago e Nova Iorque”.

Navios britânicos disparam contra juncos chineses na Baía de Anson, a 7 de Janeiro de 1841. Quadro de Edward Duncan, 1843

A guerra estendeu-se até Agosto de 1842 e saldou-se numa série de vitórias britânicas, já que os juncos chineses não eram adversários para os poderosos vasos de guerra da Royal Navy.

O imperador Daoguang não teve outro remédio senão autorizar os seus representantes a assinar uma paz extraordinariamente desvantajosa para a China – o Tratado de Nanquim determinou a abertura de cinco portos chineses à navegação estrangeira, a cedência de Hong Kong aos britânicos e o pagamento pelos chineses de uma indemnização de 21 milhões de dólares (a compensação pelo ópio confiscado por Lin Zexu, acrescido de reparações de guerra). O tratado de paz era, porém, omisso em relação ao assunto que motivara a guerra: o estatuto legal do comércio de ópio.

Assinatura do Tratado de Nanquim a bordo do HMS Cornwallis, a 29 de Agosto de 1842, gravura de John Burnet a partir de quadro do capitão John Platt, 1846

Baía de Edo, 1853: Comércio livre à força

Enquanto a China passava por estes sobressaltos e humilhações, o Japão continuou, a viver suspenso no tempo, de acordo com usos e leis que pouco tinham mudado desde a Idade Média – se descontarmos uma discreta infiltração de costumes “bizarros” em torno de Nagasaki, como o hábito de beber café, chocolate ou cerveja.

Este sono prolongado foi brutalmente interrompido a 8 de Julho de 1853 pela chegada do comodoro Matthew Perry, à frente de quatro vasos de guerra da Frota das Índias Orientais da Marinha de Guerra Americana, à baía de Edo (hoje Tóquio). Perry fora incumbido pelo governo dos EUA de uma missão muito clara: forçar o Japão a abrir-se ao comércio internacional, em nome de uma missão civilizadora, que pretendia levar as conquistas do progresso a uma atrasada nação asiática, mesmo que contra a vontade desta. Em 1846, o comodoro James Biddle já tinha sido incumbido desta mesma missão, mas depois de ver as suas pretensões negadas pelo shogunato, levantara ferro.

Os dois navios comandados por James Biddle na baía de Edo, em 1846, numa gravura de John Eastley, 1948

Mas Perry não estava disposto a aceitar um não como resposta: entregou uma carta com as suas exigências, disparou umas salvas a pretexto da comemoração do Dia da Independência (já passado), para dar ideia do poderio dos canhões americanos, e prometeu regressar no ano seguinte para saber da resposta das autoridades japonesas – que, por enfermidade do shogun e divisão de opiniões perante a forma de reagir à demonstração de força americana, estavam semi-paralizadas.

O USS Mississipi, o navio-almirante da frota do comodoro Matthew Perry que aportou ao Japão

Perry regressou seis meses depois, com mais navios e obrigou os japoneses a assinar o Tratado de Kanagawa, que abria os portos japoneses aos navios e comerciantes americanos; seguiram-se em rápida sucessão, tratados similares entre o Japão e a Grã-Bretanha (1854), Rússia (1855) e França (1858) – a política de Sakoku chegava abruptamente ao fim.

A chegada ao Japão do comodoro Matthew Perry, numa estampa japonesa da época

Alguns dirigentes japoneses estavam bem conscientes da crescente disparidade entre o poder bélico japonês e ocidental e perceberam que, se não tomassem a iniciativa, seriam rapidamente dominados. O país passou por uma breve convulsão, que pôs termo ao shogunato e devolveu o poder ao imperador – que havia séculos estava remetido a um papel decorativo –, dando início à era Meiji, durante a qual foram realizadas profundas reformas no aparelho de Estado e na organização e funcionamento da sociedade. Um dos principais eixos da reforma Meiji foi o envio ao Ocidente de delegações empenhadas em absorver tudo o que lhes parecesse proveitoso no domínio da ciência, da tecnologia e da organização e adaptá-lo ao Japão. Tão bem desempenharam a sua missão que o Japão fez avanços de séculos em apenas 50 anos e em 1904-5, ao infligir uma pesada derrota à Rússia, mostrou que tinha de ser contada entre as grandes potências mundiais.

