Teve mais 1.018 votantes, acabou com menos 5.832 votos, reuniu 36,84% das preferências, ficou a cerca de cinco pontos e meio percentuais do vencedor. João Benedito, antigo jogador e capitão do futsal do Sporting, foi um dos protagonistas das eleições do Sporting em setembro de 2018, acabando por ser derrotado por Frederico Varandas numa corrida a seis onde os restantes candidatos juntos ficaram apenas com 20%. No entanto, e ao contrário do que costuma ser normal no clube, quis ficar suficientemente longe para não perturbar os órgãos sociais mas suficientemente perto para acompanhar a realidade dos leões como sempre fez. Com isso, ao longo de três anos e meio preferiu recusar todos os pedidos de entrevista que foi recebendo, até mesmo quando lhe chegaram a dizer que se falasse poderia contribuir para que tudo mudasse no clube. Agora, na antecâmara de novo ato eleitoral e após o fecho do mercado, quebra o silêncio.
Em entrevista ao Observador, o agora gestor de 43 anos assume que não será candidato nas eleições do clube de Alvalade de 5 de março e explica as razões que o levam a tomar essa posição depois dos 39.187 votos que reuniu em 2018. “Neste momento vejo que há um indicador muito importante que tem de ser respeitado, que é a felicidade dos sportinguistas”, destaca em relação a uma decisão mais difícil de tomar do que em 2018. Ainda assim, e entre a visão “construtiva e não crítica” do que correu melhor ao longo dos últimos três anos e meio, aponta aquilo que entende serem as grandes prioridades para aquilo que define como “o mandato mais importante da história do Sporting porque pode correr o risco de deixar de ser dos sócios”.
O Sporting fecha esta quinta-feira o prazo para a apresentação de candidaturas, o João Benedito foi o candidato com mais votantes mesmo não tendo mais votos nas últimas eleições de 2018. Vai ser novamente candidato?
Este processo eleitoral vai ser um processo muito importante para o Sporting mas, de forma objetiva, não serei candidato nestas eleições.
Por alguma razão em especial?
Por várias razões. Para tomar uma decisão destas os critérios de ponderação são muito elevados. Em 2018 candidatei-me com um compromisso de voltar a trazer o desporto ao clube mas neste momento vejo que há um indicador muito importante que tem de ser respeitado, que é a felicidade dos sportinguistas. Acho que, com o manancial que todos aqueles votantes me deram e com a legitimidade que me conferiram em 2018, estar a candidatar-me neste momento e estar a pôr em causa de alguma forma esta estabilidade que se está a viver não fará sentido. É uma decisão muito ponderada, em 2018 foi uma decisão difícil porque não é fácil para alguém que esteja por bem a avançar para uma instituição como o Sporting, tem de ser algo muito refletido. Mas se tivesse de escolher entre as duas decisões, esta agora custou-me um pouco mais.
Acredita então que, dentro de todo o universo de votantes em 2018, o que impera nesta altura é a felicidade e não o modelo que defendia?
São alturas completamente diferentes. O Sporting tem essa característica muito própria de conseguir viver emoções díspares em curtos espaços de tempo. Neste momento, avaliando o que se está a passar, e mesmo sabendo que a avaliação de um clube e do que é a sua gestão tem de ser feita a mais níveis, para o comum adepto e para aquele que gosta do Sporting, aquele que é sócio e simpatizante, que educa os seus filhos sobre as premissas sportinguistas, ele está feliz com o que é a vertente desportiva. Há outros aspetos que têm de ser analisados, como o fenómeno social ou a questão financeira, a parte institucional que tanto se falou, como os estatutos e afins, mas, neste momento, o Sporting conseguiu inserir-se num clima onde temos de analisar esta vertente desportiva dos títulos, olhar para as premissas financeiras de estarmos em lugares de Champions que são muito importantes. Esta ponderação não tem só a ver com as eleições e com o último dia de uma possível candidatura porque entretanto fechou o mercado e essa estabilidade era também importante. E temos de olhar ainda para um último ponto que é o desnorte dos nossos adversários ou concorrentes, não gosto de dizer adversários, um desnorte total por parte de Benfica e FC Porto…
Então falamos daquilo que é quase uma tempestade perfeita…
Sim, neste momento sim. Apelando aos ventos, foram ventos perfeitos e não se deve tocar nessa felicidade dos adeptos. Respeito totalmente aqueles que o queiram fazer, que se querem candidatar neste momento, mas aquilo que me foi conferido nas eleições de 2018 não me permite neste momento abrir esta cisão ou reavivar esta chama que possa parecer em alguns sportinguistas de que existem fações competidoras…
Mas é uma surpresa neste contexto em específico haver pelo menos mais dois candidatos, num total de três listas?
