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Vera Marmelo

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Esta cidade quer ver as bandas passar: afinal, o que é que Leiria tem? /premium

A cidade que deu ao país os Silence 4 gera uma comunidade artística e musical rara. Entre Lisboa e Porto, Alcobaça e Reiquivique, fomos à descoberta do ritmo de Leiria, à boleia do festival A Porta.

A chuva ainda não tinha dado sinais de ressurgir e a tarde estava como se quer: sol a bater na cara, T-shirts e vestidos, calções e alguns aventureiros de chinelos. A rua encheu-se para celebrar um festival, A Porta, que no início só acontecia ali, naquela rua a que se circunscreveu no passado sábado, 22 de junho.

Todos a conhecem como Rua Direita, embora o nome oficial seja Rua Barão de Viamonte. Há alguns anos o cenário era bem diferente, garantem-nos moradores locais, nem todos ligados à organização do festival. Era uma rua antiga e histórica (calcorreada por Eça de Queirós, diz-se que também pelo homem que inspirou a personagem principal de O Crime do Padre Amaro), mas menos movimentada, mero ponto de passagem. Foi com o intuito de lhe dar vida durante um dia e dignidade futura que o festival A Porta nasceu. No primeiro ano, durou um dia. No último sábado, a rua foi o local de afluência do oitavo e penúltimo dia de concertos, workshops, exposições e instalações artísticas da edição deste ano do festival.

Como o sol batia forte, houve quem aproveitasse a chamada Rua Direita, hoje mais frequentada e com várias lojas de comércio local (incluindo uma chapelaria onde naquele dia excecionalmente se tiravam fotografias), para se banhar numa pequena piscina instalada na rua pela organização do festival. Eram várias as crianças, rapazes e raparigas, que de fato banho ou roupa de dia — assim mesmo, sem problemas em molhar a indumentária — chapinhavam na água, observados pelos pais, alguns dos quais sentados em toalhas que tinham sido colocadas sobre a relva ali temporária.

A piscina adjacente à "Rua Direita", durante a última edição do festival A Porta, em Leiria (@ VERA MARMELO)

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Mesmo ao lado da pequena piscina, João Pais Filipe, músico que se multiplica entre projetos de grupo (um dos quais, a banda HHY & the Macumbas) e trabalho a solo, ia mostrando como um concerto de bateria a solo pode surpreender os mais céticos. Houve quem dançasse, a bateria ainda levou uns pingos de água, o concerto foi até ao fim. No final, palmas para o “Joãozinho”, como chegou a ser tratado na plateia.

Uma hora depois, no Centro Cívico — Praça Eça de Queirós, seriam os franceses Slift a começar a sua sova de rock and roll, fuzz com fartura, guitarras e baterias tocadas por quem declarou guerra ao tédio em garagens ruidosas de Toulouse. Para lá chegar seria preciso contornar gente, percorrer uma rua que estava como se desejava — movimentada e com muitos locais —, serpentear entre os aviões de papel coloridos e os balões pendurados rua fora.

A chamada "Rua Direita" de Leiria no passado sábado, durante o festival A Porta (@ VERA MARMELO)

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As mudanças em Leiria já tinham sido notórias na noite anterior — sexta-feira, 21 —, quando as reações de quem se deslocou ao Jardim Luís de Camões se dividiram entre satisfação ao ver brilhar uma banda da casa, os First Breath After Coma, e a surpresa com a pop de Bruno Pernadas e os blues do deserto de Mdou Moctar.

A banda local, que provocou a maior enchente da noite, provou que nem problemas de som que atrasaram o concerto nem cansaço (tinham feito, no fim-de-semana anterior, uma performance a tocar 24 horas seguidas) os atrapalham: foi curioso vê-los imersos na música, cada um no seu transe, pop-rock ringue de boxe, a tocarem cada nota como se tivessem levado choques elétricos. Bruno Pernadas e a sua banda deram o concerto do costume, oleados na pop infundida de jazz, ritmos do norte de África e tropicalismo que foi beber à fonte dos Stereolab mas tem virtuosismo próprio. A Mdou Moctar, também ele um virtuoso da guitarra elétrica, espécie de Hendrix tuaregue de lenço branco ao pescoço, longa túnica, dentição incompleta e pose zen (visível até depois do concerto, quando, já no jardim, sorria lentamente a quem o cumprimentava), as reações foram mais díspares, da estranheza ao arrebatamento traduzido em passos de dança.