Matthew Perry numa estampa japonesa da época, naquele que é uma das primeiros retratos de um ocidental na arte japonesa

Pequim, 1860: “A recompensa da perfídia e da crueldade”

As condições muito favoráveis concedidas pelo Tratado de Nanquim não foram suficientes para satisfazer a cobiça e arrogância crescentes dos britânicos, que, passada uma década sobre a assinatura do acordo, começaram a fazer pressão para a sua revisão, de forma a legalizar o comércio de ópio, abrir completamente a China aos comerciantes britânicos, isentar os produtos importados da taxas alfandegárias dentro da China e mais uma série de exigências ultrajantes para uma nação soberana como a China. O apresamento pelas forças chinesas de um navio britânico suspeito de pirataria, em Outubro de 1856, deu azo a retaliações britânicas, que marcaram o início da Segunda Guerra do Ópio. A França juntou-se à Grã-Bretanha, a pretexto da execução de um missionário francês na província de Guangxi, onde não era permitida a presença de estrangeiros, mas a verdadeira motivação da França era obter também a sua quota-parte no saque da China, uma corrida em que também participavam a Rússia e os EUA (e, mais tarde, a Alemanha e o Japão).

“Um ovo complicado de chocar”: cartoon de J.S. Pughe na revista satírica Puck de 6 de Abril de 1901. A pulsão das grandes potências para se aproveitar da fraqueza da China dominou a geopolítica asiática durante a segunda metade do século XIX e início do século XX

A Segunda Guerra do Ópio, que também correu muito mal para a China, teve um interregno em 1858, com a assinatura do Tratado de Tianjin (Tientsin). Este previa uma nova série de concessões pela parte da China – abertura de mais 10 portos ao comércio com o Ocidente, direito de navegação de navios estrangeiros no Rio Yangtze, acesso a regiões interditas da China, etc. – mas o governo chinês recusou-se a ratificar o acordo e a guerra foi retomada. A Segunda Guerra do Ópio foi muito mais devastadora para a China do que a Primeira, pois além de ter tido travada no mar, teve também importantes desenvolvimentos em terra, com o moderno exército anglo-francês a infligir pesadas derrotas às obsoletas e desorganizadas forças chinesas.

Assalto do Palácio de Verão pelas tropas francesas, em 1860

Com os anglo-franceses às portas de Pequim, o imperador Xianfeng – filho de Daoguang – pôs-se em fuga e encarregou o príncipe Gong de negociar a paz com os europeus. Estes fizeram questão de deixar claro que desta vez não se contentariam com nada menos do que a submissão total: saquearam o Antigo Palácio de Verão e o Palácio de Verão e, sob as ordens de Lord Elgin (o mesmo que dá nome aos mármores pilhados da Acrópole de Atenas que estão no British Museum), incendiaram o primeiro, alegadamente para dissuadir os chineses de tomar europeus como reféns.

Pilhagem do Antigo Palácio de Verão pelas forças anglo-francesas, em 1860, numa gravura publicada no número de 22 de Dezembro de 1860 de L’Illustration

A tarefa de destruir o Antigo Palácio de Verão – que, mais do que um simples palácio, era um deslumbrante complexo de edifícios, pavilhões, jardins, lagos, cascatas e obras de arte que se estendia por 350 hectares – empregou os esforços de 3500 soldados britânicos. O capitão Charles Gordon (que chegaria a general e se tornaria numa figura de proa do colonialismo britânico), que era um dos encarregados do cumprimento das ordens de Elgin, recordou o assim o “feito”: “Fomos e pilhámos e incendiámos aquilo tudo, como se fôssemos vândalos […] Desempenhei bem a minha missão […] Mal poderão imaginar a beleza e magnificência dos lugares que incendiámos. Até nos confrangia o coração puxar-lhes fogo; na verdade, eram tão amplos e nós tínhamos tão pouco tempo que nem pudemos saqueá-los como devia ser”.

