Quando decidiram que estava na altura de fazer o terceiro álbum, depois de The Misadventures of Anthony Knivet (2013) e Drifter (2016), os leirienses First Breath After Coma não tinham uma imagem muito clara em mente. A banda “não segue uma corrente musical à risca” e os álbuns são sempre um reflexo do presente dos seus membros, do que vão ouvindo e descobrindo de si até enquanto fazem o disco, explica Roberto Caetano, membro e habitual vocalista, ao Observador. Nem eles sabiam o que vinha aí.

Em 2018, os cinco membros da banda — João e Pedro Marques, Rui Gaspar e Telmo Soares, além do já referido Roberto Caetano — decidiram que era altura: reabilitaram uma casa em Reixida, perto de Leiria, e foram viver juntos em residência artística. Em seis meses, acabaram por gravar oito temas — oito “telas”, como melhor classifica Roberto Caetano — e fazer um filme à volta do álbum.

O resultado é NU. “Album visual” ou disco-filme, como se preferir, é possivelmente a obra maior da banda até à data. Não é pós-rock nem soul digital, ópera pop apurada ou eletrónica experimental: é um bocadinho de tudo isso condensado em oito grandes canções, uma viagem sonora com princípio, meio e fim que não apetece acabar. Notoriamente inspirado em coisas tão diferentes quanto os Mogwai, Bon Iver, M83 ou Sigur Rós (até no hip-hop, no groove das baterias finais de “Feathers and Wax”), NU tem um universo próprio, não tem gorduras indesejáveis e isso não é coisa pouca.

Já é possível confirmá-lo: o álbum visual foi disponibilizado na íntegra pela banda, através da sua conta no Youtube. A edição física do disco acontece a 1 de março e seguem-se depois os palcos, primeiro nacionais (Leiria dia 6, Lisboa a 7, Porto dia 8 e Coimbra a 9), de seguida espanhóis, alemães (muitos mesmo), holandeses, suíços, luxemburgueses. E ainda há “mais concertos por anunciar”…

Posted by First Breath After Coma on Monday, February 18, 2019

“Creio que nunca estivemos todos juntos a gravar”

A metáfora dos oito temas de NU como “oito telas” musicais é menos metafísica e mais prática do que parece. Quando os cinco elementos dos First Breath After Coma começaram a viver juntos, começaram também a compor e gravar o disco de maneira diferente do que lhes é habitual. Em vez de estarem todos a tocar e gravar em simultâneo, iam “pincelando” o disco à vez.

Foi como se tivéssemos oito telas na nossa sala de ensaios. Eu levantava-me às 8h e dava uma pincelada ou duas. Depois vinha outro ao meio-dia, porque acordava mais tarde, fazer a mesma coisa. Talvez por causa disso, o disco acabou por ter um bocadinho do interior de cada um de nós, do que cada um estava a sentir quando gravou na sala de ensaios. Fomos lá muitas vezes sozinhos ou aos pares, creio que nunca estivemos todos juntos a gravar, para ser sincero”, conta Roberto Caetano.

O título do disco, que deu origem a um filme do qual já é possível ver dois capítulos (as duas cenas que retratam os temas “Change” e “Heavy”), advém em parte daí. O método deu origem a um álbum “que é muito mais íntimo, com um cunho pessoal de cada um muito mais forte do que o dos álbuns anteriores”. Isso sente-se ao longo das oito faixas do novo disco: não sendo um rutura completa, de todo, com o anterior Drifter (basta ouvir “Gold Morning Days” ou “Dandelions” para encontrar pontos de contacto com este NU), estabelece uma relação mais íntima com os ouvintes abrandando o ritmo e tirando as peles rock mais elétricas. Soa a fim de tarde a espreguiçar ao sol, amaguras convertidas em música sonhadora e esperançosa.