Mdou Moctar (ao centro) deu um concerto no Jardim Luís de Camões, em Leiria, na passada sexta-feira, 21 de junho (@ VERA MARMELO)

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O festival foi mais um passo na mudança contínua da comunidade musical da cidade. Há muito impulsionada pela Rastilho Records e pela associação de ação cultural Fade In, organizadora dos festivais Entremuralhas (hoje Extramuralhas) e FadeinFestival — e há muitos anos com atividade ininterrupta —, cresceu ainda mais com a entrada em cena de novos festivais, com a requalificação completa de um espaço que é clube de concertos, bar e discoteca, chamado Stereogun (de impressionantes condições técnicas e impacto visual) e com a entrada em cena da Omnichord Records, que tem vindo a colocar um grupo de bandas e projetos musicais — três a quatro dos quais com maior notoriedade — no radar nacional e em palcos estrangeiros.

Junta-se a tudo isto a programação de outros espaços, como o Texas Bar, o Teatro Miguel Franco e o Teatro José Lúcio da Silva, a oferta teatral da comunidade O Nariz, o trabalho do Orfeão de Leiria e o nascimento de uma nova casa das artes chamada Serra – Espaço Cultural e torna-se difícil ignorar a vibração cultural de uma cidade que quer ser Capital Europeia da Cultura em 2027. “Acho que como cidade, considerando que não é metrópole, Leiria está com uma cena cultural ainda maior do que Lisboa e Porto. Tem coisas a acontecer todos os dias — e tão ecléticas, de jazz, de rock, de blues, tanta coisa”, enumera Surma (Débora Umbelino), uma das principais novas vozes da música leiriense, acrescentando: “Sempre houve coisas e bandas, mas de há uns anos para cá nota-se mais confluência. Começou tudo com a Fade In e quando a Omnichord Records cresceu, a partir de 2012, tudo começou a crescer. As pessoas começaram a unir-se mais”.

Prova maior dessa união nos criadores e organizadores de espetáculos é a história de A Porta. Idealizado por “Gui” Garrido, atual diretor do festival e também envolvido no açoriano Tremor, é “mais um projeto extremamente colaborativo”, a par de outro festival, o Clap Your Hands Say Yeah! O último é organizado por três associações locais — Fade In, Omnichord, Rastilho Records — mas A Porta, não o sendo oficialmente, tem também o contributo de vários agentes da região: “O Gui Garrido nasceu e cresceu em Leiria, foi para Lisboa, correu o mundo e quando teve filhos começou a voltar de vez em quando a Leiria. Começou a perceber que havia alguma coisa aqui a acontecer. A primeira coisa que fez foi convidar as associações para uma reunião no café, desafiando-nos a juntarmo-nos e a fazer coisas”, refere Hugo Ferreira.

Hoje, o festival “envolve a cidade”, já tem “uma dimensão interessante” e uma duração maior. É um festival maioritariamente gratuito, mas “está cheio” e “mesmo os poucos momentos pagos — no teatro e na Villa Omnichord [sucessão de atuações de artistas e bandas da editora] — esgotaram todos. É um festival com as pessoas daqui para as pessoas daqui. Mostra a cultura daqui, coloca-a em diálogo com contribuições externas e ajuda a transformar a cidade”, aponta o fundador da Omnichord Records. Outra das peculiaridades de A Porta é a programação infanto-juvenil abundante, que existe porque “quando apareceu, há uns seis anos, todas estas pessoas das associações andavam a ser pais. Andamos todos a pensar em fazer coisas para malta da nossa idade mas também a pensar em fazer coisas para os nossos miúdos”.

Omnichord, uma editora que cresce de Leiria para o mundo

Podem não ser concertos de estádio, mas dar mais de 80 espetáculos em solo internacional em apenas um ano, 2018, é digno de nota. Foram isso que fizeram as bandas da Omnichord Records, editora fundada por Hugo Ferreira, um melómano, antigo radialista da Rádio Universitária de Coimbra (RUC) e antigo colaborador da associação cultural Fade In, nascido em Leiria.

