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“Não tenho nada a ver com o Projeto 2025.” No debate frente à adversária Kamala Harris, em 2024, o Presidente norte-americano, Donald Trump, garantia que não estava relacionado com este plano, uma espécie de guia para o ajudar a governar os Estados Unidos da América (EUA) quando regressasse à Casa Branca. Durante a campanha eleitoral, o assunto foi um incómodo para os republicanos. Feito pelo think tank Heritage Foundation, o projeto desejava transformar os EUA num país cristão, conservador e pretendia “restaurar a família como peça central da vida americana e proteger as crianças”.
Ao longo do livro O Plano (ed. Dom Quixote), o jornalista da revista norte-americana The Atlantic David A. Graham explica como é que os autores do Projeto 2025 delinearam um programa em várias esferas para implementar assim que Donald Trump chegasse ao poder. Em entrevista ao Observador, o autor mostra-se “surpreendido” com a “rapidez” com que muitas das ideias do Projeto 2025 foram já colocadas em prática: “Conseguiram acumular mais poder para o Presidente. E essa é a base para tudo o resto”.
Os autores do Projeto 2025, um documento de 900 páginas publicado online em 2023, desejavam reestruturar o Governo norte-americano para conceder mais poder à presidência. Uma das formas de o fazer seria colocar em vários cargos públicos aliados de Donald Trump.”Estão a promover e a contratar pessoas que são tão extremamente competentes quanto leais. Mas a competência não é o mais importante”, relata David A. Graham. Assim, num ambiente politizado, praticamente não existem contrapoderes — e a agenda do Presidente é colocada em prática com mais facilidade.
Ainda assim, o Projeto 2025 não é um assunto popular nos Estados Unidos. E muitos dos seus autores, apesar de se aliarem a Donald Trump, não se reveem totalmente na polémica figura mediática do chefe de Estado. Mas isso não é o mais importante, porque, com Trump, estão a conseguir implementar a sua agenda: “Enquanto forem conseguindo aquilo que querem nas questões de conservadorismo social, estão dispostos a trabalhar com Trump, mesmo que não o aprovem a nível pessoal”, explica David A. Graham.
O sucesso do Projeto 2025 no primeiro ano de Trump: “Foram bem sucedidos em assumir o controlo de partes do Governo”
Tenho a impressão de que este livro foi escrito no final de 2024 ou no início deste ano. Trump já está há quase um ano no poder. O Projeto 2025 já foi posto em prática? Quanto?
Acho que mais do que esperava inicialmente. Comecei a escrever este livro em dezembro de 2024 e acabei mesmo antes de Trump tomar posse. E depois perguntei-me: ‘E se eles não colocarem [o Projeto 2025] em prática? Será que vão descartar o meu livro?'”. Mas depois fiquei muito surpreendido com a rapidez com que o fizeram. É difícil para mim quantificar, porque há tantas coisas pequenas e grandes em escalas distintas. Mas penso que eles conseguiram acumular mais poder para o Presidente. E essa é a base para tudo o resto que eles querem fazer. Tiveram bastante sucesso nisso.
Tornaram Trump mais poderoso, então. Em que áreas é mais visível esta implementação do Projeto 2025?
Acho que uma das coisas em que tiveram mais sucesso foi no despedimento de funcionários públicos. Outra foi a abolição de várias medidas relacionadas com a proteção ambiental. E penso que foram bem sucedidos em assumir o controlo de partes do Governo federal, usando o Departamento de Justiça como ferramenta política para isso ou assumindo o controlo de agências reguladoras.
Existem vários relatos de funcionários públicos que têm sido despedidos. Considera que a competência e a meritocracia perderam valor para esta administração? No livro explica que a lealdade política agora é mais valorizada…
Os criadores do Projeto 2025 têm a ideia de que uma das coisas em que erraram na primeira administração Trump consistiu em terem pessoas cuja fidelidade era a um Governo funcional ou à Constituição e não a Trump. Agora, querem escolher pessoas que fundamentalmente são leais a Trump e que querem implementar a sua agenda. E acho que em muitos casos as pessoas que eles estão a promover têm uma espécie de dupla lealdade — quer a Trump, quer ao Projeto 2025. Querem competência, mas não necessariamente uma administração governamental competente. É mais sobre implementar a agenda. Penso que estão a promover e a contratar pessoas que são tão extremamente competentes quanto leais. Mas a competência não é o mais importante.