Não me parece… O Sporting é um clube… Não diria apetecível em relação a um possível oportunismo das pessoas, mas é um clube onde as pessoas são claramente conscientes e informadas em relação ao que é o clube. Por vezes, dada a facilidade que há em recolher assinaturas e avançarem com uma candidatura. Mas não me surpreende que apareçam mais duas e também não me surpreendia se aparecessem mais pessoas que pudessem converter essas opiniões em projetos eleitorais.
Falámos há pouco do fecho do mercado, que termina com as chegadas de Marcus Edwards e Slimani, com tudo o que isso tem de ligação afetiva, mas há não muito tempo falava-se de Bolasie ou Jesé. Existe um tempo antes e depois de Rúben Amorim? E esta evolução deveu-se a Rúben Amorim ou foi uma aprendizagem com os erros?
Há um período de experimentação em relação aos atos e estratégias de gestão mas a minha postura em relação a estes temas, que considero serem atos de gestão, como a contratação de um treinador e o ir ao mercado para reforçar as equipas, tem a ver com quem está. Nunca temos por completo os indicadores válidos para comentar o que são estas decisões. Fico satisfeito que o desperdício tenha tendência para acabar no Sporting e parece-me que o aproveitamento tem sido muito maior do que o desperdício de outros anos. Mas, de forma sincera, também já fui atleta e por vezes há fatores que não percebemos na gestão, enquanto gestor que sou neste momento, que acontecem dentro de campo ou porque é que os atletas não rendem e as coisas não funcionam. Às vezes são fatores que não dependem só dos atletas. Fico contente por ver que tem sido melhor e que o Sporting, em toda a sua linha, vai beneficiando desse aspeto.
E qual é o papel de Rúben Amorim neste aspeto? Em termos desportivos percebe-se mas ainda recentemente um dos candidatos à presidência falava também da política de contratações e da separação de papéis porque os treinadores também podem sair…
A forma como a gestão operacional daquilo que é a política de contratações e da forma como está criada dentro do Sporting neste momento tem dedo do treinador, é óbvio. Mas isso tem a ver com a definição interna daquilo que é a função de cada pessoa. Se olharmos para essa definição da política desportiva transversal ao clube, vemos que os treinadores são muito interventivos. Gosto de olhar para o clube como um todo e em qualquer modalidade é assim. Esta situação acontece. Se fico satisfeito ou não, aí preferia que fosse o Sporting a controlar…
▲ João Benedito explicou as razões pelas quais não teve intervenções públicas desde as eleições e não concorre no próximo sufrágio mas admite que foi uma decisão mais difícil do que em 2018
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Em que aspeto?
Disse em 2018 que uma das minhas principais bandeiras da candidatura era retirar dos órgãos sociais todas aquelas pessoas que geriam o clube e que eram importantes, nomeadamente no aspeto financeiro. De quatro em quatro anos estarmos a mudar de pessoa que negoceia com a banca e outros tipos de contratos vai prejudicar e deixar o Sporting numa posição fragilizada. Esse era um dos meus objetivos para a governação do clube: tudo aquilo que é importante para o futuro do clube prefiro que esteja dentro da tal estrutura que se fala, funcionários que têm uma propensão a não sair do clube. Dizia no projeto que apresentei no primeiro dia e que não mudei até ao último dia, bem como as pessoas, que um dos garantes da formação do Sporting era que as pessoas ligadas à formação tivessem perspetivas de carreira. Mas, colocando-me nos sapatos do adepto, que é aquilo que eu fui e que tentei ser mais nestes quase quatro anos, acho que fomos todos inspirados por Rúben Amorim. Pela sua forma de comunicar, pela sua forma de falar, pela forma como transmite essas ideias. Mas existem outros Rúbens Amorims dentro do Sporting e ficamos felizes que estejam e defendam o Sporting. Mas é diferente pensar estratégia para o clube e o momento que nos dá títulos para o clube. Aqui entroncamos naquilo que é o futuro. Rúben Amorim é uma inspiração, há que olhar para a gestão e trazer pessoas para dentro do clube e que sejam mais dependentes da nossa gestão e posteriormente os resultados vão aparecer.
