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LUIS VASCONCELOS/LUSA

LUIS VASCONCELOS/LUSA

FP-25. "Otelo teve muito mais apoiantes do que Sócrates". Entrevista a Nuno Gonçalo Poças /premium

Na altura em que publica um livro sobre as FP-25, Nuno Gonçalo Poças, em entrevista, faz um paralelismo entre este caso e o Marquês: tanto Sócrates como Otelo dizem-se vítimas de julgamento político.

Quando Nuno Gonçalo Poças nasceu, em 1985, decorria no recém criado Tribunal de Monsanto, em Lisboa, o julgamento de 73 arguidos, acusados de associação terrorista por integrarem as Forças Populares – 25 de Abril (FP-25). Era uma organização que fazia parte do chamado “Projeto Global”, pensado pelo “herói de Abril”, Otelo Saraiva de Carvalho, e que visava tomar o poder pela luta armada. O grupo, pelo qual Otelo foi julgado embora nunca admitindo a sua ligação, fez dezenas de assaltos violentos e cometeu vários homicídios de norte a sul do país, naquilo que considerava ser uma luta contra o capitalismo. Esta organização terrorista e o seus membros — que atuaram ao longo de quase uma década — enfrentaram o último julgamento pelos crimes de sangue em 2001, depois de uma amnistia que os livrou do crime de organização terrorista. No entanto, 20 anos depois, poucos têm memória dela e muitos nem sequer sabem o que foram as FP-25, assim como das suas ligações a outras organizações terroristas de outros países europeus, como a ETA ou o IRA.

Foi a esta conclusão que o advogado Nuno Gonçalo Poças chegou quando começou a pesquisar sobre o tema para escrever um ensaio, segundo contou ao Observador numa entrevista por videochamada. Queria perceber o que eram as FP-25, de que ouvia o seu pai falar muitas vezes, porque, como guarda, participou na megaoperação policial — a Orion — que levou ao seu desmantelamento em 1983. Tinha também curiosidade em perceber a verdadeira ligação desta organização a Otelo Saraiva de Carvalho, que todos os anos vê ser aclamado por altura do 25 de Abril. Nos documentos que consultou, garante, encontrou essa ligação. As FP-25 correspondiam à ECA, a Estrutura Civil Armada, que integrava o tal Projeto Global, embora Otelo o tenha sempre negado, à data e agora. Mesmo a Poças manteve a sua tese de que nada tinha a ver com a violência da organização.

Assim que mergulhou no tema, o advogado percebeu que um ensaio seria curto demais para tudo o que havia a dizer e acabou a escrever o livro “Presos por um fio. Portugal e as FP-25 de Abril”, com prefácio de Paulo Portas, que deverá chegar às livrarias a 20 de abril — o dia em que se completam 41 anos da primeira aparição desta organização, que lançou dezenas de petardos pelo país, ao mesmo tempo que atirava panfletos com o seu manifesto e explicava ao que vinha. “O derrube do regime, a instauração da ditadura do proletariado, a criação de um exército popular e a implantação do socialismo”, lia-se no manifesto.

Nuno Gonçalo Poças lembra que o radicalismo vivido na altura não é muito diferente daquele que se vê em alguns movimentos dos tempos hoje. E choca-o que a história de um grupo que, entre as vítimas que fez, matou um bebé e um, à data, diretor geral dos Serviços Prisionais, Gaspar Castelo Branco, tenha caído no esquecimento. O que, do seu ponto de vista, é revelador de como, então, as instituições democráticas eram tão frágeis.

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E, olhando para os tempos de hoje, Poças fala também de José Sócrates — cujo Governo acabou, por um lado, a indemnizar Otelo e, por outro, a propor uma condecoração póstuma a Gaspar Castelo Branco (ideia do ministro Alberto Costa, em 2006, que o Presidente Cavaco Silva recusou acabando ele mesmo por atribuir essa condecoração dez anos mais tarde) . O advogado faz mesmo um paralelismo entre o processo das FP-25 e o da Operação Marquês: ambos os principais arguidos (Sócrates e Otelo) defendem-se como sendo vítimas de um julgamento político.

