Emma Dante atira-nos uma frase: “Dancemos, dancemos, senão estamos perdidos.” A dramaturga e encenadora italiana socorre-se da urgência e resistência de Pina Pausch para explicar a origem do espetáculo que tem honras de encerramento da 42ª edição do Festival de Almada, Extra Moenia, que sobe ao Palco Grande da Escola D. António da Costa para uma sessão única esta sexta-feira, às 22h.
“A dança de Pina Bausch não tem nada a ver com coreografia, era a dança da vida. Acredito muito nesta citação dela, acredito na força do pensamento que move o corpo, acredito na viagem, na deslocação. Acredito que crescer significa, acima de tudo, visitar outros lugares, outros hábitos e tradições. O teatro ensinou-me essa maravilhosa viagem na dança da vida, onde nada é garantido e a cada passo se pode tropeçar”, começa por dizer ao Observador. “A nossa dança está sempre em perigo, pelas guerras, pelas atrocidades, pela discriminação, pela violência, mas continuo a acreditar no papel da arte como um remédio. A ideia de Extra Moenia nasceu da minha necessidade de me interrogar sobre os grandes temas da vida, da exploração de outros lugares”.
▲ É o regresso da encenadora e realizadora siciliana Emma Dante ao Festival de Almada depois do sucesso de "As irmãs Macaluso", em 2014
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Extra Moenia parte de uma expressão latina que significa “fora dos muros da cidade” e toma esse princípio de deslocação como motor dramatúrgico e simbólico. Em palco, 14 intérpretes de origens diversas compõem uma comunidade que se encontra fora das paredes de casa, na rua, para viver as maravilhas e as misérias da vida. Primeiro num comboio, depois numa praça, numa igreja, num bar. Ao frio, ao calor, num lugar inseguro onde um atentado espalha o pânico — até chegar ao mar, num naufrágio coletivo. No final do dia, essa comunidade está submersa num mar de plástico, à deriva. Mas, no meio desse mosaico frenético, “do amanhecer ao pôr do sol, todos caminham juntos, na mesma direção”. “O caminho é a única forma de se libertar da própria carga num ritual partilhado, libertador e poderoso”, nota Dante, que resume que o ponto de partida de Extra Moenia é, por isso, “o caminho, o movimento”. “Ao moverem-se juntos na mesma direção, esta comunidade fortalece-se, cria solidariedade entre si”.
Caminhar sempre fez parte do “fazer teatral” da dramaturga e realizadora nascida em Palermo, na Sicília, onde continua a viver. “Com a minha companhia, sempre caminhámos muito, durante horas, durante tardes inteiras… O nosso principal exercício foi, antes de tudo, mover-nos em linha reta, para a frente e para trás, alinhados, com o mesmo ritmo, a mesma respiração. Este exercício, que aprendi com o meu mestre Gabriele Vacis, chama-se schiera. A schiera tem um significado político e social: é uma forma de irem todos na mesma direção, de partilhar um pensamento, uma ação, a schiera cria família, cria comunidade, cria moral, ética, uma posição política.”
▲ O espetáculo com a duração de uma hora apresenta-se em siciliano (legendado) e tem honras de encerramento do certame
rosellina garbo
Desta vez, o “manifesto político e social” de Emma Dante resulta num espetáculo sobre os os invisíveis do quotidiano: há um ferroviário, uma mulher ucraniana que foge dos bombardeamentos, um migrante que chega do Congo, um militar que exalta a guerra, dois apaixonados em que ela hesita em casar, uma família religiosa, uma mulher iraniana, dois jogadores do Palermo. “São fragmentos de horror e de beleza” que tomam um palco despido e habitado apenas pelas paisagens de corpos, luzes e sons. “É um espetáculo mais performativo que narrativo. Desde o início, nasceu como o fluxo de um riacho: devia correr. As atrizes e os atores tinham de formar uma comunidade em movimento e, no movimento, desenrolar a vida. É um espetáculo que fala de todos para todos. Quase elementar, como elementares são comer, caminhar, trabalhar, morrer”. Também não há um enredo claro, tal como a vida, que “nunca tem um enredo preciso, nunca é coerente até ao fim, e certamente não é negociável”. “Gosto de pensar que, do mesmo modo, um espetáculo pode, na sua narrativa, aproximar-se da vida”, comenta a encenadora.
A verdade em cena não vem da biografia dos intérpretes, mas da sua capacidade de observação e empatia com o outro. “Acredito muito na autoria dos atores e atrizes, na sua singularidade e insubstituibilidade”.
Um teatro que não quer ser confortável
Emma Dante, que regressa a Almada depois do enorme sucesso que foi As irmãs Macaluso, em 2014, que correu mundo e a afirmou como incontornável encenadora e dramaturga italiana dos nossos tempos, responde por escrito às perguntas do Observador em virtude da barreira linguística que nos separa — explicação que não usa para se furtar às perguntas ou encostar-se aos monossílabos.
▲ "Extra Moenia” apresenta-se esta sexta-feira, às 22h, no Palco Grande da Escola D. António da Costa, em Almada
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Extra Moenia é também uma resposta à inquietação contemporânea. “Sempre acreditei que o teatro deve incomodar o espectador, e não criar-lhe uma zona de conforto. Assim como os atores, também os espectadores devem arriscar algo”, considera. “Não me interessa o teatro de entretenimento, preciso que um espetáculo faça refletir, que mexa com algo profundo, algo tremendo. Dentro de nós há sempre algo enterrado que o teatro deve desenterrar… E lidar com esse cadáver não pode ser algo agradável”.
Que cadáver é esse que Emma Dante expõe em Extra Moenia? Um retrato brutal da vida nas cidades europeias contemporâneas. A peça mergulha em temas como a guerra, as migrações forçadas, a crise ecológica e de habitação, a violência contra os corpos das mulheres, o medo do colapso global, o peso da religião sobre as massas e a repressão crescente imposta por governos autoritários — com os seus interditos, proibições e ordens que moldam o quotidiano. “É por isso que faço teatro: para manifestar o meu direito à liberdade”, afirma. “Contra o mal da imposição, acredito na liberdade como único refúgio.” Um refúgio onde os corpos contam histórias que a sociedade prefere não ouvir, e onde a arte é, como a dança de Bausch, uma urgência vital: “Senão estamos perdidos.”