Há aqui uma questão importante, que hoje é um pouco jogar no Totobola à segunda-feira pelo sucesso desportivo, mas voltando a março de 2020 percebeu que se pagasse dez milhões de euros, que se tornaram mais pelos atrasos, por um treinador?
É sui generis a mentalidade dos sportinguistas e deixo uma nota introdutória para falar sobre essa questão que é mesmo o Totobola à segunda-feira. Mesmo nessa altura, os sportinguistas diziam ‘Tens de falar’. Tive chefes de redação que diziam ‘Se falar, vai mandar esta Direção abaixo’. E depois…
Ou seja, pelo que diz toda a gente se preparava para o pior, no fundo…
Exatamente, preparava-se para o pior e vinha preparada de alguns atos que não correram tão bem e que já foi assumido por esta Direção. Não me esqueço da realidade do Sporting, não me esqueço que tive de ver adeptos a serem descalçados à entrada, vi manifestações também… Mas optei por não falar, da mesma forma como optei por não comentar todos os títulos que foram ganhos. Quis ter esta postura desde o início. Há aqui sempre duas formas de analisar, a do adepto e a do gestor. Num ato de gestão, para quem está e para quem gere, a aposta em Rúben Amorim tem de ser vista como um ato de gestão mas tem que estar garantido o que pode provocar no futuro. Ou seja, é aquela frase do ‘E se corre bem? E se corre mal?’. Do lado dos adeptos, houve muita gente que criticou a gestão em termos públicos e que agora volta atrás em relação a ela. Sempre tive a mesma postura: espero que a decisão esteja assente na base de que não vai danificar o clube, que tenha sido tomado dessa forma. A nível desportivo, estamos todos felizes por termos visto esta ascensão. Quando perdemos com o LASK [em 2020, em agosto] era a segunda época e estávamos a ver um marasmo… Os ventos bons que falámos há pouco tornaram-se uma tempestade e arrancou para uma época muito bem conseguida. Nesta altura, a felicidade do adepto justifica tudo o que está para trás.
Vai existir aqui uma era também pós-Amorim, porque nenhum treinador é eterno, e não há aqui um plano B, como foi assumido pelo próprio presidente. É a parte do ‘E se corre mal?’ do capítulo Rúben Amorim?
Sim… Volto a dizer, o Sporting tem grandes desafios para o próximo mandato, é o mandato mais importante da história do Sporting porque pode correr o risco de deixar de ser dos sócios. Prefiro focar-me mais para este Sporting. Olhando para o Rúben Amorim, consigo dar outras pessoas noutros cargos de treinadores que têm uma postura muito idêntica, ele é a face mais visível. Prefiro elencar quais são os desafios para o próximo mandato e esse da política desportiva é um dos desafios: manter o título e pensar no que vamos fazer em relação a quem define a política desportiva, tirá-la um bocadinho das costas do treinador e mais para o cargo do diretor desportivo que é funcionário do clube e que vai ficar no clube, a tal criação da estrutura forte. Este é um dos principais desafios. Mas existem outros, pelo menos mais três ou quatro.
E quais são os outros?