A lealdade está acima disso?
Sim.
Uma das coisas que menciona no livro é que este movimento por trás do Projeto 2025 é muito bem organizado. Não é algo amador. E esta organização normalmente não é associada aos movimentos de alt-right ou à direita radical. Há uma componente intelectual neste projeto, certo?
Sim, e acho que vemos isso quando conservadores mais tradicionais começam a adotar estas filosofias mais da alt-right. Esses conservadores estão a trazer conhecimento à administração sobre como governar — e estão a combiná-lo com as suas visões pessoais. Mas eu penso que uma das razões pela qual eles estão a ser tão bem sucedidos não tem muito a ver com a organização da alt-right; tem mais a ver com os intelectuais que adotaram as posições da alt-right.
Há mais republicanos moderados ligados ao Projeto 2025?
Sim. Acho que os autores do Projeto 2025 estão a desenvolver a sua própria base intelectual, que aborda as questões de uma certa maneira, mas também estão a agregar a direita tradicional. A Heritage Foundation, o think tank que supervisionou este projeto, era tradicionalmente não de uma direita moderada, mas a favor de um Governo pequeno, pró-empresas, daquele conservadorismo do estilo Bush. E agora abandonou muitas dessas posições a favor de algo mais ao estilo Trump. Acho que um dos tópicos em que isso é mais notório é nas tarifas: tradicionalmente, estas pessoas ter-se-iam oposto às tarifas e teriam tendência a favorecer o comércio livre. Agora estão mais dispostas a defender as tarifas, porque entendem que essa é a posição de Trump. E, se conseguirem obter outras coisas que querem, estão dispostos a ceder aí.
▲ Desde que Donald Trump regressou ao poder, vários funcionários ligados à presidência foram demitidos
WILL OLIVER/EPA
Há essa ligação aos republicanos mais tradicionais. Mas como é que o Projeto 2025 e o movimento Make America Great Again (Tornar a América Grande Outra, conhecida pelo acrónimo MAGA) estão interligados?
A questão é perceber o que é o movimento MAGA. Acho que o Projeto 2025 é, em parte, uma tentativa de o definir. Há todas estas correntes dentro da coligação MAGA que, na verdade, só estão unidas por causa de Trump. Eles discordam em muitas questões fundamentais; a única coisa em que concordam é que Trump deve ser o líder. O que o Projeto 2025 quer fazer — e uma das razões pelas quais começou a ser preparado com tanta antecedência — é tentar assumir a liderança e definir o rumo daqui para frente, tanto durante o mandato de Trump, como depois de Trump deixar de estar presente. Os autores do projeto gostariam que o MAGA passasse a ser aquilo que estão a propor, embora existam distintas abordagens. Há abordagens diferentes na política externa, na saúde pública… Há até abordagens distintas na forma de governação. Mas o que eles gostavam de fazer era converter o movimento MAGA no Projeto 2025 no futuro.
“Trump é usado como o veículo do Projeto 2025: consegue implementar medidas e os autores do projeto usam-no como meio para alcançar os objetivos a se propõem”
Referiu que o movimento MAGA está unido em torno de Trump. No livro, menciona também que os autores do Projeto 2025 escolheram-no para colocar o Projeto em prática. A minha pergunta agora é: quanto é que Trump influencia o Projeto 2025? Ou isso não acontece?
