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Diane Simeone,  responsável pelo PRECEDE Consortium, a discursar na Botton-Champalimaud International Pancreatic Cancer Conference
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▲Diane Simeone, responsável pelo PRECEDE Consortium, a discursar na Botton-Champalimaud International Pancreatic Cancer Conference

João Ferrão/Fundação Champalimaud

▲Diane Simeone, responsável pelo PRECEDE Consortium, a discursar na Botton-Champalimaud International Pancreatic Cancer Conference

João Ferrão/Fundação Champalimaud

Está em curso o "maior estudo de sempre" contra o cancro do pâncreas. “Quando encontrado cedo, a taxa de sobrevivência pode superar os 83%"

Estudo que reúne mais de 60 instituições em todo o mundo quer perceber o “primeiro sinal” de que alguém tem o tipo de cancro mais letal, antes que seja demasiado tarde para curar.

A taxa de sobrevivência para alguém diagnosticado com cancro do pâncreas é extremamente reduzida. No final do século XX, apenas cerca de 5% dos pacientes conseguia ultrapassar os efeitos da doença ao fim de cinco anos de diagnóstico. Em 2025, o número chegou aos 13%, mas os especialistas na área consideram que os avanços na investigação do cancro mais mortal que existe são insuficientes. Como tal, surge uma nova iniciativa que tem como objetivo concentrar o máximo de informação possível — um pouco por todo o mundo — para conseguir aumentar significativamente a taxa de sobrevivência.

O PRECEDE Consortium começou na Califórnia em 2020 e a missão era simples: em 10 anos, fazer com que pelo menos metade dos doentes consiga sobreviver ao diagnóstico de cancro do pâncreas. A norte-americana que lidera este consórcio admite ao Observador que para conseguirem alcançar este objetivo, os mais de 60 centros de investigação que aderiram à iniciativa estão a focar-se no diagnóstico precoce da doença.

Mas por que é o cancro do pâncreas tão mortal? Na maior parte dos casos, só é diagnosticado numa fase bastante avançada, pelo que mais de metade dos doentes chega à fase de diagnóstico inicial já com metástases pelo corpo. Muitas vezes, o diagnóstico só chega quando se começam a sentir os sintomas, pelo que quando os pacientes chegam ao hospital para fazer análises, pode já ser tarde demais para garantir que o combate é bem sucedido. Assim, os especialistas sublinham que mais importante que uma cura para esta doença, o mais importante é descobrir, em primeiro lugar, como é que se pode prever o desenvolvimento do tumor e, da mesma forma, tomar medidas de prevenção para assegurar que não serão precisas sucessivas intervenções para afastar o cancro.

“Sabemos que, se analisarmos o aumento da sobrevivência ao cancro em geral, noutros tipos de tumores, isso deve-se quase exclusivamente à deteção precoce“, refere Diane Simeone, a oncologista responsável por coordenar os estudos complementares das várias instituições pertencentes ao consórcio PRECEDE. “Ao mesmo tempo, da informação que já temos num pequeno número de pacientes de cancro do pâncreas ao nosso dispor, quando o tumor é encontrado cedo, a taxa de sobrevivência pode superar os 83%“, continua.

A cirurgiã, que é também a diretora do Moores Cancer Center na Universidade da Califórnia em San Diego, explica que em território norte-americano, o investimento que é feito na investigação no âmbito da deteção precoce de qualquer tipo de cancro corresponde a “6 ou 7%” do investimento total contra a doença. “Quando perguntamos a um paciente o que quer, a resposta é sempre: Não quero cancro, ou se for para ter, quero que seja um coisa muitíssimo pequena que se possa cortar facilmente e sigo em frente com a minha vida”, refere Diane Simeone, acrescentando que existe “claramente” um “desfasamento” entre o que “a sociedade quer” (ou seja, que a ter cancro este seja detetado ainda no início),  e aquilo que é investido.

Assim, tratando-se de um cancro “altamente letal”, para o qual “não existem fármacos que o possam curar”, defende que deve ser feito um investimento para “descobrir quem está em risco”, mas também encontrar “marcadores que indiquem a presença do cancro numa fase extremamente precoce” para “alterar as chances de sobrevivência”. É por este motivo que começou o “maior estudo de sempre” nesta matéria, com o objetivo “ambicioso” de, até 2035, aumentar a taxa de sobrevivência até pelo menos aos 50%.