Outro é a comunicação. E espero que não se veja isto como uma crítica, estou aqui para ser construtivo relativamente ao futuro. Assistimos ao que foi o primeiro mandato e a uma comparação com o negativo que se passou no Sporting. Está na altura de assumirmos o clube como ele está, como ele é e como vamos construir para o futuro. Tem de ser uma comunicação baseada no sucesso e há sucessos suficientes para evitar a comparação do que não fizemos e do que não aconteceu. Existindo isso, as pessoas são capazes para isso até porque houve um boost bastante positivo naquilo que foi o trabalho da comunicação até com a entrada do Miguel Braga. Estamos e podemos estar nesse caminho. Depois há outros temas e um que me é muito sensível e que não foi possível fazer noutro mandato: não há atletas diferentes do clube. Aos meus olhos, o Sporting é uma instituição desportiva que deve defender os seus atletas, não pode haver atletas dentro do clube que têm condições de contrato de trabalho que outros não têm, esta precariedade que às vezes acontece nas modalidades aos atletas que nos dão tantas alegrias, deve ser um drive para a Direção que vai entrar a 5 de março…
…
Depois, o fenómeno social. O Sporting deve ter uma estratégia social, os clubes devem ser avaliados na sua vertente desportiva, na sua vertente financeira e na sua parte social. Há que resolver estes temas e junto a parte do ADN mas nesta parte social a interação e ligação com os adeptos. Tem de haver melhorias, tem de se ver que lá dentro também há fervor sportinguista com o qual nos identificamos. Depois surge a questão das claques, de outros grupos de adeptos, mas isso passa por uma estratégia social de satisfação do sócio para além do desporto porque um dia não vamos ganhar. Dentro desta vertente social também surge uma parte institucional, a revisão dos estatutos que tem de ser integradora. Não pode ser a pensar ‘Agora tenho este caminho e esta gestão, vou tirar esta pedra daqui’. Um exemplo prático: hoje em dia estamos muito saudosos do que foram as eleições dos órgãos sociais cada um por si mas votámos nisso. Não votei nesse sentido mas acabou por ser aprovado e os três órgãos passaram a ser eleitos em conjunto…
E é uma coisa que na sua ótica não faz sentido, sobretudo no Conselho Fiscal?
Não faz sentido, sobretudo neste tipo de instituições. E mesmo no garante dos sócios, que é a Assembleia Geral. Também deve ser.
Mas quando são de listas diferentes pode não correr bem, como aconteceu até recentemente…
Acabam por não correr bem mas se calhar tinham mesmo de não correr bem… Era inevitável, pelas pessoas e não pelo funcionamento. Mas ainda há outro ponto que é o que torna este mandato o mais importante da história do Sporting…
Qual?
A questão dos VMOC. Os sócios do Sporting têm estar atentos ao que se vai passar porque nem que seja o maior dos investidores ou o maior dos ídolos que identificamos para o Sporting, a premissa e o conceito não podem ser alterados: o clube não pode perder a maioria e passar para as mãos de alguém, independentemente de ser o maior dos investidores ou o maior dos nossos ídolos.
Os VMOC são um assunto de 2026, estamos a falar do final do próximo mandato. Aquilo que o preocupa nesta altura são as movimentações daquilo que poderá acontecer? É que apesar de tudo ainda existe aqui um hiato grande tempo para haver essa conversão…
É um motivo de preocupação mas que indo às últimas Assembleias Gerais da SAD me despreocupou porque as contas reservas, aquilo que é a percentagem de provisionamento dessas contas reservas, foi reduzido. Portanto, acredito que já haja uma solução…
Nos planos que se têm visto parece que sim…
Sim, deixa antever uma solução. Acho que tem de ser algo bem explicado, acho que três anos é um espaço muito curto para se arranjar este dinheiro porque o clube não nada em dinheiro e quero ver o que é que os projetos eleitorais vão trazer e a posição que existe. Aí, aquilo que serão os debates e a campanha para as pessoas que vão intervir e para as pessoas que vão perguntar. Tem de ficar claro o que querem fazer e que, quem quer que seja eleito, se antever que não vai conseguir cumprir, tem de ser dada a voz aos sócios novamente para se decidir quem vai gerir este processo. Se a meio de um percurso quem se candidatar disser que não abdica que o clube tenha a maioria da SAD e mudar depois de opinião, essas pessoas não estão capazes para continuar porque há aqui uma mudança de paradigma e que é muito estrutural para tomar essa decisão.
Fenómenos como aqueles que assistimos na Premier League, de pessoas ou organizações com muito dinheiro capazes de comprar clubes, ou outros que por afinidade possam ter esse interesse estão colocados de parte? 50+1 é sempre obrigatório?