Há claramente influência nos dois sentidos. Diria que o primeiro mandato lhes deu a ideia, fez os autores do Projeto 2025 acreditarem que coisas que sempre desejaram agora eram possíveis, porque a direita estava a ganhar força. Passaram a achar que podiam fazer finalmente o que sempre quiseram, que julgavam não ser viável no passado. E pensam que Trump era o único Presidente que poderia efetivamente concretizar muito o que pretendiam. Trump não é um religioso conservador; nem sequer é socialmente conservador. Mas tem um tipo de poder sobre os republicanos que os convence a seguir um determinado rumo. Tem essa espécie de carisma único. Trump é usado como o veículo do movimento: ele consegue implementar essas medidas e os autores do projeto usam-no como meio para alcançar os objetivos a que se propõem; ao mesmo tempo, já pensam além da sua presidência e querem que este movimento continue.
Trump tem consciência de que está a ser usado como veículo?
Penso que Trump também se aproveita do Projeto 2025. Ele saiu do primeiro mandato a sentir que não tinha lealdade e que não conseguia fazer o que queria. O Projeto 2025 confere-lhe lealdade e dá-lhe meios de concretizar o que pretende. Em troca, os autores do projeto obtêm as coisas que desejam e, no fundo, Trump não se importa muito com a política social. Ele não quer saber do sistema de saúde. Trump importa-se apenas com o controlo político. Ambos os lados ganham alguma coisa com esta dinâmica.
Trump não tem propriamente uma ideologia muito concreta. Nessa senda, o Projeto 2025 tem uma vertente religiosa e Trump não é uma pessoa muito religiosa. Como é que vão pôr em prática este plano conservador e cristão se quem põe em prática as medidas não tem uma grande devoção a Deus? Não é incoerente? A fé não pode ser algo divisivo no Projeto 2025?
Sim, a religião é muito importante para o Projeto 2025, é a pedra angular disto tudo: é a ideia de que os Estados Unidos devem ser uma nação conservadora e cristã. Acho que sim, é uma questão que causa desunião, porque é extremamente impopular. Para o Projeto 2025 concretizar aquilo a que se propõe, teria de haver mudanças massivas na economia norte-americana. Haveria menos mulheres no mercado de trabalho e isso causaria uma grande mudança. Muitas famílias norte-americanas não conseguem sobreviver com um salário. Para alterar o sistema de saúde haveria uma grande mudança, assim como nas medidas de apoio às famílias. Muitas das políticas em relação à família que eles propõem seriam muito populares; mas outras não. E acho que isso é uma dificuldade para eles. Ainda não pensaram necessariamente em como é que tudo isso se articula entre si e em como o pôr em prática uma sociedade cristã e conservadora, mesmo acreditando profundamente nessas ideias.
Teria de haver muitas transformações na sociedade norte-americana…
Sim. E, como se vê nas sondagens, muitas medidas não são populares entre os eleitores norte-americanos. Aliás, Trump não tem insistido na aplicação de medidas socialmente conservadoras neste mandato. O aborto é um bom exemplo disso. Ele falou muito sobre esse assunto na campanha e agora praticamente não fala sobre isso, porque acha que já retirou todo o benefício político possível e qualquer passo adicional seria impopular. Para os autores do Projeto 2025, ainda assim, continua a ser uma prioridade fundamental, embora até agora não tenham obtido grande sucesso.
Polémicas de Trump? Criadores do Projeto 2025 estão “dispostos” a trabalhar com ele, mesmo “que não o aprovem a nível pessoal”
Voltando à figura de Donald Trump. O Projeto 2025 quer aplicar uma agenda socialmente conservadora, mas Trump não o é. E há vários escândalos associados à imagem do Presidente, como o caso Epstein. Como é que lidam os autores do projeto com esse lado mais polémico da persona de Trump que não é nem devoto a Deus, e até nem é moralmente aceitável?