O fogo no Antigo Palácio de Verão lavrou durante três dias e quanto terminou os britânicos deixaram, em jeito de aviso, uma inscrição em chinês entre as ruínas fumegantes: “Eis a recompensa da perfídia e da crueldade”.

Implícita ficou a ameaça de que se a China não aceitasse as condições (leoninas) do Tratado de Tianjin, a Cidade Proibida teria o mesmo destino – aliás, Lord Elgin propusera esta acção, mas os representantes russo e francês argumentaram que tal constituiria uma afronta tão grave que os chineses se recusariam a assinar a paz.

Um aspecto do Antigo Palácio de Verão, antes de ser arrasado pelas tropas de Lord Elgin

A China acabou por ratificar o Tratado de Tianjin e assinar a Convenção de Pequim – da combinação dos dois documentos resultava a concessão de novos territórios aos britânicos, a abertura de mais portos aos europeus, a instituição da liberdade religiosa na China (ou seja, liberdade para a missionação ocidental), a autorização para navios britânicos transportarem trabalhadores chineses em regime de semi-escravatura para as Américas e o pagamento de uma pesada indemnização de guerra aos britânicos e franceses.

Ruínas do Antigo Palácio de Verão

E resultava também a principal razão por que a Grã-Bretanha começara a guerra: a legalização do comércio de ópio na China, cujo volume continuou a crescer, estimando-se que no final do século XIX o número de viciados atingisse 30 milhões – cerca de 10% da população.

Importação de ópio pela China, em toneladas, 1650-1880

Londres, 1860: Um brinde com vinho francês

Ao mesmo tempo que impunham à força à China o comércio livre, a Grã-Bretanha e a França assinavam em Londres, a 23 de Janeiro de 1860, um tratado que reduzia substancialmente as tarifas dos principais produtos comerciados entre os dois países e que é visto por alguns economistas como o primeiro acordo de comércio moderno.

Após um domínio do proteccionismo no século XVIII, a maioria das nações europeias foi favorecendo o comércio livre ao longo do século XIX, tendência que teve momento decisivo em 1860 com a assinatura do Tratado Cobden-Chevalier, assim denominado por ter sido negociado (secretamente) por Richard Cobden, em nome da Grã-Bretanha, e Michel Chevalier, pela França. Foi a França, que tinha forte tradição proteccionista, que fez descer um maior número de taxas, pois a Grã-Bretanha já tinha um regime tarifário muito livre, com excepção de alguns produtos franceses, como vinhos e vestuário de luxo. O acordo deu um bom empurrão à economia francesa, que viu as suas exportações aumentar 400% entre 1846 e 1875.

Lord Palmerston dirige-se à Câmara dos Comuns durante os debates sobre a aprovação do Tratado Cobden-Chevalier, em 1860. Quadro de John Phillip, 1863

Mas vale a pena realçar que apesar da sua advocacia do comércio livre junto das outras nações, a Grã-Bretanha nem sempre o punha em prática, sobretudo quando o parceiro comercial não tinha poder ou meios para exercer represálias ou estava sob administração colonial britânica. Era o que se passava com a Índia: enquanto os tecidos de algodão provenientes da Grã-Bretanha eram taxados na Índia a 2.5%, os tecidos de algodão indianos pagavam uma taxa de 15% para entrar na Grã-Bretanha. Para mais, os Navigation Acts, que requeriam que as trocas comerciais entre a Grã-Bretanha e o seu império se fizessem obrigatoriamente com recurso a navios britânicos, continuaram em vigor muito depois de a Grã-Bretanha se ter tornado na maior potência mundial e só foram revogados em 1849.

Porto de Bombaim, 1870

De qualquer modo, o Tratado Cobden-Chevalier foi o primeiro de uma série de acordos que reduziu significativamente as tarifas aduaneiras entre a maior parte dos países europeus – desta onda liberalizadora ficaram de fora os impérios socialmente mais retrógrados e com economias mais arcaicas: Rússia, Austro-Hungria e Turquia. Outra excepção foram economias emergentes como os EUA.