Sem dúvida, isso nunca pode acontecer. Não podemos abdicar daquilo que nos trouxe até aqui hoje. Na Premier League as coisas são mais simples de se fazer, no Sporting o processo é mais defendido pelos associados. Mas tem de ser defendido já a partir da primeira hora em que as pessoas apresentam os seus projetos. Em 2018, apresentei-me com o mesmo projeto com que acabei, não saiu ninguém da minha lista desde que me apresentei do primeiro ao último dia, todas as linhas do projeto que estava à disposição dos sócios para consulta foram as mesmas, a nossa estratégia estava delineada e foi coerente. Só fui a eleições quando houve eleições. E aqui sabia que, se tivesse de mudar alguma coisa que fosse estrutural no meu projeto, colocaria o meu lugar à disposição. Por isso, tem de haver um garante pré-eleitoral para as pessoas dizerem ao que é que vão, para dizer objetivamente ‘Candidato-me com a minha equipa e estes 50+1 são imprescindíveis ou não’ e depois as pessoas vão lá pôr a cruzinha naquilo com que se identificam. Se houver mais pessoas a ter votos num cenário em que 50+1 não é fundamental, as pessoas estão legitimadas para isso, embora depois tenham de cumprir as premissas estatutárias, mas aí estão legitimadas para tal.
E acha que Frederico Varandas ainda não clarificou a 100% essa situação?
Estou à espera que este processo de recolha de assinaturas termine para saber se são válidas e quem vai a eleições para depois perceber até às eleições o que é que um e outro projeto podem dizer. Há que clarificar, objetivamente.
Olhando agora para vertente financeira, houve uma pandemia pelo meio que mexeu com todas as contas a nível de quebra de receitas. Como é que viu as renegociações de contrato e a situação do lay-off no início da pandemia e agora como tem acompanhado a evolução das contas da SAD à luz de um sucesso desportivo que está agora a aparecer e que promove o encaixe da Champions? Havia condições para estar mais desafogado?
Volto a 2018. Dizia na altura que o sucesso das instituições desportivas tinha a ver com os resultados desportivos. E o que acontecia? O candidato A aparecia com um investidor, o B ia buscar os milhões não sei onde, depois as securitizações das dívidas, surgiam ‘n’ coisas. É lógico que o sucesso desportivo vai trazer estabilidade e havendo sucesso os jogadores valem mais, os atletas que têm saído como o Nuno Mendes têm dado boa conta de si, o que é um bom escaparate para os outros. Tudo isto tem um efeito bola de neve em relação às nossas receitas. Tentar analisar um clube de futebol com uma pandemia pelo meio, não conheço ninguém que já o tenha feito anteriormente e é difícil porque há fenómenos que desconhecemos. Mas queria deixar uma palavra de grande reconhecimento aos nossos atletas que aceitaram num momento difícil a nível mundial reduzir os salários, aos colaboradores que aceitaram entrar em lay-off para ajudar o clube. Sustentabilidade financeira sim, se estamos no bom caminho desportivo. Ao longo dos anos, antes da pandemia, víamos o Sporting com défices orçamentais de 30 ou 40 milhões que, não podendo ser uma prática corrente, equilibrava-se com a venda de um jogador e com a formação que o Sporting tem consegue fazer face a isso. Depois do que se passou, temos de nos envolver para que o clube saia mais forte do que estava.
Olhando para esta época desportiva e à luz desse sucesso, só a Liga dos Campeões é quase 75% ou 80% do orçamento, podendo ainda existir a possibilidade de chegar aos quartos. Havia condições para fazer outras operações, fosse reservar dinheiro para os VMOC, fosse para ir baixando a dívida de clube e SAD, esperava outro tipo de movimentação?