É muito estranho, é algo que eles tentaram ignorar e parte disso tem a ver com a questão de Trump ser um meio: enquanto forem conseguindo aquilo que querem nas questões de conservadorismo social, estão dispostos a trabalhar com Trump, mesmo que não o aprovem a nível pessoal. Aliás, entre vários conservadores religiosos norte-americanos, há várias interpretações bíblicas diferentes que ajudam a justificar essa posição. Eles comparam-no ao Rei David [Rei de Israel que derrotou Golias] — alguém com muitos defeitos, mas ainda assim uma figura importante — ou a Ciro, o Rei que protegeu os judeus no exílio. Todas estas referências servem basicamente para encontrar maneiras de desculpar o comportamento dele. E vê-se Trump a usar uma linguagem mais religiosa desde a tentativa de assassínio [em julho de 2024, na Pensilvânia]. Não creio que ele esteja a ser especialmente convincente, mas recorre mais a esse tipo de discurso do que antes, o que é interessante. Se por um lado há figuras conservadoras que socialmente se aproximaram bastante de Trump, também há outros que se recusam a fazê-lo e criticam-no duramente.
▲ Polémicas de Trump até podem incomodar autores do Projeto 2025, mas não é por isso que deixam de colaborar com o Presidente
AARON SCHWARTZ / POOL/EPA
Trump é muito próximo dos líderes das grandes empresas tecnológicas. Elon Musk, por exemplo, teve uma grande influência durante a campanha para as eleições de 2024, mesmo que agora se tenha zangado com o Presidente norte-americano. Como é que os autores do Projeto veem essa proximidade entre Trump e os líderes das big tech? Porque estes bilionários defendem coisas diferentes do Projeto 2025…
No início, o Projeto 2025 era muito cético em relação às grandes tecnológicas, em grande parte por razões religiosas. Consideravam-nas prejudiciais para a sociedade e perigosas para as crianças, mas também demasiado ligadas à China. Além disso, viam-nas como demasiado liberais em termos sociais. Entretanto, houve mudanças nesse aspeto. Muitos donos de grandes empresas — não a maioria, mas, por exemplo, Jeff Bezos — alinharam-se com Trump e isso alterou um pouco esse cenário. Ainda assim, continua a haver várias diferenças, como o problema com a China e as questões sociais. E acho que as diferenças não vão desaparecer. Se os republicanos perderem as eleições intercalares de 2026, prevejo que as grandes tecnológicas vão adotar uma abordagem mais centrista, porque seguem os ventos políticos.
Já falou nas tarifas como um assunto em que a doutrina Trump acabou por influenciar o Projeto 2025. Existem outros tópicos idênticos, em que a influência pessoal e direta do Presidente alterou a trajetória do Projeto?
Sim, acho que sim. Penso que a maior mudança — visível em muita coisa que Trump faz e também no Projeto 2025 — é a disponibilidade para pensar o poder do Estado em grande escala, na lógica de um Governo realmente forte. Durante toda a minha vida, os republicanos foram o partido do Estado pequeno e da limitação do poder governamental. Contudo, Trump não se encaixa nesse molde: ele quer um Estado grande e pretende ter muito poder. Pode até reduzir o número de funcionários públicos, mas quer mais poder para o Governo — sendo que os autores do Projeto 2025 também estão a usar o poder coercivo do Estado para atingir estes objetivos. E isso é uma mudança enorme, que acompanha uma certa deriva autoritária nos EUA — a vontade de concentrar poder. As tarifas estão conectadas com este processo: o Presidente pretende impor tarifas como quer, recorrendo a poderes de exceção — porque quer castigar o Brasil, porque está zangado com o Canadá, seja por que motivo for — sem que o Congresso participe, numa ação unilateral do Presidente, ignorando o papel do Congresso.
O Congresso fica sem nenhum papel?
Sim.
▲ Líderes de grandes tecnológicas alinharam-se recentemente com Donald Trump
Getty Images
Tendo em conta que querem controlar o aparelho de poder nos Estados Unidos, também imagino que queiram controlar o Congresso. Ou a presidência é o foco?
Os autores do Projeto 2025 concluíram que o Congresso é disfuncional. Em vez de o tentarem consertar, preferem concentrar-se na presidência. E têm razão nisso. O Congresso não tem funcionado bem nos últimos 25 anos. Para mim, a resposta seria arranjar uma maneira de consertar o funcionamento do Congresso e não criar uma figura quase ditatorial.