Washington, c.1870: Comércio livre? Sim, quando nos der jeito

Nos seus primórdios, os EUA impuseram tarifas elevadas e um dos primeiros a defender essa política foi Alexander Hamilton, um dos “Pais Fundadores” dos EUA e o primeiro a desempenhar o cargo de Secretário do Tesouro da jovem nação (entre 1789 e 1795), que advogou, no Report on manufactures que apresentou ao Congresso em 1791, que, sem tarifas, as indústrias nacionais nunca conseguiriam desenvolver-se: as tarifas não só restringiam a entrada dos produtos estrangeiros como as receitas com elas obtidas serviriam para subsidiar a indústria nacional. Segundo Hamilton, nos primeiros tempos as tarifas poderiam fazer encarecer os produtos, mas “uma vez que a manufactura doméstica tenha atingido a perfeição, ela tornar-se-á invariavelmente mais barata”.

Salem Harbor, Massachusetts, um dos principais portos marítimos nos primeiros tempos dos EUA, por Fitz Henry Lane, 1853

A política proteccionista americana entrou em força com a lei tarifária de 1816, que era para ser temporária, extinguindo-se após três anos. Porém, os Estados do Norte, onde se concentravam as indústrias, tentaram torná-la permanente, o que causou atritos com os Estado do Sul, que sofriam com o encarecimento geral dos preços dos produtos, sem daí tirar benefícios – o que demonstra que o proteccionismo não beneficia/prejudica um país por igual. O conflito tornou-se mais aceso com a “Tariff of Abominations”, de 1828, durante a presidência de John Quincy Adams, que impôs uma tarifa de 38% a 9% sobre os produtos importados, para grande contrariedade dos estados do Sul, que baptizaram a tarifa como “abominável”. O vice-presidente John C. Calhoun, que era da Carolina do Sul, opôs-se à medida e reclamou que ela fosse declarada inválida no seu estado – não logrou o seu intento e também não conseguiu de John Quincy Adams mais do que uma pequena redução na lei tarifária promulgadas em 1832, pelo que acabou por demitir-se do cargo.

O vice-presidente John C. Calhoun, num retrato por George Peter Alexander Healy, c.1845

Aos repetidos apelos da Grã-Bretanha ao comércio livre, o presidente americano Ulysses S. Grant (cujo mandato foi de 1869 a 1877) respondeu: “Durante séculos, a Inglaterra confiou no proteccionismo, praticou-o até ao limite e obteve dele resultados satisfatórios. Não há dúvida de que a ele deve o seu presente poder. Após dois séculos [de proteccionismo], a Inglaterra entendeu ser conveniente adoptar o comércio livre pois crê que o proteccionismo já nada tem a oferecer-lhe. […] O conhecimento que tenho do nosso país leva-me a crer que dentro de 200 anos, quando a América tiver obtido do proteccionismo tudo o que ele pode oferecer-lhe, também ela adoptará o comércio livre”.

O porto de Boston, por Fitz Henry Lane, 1854

As expectativas expressas pelo presidente Grant quanto ao desenvolvimento da economia americana eram extraordinariamente pessimistas: em vez de 200 anos, bastaram 30 para que os produtos americanos fossem capazes de bater-se com os europeus, pelo que no início do século XX, os EUA reduziram as suas tarifas para níveis similares aos da Grã-Bretanha e França.

Evolução das tarifas aduaneiras sobre importações na França, Grã-Bretanha e EUA, 1830-2010

A liberalização do comércio mundial prosseguiu a ritmo acelerado, impulsionada por inovações como o telégrafo e o telefone, a generalização da navegação a vapor, a abertura dos canais do Suez e Panamá e a introdução do transporte refrigerado, de forma que na véspera da I Guerra Mundial as economias das principais potências estavam de tal modo interligadas que muitos julgavam que tal seria, por si só, um forte dissuasor de um conflito mundial – e, na verdade, os grandes industriais e banqueiros fizeram os possíveis junto dos políticos dos respectivos países para impedir a escalada bélica.

Comércio livre e proteccionismo, num cartaz do Partido Liberal britânico, c. 1905-10

[continua]