Segundo o discurso que tem sido passado, há compromissos por cumprir para os quais tem servido esse dinheiro. O valor da Champions é muito importante para o Sporting ser e continuar a ser competitivo. Em relação aos VMOC, gostava de ver esta situação resolvida o mais rapidamente possível. A forma como vão incorporar as receitas, SAD, clube, o que cada pessoa consegue canalizar essas verbas… O clube está a ter mais receitas na vertente desportiva mas ainda tem de cimentar. Estamos num momento em que temos de cumprir aquelas que são as nossas obrigações, e não quero expor aqui as contas, as dívidas a fornecedores, outras dívidas, passivo bancário, que se têm de cumprir porque as pessoas são sérias e estão a dar o seu melhor. A forma como depois canalizam, se compram um treinador por dez milhões, se compram um avançado por 16 milhões, se compram ao Sp. Braga ou ao V. Guimarães, aí são atos de gestão e a partir daqui a análise já vai mais como um adepto, a tal felicidade que me assiste de ver o Sporting campeão. Mas é lógico que temos de ter uma prudência grande em relação ao que é a gestão, esta parte tem de ser feita de forma objetiva. O Sporting tem duas vertentes: o reforço da sua equipa e a manutenção da sua independência. Vamos ver, está a acabar o mandato e vamos ver o que as pessoas querem daqui para a frente.
Naquilo que é também um ato de gestão, e perante aquilo que são os atuais contextos de FC Porto e Benfica, haver um maior investimento no futebol é um risco ou uma oportunidade?
Não consigo dizer se é uma coisa ou outra…
Porque houve aqui estes dois fenómenos paralelos, o Sporting começou a ganhar, o Benfica há muitos meses que não ganha e o FC Porto tem problemas financeiros que eventualmente começam a chegar também eventualmente à parte desportiva…
Concebo um clube… Bem, aquilo dos menores orçamentos, do fazer mais com menos… Para mim não são os orçamentos que ganham, tudo passa por uma vertente desportiva, se a nossa vertente desportiva funciona. Acredito que um atleta trabalhado é muito mais do que um talento desaproveitado, isto acontece várias vezes. Vamos muitas vezes atrás do talento esquecendo-nos do que é a plasticidade da condição humana dos atletas, o trabalho que se pode fazer com esses atletas. Se olharmos para os campeões europeus e mundiais, passa muito pelo que é o conceito do atleta, do que é trabalhado. Não é o mais virtuoso que ganha, é o que mais trabalha. E temos um exemplo nacional e inspiracional disso, o Cristiano Ronaldo. Gostava muito que o Sporting chegasse, não sei se no curto, no médio ou no longo prazo, e dissesse ‘Somos o clube que mais fatura, somos o clube com maior volume de negócios, somos o clube que mais investe, somos o clube com mais potência’. Era isso que gostava de ver no meu clube porque somos os melhores a nível desportivo, comercialmente, naquilo que é a congregação dos nossos adeptos. Portanto, é um risco investir na equipa? Não, não é um risco. Falávamos há pouco no que é o aproveitamento ou não. Se as empresas fizerem um grande investimento e tiverem retorno, se houver aproveitamento, se investirmos em infraestruturas que nos permitam ganhar, nunca é um risco.
▲ Antigo capitão do futsal do Sporting destaca a política social e a questão dos VMOC como algum dos pontos mais relevantes do "mandato mais importante da história do Sporting"
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Falou agora de Ronaldo. Como é que via um regresso de Ronaldo ao clube?
Um regresso de Ronaldo… Em que funções?
Como jogador, vamos começar por aqui…
Como jogador… Tem que se avaliar, tem que se perceber qual é a política desportiva do clube, temos de identificar que quando sai do Real Madrid havia uma série de clubes pela Europa fora que o podiam contratar mas houve uns que, mesmo tendo condições, não o contrataram porque tinham uma outra estratégia. Para uns fazia sentido, para outros não fazia sentido. Temos que ver essa definição estratégica mas como é óbvio, se o Ronaldo mantiver as suas capacidade intactas, seria uma grande felicidade para os sócios e adeptos do Sporting. Devemos ver, analisar, estruturar, colocar o que é o melhor para o clube. Esse é o ponto de análise que devemos ter em qualquer altura.
E Ronaldo noutras funções no Sporting, também podia ser importante para se tornar um catalisador nessa parte de receitas, comercial? Ainda vai haver mais Ronaldo no Sporting do que já aconteceu no passado?