“JD Vance corporiza o Projeto 2025. É o tipo deles”
Tem-se falado sobre a possibilidade de um terceiro mandato de Donald Trump. Isso está conectado com o Projeto 2025? Considera que os autores do Projeto 2025 vão continuar a apostar em Donald Trump, ou preferem outro rosto, como o do vice-presidente JD Vance?
JD Vance é o mais óbvio. Penso que Vance corporiza o Projeto 2025: conservadorismo social, isolacionismo, foco na classe trabalhadora e políticas de apoio à família. Se eles tivessem de designar um candidato, seria ele, cumpre a função. A questão é: será que ele tem o talento político que Trump sempre teve para ganhar eleições e aglutinar os republicanos? Não sei se JD Vance tem. JD Vance ainda é novo, mas acho que não tem o mesmo talento. Se não é Vance, não sei quem poderá ser. Marco Rubio [secretário de Estado] parece interessado em ser Presidente, mas a sua visão do mundo é mais a de um conservador tradicional. Alguém como o senador Josh Hawley, penso que estaria interessado se Vance não avançar. E acho que Ted Cruz também está interessado e está conectado a algumas das pessoas do Projeto 2025 por causa da religião, mas tem ideias económicas diferentes das de Trump, preferindo um governo mais pequeno.
JD Vance é o preferido?
É o tipo deles.
▲ JD Vance "é o tipo" preferido para suceder a Trump para muitos dos autores do Projeto 2025
ERIC LEE / POOL/EPA
E JD Vance é também bastante religioso…
Sim, a sua abordagem intelectual e a sua abordagem política relacionam-se com as dos autores do Projeto 2025.
Já disse que o Projeto 2025 e o movimento não são a mesma coisa. E recentemente uma congressista famosa do MAGA, Marjorie Taylor Greene, entrou em rota de colisão com o Presidente norte-americano. Como vê esta luta política dentro da base eleitoral do chefe de Estado?
Até eu estou a tentar perceber bem o que pensar sobre isso. Em parte tem a ver com a pergunta: como é que o MAGA fica depois de Trump? Marjorie Taylor Greene está basicamente a reivindicar a ideia de que o MAGA existe além de Trump, ao passo que o próprio Trump diz que o MAGA é tudo o que ele decidir que quer. Acho que ela se está a manter fiel aos princípios da campanha de Trump. Não acredito que esteja a fazer uma manobra elaborada; ela acredita mesmo, por exemplo, que há uma conspiração de pedófilos [que governam o mundo] e interpreta agora as ações do Governo através dessa crença. Este é mais um ponto em que Trump — que em muitas ocasiões se limitou a dizer aos eleitores aquilo que queriam ouvir — é confrontado com o facto de eles esperarem que faça o que prometeu. Trump diz exatamente a toda a gente o que as pessoas querem ouvir, faz imensas promessas e depois tem as conciliar, sobretudo quando tem de escolher entre quem o rodeia — pessoas ricas — e o cumprimento de exigências de transparência. Ele tende a favorecer as pessoas ricas ao seu redor. Quando chega a hora de cumprir as promessas, tem muita dificuldade em cumprir tudo a toda gente. Já vimos um pouco disso no primeiro mandato, quando prometeu revogar o Obamacare, eliminar o défice comercial e prometeu trazer de volta o setor industrial aos Estados Unidos. Não cumpriu essas promessas e perdeu em 2020 em parte por causa disso. Agora, estamos a ver o mesmo problema: fez promessas que não consegue cumprir — e nem sequer tem um plano.
“A China é a maior ameaça” para o Projeto 2025, cujos autores não sentem “animosidade pela Europa ou pela NATO”
Na política externa, qual considera ser a estratégia de Trump, em conjunto com o Projeto 2025? Quais são as ambições destas duas forças? Querem aproximar-se da Europa, das monarquias do Golfo…?
