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O taxista, que chegou a ser o mais antigo do mundo no ativo, morreu aos 94 anos a 14 de janeiro de 1997, precisamente no dia em que o filme onde era o protagonista, “Taxi Lisboa”, se estreava em três salas de cinema da capital

O taxista, que chegou a ser o mais antigo do mundo no ativo, morreu aos 94 anos a 14 de janeiro de 1997, precisamente no dia em que o filme onde era o protagonista, “Taxi Lisboa”, se estreava em três salas de cinema da capital

Foi estrela da cidade, protagonista de filmes e agora espera recuperação: a história do táxi número 1 de Lisboa /premium

O Oldsmobile de 1928 transportou celebridades e foi o ex-libris do Rossio. Depois da morte do taxista, foi esquecido. Até que uma denúncia de abandono motivou queixas e recuperou memórias.

Augusto Macedo tem direito, desde 1998, a uma rua sem saída com o seu nome em Telheiras, identificada por uma placa onde se lê: “Taxista – 1904-1997”. Pelo nome, poucos saberão quem foi, mas ao volante do seu carro, um Oldsmobile Cabriolet de 1928, todos o reconheciam na cidade.

O taxista, que chegou a ser o mais antigo do mundo no ativo, morreu aos 94 anos a 14 de janeiro de 1997, precisamente no dia em que o filme onde era o protagonista, “Taxi Lisboa”, se estreava em três salas de cinema da capital. Curiosamente, também era este o ano em que a sua carta de condução caducava.

A morte foi notícia na Associated Press (AP) – “O taxista mais antigo de Lisboa morreu no dia da estreia do próprio filme” – com uma pequena sinopse do documentário suis generis realizado pelo alemão Wolf Gaudlitz. “O filme baseia-se nas lembranças de Macedo dos seus 68 anos como taxista, com cenas da Lisboa antiga e uma estranha variedade de passageiros a viajar no seu Oldsmobile de 1928.”

“Taxi Lisboa” não escapou às atenções do jornal “New York Times” e em 1997 o crítico Lawrence van Gelder destacava a “longevidade” de Augusto Macedo como “o seu principal atributo”. “É muito mais interessante como conceito do que como personagem”, escrevia. “Especialmente uma [personagem] que mostra tanta saudade dos tempos do ditador António de Oliveira Salazar.”

Ainda assim, o filme valeu-lhe um prémio de representação em 1996 no Festival de Cinema de Pescara, em Itália, que, segundo a AP, teve de ser o neto a receber – pouco tempo antes, Augusto Macedo sofreu um ataque cardíaco e foi hospitalizado.

O seu funeral, na Amadora, contou com um cortejo de “mais de 100 táxis”, lê-se na notícia publicada em inglês. Afinal, Macedo era uma figura histórica no meio, não fosse o seu táxi o número 1 de Lisboa.

O taxista tinha por hábito dizer que estava a guardar a estátua de Dom Pedro IV, no Rossio, no coração da cidade, o seu poiso nas últimas décadas. Antes disso, fez praça por vários pontos, na Praça do Comércio nos anos 40 e 50 e na Avenida Infante Santo, nos anos 60. Era também muito solicitado para passeios turísticos e casamentos e diz-se que terá transportado figuras como Fernando Pessoa, que lhe declamava poemas, ou Pablo Picasso, numa das suas viagens à capital.

“Lembro-me de ter andado nesse táxi quando era miúdo”, escreve Carlos Marim. “Foi nele que fomos buscar ao Cais de Alcântara o meu avô que chegou de Nova Iorque por via marítima carregado de malas que vieram penduradas na parte de trás do táxi até nossa casa na Rua Maria Andrade, aos Anjos.”

Natural de Sinde, concelho de Tábua, Augusto Macedo mudar-se-ia para Lisboa aos 12 anos para trabalhar na padaria do irmão mais velho. Aos 24 anos, pedia “dinheiro emprestado” para comprar o carro, “um dos únicos três Oldsmobile Cabriolet fabricados pela General Motors que vieram para a Europa”, escrevia em 2011 Afonso Ferreira no blogue “Um Homem na Cidade”.