Acho que já temos a dona Dolores sempre muito ativa, o que é fantástico de ver… Primeiro temos sempre de analisar a vontade da pessoa, seja a nível desportivo, seja a nível de outras funções. Agora, fui a pessoa que tentou o regresso de Peter Schmeichel ao Sporting, estava garantido. Porquê? Apresentámos poucas pessoas mas cada uma tinha uma função definida e esta função que havia para o Schmeichel era com o objetivo de voltar a dar notoriedade ao Sporting a nível internacional. O Ronaldo, qualquer marca que seja lançada e que o tenha por trás, é sempre um sucesso, torna-se uma marca de sucesso. E, além disso, o Ronaldo tem o amor e o gosto por estar no clube, tem formação familiar, tem educação em relação ao Sporting. Assim ele queira, será sempre bem-vindo ao Sporting.
Olhando agora para essa vertente mais social, o Sporting teve toda essa projeção a nível desportivo e com aumento de receitas, mas com cisões que foram aparecendo e que continuam latentes. Esse é um calcanhar de Aquiles, não conseguir aproveitar a felicidade dos sportinguistas para todos estarem felizes ao mesmo tempo e no mesmo caminho?
Creio que será o próximo passo, já se percebeu que esta felicidade pode dar azo à resolução de vários problemas. As pessoas que criticavam deixaram de criticar e os argumentos que existiam para além dos desportivos deixaram de existir. Este ponto é muito importante para resolver as situações. Mas agora sem medo em relação às palavras e ao que vou dizer: a relação entre o adepto e o clube é emocional, o racionalismo tem de vir de dentro para fora. Como tal, o que defendo e sempre defendi, e volto a 2018, é que não há sócios diferentes nos seus direitos e nos seus deveres. Não percebo porque é que um sócios pode ser beneficiado com um bilhete e outro não. Para mim é tão importante e se calhar a taxa de esforço de um sócio em comprar um jornal do Sporting é superior a que outro sócio pode ter 100 mil euros no clube e comprar um camarote. Como tal, todos devem estar dentro do clube e devem ser tratados da mesma forma. O que me pergunta tem a ver com as claques e na altura tinha isso definido: se é uma relação emocional, tudo o que é material tem de ser controlado e gerido pelo clube. Não acredito que as pessoas que estejam no topo Sul gostem mais ou menos do Sporting porque têm um bilhete grátis. Então, toda essa gestão financeira, toda essa gestão daquilo que é o dia a dia dos dinheiros das claques, que são paralelos ao negócio do clube, deve ser feito dentro do clube, criar-se um departamento dentro do clube. Esta é a minha visão e era assim que o faria. Não é o dinheiro que move estas pessoas, não pode ser…
Porque o apoio continuou a existir na mesma, como se viu na última época independentemente de tudo e com ou sem pandemia…
Está aí a resposta, são todos precisos. Vou voltar ao tema das saudades que tinha quando jogava. Eu sei o que é jogar com e sem apoio…
Faz muita diferença?
Faz mesmo… Tenho presente na minha memória um jogo de playoff em Loures que foi das coisas que vou guardar para sempre e que vou sempre contar neste tipo de conversas: acaba um jogo, perdemos em penáltis e o pavilhão levanta-se a cantar o ‘Nós acreditamos em vocês’. E os meus colegas perguntavam ‘Mas o que é isto? Estão contra nós?’. Não, estavam a apoiar. E eu só queria que o quinto jogo começasse um minuto depois porque íamos ganhar. Tudo isto tem de ser racional mas esse racionalismo tem de vir de dentro para fora porque o emocional é o que vai de fora para dentro. Essas decisões precisam de ter uma base racional e também emocional, juntar essas duas coisas e a vertente desportiva que não controlamos, a bola que bate no poste e entra ou sai, é o desafio.
A certa altura as claques começaram a ser também associadas àquilo que era a minoria de bloqueio nas Assembleias Gerais e que depois levava a chumbos mas percebia-se que muitas vezes nem iam assim tanto e a minoria de bloqueio continuava. Houve aqui também caminhos para endurecer as posições, aproveitando a tal minoria de bloqueio?