O advogado Nuno Gonçalo Poças percebeu que havia um grande desconhecimento sobre o caso

O livro que escreve sobre as FP-25 estará disponível a 20 de abril, dia em que se completam 41 anos sobre o aparecimento desta organização terrorista. Naquele dia foram lançados vários petardos pelo país e papéis com o seu manifesto. Que organização era esta?
As FP-25 de Abril são, na verdade, uma componente especial de uma organização ou de um projeto político que não as incluía só a elas. O Projeto Global incluía uma organização política, que foi inicialmente a Organização Unitária de Trabalhadores (OUT). Depois, mais tarde, passou a estar incluída no partido político que foi a FUP (Força de Unidade Popular). A OUT foi constituída em 1978, a FUP já depois, em março de 1980. Este Projeto Global incluía, portanto, um braço político, um braço armado ou militar, consoante a perspetiva, e tinha mais duas componentes: uma designada por Quartéis (composta por membros do quadro permanente e não permanente das Forças Armadas) e uma componente pessoal muito específica que se chamava Óscar (que era o próprio Otelo Saraiva de Carvalho por si só). Depois tinha, também, uma série de subcomponentes. Tudo isto funcionava como um todo através de uma direção que reunia cada uma das direções de cada componente: a da FUP, a direção político-militar das FP-25 (que era designada no projeto como Estrutura Civil Armada (ECA)), o próprio Otelo Saraiva de Carvalho, como componente pessoal, e por militares da componente Quartéis.

As FP-25 eram o braço armado da organização, chamemos-lhe assim.
Formalmente, sim: as FP-25 eram o braço armado de uma organização que era um Projeto Global. Acho que devem ser encaradas assim, não somente como uma organização quase única que agia independentemente do seu braço político e das restantes componentes. Era, sobretudo, um braço armado de um projeto político.

"É uma insinuação difícil de explicar se considerarmos o conteúdo do "Manifesto ao Povo Trabalhador", cujos milhares de cópias choveram em dezenas de cidades enquanto rebentavam os petardos. Ali se declarava que o golpe de "25 de novembro, "levado a cabo pelas forças da burguesia, apoiadas pelo imperialismo, conseguiu travar o avanço dos trabalhadores e a consolidação da suas conquistas — nacionalizações, controle operário, reforma agrária, organizações populares de base — e impediu a criação de condições para a tomada de poder e a construção da sociedade socialista".
Presos por um Fio

Começou por debruçar-se sobre este tema para escrever um ensaio e acabou a escrever um livro. Percebeu também durante a sua pesquisa que atualmente poucos conhecem esta organização. E os poucos que a conhecem não têm conhecimento profundo sobre ela, misturando-a com outros movimentos que nasceram ainda antes do 25 de Abril. Fala mesmo numa “anestesia generalizada” e numa “amnésia coletiva”. Porque acha que foi assim?
Eu acho que houve alguma tentativa de arrumar tudo aquilo que de mais radical e mais antidemocrático aconteceu depois do 25 de Abril. Isto inclui o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), o homicídio do Líbano Monteiro, a prisão do Zé Diogo [da União Democrática Popular], e depois acaba, também, por incluir as FP, que surgem numa altura em que já não estávamos em processo revolucionário. Esta amnésia coletiva, como eu lhe chamo, foi fruto de uma série de fatores que, todos conjugados, acabaram por nos conduzir a isto. À medida que fui lendo documentos, jornais, acórdãos, sentenças, relatórios de autópsias, projetos de lei de amnistia, ia falando com pessoas que tinham vivido a época e percebia que a maioria delas tinha tanta ideia das FP-25 como eu. Muitas não sabiam que o Otelo Saraiva de Carvalho tinha estado envolvido nas FP-25, não sabiam sequer o que eram as FP-25. E as que tinham uma ideia recorriam muito à adversativa, justificando a sua atuação quase numa lógica maniqueísta de diferenciar os bons de um lado e os maus do outro.

O contexto económico era também difícil…
Percebi que, entre o 25 de novembro e a adesão à Comunidade Europeia, Portugal teve muitas dificuldades económicas e financeiras, tivemos dois períodos de ajustamento, muito desemprego, dívida. A partir do momento em que as FP são desmanteladas com a Operação Orion, e depois com o decorrer do processo — que, quando chega à condenação, Portugal já estava na Comunidade Europeia –, acho que havia uma grande vontade de olhar para a frente e não de olhar para trás. Nós, enquanto sociedade, não fizemos essa expiação dos pecados. Houve também uma grande vontade por parte do poder político de eliminar esse passado. Isso é bastante evidente até no relatório antes da amnistia, da comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República, em que se diz que era preciso passar um detergente sobre a última nódoa que tinha caído no pano da democracia. Acho que isto é muito evidente.