Considero que as visões do Projeto 2025 para a política externa se assemelham muito mais à do primeiro mandato de Trump: os Estados Unidos deixarem de ser o polícia do mundo, numa abordagem voltada para o isolacionismo. No segundo mandato, temos visto Trump a ameaçar a Dinamarca, o Panamá, a Venezuela e a bombardear o Irão, o que cria alguma desconexão do plano. Os autores do Projeto 2025 estão mais próximos do que Trump defendia no primeiro mandato e são sinceros quanto a isso: querem retirar os Estados Unidos de várias arenas internacionais. Mas não sentem animosidade nem pela NATO, nem pela Europa, que às vezes Trump demonstra. Sentem desinteresse, mas veem a Europa como amigável e a Rússia como uma ameaça. Eles não estão dispostos a comprometer os Estados Unidos em conflitos internacionais, porque a principal orientação é uma política contra a China. Para eles, a China é a maior ameaça: económica, cultural e até militar. Querem orientar tudo [para aí] — e se isso significa retirar tropas da Europa, da Ásia, do Médio Oriente, eles retiram.
A China é a prioridade?
Sim e vimos Trump a falar muito da China no primeiro mandato.
Neste momento, no entanto, a administração Trump está muito empenhada em conseguir um acordo na Ucrânia, há várias movimentações diplomáticas a acontecer neste momento. Como é que o Projeto 2025 e Trump veem a guerra na Ucrânia? No livro, menciona até alguma simpatia pela Ucrânia por parte do Projeto 2025, mas que não se quer comprometer com a segurança ucraniana.
Acho que estamos a ver isso nos conflitos dentro da administração Trump sobre as garantias de armamento à Ucrânia. A reação de Trump parece ser em grande medida pessoal: ele fica zangado com Putin ou com Zelensky e reage com base disso. Marco Rubio é bastante mais favorável à causa ucraniana e pressiona nesse sentido, mas há pessoas como JD Vance ou Elbridge Colby, que é o diretor de planeamento do Departamento de Estado e um dos autores do Projeto 2025, cuja posição é: ‘Sim, gostaríamos de ver a Ucrânia a ganhar, mas não à custa de material de guerra norte-americano, de vidas norte-americanas ou a envolver demasiado os Estados Unidos’.
Considera que há planos para exportar o Projeto 2025 para outros países? Trump já tem aliados ideológicos na Europa, como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. Acha que existe essa ideia?
Acho que sim. Eles querem ser isolacionistas na política externa norte-americana, mas, ao mesmo tempo, querem projetar influência. Aprenderam muito com Orbán e com o movimento do Brexit e Nigel Farage no Reino Unido. Depois de assimilarem o que aprenderam, querem exportar as ideias: há tarifas contra o Brasil por causa da prisão de Bolsonaro, JD Vance já defendeu a Alternativa para a Alemanha, a relação de Trump com Meloni… Essas ações servem como plataformas para usar a política externa para difundir as ideias do Projeto 2025. Os autores veem tudo isto como uma batalha civilizacional, tanto contra a China como contra o liberalismo e o secularismo. Para isso, querem aliados pelo mundo, imaginando uma espécie de movimento unificado de direita populista a nível global.
▲ Donald Trump e Giorgia Meloni têm uma boa relação
Getty Images
Quase como se fosse uma Internacional de direita?
Exatamente.
Ações de Trump “mostram que ele está alinhado com o plano”
Durante a campanha para as presidenciais de 2024, Donald Trump tentou dissociar-se do Projeto 2025. Considera que, se o Presidente for questionado sobre isso, vai voltar a fazê-lo?
A questão já não se coloca e vê-se pelas suas ações. Ele adotou muitas destas políticas e protegeu muitas figuras do Projeto 2025. As suas ações mostram que está alinhado com esse plano. Na campanha, ele rejeitou a ligação ao Projeto 2025 por duas razões: por um lado, porque era impopular e o estava a prejudicar; por outro, porque detesta qualquer sugestão de que não é ele a mandar e que há alguém a controlar tudo nos bastidores. Odiou quando Steve Bannon tentou fazer isso, quando Elon Musk fez o mesmo e odiou quando o Projeto 2025 tentou sobrepor-se. Ele está disposto e satisfeito em pôr prática as medidas do projeto, mas não quer ninguém que diga que não é ele a tomar decisões.