[“Change”, uma das oito “telas” do “álbum visual” dos First Breath After Coma:]

NU é, contudo, um termo que se aplica bem à abordagem dos First Breath After Coma à música de uma forma geral. Neste álbum como nos anteriores, a música serve de confissão, catarse, desabafo e zanga para os cinco membros. “Somos pessoas bastante introspetivas, bastante tímidas”, começa por confessar Roberto Caetano. “Muitas vezes desabafarmos com outras pessoas sobre os problemas que cada um tem — todos os temos —  não nos é fácil. Temos uma certa dificuldade em expressar sentimentos por palavras de um outro modo que não a música”, acrescenta. Talvez “concentrar e canalizar mágoas, angústias, paixões, desejos, sonhos e medos” para isto de compor e gravar canções já seja um vício. E ainda bem.

Canalizamos os sentimentos para música esperançosa. As canções nunca são inteiramente cabisbaixas, não fazemos temas que só dão para chorar. Incluímos sempre um lado de esperança mesmo quando estamos a falar da morte, por exemplo”, aponta ainda Roberto Caetano.

Enquanto canalizavam os seus sentimentos para as canções deste disco, os cinco elementos dos First Breath After Coma fizeram-no também para a conceção de um filme que retratasse o álbum. “Nós, elementos da banda, temos com um colega nosso, que é o Miguel [Ferraz], um projeto chamado Casota Colletive. Fazemos vídeos, gravamos [telediscos] para outras bandas. Com o orçamento com que fizemos este filme ser-nos-ia completamente impossível encomendá-lo a uma entidade externa, mas já que temos uma produtora audiovisual e podemos fazê-lo, isso fazia todo o sentido. Foi uma ideia que se foi construindo nestes seis meses em que estivemos a fazer o álbum, durante este período bonito de convivência”.

[O ‘disco-filme’ na íntegra:]

Uma banda sem correntes, em que o “vocalista” pode não cantar

Enquanto viviam juntos, cada elemento dos First Breath Coma foi aumentando o conhecimento que tinha dos outros. João, Pedro, Rui, Telmo e Roberto conhecem-se há vários anos e fazem música juntos desde que tocavam versões de pós-punk na adolescência, mas cada um vai crescendo e mudando com a idade. Essas novas identidades descobertas, sobretudo artísticas — pessoais não tanto, “já todos sabíamos que o Telmo para lavar a loiça é complicado”, brinca Roberto –, foram percetíveis durante o convívio.

Nunca tínhamos vivido todos juntos na mesma casa. Nesta banda vamos descobrindo o nosso coletivo e a nossa essência permanentemente e nessa residência deu para perceber por exemplo que o Rui, que é o nosso baixista e já fazia vozes nos outros álbuns, pode perfeitamente assumir as vozes principais de”, nota o habitual cantor dos First Breath After Coma.

A descoberta de Rui Gaspar como um vocalista que pode tomar a dianteira dos microfones aconteceu depois de uma noite em que saíram todos “para os copos” e voltaram a casa por volta das 6h. Inspirado, o baixista e músico foi o único que não foi para a cama: foi “para a sala de ensaios mandar as pinceladas na tela” e “surgiu uma voz que ele fez com um piano”, recorda Roberto Caetano. “Deu para descobrir que ele pode assumir uma canção e acabou por assumir três” — canta os principais versos de “Howling For A Change”, “Feathers and Wax” e “I Don’t Want Nobody”.

Roberto Caetano (de pé) foi o nosso interlocutor. É o habitual vocalista da banda que apresenta o novo álbum dia 6 de março no Teatro José Lúcio da Silva (em Leiria), no dia seguinte, 7, no Mercado Time Out (Cais do Sodré, Lisboa), dia 8 no Hard Club (Porto) e no dia 9 no TAGV (Coimbra). Segue-se uma digressão internacional

Poderia imaginar-se que o vocalista ficaria incomodado com parte do protagonismo perdido, mas a realidade foi outra: “Nunca pensámos na banda como tendo este baterista, aquele guitarrista, X teclista. Gostamos de assumir a banda como um todo e qualquer um pode ser multifacetado. Se o Telmo no terceiro álbum cantar numa faixa não há problema nenhum e se houver um álbum em que não canto também não há qualquer problema. Vivemos muito o presente e queremos pôr de lado o passado. O que foi feito está feito, não vamos agarrar-nos ao preconceito de que como sempre cantei tenho de continuar a cantar”.

