Mais de uma década depois, General D está de volta aos palcos. Prestes a celebrar 54 anos, aquele que foi um dos pioneiros do rap em Portugal fez o regresso a 20 de setembro com um concerto no Fórum da Maia, no âmbito do Sons no Património. Segue-se a recentemente inaugurada Casa Capitão, em Lisboa, esta sexta-feira, 17 de outubro. Mas a ideia é que 2026 seja um ano de estrada, com espetáculos por todo o país.
Radicado em Londres há muitos anos, onde criou família, Sérgio Matsinhe é um pai e avô que se dedica à culinária vegan e à gestão de uma marca de algas. Desafiado a formar uma nova banda e a regressar aos palcos, respondeu ao chamamento com a missão de recuperar as suas letras (e canções) dos anos 90, que considera terem uma relevância atual tendo em conta o momento político e social que o país atravessa.
Nasceu em Moçambique antes da revolução do 25 de Abril, mas foi criado na Margem Sul do Tejo, entre Almada, Baixa da Banheira e Miratejo. Na viragem da década de 80 para os 90, fez parte do núcleo local que iria alavancar grande parte do movimento hip hop na região de Lisboa e mesmo em todo o país. Foi um dos fundadores dos Black Company, organizou aquele que terá sido o primeiro festival de rap em Portugal. Depois de uma primeira participação num tema dos Pop Dell’Arte em 1992, lançou o primeiro single no ano seguinte — Norte Sul, produzido por Tiago Lopes, dos Golpe de Estado.
Tornou-se o primeiro rapper em Portugal a gravar um videoclipe e a trabalhar com uma editora, quando assinou com a EMI/Valentim de Carvalho para lançar o EP PortuKKKal é um Erro (1994). Com letras de forte contestação política e social, rebeldes e provocatórias, General D deu nas vistas numa época de tensões em que era raro ver-se um jovem negro com um discurso desta natureza em Portugal. Enquanto ativista, foi porta-voz da associação SOS Racismo e chegou mesmo a candidatar-se ao Parlamento Europeu pelo Movimento Política XXI.
Numa altura em que os rappers americanos eram idolatrados pelos poucos miúdos portugueses que faziam rap, General D ostentava trajes africanos e usava percussões tribais nas suas músicas — marcando desde logo a diferença, resgatando essa herança africana como elemento identitário. Gravou dois discos mediáticos e com algum impacto — Pé na Tchôn, Karapinha na Céu (1995) e Kanimambo (1997) — antes de desaparecer completamente do mapa.
[“Black Magic Woman”, canção que faz parte do álbum “Pé na Tchôn, Karapinha na Céu”, de 1995:]
Sem concertos nem música nova, Sérgio Matsinhe desvinculou-se da editora e dissipou-se. Durante anos, formou-se uma aura mitológica à sua volta. Ouviam-se rumores e relatos dispersos sobre o que teria acontecido, mas nenhum sinal de General D. Esse primeiro regresso ao espaço público só aconteceu cerca de 15 anos depois, quando em 2014 foi capa do Ípsilon, suplemento cultural do jornal Público, e deu uma entrevista a contar a sua história.
General D tinha como objetivo gravar um terceiro disco na Jamaica, com a célebre dupla de reggae Sly and Robbie. O investimento, no entanto, era bastante avultado, e sem o apoio financeiro da editora, o rapper conformou-se. Algum tempo depois, porém, conheceu um músico jamaicano, amigo de Sly and Robbie, e a dupla acabou por lhe fazer um desconto de amigo. O músico passou bastante tempo na Jamaica a trabalhar num tema, que contava inclusive com uma participação do famoso cantor Anthony B. Chegaram mesmo a gravar um videoclipe, mas nunca foi de facto lançado, por falta de apoio e condições. General D sentiu-se isolado — a ideia também era tentar internacionalizar-se, mas o plano saiu furado.
Apesar de ter um contrato com a EMI/Valentim de Carvalho para fazer pelo menos mais um disco, decidiu partir. Regressou às origens, a Moçambique, passou por Angola e pela Nigéria. Viveu no Brasil e nos EUA. Estava numa viagem de autodescoberta, sem destino à vista, e distanciou-se da música — embora continuasse a escrever letras com bastante frequência. Fez de tudo: desde limpezas a trabalhar em restaurantes de fast food. No início dos anos 2000, mudou-se então para Londres, onde já viviam a ex-mulher e os dois filhos.
General D só voltou ao ativo após a tal entrevista de 2014. Deu um concerto no festival Lisboa Mistura, com vários convidados, e no ano seguinte os seus álbuns foram reeditados. Participou ainda numa canção de Allen Halloween, Bairro Black, reencontrando o microfone tantos anos depois.
Em 2019, anunciou que estava de volta à música. Lançou o single Zombie, o primeiro desde 1997, que refletia de forma crítica sobre como as redes sociais alteraram as interações humanas. Musicalmente, era uma mescla de sonoridades que representava o seu próprio trajeto, uma viagem sónica desde a Nigéria aos EUA, passando pela Jamaica. General D adiantou que era o primeiro avanço de um álbum de regresso previsto para 2020, mas que acabou por nunca se concretizar. Agora, em entrevista ao Observador, fala sobre o regresso aos palcos, mas sublinha que não planeia lançar música nova.