Os dados impressionam, até por serem ancorados sobretudo em três projetos, que têm conquistado a cada ano uma maior projeção internacional na música alternativa: Surma, autora de um disco (Antwerpen) nomeado para álbum europeu independente do ano e finalista da última edição do Festival da Canção; First Breath After Coma, já com três álbuns no currículo; e os Whales, que só no último ano revelaram o seu primeiro disco completo mas que têm vindo a ganhar tarimba nos palcos, nacionais e internacionais.

“Virei-me para o João e disse-lhe: temos de gravar estes putos, fazer qualquer coisa e começar uma editora aqui, um bocadinho à imagem do que a Factory fez, do que a Islândia fez. Somos menos do que eles mas tem de haver um ponto de partida.”
Hugo Ferreira, fundador da editora leiriense Omnichord Records

A editora começou quando Hugo Ferreira ouviu uma banda que viria a figurar mais tarde numa coletânea (de 2014) apropriadamente chamada Leiria Calling: os Nice Weather For Ducks. Hugo estava, na altura, ao lado de um membro da banda leiriense de pós-rock The Allstar Project, um dos projetos musicais que marcou a cidade (a par, por exemplo, dos Phase) no pós-Silence 4, o grande fenómeno pop oriundo da região. “Virei-me para o João e disse-lhe: temos de gravar estes putos, fazer qualquer coisa e começar uma editora aqui, um bocadinho à imagem do que a Factory fez, do que a Islândia fez”, conta o fundador da Omnichord Records ao Observador, explicando ainda que a dimensão não é incontornável: “Somos menos do que eles mas tem de haver um ponto de partida. A certa altura Alcobaça, por exemplo, teve impacto com os The Gift, os Lotto e os Gomo, com vários projetos em simultâneo. Leiria está a passar um bocado por isso agora”.

A cena musical islandesa não é referida por acaso: além de ter inspirado a música de Surma, por exemplo, intrigou o fundador da editora, que se deslocou ao país na primeira metade dos anos 2000, após a faculdade. O motivo foi inusitado: ainda universitário, Hugo Ferreira esteve envolvido na tentativa de levar os então ainda pouco conhecidos Sigur Rós a Coimbra, num concerto da RUC. A banda, porém, explodiu mediaticamente depois da edição do segundo álbum e o concerto não se realizou, tendo os Sigur Rós atuado antes no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Hugo deslocou-se então a Reiquiavique para pedir satisfações pessoalmente. Acabou por fazê-lo num bar concorrido da cidade, mas tirou outras lições: “É uma cidadezinha mas onde se construiu algo único. Chamaram pessoas de Londres, pagando-lhes viagens, criaram um cluster musical. Tinha de perceber porque aparecem os Sigur Rós, como aparece aquele movimento todo. Voltei a Leiria e ao entrar na Fade In a minha preocupação foi contribuir, com as pessoas que já lá estavam, para fazer algo diferenciado, tentando fazer crescer a criatividade local e os projetos da zona”.

Mais tarde, quando formou a Omnichord Records, os Nice Weather For Ducks foram os primeiros que Hugo Ferreira recrutou, seguindo-se músicos descobertos em iniciativas da Fade In: “Existiu um projeto importante que se chamava Ensina Fade In. Era com miúdos do ensino preparatório, levava-se CDs com bandas que tocavam na produtora [que já levou a Leiria os Destroyer de Dan Bejar, os dinamarqueses Iceage ou os Smog, entre tantos outros] para fazerem versões”. Ao Fade In Ensina, seguiu-se o Zus!, programa organizado pela mesma associação mas com intuito diferente: encontrar bandas de originais na região com potencial para crescer e singrar. Na primeira edição em que decorreu, 2012, revelaram-se os First Breath After Coma. Na segunda, em 2014, encontrou-se uma banda que unia Surma aos membros dos Whales.

NU - a visual album by First Breath After Coma from CASOTA Collective on Vimeo.

O programa destinado a encontrar talento em alunos do secundário acabou, por já não haver mãos para gerir mais bandas do que aquelas que se avolumavam na Omnichord Records (que tinha outros métodos paralelos de prospeção). Na editora leiriense fundada por Hugo Ferreira reuniam-se já, contudo, um leque assinalável de projetos capazes de impulsionar a cena musical da cidade. É isso que tem acontecido ao longo desta década, com a editora a apostar num mecanismo de internacionalização que passa por expor as suas bandas em concertos e festivais internacionais, por vezes showcase festivals, eventos destinados a apresentar artistas emergentes a públicos mas também promotores, agentes e editoras de todo o mundo.

