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Bombeiros de Angra do Heroísmo tentam lidar com os destroços, dois dias depois do sismo

MARQUES VALENTIM

Bombeiros de Angra do Heroísmo tentam lidar com os destroços, dois dias depois do sismo

MARQUES VALENTIM

Fotos. Há 40 anos, um sismo matava 51 pessoas nos Açores. Foi o maior dos últimos 200 anos em Portugal /premium

A 1 de janeiro de 1980, um sismo matou 51 pessoas e desalojou 20 mil nos Açores. Ali, o fotojornalista Marques Valentim encontrou uma população em luto. As fotos que tirou contam a história.

O primeiro abalo aconteceu num domingo e não era um domingo qualquer: era dia de Ano Novo, o primeiro do ano de 1980. Às 15h42, a terra tremeu nos Açores, com maior intensidade na ilha Terceira. Foram apenas 20 a 30 segundos, de acordo com os geólogos. Mas, para quem ouviu o barulho, sentiu o chão a fugir-lhe e viu as estruturas a desfazerem-se em pó à sua frente, pareceu durar minutos, horas até.

Marques Valentim não foi um deles. O fotojornalista, que à altura trabalhava no diário Portugal Hoje (fundado apenas um ano antes), estava em casa naquele dia de Ano Novo, ainda para mais domingo. Foi só no telejornal das oito da noite, na RTP, que viu o que se tinha passado nos Açores. Não havia grandes pormenores. Apenas se sabia que tinha havido um sismo de 7,2 na escala de Richter e que Angra do Heroísmo era a zona mais afetada. Mal sabia que, dali a 24 horas, estaria a despachar rolos e rolos fotográficos no aeroporto da ilha Terceira com a sua primeira recolha da devastação que encontrou. O “Sismo d’Oitenta”, como ficou conhecido, acabaria por ser classificado como o terramoto mais destrutivo em Portugal dos últimos 200 anos.

O fotojornalista Marques Valentim, em Angra do Heroísmo aquando do sismo de 1980, captado pelo redator Jorge Oliveira

JORGE OLIVEIRA

“Cheguei ao jornal na manhã seguinte e a primeira coisa que o diretor me disse foi ‘Vais para Figo Maduro e aguardas por um avião militar para te levar para a Terceira’”, conta ao Observador o fotojornalista, 40 anos passados daquela manhã. “Nem tive tempo de ir a casa buscar roupa. Peguei em sete rolos a preto e branco, daqueles de 36 fotografias cada, e o diretor deu-me dinheiro do bolso dele para levar. Apanhei um táxi e fui. Foi uma coisa mesmo precipitada.”

Em Figo Maduro, embarcou num C-130 carregado de tendas e cobertores com um colega fotojornalista do Diário de Notícias, Fernando Farinha. Foram os primeiros repórteres a pôr o pé na ilha Terceira logo após o sismo. E não estavam preparados para aquilo que encontraram. “As pessoas estavam muito apáticas, estranhas. Ninguém parecia ter percebido bem o que tinha acontecido”, conta. Nesse primeiro dia após o tremor de terra, a 2 de janeiro, Marques Valentim recorda-se de ter saído do táxi que partilhava com Fernando Farinha para fotografar uma senhora vestida de preto, de lenço na cabeça. Estava à porta de uma casa cujo teto tinha abatido totalmente. “Fotografei-a, tentei falar com ela e nada. Aquilo provavelmente era a casa dela. E ela estava ali, à frente da casa, como se estivesse perdida.”

Foto tirada por Marques Valentim no dia imediatamente a seguir à tragédia, algures na Terceira

MARQUES VALENTIM

O epicentro do sismo foi no mar, mas a apenas 35 quilómetros de Angra do Heroísmo. E embora tenha afetado outras ilhas, como São Jorge e a Graciosa, foi na Terceira que o tremor de terra se sentiu com maior intensidade. Os números falam por si: 51 mortos, centenas de feridos, mais de 21 mil desalojados e danos em 15.500 edifícios, o que correspondia a mais de 80% dos edifícios em Angra do Heroísmo.

sismo nos açores, 1 de janeiro de 1980

Fotos dos habitantes de Angra do Heroísmo no meio dos edifícios destruídos (MARQUES VALENTIM)

Lá chegado, Marques Valentim não pregou olho na primeira noite, tal era a frequência das réplicas. “No dia seguinte, de direta, é que começámos a dar uma volta maior pela ilha e a apercebemo-nos melhor da dimensão da tragédia”, conta ao Observador, destacando a foto que faz capa deste especial, em que os bombeiros retiram um colchão de uma zona de destroços, como uma das primeiras tiradas nesse dia. “Só não morreram mais pessoas porque era dia 1 de janeiro, estava um dia bonito e, àquela hora, muita gente estava na rua. Se o sismo tivesse sido de noite, teria sido uma tragédia ainda maior”, vaticina.

Os especialistas concordam. Isso mesmo disse o professor de geociências da Universidade dos Açores Victor Hugo Forjaz à TVI, em 2004: “Se o abalo fosse de madrugada, com as pessoas nas suas residências, o número de vítimas poderia ter chegado aos 14 mil“.