"Foi nos dito que era um bom modelo. Que pode ser utilizado para também identificar outros cancros problemáticos de forma mais precoce"
Diane Simeone, cirurgiã, especialista em cancro do pâncreas e responsável pelo PRECEDE Consortium

Os 10 mil pacientes que podem ser cruciais para descobrir as origens de vários tipos de cancros

Foi com o intuito de partilhar os trabalhos do PRECEDE, mas também com o desejo de atrair o maior número de instituições para se juntarem ao consórcio possível, que Diane Simeone se deslocou até Portugal para participar na segunda edição da Botton-Champalimaud International Pancreatic Cancer Conference, na Fundação Champalimaud. O evento é o maior do seu tipo em solo português, e é um dos principais locais de encontro de especialistas na área de todo o mundo, contando com mais de uma centena de oradores e outros 500 participantes.

A palestra de Diane foi introduzida como sendo “um dos temas mais importantes” de toda a conferência. Foi, por isso, a primeira a falar naquela que era a última intervenção do dia no Botton Auditorium, situado no rés-do-chão do único centro inteiramente dedicado à doença em Portugal.

A intenção era ter começado os trabalhos do consórcio logo em 2020, mas as coisas “demoraram a descolar” e, por isso, só agora em 2025, é que definiram a meta para a próxima década. Neste preciso momento, contam com 5 mil pacientes com elevada probabilidade de vir a desenvolver cancro do pâncreas, seja por fatores genéticos ou de comportamentos de risco. “Temos participantes que vão ter cancro. Por isso, qualquer coisa que queiramos testar, vamos conseguir fazê-lo com tempo”, explica ao Observador.

Destes 5 mil que constam na primeira vaga a ser analisada, já contam com 28 diagnósticos através de análises — “E ainda agora começámos!”, exclama a especialista. Das 10 mil pessoas que pretendem reunir ao longo desta década de estudos, estimam ter pelo menos 350 casos positivos nos primeiros cinco anos, e cerca de 1.200 até ao final da investigação. “Se fizermos os cálculos, será cerca de um novo cancro detetado quase todas as semanas, por cada um dos 60 centros de investigação que pertencem ao consórcio, bem como noutros 40 que estão na fila para se juntarem também”, acrescenta Diane Simeone.

Em comparação, continua a responsável, o maior estudo alguma vez publicado sobre o tema reúne informação sobre “cerca de 30 pacientes ou menos”, ao longo de 20 anos de análise de tumores. É “de longe” o maior neste tipo de cancro e, comparado com outras variações da doença, continua a ser dos maiores consórcios do mundo. Tanto que, para além de ser um método “único” para finalmente compreender o cancro do pâncreas, tem sido elogiado e apontado como sendo uma possível solução para desvendar mistérios de outras doenças também.

“Foi nos dito que era um bom modelo. Que pode ser utilizado para também identificar outros cancros problemáticos de forma mais precoce”, relata a especialista. Diane Simeone explica que “alguns dos riscos identificados para o cancro pancreático são comuns noutros tipos de cancros”, dando o exemplo dos indivíduos que sejam portadores de uma mutação dos genes BRCA, que está associado a uma maior suscetibilidade de vir a desenvolver um tumor no futuro.

“Temos cerca de 2.500, 2.600 portadores de mutações nos BRCA, que também estão em risco para cancro da mama, dos ovários e da próstata”, continua Diane Simeone. Por isso, se por acaso algum investigador vier a descobrir algum tipo de “estratégia de prevenção” para aqueles com estas mutações específicas, podem ser “imediatamente conectados” ao projeto do pâncreas. “Não se trata apenas de deteção precoce, mas também tem possibilidades de prevenção”, acrescenta.

  • Diane Simeone, responsável pelo PRECEDE Consortium, a discursar na Botton-Champalimaud International Pancreatic Cancer Conference
    João Ferrão/Fundação Champalimaud
  • Diane Simeone, responsável pelo PRECEDE Consortium, a discursar na Botton-Champalimaud International Pancreatic Cancer Conference
    João Ferrão/Fundação Champalimaud

O “projeto comunitário” que liga dezenas de instituições em todo o mundo — mas ainda sem Portugal

“O objetivo principal é ter dados abrangentes, amostras biológicas, imagens e testes genéticos”, conta ao Observador a coordenadora do PRECEDE Consortium. Com estes dados, que vão sendo regularmente recolhidos junto dos participantes entre as 60 instituições espalhadas pela América do Norte, pela Europa, pela Ásia e pela Austrália, os diferentes centros de investigação procuram responder a três questões essenciais — que até aos dias de hoje não têm resposta.