Sentado num dos hostels que acolheu artistas e jornalistas durante o festival A Porta, Hugo Ferreira reconhece ao Observador que em Leiria “sempre houve bandas” e que “nunca mais houve nenhuma com o impacto dos Silence 4”, mas acredita que há atualmente “mais bandas e projetos com notoriedade”, fruto de “um alinhamento estratégico e investimento para estruturalmente tentar colocar várias coisas no radar nacional”.

Esse alinhamento estratégico custa dinheiro — às vezes para gravar telediscos, outras vezes devido a despesas que pesam no orçamento mas que permitem a bandas e artistas viajar e mostrar-se, primeiro na cidade, depois no país, por último no estrangeiro. O retorno não é imediato, mas existe na editora “a impressão de que isso vai criar imagem de marca”, que vai “ajudar estes projetos no futuro e outros projetos portugueses noutros locais”.

Dar rodagem local e nacional às bandas é o primeiro passo, porque ninguém quer perder mais dinheiro do que o estritamente necessário: “Não mandamos para o estrangeiro uma banda que não temos a certeza que é intocável ao vivo”, diz Hugo Ferreira, que tem também um projeto empresarial familiar na área dos moldes (“ainda bem, porque me permite gastar dinheiro na música”, diz). Surma acrescenta: “Temos despesas enormes, é difícil criar orçamentos que sejam viáveis, mas é um investimento que agradecemos ao Hugo. Permite-nos fazer uns 20 concertos por mês, é verdade que com cachês baixinhos, mas dando-nos a conhecer, passando a palavra sobre quem somos e quem é a editora. Acho que isso com o tempo terá resultados”.

Surma participou este ano no Festival da Canção, de que foi finalista (@ JOÃO PEDRO CORREIA)

Joao Pedro Correia

A cultura musical da cidade, que foi (quase) sempre “diferenciada”

Desde o início, a editora de Hugo Ferreira seguiu a linha histórica da música leiriense, onde “sempre houve cultura diferenciada” e onde a pop mais mainstream não era dominante. Os próprios Silence 4, lembra, “apareceram na cidade como uma contracorrente”, inspirados pelos Mojave 3, numa altura em que “andava toda a gente no punk, no hardcore e no metal”. Se fazia sentido tentar apostar na diferença no passado, mais ainda fará agora, acredita o fundador da editora: “Temos de fazer uma coisa diferenciada. Não adianta estar a apostar numa banda rock com três acordes e pensar que vamos conquistar o mundo, as agências em Londres têm 50 bandas dessas na mesma rua, não vêm buscar uma banda dessas a Portugal”.

Para fazer parte da Omnichord Records, a originalidade é critério necessário. “Há imensas bandas em Leiria que acho que não fazem muito sentido na editora. Apoio-as sempre que posso, dá-me prazer ouvir, ir aos concertos, ceder contactos” — mas pelo género musical não o conquistam. Tem de haver sempre um traço invulgar, na abordagem musical, na imagem gráfica de apresentação. Exemplos? “Temos os Crazy Coconuts, que têm sapateado. A Surma faz notoriamente algo diferente, os Whales também. Os Jerónimo são três irmãos todos com vozes incríveis, os Few Fingers apostam na simplicidade mas usam lap steel guitar, que é uma coisa que pouca gente usa. Como todos os projetos da Omnichord, têm algo genuíno e diferenciado”, defende.

"Penso que o futuro passará por comunidade que crescem do local para o nacional. Se não se é suficientemente bom numa terra, não vale a pena ir para o país ou para o mundo. É nas cidades que se carregam forças e que se criam bases para uma carreira duradoura e sustentada no país."
Hugo Ferreira, fundador da editora leiriense Omnichord Records

O crescimento de alguns artistas leirienses, como os First Breath After Coma, Surma, Nice Weather For Ducks e os Whales mas também a banda de stoner-rock Born a Lion e o pianista André Barros — recém-vencedor de um prémio internacional nos Independent Music Awards, na categoria de melhor canção usada em filme/TV/jogo, com o tema “Leda” — é notória. Há uma comunidade musical que se vai fortalecendo na região e que precisa do carinho de Leiria para vingar no exterior, acredita Hugo Ferreira: “Penso que o futuro passará por comunidade que crescem do local para o nacional. Se não se é suficientemente bom numa terra, não vale a pena ir para o país ou para o mundo. É nas cidades que se carregam forças e que se criam bases para uma carreira duradoura e sustentada no país”.

