A automação avançada, a inteligência artificial, a análise de dados e os sistemas interconectados são, hoje, pilares estruturantes da competitividade económica. Neste novo contexto, as competências humanas tornam-se determinantes para acompanhar a velocidade da inovação e responder às exigências dos mercados.
Foi precisamente nestas questões que os intervenientes do Encontro Fora da Caixa, que aconteceu no passado dia 26 de março em Braga, se focaram.
Como já é habitual, a abertura do evento ficou a cargo de Paulo Moita de Macedo, Presidente da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos, que começou por referir que tem havido não só um desenvolvimento exponencial, mas também um investimento sem paralelo na inteligência artificial, que “vai alterar completamente a forma de produção e de organização do trabalho”.
▲ Paulo Moita de Macedo, Presidente da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos
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Paulo Moita de Macedo alertou para o gap de produtividade que ainda existe entre os Estados Unidos – o líder na IA – e a Europa, afirmando que a melhor forma de o atenuar é através de tecnologias disruptivas, novos investimentos e novas áreas de crescimento. “Os Estados Unidos têm o maior investimento em inteligência artificial, nós temos o maior investimento em regulação. A regulação de certeza que é necessária, agora, se calhar, era melhor ser balanceada. Era bom estarmos a competir com os Estados Unidos e regularmos”.
O Presidente da Comissão Executiva da CGD terminou fazendo referência aos entraves à produtividade e ao que será necessário para os eliminar. Referiu que, segundo o World Economic Forum, as maiores barreiras à transformação continuam a ser a falta de competências dos trabalhadores de todos os níveis, mas também a dificuldade em atrair talento e em identificar oportunidades. Os negócios que têm mais potencial de crescimento no futuro são aqueles onde a componente de inovação é maior e, para isso, continuam a ser necessárias competências como o pensamento analítico, a criatividade e a resolução de problemas complexos, mas passa a ser fundamental, também, ter a capacidade de dominar ferramentas tecnológicas e inteligência artificial.
Os efeitos dos eventos da atualidade na economia
O Encontro Fora da Caixa seguiu com a também já habitual intervenção de Rui Martins, Diretor de Estratégia da Caixa Gestão de Ativos, que contextualizou as tendências para o futuro próximo da economia à luz dos mais recentes eventos geopolíticos.
▲ Rui Martins, Diretor de Estratégia da Caixa Gestão de Ativos
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Mesmo com o conflito no Médio Oriente, prevê-se que os Estados Unidos continuem a trajetória de crescimento económico. No caso da Europa, por outro lado, é de esperar uma desaceleração, que pode ser moderada, dependendo da duração do conflito. Portugal será, sem dúvida, uma das economias expostas, prevendo-se um impacto de 0,5% no crescimento da economia (os números do Banco de Portugal apontavam para um crescimento acima dos 2%).
Relativamente à inflação, o impacto também poderá ser menos significativo do que em eventos passados, ainda que haja um aumento. Consequentemente, também se prevê que o Banco Central Europeu aumente as taxas diretoras já em junho. Quanto aos mercados, Rui Martins afirma que “vamos assistir a um aumento da incerteza económica global”.
Podcast Observador: o impacto da guerra no Médio Oriente
Durante a conferência, os convidados tiveram oportunidade de assistir à simulação de um episódio de podcast do Observador. O host Paulo Ferreira recebeu Pedro Brinca, professor de Economia na NOVA SBE, e a conversa focou-se no conflito atual e no impacto que poderá ter na economia, que, para Pedro Brinca, depende da duração, da recuperação ou não da navegabilidade do Estreito de Ormuz, bem como da dimensão da destruição da capacidade produtiva.
▲ Pedro Brinca, professor de Economia na NOVA SBE, e Paulo Ferreira, host do Observador
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No que diz respeito à resposta das entidades para fazer face às consequências do conflito, o professor de Economia considera que há uma certa falta de coordenação a nível europeu. No caso de Portugal, referiu que o país não está a fazer tanto como outros. No entanto, considera que é essencial ajudar quem precisa de ser ajudado e, ao mesmo tempo, deixar o sistema de preços funcionar.
Quanto à possibilidade de haver choques constantes que afetem a economia, como a pandemia, a guerra na Ucrânia, as tempestades e agora a guerra no Médio Oriente, Pedro Brinca refere que Portugal tem vindo a aprender com essas situações e a criar instrumentos e estratégias que permitam lidar eficazmente com eventos futuros. “Creio que agora talvez estejamos numa altura em que estamos mais equilibrados do ponto de vista de perceber que um quadro institucional forte pode lidar com os choques de uma maneira muito menos traumática. Acho que estamos num ponto mais equilibrado no que é o pensamento da ação sobre a economia”.
As competências que criam vantagem
No primeiro painel da tarde, que juntou José Teixeira, Presidente do Conselho de Administração e CEO do Grupo DST, Nuno Lameiras, Administrador do Grupo TRÊS60 e Francisco Cary, Vice-Presidente da Caixa Geral de Depósitos, falou-se sobre as competências que distinguem trabalhadores e organizações num contexto económico incerto e competitivo.