Alguns jovens concentram-se em frente a uma das igrejas parcialmente destruídas. No topo, o relógio parado marca as horas a que o sismo ocorreu (cerca das 15h45)

MARQUES VALENTIM

Para além das vítimas mortais e dos feridos, havia a questão dos desalojados. Marques Valentim fotografou alguns deles, ora acantonados em casa de familiares, ora abrigados em edifícios como escolas e quartéis de bombeiros. Desses encontros, recorda que o repórter que se juntou a ele, Jorge Oliveira, conseguiu falar com alguns dos desalojados, mas lembra-se que as conversas eram curtas. “As pessoas ainda estavam em choque, não sabiam dizer bem o que tinha acontecido”, recorda. “Aquilo que me ficou na memória é que estavam muito assustadas. O ruído, o barulho enorme, aquilo ter ficado envolto numa nuvem de poeira, que criou quase uma neblina… E faço ideia a gritaria que houve.”

Imagens da destruição em Angra do Heroísmo. Ao todo, mais de 20 mil habitantes da ilha Terceira ficaram desalojados

MARQUES VALENTIM

Com água e luz praticamente cortadas em toda a ilha, os dias seguintes foram difíceis. Com uma população traumatizada, milhares de desalojados, uma cidade destruída e alguns a fazerem o luto, algo tão simples como arranjar pão para comer tornou-se um desafio. “Está a ver a foto daquela longa fila?”, pergunta Marques Valentim. “Era a fila para o pão. Só havia uma panificadora a funcionar e o pão estava racionado, portanto fazia-se ali fila. E nós jornalistas também íamos para a fila. Mas, se quer que lhe diga, durante esses sete dias, nem me lembro do que comi.” Recorda antes o silêncio das pessoas, os tetos desabados e o dia-a-dia completamente retalhado de uma ilha que “estava completamente caótica”.

Habitantes em Angra do Heroísmo fazem fila para ir buscar pão à única panificadora em funcionamento em toda a ilha após o sismo

MARQUES VALENTIM

O fotojornalista e o repórter iam ficando, a pedido da direção do jornal, à medida que os dias passavam. A sua rotina incluía passar o dia a fotografar e ir, ao final do dia, até ao aeroporto para enviar os rolos no voo da TAP que partia à noite para Lisboa, enquanto o jornalista ditava a peça pelo telefone. Pelo meio, Marques Valentim ia “lavando as cuecas e as meias” que tinha trazido consigo, já que não tinha mais bagagem a não ser a roupa que levava no corpo e os sete rolos fotográficos — que iam diminuindo à medida que os dias passavam.

Com eles, captou não só os efeitos do desastre. Assistiu à ajuda nos esforços de resgate dos norte-americanos da Base das Lajes e fotografou uma militar da Força Aérea a encontrar um Menino Jesus, de um presépio, intacto. Apanhou a ida de helicóptero do chefe do governo regional, Mota Amaral, para sobrevoar a ilha e se inteirar da dimensão dos estragos. E até não lhe escapou a visita do primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão. De líderes políticos, só lhe faltou Ramalho Eanes, o Presidente, que partiu no primeiro C-130 que seguiu de Figo Maduro para a Terceira — o de Marques Valentim partiu em segundo lugar.

sismo nos açores, 1 de janeiro de 1980

Militar norte-americana na limpeza dos destroços encontra intacto um Menino Jesus de um presépio (Marques Valentim)

O tom da resposta do Estado foi dado por Mota Amaral: “Enxugar as lágrimas e arregaçar as mangas”, decretou. Para além dos locais que abrigaram alguns dos desalojados, montaram-se 200 tendas — algumas captadas pelo fotojornalista, quando sobrevoava de helicóptero a ilha, atrás de Mota Amaral. De seguida, vieram casas portáteis, até as casas estarem totalmente reconstruídas. A reconstrução total de Angra do Heroísmo foi rápida e eficiente, muito com a ajuda dos habitantes. Três anos depois, apenas, a cidade era classificada Património Cultural da Humanidade pela UNESCO.

Em cima, imagens de desalojados e um dos feridos hospitalizados. Em baixo, a visita do primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão e o presidente do governo regional, Mota Amaral

MARQUES VALENTIM

Quanto a Marques Valentim, acabaria por regressar a Lisboa ao final de uma semana na Terceira. Mas voltaria à Angra do Heroísmo, “sete vezes desde então”. As suas fotografias foram expostas na cidade em diferentes ocasiões. Numa delas, fez um pedido aos organizadores, do jornal Açoriano Oriental: seria possível ajudarem-no a encontrar uma das pessoas que fotografara em 1980? Tratava-se de uma menina, de idade incerta, que tinha perdido parte de uma perna na sequência do terramoto e que o fotojornalista captara, de urso de peluche nos braços, ao lado de outra criança mais sorridente, cuja gravidade dos ferimentos era claramente menor.

Vista aérea de Angra do Heroísmo. Na foto da esquerda, o edifício de uma escola (branco) que se manteve intacto, rodeado de tendas para os desalojados

MARQUES VALENTIM

“Disse que gostava de saber onde estava a menina”, conta. “E eles conseguiram chegar à fala com ela. Dois ou três dias antes de eu ir de novo à Terceira, ela telefonou-me e disse ‘Sou a menina’. E eu disse que tinha muito gosto em tirar-lhe um novo retrato. E assim foi.” 28 anos depois do desastre, Marques Valentim voltou a apontar a objetiva àquela criança, entretanto tornada mulher. Esse retrato não sobreviveu, como o primeiro. “Veja lá que não sei onde pus o negativo…”

Duas crianças desalojadas fotografadas pela lente de Marques Valentim. A da esquerda, que perdeu parte de uma pena, viria a ser fotografada novamente pelo repórter 28 anos depois

MARQUES VALENTIM

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