Reconhecendo que há bandas da editora que terão um percurso mais nacional do que internacional, Hugo Ferreira diz que é preciso disponibilidade e trabalho árduo para se vingar lá fora. Um bom exemplo disso é Surma, que anda constantemente a saltitar de país em país, de concerto em concerto, de festival em festival — mas não esquece Leiria. A jovem conta que sempre teve uma ligação forte à cidade. Embora tenha crescido no Vale do Horto, uma aldeia a cerca de 15 minutos da cidade, foi em Leiria que começou a ter aulas de música. Garantindo que o seu objetivo nunca passou por ser “rock star”, mas antes por fazer música de que gostasse — é também esse o intuito de outros músicos locais que conhece, assegura —, a cantora e compositora pergunta: “Porque não haveria de ser possível fazer coisas em Leiria, produzir álbuns? Há sete anos fui para Lisboa porque senti que ainda era necessário, agora acho que já não é tanto”.

Há um novo centro de artes que junta criadores

A dúvida persiste em muitas bandas, artistas e editoras ditas independentes: é possível sustentar todas as despesas que acarreta  fazer música e apresentá-la bem — as viagens, os telediscos, a promoção e comunicação — , tirando depois dela rendimentos que permitam viver? A questão tem sido discutida também na Omnichord Records e é especialmente sensível quando se trata não de uma artista a solo, como Surma, mas de um grupo de quatro ou cinco elementos que obriga a despesas bastante mais avultadas em viagens para o exterior.

As soluções poderiam passar, por exemplo, por procurar uma sonoridade propositadamente mais acessível — o que também não seria garantia de sucesso. Quando a aposta não é essa, “uma banda normalmente não se torna gigante de um dia para o outro”, recorda o fundador da Omnichord Records. A solução passa, para muitos músicos independentes, pelo trabalho em vários projetos paralelos à sua música — e é também assim no caso de boa parte dos membros dos First Breath After Coma.

Os leirienses First Breath After Coma lançaram este ano o seu terceiro álbum, intitulado NU

Aproveitando o facto de que dois dos seus membros estudaram técnicas audiovisuais na faculdade, três dos elementos da banda, em parceria com um amigo também de Leiria, avançaram com um projeto chamado Casota Collective, que começou por ser “uma espécie de projeto de mestrado” do tal amigo, Miguel — estudava gestão e tinha de criar uma empresa, tendo usado os colegas como “cobaias” —, e acabou por se tornar uma empresa que serve de fonte de rendimentos à banda. Inicialmente, a Casota Collective era uma produtora audiovisual, que começou por gravar telediscos para bandas da Omnichord Records. Mais tarde, começou a fazer trabalhos por encomenda, gravando telediscos para outros artistas — como o guitarrista e cantor João Pedro Pais, por exemplo —, para festivais e para entidades como a Câmara Municipal de Leiria. Neste momento, é uma empresa que já faz também produção de eventos para marcas nacionais de relevo, estando também envolvida em projetos de solidariedade.

As instalações da Casota Collective estão num polo cultural que começou a ser renovado pelos elementos dos First Breath After Coma. Localizado na freguesia de Cortes, o terreno, cedido gratuitamente por um mecenas local e com vários armazéns e salas disponíveis de trabalho, albergou apenas os elementos da banda durante “uns oito anos”. É ali que, de há muito para cá, os First Breath After Coma ensaiam, numa sala em específico que funciona também como estúdio de gravação (foi lá que foram gravados os discos NU, da própria banda, ou Antwerpen, de Surma) e que no passado serviu de sala de ensaios dos Silence 4. A antiga banda de David Fonseca deixou, inclusivamente, algum material na divisão que usava para tocar, como uma bateria.

A entrada das instalações da Casota Collective, no Serra - Espaço Cultural, requalificado pelos First Breath After Coma e hoje casa de artes de Leiria (@ VERA MARMELO)

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Quando os First Breath After Coma mostraram intenções de trabalhar no terreno, o mecenas local, que se chamava “engenheiro Ribeiro Vieira” e que “entretanto morreu”, disse-lhes algo como: “Nunca pedi dinheiro nenhum aos Silence 4, nunca pedi dinheiro a ninguém, também não vos vou pedir a vocês. Vêm para cá, desde que tenham respeito pelo espaço podem estar aqui”. Quando o mecenas morreu, as duas filhas decidiram manter o acordo, para respeitar a vontade do pai, e os First Breath After Coma por ali continuaram.