Enquanto banda, enquanto conjunto de amigos que cria música, é muito importante o conjunto andar sempre com um espírito e mentalidade feliz. É importante para nós saber que o que se fez correspondeu ao que se estava a sentir, que não houve aqui qualquer tipo de barreira, quaisquer pressões ou limitações ao que sentimos vontade de fazer”, aponta o nosso interlocutor.

“Queremos ser uma banda de culto e levamos por tabela”

O anterior Drifter foi em simultâneo um álbum importante no percurso dos First Breath After Coma e o primeiro disco em que a banda se sentiu verdadeiramente pressionada, conta Roberto Caetano: “Há quem diga que o segundo álbum é o mais difícil de uma banda. Na nossa perspetiva, só há um álbum que é mais fácil de ser compreendido: o primeiro. Esse é o álbum de uma banda nova, as pessoas não têm um gancho para trás, não há nenhum álbum com o qual ele possa ser comparado. A nível de pressões e expectativas é o mais fácil. Depois, todos são complicados: há uma expectativa que quem gosta de nós continue a ouvir aquilo que vamos fazendo”. Fórmulas do sucesso eles não conhecem, só do insucesso: “Tentar agradar a todos é muito complicado”.

A banda nas sessões de fotografia de promoção de “Drifter”, o álbum anterior

Apesar da pressão, o sucessor do primeiro álbum The Misadventures of Anthony Knivet foi álbum “que na nossa perspetiva de banda era e é bastante competente”. Curiosamente, o disco não teve numa fase inicial o impacto esperado pelo grupo, conta Roberto Caetano: “O primeiro álbum é o primeiro álbum, chama a atenção mas depois é preciso marcar uma posição com o segundo e terceiro. Gostámos do resultado do segundo, mas foi preciso irmos lá fora, fazermos digressões e concertos fora de Portugal, tocarmos no [festival] Eurosonic e sair uma notícia sobre o disco estar nomeado para os 25 melhores álbuns [lançados em editoras independentes] da Europa para cá dentro ganharmos um bocadinho de espaço, de antena”, aponta Roberto Caetano.

Esta conversa não é nova, muitas vezes é preciso ir lá fora mostrar trabalho e ser valorizado para ter impacto cá dentro. Acaba por ser normal, Portugal é um país pequeno, há lobbies fortes. Só quase um anos depois do lançamento do Drifter é que surgiu algum hype em Portugal e nos media à volta desse álbum. Acontece a bandas que não fazem música simples apenas para a rádio, para vender: queremos seguir o caminho de banda de culto e acabamos por levar isso por tabela”, refere Roberto Caetano.

A visibilidade internacional da banda deveu-se muito a uma aposta no mercado externo que foi comum a alguns outros projetos da editora leiriense Omnichord Records, como Surma, alter-ego da compositora, cantora, instrumentista e produtora musical Débora Umbelino, ou a banda Whales, entre outros. Investindo na logística, “apertando o cinto constantemente”, os First Breath After Coma fizeram nos últimos anos várias séries de concertos fora de Portugal, já tendo tocado em “perto de dez países”.

Vemo-nos a fazer um pouco mais do que o mercado nacional porque esse está algo lotado. Tentamos alargar horizontes . É um processo difícil: uma coisa é tentar crescer dentro de Portugal, que pode demorar cinco ou seis anos, outra é investir ao mesmo tempo lá fora, os orçamentos são uma coisa astronómica. Mas é um caminho diferente, que queremos seguir. Na altura em que começámos a fazer digressões fora se calhar contávamos as bandas portugueses que se aventuravam a fazê-lo. Hoje, acho que a malta já tenta procurar também esse caminho e vejo isso como positivo”, refere o músico.