Manchava o 25 de Abril?
Acho que manchava o 25 de Abril, sobretudo porque Otelo Saraiva de Carvalho estava envolvido. Mas o poder político na altura teve uma reação que não sei se consigo compreender. Porque acho que o desejo de salvaguardar a democracia era importante. Mas tenho a convicção de que a democracia se salvaguarda se as instituições funcionarem, como devem funcionar. E não se as pessoas em concreto que fazem parte do quotidiano democrático são perdoadas ou não. Esta junção de elementos fez com que a amnésia coletiva fosse gerada. Por outro lado, a memória do terrorismo vive muito daquilo que é a memória histórica. E, se ela não for preservada, é normal que as pessoas se esqueçam, porque não há muito interesse em olhar para trás e perceber o que aconteceu e a forma como tanta gente foi, de alguma maneira, conivente com aquilo que tinha acontecido.

“Aceitamos como normal um certo tipo de radicalismo na sociedade portuguesa”

Mas não terá sido só o poder político a contribuir para essa amnésia.
Mesmo no próprio jornalismo, na própria advocacia e no poder político havia uma herança de um passado da extrema-esquerda, que fazia com que as pessoas, passados uns anos, já não partilhando daqueles ideais revolucionários e da luta armada, tivessem uma espécie de solidariedade para com quem continuava a praticar ou quem tinha praticado até há relativamente pouco tempo. Passados estes anos todos, é importante voltar a falar sobre isto numa lógica de falar sobre as coisas, explicar como é que elas aconteceram, tentar perceber como é possível chegar a determinados estados na sociedade e na política e tentar até, de alguma maneira, compará-los até com algumas coisas que se passam hoje.

"À noite, já no Porto, parte do grupo foi circular de carro para as ruas da cidade. Perdendo-se, acabaram por entrar em ruas de sentido proibido, o que despertou a atenção da PSP. Temendo a descoberta do armamento na mal do carro, acabou por gerar-se um tiroteio no Jardim do Carregal, do qual resultaram três feridos, um deles agente policial, e dois detidos da organização. Estes dois detidos, Figueira e Barradas, tornaram-se "arrependidos" e aceitaram colaborar com a polícia a partir de então"
José António Moreira numa entrevista ao Expresso, em 1993, citada em Presos por um Fio

Uma das razões que invoca para escrever este livro é precisamente o facto de vivermos uma época em que, nas suas palavras, a “concórdia e a moderação” são impopulares, favorecendo o surgimentos de movimentos extremistas. Refere-se, em Portugal, a que movimentos?
É bastante evidente que a sociedade está polarizada, não acho que seja uma coisa de hoje, acho que se nota porque o radicalismo passou a ter uma vertente que até há pouco tempo não tinha. O radicalismo existiu e até a própria forma como, em Portugal, o processo da FUP-FP25 foi concluído, explica que nós aceitamos como normal um certo tipo de radicalismo na sociedade portuguesa. É certo que aquele radicalismo abandonou a luta armada, não é certo que tenha abandonado as práticas radicais. O discurso de ódio, a divisão da sociedade entre bons e maus e entre oprimidos e exploradores, entre capitalistas e proletariado… Acho que isso se mantém e manteve durante muito tempo. Houve uma condenada do processo FP, a Helena Carmo —  que foi, mais tarde, dirigente do Bloco de Esquerda –, que na altura do julgamento dos crimes de sangue, já no início do século XXI, disse uma coisa que acho que explica muito bem isto: que eles, de facto, não estavam arrependidos daquilo que tinham feito, mas que tinham compreendido que era possível praticar violência sem causar mortes.