É essencial para Trump manter o poder e lutar contra aquilo que chama o Deep State, defendendo que representa o povo dos Estados Unidos?
Sim e é curioso, porque, de certa forma, estão a criar uma espécie Deep State. É um Deep State conservador que passa a comandar o Governo, quer ele esteja a prestar atenção a isso ou não.
▲ Donald Trump "adotou muitas destas políticas e protegeu muitas figuras do Projeto 2025"
Getty Images
Qual considera ser o futuro para este Projeto? Vai continuar a crescer? Quais serão os próximos passos?
Eles veem claramente o Projeto como algo que é para durar muitos anos. E gostariam de criar uma sociedade mais bíblica. Penso que serão submetidos a um teste muito importante em 2026 e 2028. Algumas coisas que os atores do Projeto 2025 defendem é muito impopular e espera-se uma reação negativa, principalmente se a economia não estiver a correr bem. Eles acreditam que estão a alterar de forma permanente o funcionamento do Governo dos Estados Unidos. E mesmo que tenham alguns revezes políticos a curto prazo, pensam que, a longo prazo, vão triunfar. No entanto, existe um perigo: quanto mais poder se dá a um Presidente, mais poder terá um eventual Presidente democrata no futuro. E não me parece que eles tenham pensado seriamente nem nas consequências disso, nem como lidariam com essa situação. Em contrapartida, em termos de mudança a longo prazo, eles podem beneficiar da situação. O próximo Presidente vai herdar um Governo federal muito diferente, com menos funcionários públicos e um foco diferente. O que fizerem com esse poder — seja continuar a aumentá-lo, seja tentar repor o equilíbrio ou alterar a forma como tudo funciona — é decisivo. Em apenas um ano, já mudaram bastante o Governo dos Estados Unidos e a maneira como se relaciona com o resto do mundo.
Existe outro partido nos Estados Unidos. Acha que o Partido Democrata já compreendeu na íntegra este Projeto? Já reconheceu a sua influência?
Acho que não, mas talvez estejam lentamente a lá chegar. Eles falaram muito sobre o Projeto 2025 durante a campanha presidencial, mas não pareciam preparados para lidar com ele. E penso que uma das coisas em que falharam foi que trataram o Projeto como um conjunto de políticas na teoria, quando é muito mais do que isso: é também um plano para pôr ideias em prática. Ao longo de todo o ano, os democratas pareciam ficar surpreendidos quando Trump fez coisas que estão no Projeto 2025. E os democratas tiveram imenso tempo para se preparem para isso. Acho que, pouco a pouco, vão reagindo, mas continuam tão desorganizados desde a campanha, tão ocupados a discutir o que correu mal, que acabaram por não se preparar para nada. Além disso, sem uma liderança nacional clara, parece ser difícil responder seja ao que for. Existe ainda uma grande incerteza sobre quem vai suceder a Kamala Harris.
Acha que alguma vez Donald Trump vai reconhecer a influência do Projeto 2025 na sua vida política? Já disse que ele governa de forma muito pessoal. Mas reconhecerá o papel desta sombra?
Acho que ele nunca vai reconhecer, é o seu estilo: ‘Eu tomo conta da situação e corrijo-a’. Ele nunca vai reconhecer e, para os autores do Projeto, está tudo bem. Se eles conseguem o que querem, não querem saber se Trump lhes dá crédito. Eles não estão aqui para serem reconhecidos: eles querem mudanças sociais.
Este Projeto 2025 ajudou realmente Trump a vencer as eleições em 2024? Ou acha que foi algo negativo para ele durante a campanha?
Acho que foi algo negativo durante a campanha. No entanto, creio que fez uma coisa importante: definiu a agenda muito cedo e manteve a maior parte do movimento MAGA alinhado, juntamente com todos os apoiantes e evitou lutas internas dentro da coligação. Por isso, embora fosse impopular junto de muitos eleitores, o Projeto 2025 ajudou a criar unidade. E o grande efeito veio depois no exercício de poder: penso que lhe permitiu concretizar os seus objetivos de forma muito mais eficaz do que no primeiro mandato.