Os outros dois carros, do “modelo XT 303”, diz ele, já terão desaparecido. Segundo o mesmo autor, que compila no seu blogue a maior parte da informação e fotos existente na internet sobre Augusto Macedo e até uma cópia digitalizada da revista Antral de 1996 em sua homenagem, era o próprio “senhor Macedo” quem fazia a manutenção do táxi.

A homenagem a Augusto Macedo num número da revista da Antral publicado em 1996

“Não lhe era imaginável trocá-lo por qualquer outro e por isso recusou indignado nos anos 60 uma proposta da General Motors que lhe oferecia um carro novo em troca do seu no intuito do mesmo integrar a coleção da companhia.”

A revista da Antral revela algumas proezas do táxi que não teve um único acidente: “Este carro já fez mais de dois milhões de quilómetros sem nunca mudar de motor. Já percorreu o país de Norte a Sul”, orgulhava-se o próprio taxista.

A Wikipedia dá mais informações sobre a viatura: “O motor e a grande maioria das peças continuavam a ser as de origem, com exceção dos pneus, que foram trocados pelos de um Chandler ainda mais antigo, de 1923.”

Em maio deste ano, o taxista foi homenageado pela CML com um post de Facebook com uma fotografia antiga e mais algumas curiosidades sobre o carro. Por exemplo, a matrícula, AB-61-88, que o escritor Vergílio Ferreira descodificava como “antes da Babilónia [AB]”, por ser tão velho:

A Rua Augusto Macedo, em Carnide.O senhor Augusto Macedo era taxista de profissão. Muitos se recordarão ainda de o ver…

Posted by Câmara Municipal de Lisboa on Monday, May 18, 2020

O post deu origem a uma avalanche de comentários e recordações, que ajudam a completar a história do Oldsmobile.

“Lembro-me de ter andado nesse táxi quando era miúdo”, escreve Carlos Marim. “Foi nele que fomos buscar ao Cais de Alcântara o meu avô que chegou de Nova Iorque por via marítima carregado de malas que vieram penduradas na parte de trás do táxi até nossa casa na Rua Maria Andrade, aos Anjos.”

“Esse táxi também fazia serviço do cais de Alcântara, quando regressavam os soldados das colónias”, recorda outro utilizador, Pedro Fernandes. “Era muito aplaudido.”

Sandra Nereu, o irmão Bruno Nereu e a mãe, Fernanda Nereu Jara, partilham a mesma foto tirada pelo pai, António Jorge Jara, com os dois irmãos a sorrir junto ao carro, num passeio por Lisboa. “Essa fotografia foi capa da revista ‘O Professor’”, conta o médico por telefone ao Observador. “Ia com a máquina fotográfica e com os miúdos e vi o carro parado no Chiado, ao pé da Faculdade de Arquitetura [agora apenas de Belas Artes]. Devido à expressão deles e à beleza do carro saiu uma fotografia que considero uma maravilha.”

A foto de Sandra e Bruno Nereu, irmãos, tirado por António Jorge Jara, com os filhos junto ao Oldsmobile

No Facebook, Isabel Constantino diz lembrar-se bem do “senhor com o carro estacionado no Rossio, sempre a limpar alguma poeira que caísse”. A autora Teresa Sancha Pereira, na Comissão de Toponímia de 1999, confirma o estado imaculado do carro, que Macedo cuidava “com todo o carinho imaginável”.

Um ano depois da sua morte, em 1998, o táxi terá sido comprado aos seus herdeiros pela Associação de Turismo de Lisboa (ATL). Nessa altura, os lisboetas perderam-no de vista. Até à há poucos dias.

À espera da recuperação

Na quarta-feira, 18 de novembro, o Fórum Cidadania Lisboa recebeu um e-mail e um conjunto de fotos de um cidadão indignado, Carlos Azevedo, com aquilo que descreve como “um caso de incúria e/ou profundo desrespeito no tratamento do património público”.

Pelos vistos, o carro que Carlos identificou como o Oldsmobile de 1928 de Augusto Macedo é uma das viaturas antigas “deixadas ao abandono e à chuva” junto às instalações da CML nos Olivais. “A situação que descrevo ocorre há cerca de um mês, um período que para mais foi marcado por severa precipitação”, escreve. “Deixado a apodrecer na rua em pleno inverno! Como é isto possível?”