Na altura não havia redes sociais.
Exato. É inegável que a sociedade se polarizou ainda mais e que surgiu em Portugal, na Europa, no Brasil, nos EUA, uma corrente iliberal que veio tornar este radicalismo ainda mais evidente. E acho que o livro pode ser útil por isso. Porque, em bom rigor, aquilo que levou à atuação das FP-25 não é muito diferente daquilo que leva à conduta de radicais: a divisão da sociedade entre grupos. Aquilo que norteava a conduta das FP-25 não era muito diferente daquilo a que nós assistimos hoje. E o objetivo não era outro que não a tomada do poder pela luta armada. Hoje em dia, o objetivo dos radicais de esquerda ou direita é também a tomada do poder, não pela luta armada, mas não sei se um dia isso não passará pela cabeça de alguém.

Nasceu em 1985, numa altura em as FP-25 estavam a ser julgadas. Muitas pessoas da sua geração não sabem sequer que existiu em Portugal uma organização terrorista que foi julgada pelos crimes que cometeu. Desconhece ainda mais que ligado a essa organização estava Otelo Saraiva de Carvalho, o herói do 25 de Abril. Como é possível, anualmente, recordarmos este homem pelo que fez em 1974 e ignorarmos por completo este seu percurso que chegou à barra do tribunal?
O facto de o Otelo Saraiva de Carvalho ter comandado o golpe militar de 25 de Abril e ter estado depois na liderança do Projeto Global, portanto das FP-25, não põe em causa a democracia. A democracia é a democracia, não foi Otelo Saraiva de Carvalho que nos deu a democracia. A narrativa que foi vendida durante todos estes trinta e tal, quarenta anos, de que o Otelo sobreviveu como um herói da democracia, acho que foi uma narrativa criada também por uma conjugação de fatores e tem um bocadinho a ver com o que estava a referir há pouco. Otelo Saraiva de Carvalho foi condecorado pelo Presidente da República Ramalho Eanes, em 1983, com a Ordem da Liberdade. Em 1983 era bastante evidente para o poder político, até para a imprensa e para a polícia, que havia uma relação entre as FP-25 e a OUT e a FUP. Houve uma série de pessoas que confrontaram Otelo com essa possibilidade, porque às tantas tornou-se evidente. Otelo negou sempre essa ligação e continua a negar hoje.

Falou com ele para o livro?
Falei e continua a negar essa ligação. Depois, grande parte das elites portuguesas durante os anos 80 sentiu tanta necessidade de não acreditar que Otelo fizesse parte das FP25 que saiu publicamente em sua defesa e de todos os presos das FP-25. Em Portugal houve mais movimentos de cidadãos a favor dos direitos dos presos do que das vítimas.

Isso não foi alimentado pelo próprio facto de os arguidos serem amnistiados?
Esta narrativa teve um espaço para ser criada e foi alimentada por muita gente, não foi alimentada só pelo próprio Otelo. Mário Soares foi o grande mentor do projeto-lei da amnistia, mas o Presidente Eanes também teve ali alguma responsabilidade. Houve imensa gente das elites intelectuais, políticas e culturais do país que promoveram a venda dessa narrativa e que lhe permitem, ainda hoje, continuar a dizer que não tem nada a ver com as FP-25. Quando Otelo Saraiva de Carvalho saiu da leitura do acórdão do processo dos crimes de sangue, em 2001, saiu do tribunal da Boa Hora e disse à imprensa que tinha ali ficado bastante evidenciado que ele, de facto, não tinha nada a ver com as FP-25. Depois vamos ler o acórdão e não é nada disso que lá está. O que ficou provado foi que aqueles que reconheceram que tinham feito parte das FP-25 foram condenados e depois todos os outros, contra quem tinham sido provado os factos de que eles tinham pertencido a uma organização terrorista, o tribunal não tinha conseguido demonstrar quem é que tinha matado quem, quem tinha roubado o banco x ou y. Este resultado só foi possível porque houve a amnistia dos crimes de organização terrorista e deixou cinicamente os crimes de sangue para depois.