“Qual é o primeiro sinal de que alguém tem cancro no pâncreas? Qual é o perfil das pessoas que precisamos de examinar com antecedência? E, claro, quais são as ferramentas mais eficazes e económicas?”, responde Diane Simeone.

Definida a intenção dos trabalhos, a responsável adianta que está a ser preparado “manuscrito” para os primeiros casos positivos detetados. “Temos um projeto de leitura compreensiva algures no próximo ano e com cerca de 200 pacientes com cancro do pâncreas, tenho a certeza que vamos encontrar alguma componente de hereditariedade em falta. Também estamos a testar alguns biomarcadores sanguíneos e veremos se funcionam, ou não”, conta também.

Diane Simeone esclarece que as conclusões deste “mega estudo” não vão ser publicadas num único artigo daqui a dez anos. Ao longo desta próxima década, até 2035, a coordenadora espera que mais de mil artigos científicos sejam publicados sobre o tema — todos com mais pormenor do que os publicados até à data. Até lá, o conhecimento obtido vai sendo partilhado todos os meses, através de conferências mensais que reúnem os responsáveis das diferentes instituições, onde têm a oportunidade de apresentar o estado da sua investigação individual e, também, algumas empresas podem mostrar diferentes tecnologias que podem (ou não) ser incorporadas nos estudos.

“É um projeto comunitário“, explica, mas todos os centros de investigação “fazem a sua própria pesquisa”. “Para responder a grandes questões, precisamos de números grandes“, continua Diane Simeone, remetendo novamente para os “quatro ou cinco mil” estudos que já existem, mas que todos são “pequenos, com pouca capacidade estatística e sem o controlo adequado”. “Então, ao construir algo nesta escala, passa a ser possível ter pessoas que nunca trabalharam com cancro do pâncreas e que têm novas abordagens, por isso é como um íman para atrair pessoas para esta área para resolver problemas”.

"Eu percebi que se quisermos mudar a taxa de sobrevivência, não podemos envolver apenas tipo oito centros académicos muito sofisticados. Temos de fazer com que todos pensem de forma diferentes sobre este tema"
Diane Simeone, cirurgiã, especialista em cancro do pâncreas e responsável pelo PRECEDE Consortium

Com uma grande ambição nos resultados, a responsável pelo consórcio admite que a questão de financiamento continua a ser “apertada”. Explica que os centros, para se juntarem, têm de apresentar uma proposta “completa, exequível e rigorosa” e, caso seja preciso financiar a investigação, têm de ser os próprios institutos a angariar o montante necessário. “Queremos ter a certeza de que não temos dois grupos de investigação a fazer exatamente a mesma coisa. Trabalhamos juntos”, continua.

Em Portugal, não existe nenhum instituição que pertença ao PRECEDE Consortium — apesar do interesse do centro de investigação Botton-Champalimaud em aderir eventualmente —, mas Espanha conta com três. Diane Simeone não está surpreendida que ainda não tenha surgido uma proposta formal dos portugueses para entrar no consórcio. “Nós não temos uma grande campanha de marketing. Começou comigo, agora está bem maior. Mas tem sido só quem tem ouvido falar do projeto e vem ter comigo diretamente”, acrescenta, indicando que esta conferência marcou o primeiro contacto direto do projeto com alguma entidade portuguesa.

“Houve esta organização sem fins lucrativos na Austrália que ouviu falar do estudo depois de eu ter dado uma palestra algures e manifestaram logo interesse. Disponibilizaram meio milhão de dólares por ano e 21 centros de investigação”, conta ao Observador. Ainda na Europa, a Islândia, Itália e o Reino Unido também têm sedes do projeto instaladas, mas mais importante ainda, como sublinha a responsável, a Hungria, que tem “dos maiores números de casos de cancro do pâncreas per capita” no mundo, também aderiu. Aqui, Diane Simeone sublinha que apesar de se tratarem de alguns países com pouco acesso a testes e análises de prevenção, está a ser feita uma aposta neste ramo para garantir um maior sucesso na investigação — e no futuro da qualidade de vida dos seus cidadãos.

“Eu percebi que se quisermos mudar a taxa de sobrevivência, não podemos envolver apenas tipo oito centros académicos muito sofisticados. Temos de fazer com que todos pensem de forma diferente sobre este tema”, adianta. Agora, numa altura em que cada vez mais centros se vão juntando ao projeto e outros tantos começam a interessar-se sobre o assunto, Diane Simeone admite que ainda falta uma “grande doação” para que consigam “deixar de caminhar e começar a correr”.

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