Foi uma dádiva: atualmente, têm ao dispor gratuitamente um conjunto de salas e divisões de trabalho, a uma distância de pouco mais de cinco minutos de carro da cidade de Leiria. Ao invés de o explorarem comercialmente, decidiram nos últimos anos levar para o local, a que chamaram Serra — Espaço Cultural em homenagem ao morador mais antigo que ali reside (um cão chamado Serra), artistas que precisem de um espaço de criação e trabalho. Não lhes cobrando renda, apenas uma pequena contribuição para despesas correntes — de internet e luz, por exemplo —, requerem-lhes apenas que contribuam para a limpeza e renovação estética do espaço, para que ele continue a aproximar-se da casa de artes que se almeja.

“Durante uns oito anos estivemos aqui sozinhos, isto estava abandonado. Entretanto uma parte dos terrenos lá em baixo já está ocupada”, indica Telmo Soares, membro da banda, durante uma visita guiada, acrescentando: “Já estão aí seis ou sete bandas a ensaiar, temos também uma oficina de madeiras com designers que vieram das Caldas da Rainha, temos uma designer de moda que também trabalha cá, dois pintores, uma artista que faz desenho e tatuagens e uma rapariga que faz gravura”. Além das divisões de trabalho, há ainda uma casa que a banda recuperou, onde os elementos dos First Breath After Coma viveram enquanto compunham o álbum mais recente (o terceiro da banda) e que acolherá quem ali quiser viver em residência artística. “Demos um jeito e está habitável, durante muitos anos não esteve”, acrescenta o músico, que revela que já outras quatro bandas fizeram residências artísticas no Serra – Espaço Cultural.

A entrada do Serra - Espaço Cultural, um terreno cedido gratuitamente à banda leiriense First Breath After Coma que ali criou um centro de trabalho para artistas (@ VERA MARMELO)

Vera Marmelo

Nos últimos anos, gradualmente, o Serra – Espaço Cultural foi-se tornando aquilo que a banda mais desejava: um local de comunidade artística. “Quando aqui estávamos sozinhos já chamávamos os Nice Weather For Ducks para ouvirem coisas nossas e para nós ouvirmos as deles. Trocávamos impressões, era porreiro. Sempre quisemos estender isso a mais interações e com gente de diferentes áreas artísticas. A nível criativo é bom termos por perto pessoas que vão do tipo que é pintor ao tipo que trabalha com madeira”, explica Telmo.

Neste momento, quem se quiser candidatar a um dos espaços de trabalho no terreno já o pode fazer através da página de Facebook do Serra. Um dos requisitos aos candidatos é que usem o espaço que lhes é disponibilizado regularmente, como “local de trabalho” e não “como hobbie”, porque a banda pretende que a casa de artes “tenha alguma vida” e não seja “um sítio vazio”. É bom, dizem, “ter as pessoas ali, saber que aquele sítio é o espaço da Teresa e tem a marca dela, é ali que trabalha, como aquela outra sala é a carpintaria-oficina do Paulo”.

Esta é apenas uma das divisões de trabalho do Serra - Espaço Cultural, onde trabalham atualmente artistas de Leiria e de outros pontos do país (@ VERA MARMELO)

Vera Marmelo

A dinamização do local e a possibilidade de interação com outros artistas, num “espaço de trabalho tão grande que seria impossível ser-nos cedido deste modo em Lisboa ou no Porto”, reforçam a vontade da banda em continuar em Leiria e a partir daí dar-se a conhecer ao país. A quaisquer tendências ou desafios centralizadores, Telmo Soares responde assim: “Passámos de tentar descortinar a melhor maneira de chegar a Lisboa e Porto, por exemplo na procura de clientes da produtora, para percebermos que o objetivo é provar que saem daqui coisas tão boas que eles é que têm de vir cá. Claro que vamos ter sempre de ir procurá-los, mas o contrário também tem de acontecer. Já tivemos músicos a vir cá — e se antes perguntavam-nos se não sentíamos que era difícil estar em Leiria, agora veem o sítio onde estamos, as nossas condições de ensaio e criação e dizem-nos: adorava ir para aí”.

Foto principal deste artigo de Vera Marmelo

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