Manuel Moura / Lusa

Entra agora naquilo a que chama um imbróglio jurídico.
Era um imbróglio jurídico porque o processo começou com normas de processo penal que estavam em vigor ainda desde a ditadura — o Código de Processo Penal é de 1987 –, portanto não ajudou à compatibilização com a Constituição democrática que nós tínhamos à altura. Houve um diferendo porque o Tribunal Constitucional entendeu uma norma que tinha sido aplicada de maneira diferente, depois houve entendimentos diferentes na Relação, no Supremo. Mas, no final, aquilo que o Tribunal Constitucional entendia era que o tribunal de primeira instância tinha aplicado uma norma inconstitucional e o julgamento tinha de ser repetido — tinha a ver com a reapreciação da prova em segunda instância, na Relação, porque na altura não havia gravação de julgamentos como há hoje, e não havia porque os réus não quiseram. As autoridades portuguesas tinham estado em Itália a acompanhar o julgamento das Brigadas Vermelhas e perceberam desde logo que essa podia ser uma forma de defesa da organização. Portanto, para se precaverem, propuseram a gravação do julgamento e foram os próprios réus que não quiseram. O Tribunal da Relação tinha o mesmo entendimento. E, quando chega ao fim, o Constitucional diz que, no limite, tinha de se repetir o julgamento — que, se tivesse sido repetido como o dos crimes de sangue, não tenho dúvida nenhuma de que teriam sido condenados, como na primeira instância.

Mas não foram…
Em 2001 não foram porque a prova dos factos era muito difícil e apareceram três ou quatro que reconheceram o que tinham feito e foram obrigados a cumprir penas suspensas e a pagar indemnizações. Isto era a justiça a funcionar e a política criou quase ali um imbróglio. Hoje isto seria impensável. Alguém que diga que ao fim de dez anos, pelo facto de um processo não estar concluído, por causa de uma série de recursos, que isto seja um imbróglio jurídico e que as pessoas devem ser amnistiadas. Imagine-se hoje se o parlamento e o Presidente da República dissessem que os arguidos do BPN deviam ser amnistiados porque o processo já dura há dez anos. Hoje em dia não cabia na cabeça de ninguém.

Ainda hoje é comum ouvir falar da ETA e do IRA, mas raramente se fala das FP-25, que eram ligadas a estas organizações terroristas. São “uma nota de rodapé”, como lhe chama, na história de Portugal. Que ligações encontrou?
A relação da ETA com as organizações de luta armada em Portugal é mais antiga, começou com a LUAR e depois, com as FP-25, tornou-se bastante evidente. Vinha já da relação dos seus membros, vindos do PRP e e das Brigadas Revolucionárias, da Isabel do Carmo e do Carlos Antunes, num momento de cisão. Uma série de militantes das Brigadas tinham estado já refugiados no País Basco com a ETA. No congresso constitutivo da OUT, na Marinha Grande, esteve presente uma delegação do partido basco, outra do IRA, uma da Frente Polisário e, mais tarde, já no período em que se falava da amnistia, houve um encontro internacional em Portugal, num hotel que foi pago, curiosamente, pelo Parlamento Europeu, através dos Verdes da Alemanha. Nesse encontro foi discutida a questão da amnistia de Otelo. Esteve cá um advogado da ETA, estiveram membros dos Verdes da Alemanha, gente do Kadhafi e de uma série de organizações do género. As FP-25 tinham armamento fornecido pela ETA, houve membros da Juventude Autónoma Revolucionária que foram à Líbia ter treino militar quando o Otelo ia tentar angariar dinheiro. É isso que nos dizem os documentos e alguns relatos de quem viveu aquela época.

Entre 1980 e 1987, as FP-25 foram responsáveis por mais de uma dezena de homicídios, de atentados à bomba e assaltos a bancos e viaturas de transporte de valores. Dos crimes que foram cometidos ao longo de quase uma década, grande parte sob o argumento de se lutar contra o capitalismo, quais os que mais o chocaram na sua pesquisa?
A mim chocou-me sobretudo que as pessoas tenham esquecido o que aconteceu, é o grande choque que tive com isto. Acho que há três crimes que individualizo, que são muito, muito claros. O caso do assassinato do Gaspar Castelo Branco, diretor-geral dos Serviços Prisionais, é muito importante. Eu queria transmitir uma visão política para o livro e esse assassinato, politicamente, foi muito importante. O assalto dos 108 mil contos foi muito importante — à data de hoje, é o equivalente a um assalto de 2,5 milhões de euros e a forma como ele foi, depois, aparentemente foi distribuído também é muito interessante.