▲ José Teixeira, Presidente do Conselho de Administração e CEO do Grupo DST, Nuno Lameiras, Administrador do Grupo TRÊS60, Francisco Cary, Vice-Presidente da Caixa Geral de Depósitos, e Paulo Ferreira
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Para José Teixeira, é fundamental haver trabalhadores cultos, com espírito crítico e com imaginação. Nas empresas e instituições, diz o CEO do Grupo DST, é necessária “uma espécie de dose de loucura coletiva” que ajude a criar valor. Quanto às questões da sustentabilidade, diz José Teixeira que não nos devemos focar apenas na sustentabilidade ambiental. É preciso, também, haver sustentabilidade social, com salários a “serem compatíveis com os níveis que a empresa tem, porque esses níveis de riqueza dependem dos trabalhadores”.
Francisco Cary focou-se no setor da banca, mais especificamente na Caixa, referindo que, atualmente, o banco investe cerca de 200 milhões de euros anuais na digitalização. Quanto às competências que procuram, dão prioridade a quem tem mais literacia digital, capacidades analíticas e conhecimentos de inteligência artificial, sem deixar de lado as competências “tradicionais”, como o trabalho ágil e colaborativo, o pensamento crítico e as capacidades de comunicação e decisão. O Vice-Presidente da CGD afirma que, hoje, o banco tem uma maior diversidade e complementaridade de competências. “Se calhar, antes eram muito mais pessoas de economia e gestão. Hoje, acabamos por ter pessoas com formações mais diversas, de letras e até cursos de ciências humanas”.
Por fim, Nuno Lameiras é da opinião que o país tem capital humano bastante qualificado, ainda que haja algumas falhas nalguns tipos de perfis. Assim, para o Administrador do Grupo TRÊS60, a par da seleção das pessoas, também é fundamental a sua capacitação através de formações técnicas e profissionais, mas não só. Segundo Nuno Lameiras, as empresas precisam que os seus colaboradores tenham “além da capacitação técnica, uma capacidade relacional e uma grande capacidade de adaptação, de transformação face aos acontecimentos que ocorrem”.
Decidir entre curto e longo prazo
Quase a terminar o Encontro, Jorge Portugal, Diretor-Geral da COTEC, esteve à conversa com Ana Casaca, Diretora de Inovação da Galp e uma das juradas do Prémio Inovação para a Sustentabilidade. O debate centrou-se na tensão entre os resultados imediatos que as empresas devem mostrar e o investimento estratégico que é necessário no longo prazo, tendo como pano de fundo o prémio e as empresas que a ele concorreram.
▲ Jorge Portugal, Diretor-Geral da COTEC, e Ana Casaca, Diretora de Inovação da Galp
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Para Ana Casaca, a inovação disruptiva por si só não é possível se numa empresa não existir igualmente inovação incremental. É essa, aplicada diariamente, que permite, depois, investir em projetos mais “fora da caixa”. E segundo a Head of Global Innovation da Galp, a inovação é mais cultura do que tecnologia. “Uma empresa inovadora é aquela que permite e cria as condições internas, mas também com parceiros externos, para testar constantemente novas soluções e aprender com isso de uma forma rápida”.
Quanto às empresas que concorreram ao Prémio Inovação para a Sustentabilidade, Ana Casaca considera que o mais surpreendente foi o facto de todos os finalistas apresentarem não só iniciativas, mas projetos concretos que implicaram tomadas de decisão, “uma coragem enorme em assumir trade-offs de curto e longo prazo, e também uma capacidade gigante de execução”.
Premiar o que de mais inovador se faz no caminho para a sustentabilidade
O Encontro Fora da Caixa contou, pela primeira vez, com a atribuição do Prémio Inovação para a Sustentabilidade, uma parceria entre a Caixa e a COTEC. Entregue por Fernando Alexandre, Ministro da Educação, Ciência e Inovação, o prémio distinguiu a Coficab Portugal, que foi a grande vencedora de entre seis empresas finalistas.
▲ Entrega de Prémio Inovação para a Sustentabilidade
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“Temos de estar constantemente a inovar e isso é que é a obra da inovação, o impacto que pode ter, ou que tem, financeiramente nas empresas. Este risco que se assume, esta aposta de longo prazo, é isso que este prémio criado com a Caixa pretende analisar: as empresas que tomam decisões, que têm coragem, que pensam e o impacto que isso tem”, afirma Filipe de Botton, Presidente da COTEC Portugal.
▲ Filipe de Botton, Presidente da COTEC Portugal
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Investir mais e melhor em educação, ciência e inovação
O encerramento do evento ficou a cargo de Fernando Alexandre, que focou o seu discurso no papel estrutural que a educação, a ciência e a inovação têm no desenvolvimento do mundo e do país.
O Ministro da Educação, Ciência e Inovação começou por referir a grande incerteza e falta de previsibilidade que se vive hoje em dia, resultado de grandes mudanças geopolíticas, mas também de alterações tecnológicas profundas. “Hoje é mais difícil prever o futuro não apenas porque não sabemos que inovações é que vamos ter amanhã, mas porque o impacto dessas inovações é muito maior. E é muito maior pela natureza dessas inovações, em particular da inteligência artificial, mas também porque o mundo hoje é muito mais interdependente e aquilo que acontece em qualquer ponto do globo transmite-se a todo o globo e de formas que são muitas vezes também elas imprevisíveis”.
Para lidar com essa complexidade, Fernando Alexandre afirma que a única solução é mais educação e mais conhecimento. No entanto, não chega apenas investir mais. “É preciso saber em que competências, no caso da educação, e na ciência em que áreas e para quê”.
No cocktail de encerramento do encontro, houve espaço para um momento musical conduzido pelo saxofonista Manuel Lourenço.