Eles e a música portuguesa estão num PIEC — Processo de Internacionalização Em Curso

O crescimento fora de portas dos First Breath After Coma tem coincidido com uma aposta na exportação em bloco da música popular portuguesa além do fado, cujo estatuto e história lhe garantiu há muito visibilidade internacional. Recentemente apareceram festivais como o Westway Lab e o MIL, que tentam expor artistas portugueses (no primeiro caso num círculo mais experimental e para convívio de profissionais do setor, no segundo caso num círculo mais abrangente) a editoras, agentes e promotores de concertos de outras nacionalidades, e surgiu a plataforma Why Portugal, criada com o intuito de introduzir em círculos internacionais bandas e artistas portugueses emergentes.

Foi neste contexto de tentativa de uma exposição concertada e em bloco da música portuguesa ao mundo que os First Breath After Coma começaram a ganhar público fora do seu país. Algo que para Roberto Caetano também coincidiu com uma fase luminosa da música portuguesa, cuja qualidade e diversidade justificam mais atenção: “Quando fomos ao festival Eurosonic ficámos a perceber isso. Portugal era o país em foco, apresentaram-se lá 23 projetos [musicais] e não houve nenhum que não tivesse acertado concertos com entidades estrangeiras”, revela.

Algumas pessoas chegavam ao pé de nós e perguntavam: onde é que vocês andaram, onde é que estavam? Pensavam que daqui só saía ou fado ou o tribalismo inspirado nos Buraka [Som Sistema], que não havia bandas alternativas a isso. Diziam-nos que éramos muito bons, não única e exclusivamente a nossa banda mas também as bandas portuguesas em geral”, garante o músico.

O impacto conseguido no Eurosonic pelas bandas nacionais e pelos First Breath After Coma em particular (meia hora depois de atuarem, os leirienses já tinham sido contactados para dar um concerto na Suíça e um concerto no Luxemburgo) “mostra que há sem dúvida um mercado lá fora a ser explorado, um mercado que tem lugar para nós”, aponta o habitual vocalista da banda.

Um outro sintoma desse crescimento internacional dos First Breath After Coma é um dado estatístico recente a que a banda teve acesso: “Portugal é o país mais recetivo, também porque somos de cá, mas os últimos dois singles que lançámos [em antecipação ao lançamento deste terceiro álbum] foram mais ouvidos na Polónia, na Alemanha e na Turquia do que em Portugal. Espanha, Inglaterra e Estados Unidos também são países que estão muito presentes na proveniência de quem nos ouve. Acabamos por perceber que se calhar este investimento e aventura que estamos a ter fora está a dar resultado, que não temos de trabalhar só para o mercado nacional”.

[“Heavy” foi a primeira peça audiovisual revelada do disco ‘NU’, o terceiro da banda de Leiria:]

A “aventura” internacional vai prosseguir este ano: em pouco mais de um mês, entre 14 de março e 18 de abril, têm 25 concertos agendados fora de Portugal. Se um dos objetivos da banda passa por apresentar este “álbum visual” em “festivais e salas de cinema”, para que o público “possa explorar da melhor maneira esta peça que fizemos, em que as cenas equiparáveis à música”, outra intenção é “continuar a fazer digressões”: “Este ano e no próximo queremos explorar ao máximo este álbum ao vivo, tocar muito”, refere Roberto, que recorda como outros concertos memoráveis fora de Portugal, além do Eurosonic, uma atuação “num festival na Suíça em que fomos tratados com uma banda à séria, tocando num espaço grande para um público fixe” e outra “em Wolfsburg, numa tenda para cinco ou seis mil pessoas que encheu”.

Com concertos já feitos também em Portugal em festivais como o Bons Sons, NOS Primavera Sound e Paredes de Coura, o quinteto leiriense volta ao recinto deste último festival no próximo verão. A propósito disso, o membro dos First Breath After Coma aproveitou para confessar um desejo: “O Primavera Sound é um festival de que gostamos, mas aquela magia que o Paredes de Coura tem — a beleza, a maravilha de viver a aldeia e de estar no rio Taboão — é única. Pessoalmente não vou descansar até ser cabeça de cartaz daquele festival, nem que demore 30 ou 40 anos. É um desejo que tenho e que acho que a banda também tem”. Tudo acaba com risos: “Quem sabe não irá acontecer daqui para aí a meio século…”.