"Com a distribuição já não tive nada a ver (...). Compraram-se carros, máquinas, todo o material para se fazer o trabalho político da organização. Mas, infelizmente, o dinheiro só durou três meses. Foi esbanjar até dizer chega, desde pagar salários em atraso (...) à criação de uma empresa (...) que hoje dá o nome de Roteliz, que esta em Angola, de que o Romeu Francês, o Otelo e os senhor Mouta Liz são donos e senhores"
Presos por um Fio

Foi esbanjado?
Foi esbanjado e também utilizado para fazer negócios, porque os revolucionários acabaram todos empresários [Otelo, o seu advogado Romeu Francês e Mouta Liz terão criado a empresa Roteliz, que prosperou em Angola].

Já lá vamos.
A morte do bebé do Nuno — um bebé de 4 meses morto à bomba — é, de facto, inacreditável, e é inexplicável que, ao fim de tantos anos, isto tenha caído no esquecimento. E que, naqueles primeiros dez anos após aquilo ter acontecido, as coisas tenham passado por um “erro técnico”, “um imponderável” e como um ato que tinha de ser desculpado porque eles não queriam matar um bebé, queriam matar outra pessoa. Como se matar outra pessoa fosse mais legítimo que matar um bebé. As FP-25 queriam matar o avô do bebé, que era, na visão deles, um perigoso latifundiário. O senhor era um arrendatário de terrenos agrícolas, que vivia numa casa perfeitamente banal em São Manços, o que torna a coisa ainda mais macabra. O relatório da autópsia do bebé é uma coisa que pode embrulhar o estômago a qualquer um e, hoje em dia, faz corar de vergonha muita gente.

Considera que estes crimes serviam para financiar a organização ou também para fragilizar o Estado, numa altura em que as instituições políticas eram ainda frágeis, no pós 25 de Abril?
O terrorismo fragiliza sempre o próprio Estado. O terrorismo endurece ditaduras e enfraquece democracias. O terrorismo era precisamente para enfraquecer o Estado, a democracia que eles chamavam de burguesa, no sentido da tomada de poder. E depois há também um revanchismo contra as pessoas que eles consideravam os grandes capitalistas. Mas Portugal, muito menos entre 74/75 e 1986/1987, não tinha grandes capitalistas, tinha pessoas que geriam empresas. Há um caso, do Rogério Canha de Sá, que era tido como um perigoso capitalista, tipo da pior espécie que foi assassinado à porta de casa quando estava à espera do autocarro para ir trabalhar. Vivia em Loures.

Fala mais do que uma vez da morte de Sá Carneiro, em 1980, período de ebulição das FP-25, e também o choca que a sua morte não tenha sido verdadeiramente investigada. Sugere alguma relação?
Não! Não, não. Nem é sequer uma deixa, acho é que a própria morte do Sá Carneiro foi brutal para a sociedade portuguesa e Sá Carneiro morreu numa altura em que as FP estavam em atividade há relativamente pouco tempo. Se olharmos para 1980 e virmos uma organização terrorista que surge, um primeiro-ministro que morre num acidente ou num atentado, é um ano que explica o ar do tempo.

"Como se, para o País, não fossem suficientes estes primeiros meses de actividade da organização terrorista, que passava a operar em Portugal, em Dezembro morriam o primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, num episódio trágico que ainda hoje se encontra coberto de mistério. Dois dias depois, Otelo era estrondosamente derrotado nas eleições presidenciais".
Presos por um Fio

É que, quando lemos o seu livro, vemos esta esta referência e percebemos que houve tanta coisa que ficou por explicar e que foi tão ocultada…
Essa é mais uma.

Parece que há uma ligação subentendida. Durante a sua pesquisa não encontrou nada que o sugerisse?
Não, é só de conjuntura. Otelo Saraiva de Carvalho, depois de Camarate, no dia 4 ou 5 de dezembro, manifestou pesar pela morte do primeiro-ministro e do ministro da Defesa. Mesmo nisto, Otelo teve aqui uma vertente institucional e pública que depois não era propriamente condizente com aquilo que se passava no Projeto Global e das FP-25.