Estive presente em todas as Assembleias Gerais e não consigo avaliar o fenómeno, não consigo fazer uma estratificação desses grupos que estão presentes, quem vai para criticar ou falar… A Assembleia Geral é um momento de sportinguismo, tem de ser um momento onde os sócios se sintam à vontade para falar e tem de servir para isso. Do que me pergunta em relação à forma dúbia de interpretação das várias vertentes de criação de Assembleia Geral A, B, C ou D, remete-nos para trás, para aquilo que é a avaliação dos estatutos e mais razão me dá naquilo que é a necessidade de pensar nos estatutos e de fazer alterações para não beneficiar A, B, C ou D mas que sejam estatutos com objetividade. É isso que tem de prevalecer. Esses momentos que têm acontecido, as Assembleias Gerais conturbadas, serão passageiras e tudo voltará à normalidade…
Sempre à luz do sucesso desportivo, claro…
Ajuda mas neste caso desportivo não é só o sucesso desportivo, é também a política social e a estratégia. A política social num clube como o Sporting torna-se tão importante como a política desportiva e é necessário que exista.
Falando agora das modalidades e da precariedade que tem existido, é algo que se tem de resolver por não ser correto em comparação com outros casos ou por considerar que pode trazer problemas para o Sporting no futuro?
É um problema do desporto nacional. É muito fácil ver os nossos líderes políticos a tirarem fotos nas medalhas e depois a olharem para o lado e não criarem um estatuto de atleta à luz do Código do Trabalho que possa existir. É complicado para um pai deixar que um filho se torne profissional de uma qualquer modalidade porque termina a sua carreira entre os 35 e os 40 anos, hoje em dia já se fala no pós-carreira e depois? Estão longe das suas valências académicas porque as terminaram há bastante tempo e estão longe daquilo que é a sua idade da reforma. É um desafio, não coloco estes temas como críticas. É perigoso vivermos desta forma, gostava muito que fossem problemas que pudessem ser resolvidos, gostava muito que o Sporting pudesse participar na mudança de paradigma no desporto nacional neste aspeto mas há que olhar para aqueles que nos dão estas alegrias, que são os atletas e que merecem.
O Sporting tem em 2019 um ano ímpar, ganha quase todos os títulos e consegue ser finalmente campeão europeu de futsal além de ganhar a Liga Europeia de hóquei em patins, pensava-se que era muito difícil repetir mas em 2021 faz quase o mesmo. Este último ano acabou por surpreendê-lo, por ter sido possível prolongar o sucesso?
Não, claro que não. Há vários patamares de análise em relação ao que é a construção de um plantel numa modalidade, que se dizem amadoras mas são completamente profissionais. Se queremos competir ou se queremos apelar à prática desportiva, há um caminho. Dentro da competição, temos de ver: é para ser campeão nacional, é para competir na Europa, queremos ter os melhores… A forma como estão construídos os plantéis do Sporting nas várias modalidades indiciavam que era para competir tendencialmente a nível internacional ou chegar lá e rivalizar com os melhores. Não me surpreende porque sei que se trabalha bem e existe uma mentalidade forte por lá…
E foram feitas também algumas mudanças, como a saída do diretor geral para as modalidades, Miguel Albuquerque…
Sim mas é a cultura… É por isso que dizia há pouco que não podemos analisar só um clube naquilo que é a vertente desportiva, a financeira de aquilo que é a sua comunidade. O ADN que existe é muito forte e esse ADN também tem de controlar um pouco aquilo que são as três áreas e os atos de gestão. Voltando ao tema, não me surpreende, o que me surpreende é que às vezes o Sporting possa não estar nas decisões. E atenção: culpabilizar pela não vitória nos títulos é difícil porque às vezes há contingências dos próprios jogos e finais que podem levar a que não caia para o Sporting. Estar longe das decisões, isso não. A nível nacional temos de estar, a nível internacional é um brilhantismo, embora tenha de se ver depois os orçamentos e os jogadores que cada um tem. Se olharmos para o andebol, tem uma Liga dos Campeões que dá receitas muito boas mas se formos analisar a diferença dos orçamentos estamos muito longe de quem ganha mas no futsal se calhar não estamos assim tão longe dos grandes orçamentos. Depois a nível de qualidade desportiva, no hóquei em patins temos os melhores jogadores do mundo, no voleibol não temos. Temos de ver o patamar desportivo e financeiro mas deve-se dar os parabéns a esta gente que tem feito por fazer valer o slogan do fundador do clube.