Paulo Ferrero, um dos responsáveis pelo Fórum Cidadania, conhece bem o carro. Aliás, foi nele que se deslocou com a mulher em 1993 no dia do seu casamento para a igreja e depois até ao copo de água, em Sintra. “Julgo que é o táxi número 1 e costumava estar quase todos os dias no Rossio”, conta Paulo ao Observador. “Gostava muito daquele carro e um dia fui lá falar com ele e ficou combinado. Na altura ele já teria 90 anos e guiava. Era fantástico e o carro era espetacular.”

Depois disso, e “durante 20 anos”, nunca mais voltou a saber dele. Até receber o e-mail. “É uma relíquia.”

O Fórum Cidadania decidiu enviar um e-mail à CML e à ATL com um pedido de esclarecimentos sobre os veículos “desprotegidos no exterior daquelas instalações” e a sugestão de serem “expostos em local condigno, onde possam ser admirados pelo público”, em especial o Oldsmobile de 1928, “ex-libris do Rossio e da cidade de Lisboa, [que] transportou inúmeras personalidades e foi figurante num sem-número de filmagens”.

Perante a polémica do Fórum Cidadania, várias pessoas sugeriram que o carro fosse doado ao Museu do Caramulo, que tem em exposição permanente automóveis, motos, bicicletas e brinquedos antigos, e que ainda este mês viu a sua coleção crescer depois da doação de um BMW 327 Cabriolet de 1938.

Vítor Costa, presidente da ATL, respondeu prontamente e esclareceu que o “Táxi nº 1 não foi doado à ATL”, como era sugerido, “mas sim por esta adquirido aos herdeiros do Sr Augusto Macedo”.

“Durante alguns anos, a viatura foi por nós mantida e utilizada esporadicamente em ocasiões especiais (por exemplo, visitas de alguns jornalistas). Durante esse período, a manutenção foi assegurada pela oficina que fazia esse trabalho desde o tempo do Sr Augusto Macedo, e que era a única que dispunha de algumas peças, permitindo que a viatura circulasse.”

Depois disso, continua o presidente da ATL, a “solução deixou de ser possível, pelo que acordámos com a CML que seria esta entidade a guardar e cuidar do veículo, aguardando-se uma oportunidade para a sua exposição pública, o que ainda não sucedeu”.

Questionada pelo Observador, a Câmara Municipal de Lisboa afirma que o “Táxi Nº1 não está nem esteve ao abandono”, escrevem. “Esteve, sim, transitoriamente naquele local das instalações da Câmara Municipal de Lisboa, que dispõem de vigilância permanente. O Oldsmobile aguardou durante alguns dias a transferência, que já estava planeada, para um outro espaço da CML onde permanece agora também em segurança e devidamente acondicionado.”

Perante a polémica do Fórum Cidadania, várias pessoas sugeriram que o carro fosse doado ao Museu do Caramulo, que tem em exposição permanente automóveis, motos, bicicletas e brinquedos antigos, e que ainda este mês viu a sua coleção crescer depois da doação de um BMW 327 Cabriolet de 1938.

Augusto Macedo e o Oldsmobile em 1996

Salvador Patrício Gouveia, presidente da direção do museu, disse que ele próprio, depois de saber a história “num grupo de clássicos da internet”, contactou a câmara sobre o Oldsmobile de 1928. “Disseram-me que demoliram o sítio onde os carros estavam, mas que já havia um sítio para os carros irem, foi essa a informação que me passaram. Sei que são carros que a câmara valoriza, que recuperou e que gastou dinheiro a fazer isso, há um núcleo que gere esta frota.”

Em relação ao valor do carro, é mais “histórico”, diz o presidente do museu. “O carro é interessante, muito antigo. Não é um automóvel por si muito raro. Como deve imaginar, um automóvel que é um táxi é feito em grande produção e de baixo custo, senão não seria táxi.”

Duvida que só tenham vindo três deste modelo para a Europa, como se lê na internet. “Não acredito que tenham só vindo três mas também não posso validar essa informação.”

Não consegue dizer ao certo quanto vale o carro. “Não acredito que seja muito.” No Museu do Caramulo também têm um Oldsmobile, de 1902, que “parece uma carroça sem cavalos”.

A Câmara Municipal de Lisboa não adiantou mais informação sobre o que iria acontecer ao Táxi n.1 nem se seria exposto num museu.

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