Daí Otelo nunca ter assumido que as FP-25 eram a ECA, apesar de todos os membros que acabaram por falar assumirem essa ligação e assumirem que ele era um líder.
Todos, o Macedo Correia, o Mário Lamas, o Luís Gomes… Não foram poucos os que reconheceram que Otelo serviu até como pólo de atração para eles aderirem ao Projeto Global e às FP-25. O José Barradas, que depois foi assassinado [primeiro arrependido das FP-25 que colaborou com a polícia], dias antes do julgamento afirmou cabalmente que Otelo era dirigente, a par de outros como Goulart e Mouta Liz. A própria apreensão dos cadernos de apontamentos de Otelo explica isso muito bem: quando há um apontamento da reunião do conclave na Serra da Estrela — em que se está a discutir quais as ações armadas que se deviam levar a cabo e quem as ordenava e praticava — em que Otelo descreve o perfil do “inimigo a abater”. Não sei como há duvidas em relação a isto.

A verdade é que a esquerda temeu, a certa altura, que com Otelo se julgasse também o 25 de Abril. Mas a democracia não estava, muito menos aquando a amnistia, em perigo. O regime estava consolidado, Portugal era um País europeu, vinha de uma década de crescimento económico. A reação de defesa do regime foi excessiva (...). A única coisa que alcançou foi, de fcato, o apagamento da memória"
Presos por um fio

O crime de organização criminosa de que os arguidos estavam acusados acabou por ser amnistiado. Vou agora usar uma pergunta que que faz no seu livro: por que razão o Estado perdoou quem não se arrependeu?
Os arrependidos não foram arrependidos, foram dissidentes. Eles sentiram-se abandonados pela liderança do Projeto Global. O José António Moreira, que foi julgado à revelia e depois reapareceu, passado uns anos, porque foi finalmente detido, contou uma história muito interessante: antes do assassinato de Gaspar Castelo Branco houve uma fuga do Estabelecimento Prisional de Lisboa e ele conta que, quando abriram as celas (Otelo não estava), os dirigentes não quiseram sair. Preferiam manter-se naquilo que diziam ser um processo político. O que queriam era manter-se presos e manter a narrativa do processo político à espera de uma absolvição, enquanto os operacionais deviam fugir para continuar a fazer assaltos para os financiar. Estes dissidentes, que começaram a sentir-se abandonados pelas elites do Projecto Global, cometeram, no fundo, quase um ato de vingança, uma espécie de: eu vou cair, mas caímos todos.

Sabe o que fazem estes ex-operacionais agora? Muitos estão inseridos na sociedade, até ouvimos falar deles e não sabemos que tiveram ligação a este processo.
A maioria deles fez aquilo que os juízes dizem para fazer: foram à vida deles. Houve gente que se candidatou a apoios comunitários quando saiu da prisão e criou projetos de agricultura, outros trabalham seguros, outros em carpintaria, são contabilistas… houve depois uma minoria que se manteve com alguma participação política, sem grande relevo. O Teodósio Alcobia, a Helena Carmo, o Luís Gobern e o José Ramos Santos mantiveram-se ativos no Bloco de Esquerda. E houve candidatos a câmaras municipais, autarcas eleitos em assembleias de freguesia. Mas a luta armada deixou de ser um ponto. Acho que defendem o que sempre defenderam, mas perceberam que matar pessoas não é uma forma de agradar à comunidade.

Também conseguiu falar de José Sócrates no seu livro, porque foi no Governo dele que Otelo conseguiu ver homologada a sua promoção a coronel e ainda ser indemnizado.
É verdade que Otelo recebeu indemnização do Governo Sócrates, mas também é verdade que o ministro da Justiça, em 2006, do Governo Sócrates propôs a condecoração póstuma a Gaspar Castelo Branco e ela foi recusada pelo Presidente da República. Não tenho grandes estados de alma em relação às pessoas que ocuparam cargos públicos, acho que as pessoas fizeram coisas boas e fizeram coisas más. O Governo Sócrates foi o Governo Sócrates, não tenho coisas boas a dizer sobre eles, mas tentaram fazer algumas coisas boas. A conduta do primeiro-ministro é a conduta do primeiro-ministro e já está a ser apreciada.

Mas na entrevista que José Sócrates deu esta quarta-feira à TVI, na qual diz que o seu processo é político e não judicial, não encontrou um paralelismo com Otelo, que sempre alegou o mesmo?
Há dois paralelismos: aquilo que era evidente antes do processo judicial, mas que ninguém quis ver; e a narrativa do julgamento político, posteriormente. Com uma diferença: Otelo teve muito mais apoiantes do que Sócrates.

O livro que estará nas livrarias a 20 de abril

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