▲ "Uma coisa é aquilo de que gosto, outra é aquilo que é necessário. Que, neste caso, é ir buscar, rever e remexer naquilo que já foi feito"
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Porque é que regressa agora aos palcos, 11 anos depois do concerto no Lisboa Mistura?
Porque a agência de concertos com quem estou a trabalhar me fez o convite. Não só para fazer a atuação na Maia, que eles estavam a organizar, mas também para me representarem e porem uma digressão na estrada. Foram eles que me convidaram e que me puseram a pensar nisso. Achei que estava na altura, é uma coisa que adoro fazer. E depois comecei a pensar na situação atual de Portugal, a rever as letras todas — porque já me tinham feito alguns convites, já me tinham dito para gravar coisas novas — mas comecei a olhar para as letras todas e para aquilo que eu disse ao longo deste tempo todo e achei que ainda estava super relevante. E isso foi o que me fez mesmo aceitar, porque liricamente mantém-se muito relevante. Musicalmente, também há um espaço para aquele tipo específico de rap que eu fazia, um afro rap. Se não houvesse esta necessidade, talvez me deixasse estar quieto, mas percebi que ainda havia um lugar para mim.
O momento político e social em Portugal pede que letras como as suas estejam nos palcos, a serem apresentadas às pessoas?
Sem sombra de dúvida. Acho que nunca deviam ter sido caladas, deviam ter estado sempre nos palcos, porque é sempre necessário e aprendemos todos com isso. E há muitos mais a fazê-lo nesta altura, só que infelizmente não estão no mainstream, não tocam nas grandes rádios, não estão nos grandes festivais. Mas há muita gente a fazer poesia — e quando digo poesia estou a falar de letras sérias que são quase o jornal daquilo que está a acontecer em cada momento no local onde vivem, nas circunstâncias em que vivem. Há muita gente a fazer um bom trabalho. A questão aqui é trazer essa gente para a linha da frente.
A relevância atual das suas letras, passados 30 anos, significa que pouco ou nada mudou estruturalmente em Portugal, no seu entender?
Sim, pouco ou nada mudou. Em relação a nós, comunidade negra — esse é o meu cavalo de batalha — as coisas não mudaram. Ficaram mais difíceis de detetar à primeira vista, mas os efeitos e as mágoas estão lá. E agora acho que ainda é mais grave porque há mais de nós. É mesmo necessário pensarmos nestes assuntos. Quando faço estas letras e este tipo de posição, não é para dar uma de raivoso e rebelde. É porque é mesmo necessário, porque Portugal tem que encontrar uma forma de lidar, de saber negociar e de saber trazer justiça para estas pessoas — e muitos de nós somos portugueses. E isso é bom para todos, sejam pretos, ciganos, indianos, o que for. É bom para todos que todas as partes da sociedade estejam a funcionar bem.
As suas letras sempre denunciaram o racismo e as desigualdades sociais. Quando se refere a um momento político e social do presente que faz surgir essa necessidade de voltar aos palcos, que momento é esse?
É algo que sempre esteve lá. Isto é como uma onda, ela vai e vem, mas as circunstâncias que fazem com que a onda exista estão sempre lá. Na altura, nos anos 80 e 90, tivemos muitos problemas com os skinheads. Hoje, essas pessoas têm a minha idade, alguns um pouco mais velhos, e eram centenas e centenas. Não acredito que toda essa gente tenha mudado de ideologia. Apenas ficou menos oportuno expressarem-se da forma como se expressavam. Mas eles continuam aí e muitas mentalidades não mudaram. E, sinceramente, não quero mudar a mentalidade de um skinhead, não quero mudar a mentalidade de um racista. Estou aqui para me proteger a mim, à minha comunidade e aos que estão comigo. O racista tem um problema que ele é que tem de resolver consigo próprio.
Não é a sua responsabilidade resolver esse problema, é isso?
Exatamente, não é a minha responsabilidade. Se uma cobra me morder, eu não vou a correr atrás da cobra a perguntar porque é que me mordeu. Não a vou tentar mudar. Tenho é de cuidar de mim. Mas o maior problema pode nem ser os skinheads — é não conseguir ter um emprego ou arranjar uma casa porque sou preto. Ou não ter acesso às coisas básicas da vida, à educação e à saúde. Esse é que é o grande problema. E por isso é que digo que é muito importante criarmos estruturas para cuidarmos de nós. O importante não é estarmos de joelhos a pedir por integração. O importante é criarmos estruturas, sobretudo financeiras, para que possamos combater o racismo estrutural taco a taco — numa posição em que possamos negociar. A única forma de se conseguir justiça é ter forças em paralelo. Aí podemos discutir justiça. Porque somos e sempre fomos uma força tremenda na sociedade portuguesa, a questão é que estamos super fragmentados. E é muito fácil isolar cada um de nós. E esse isolamento é que dá azo a injustiças. Então, temos de edificar estruturas e fazer a nossa reivindicação de forma organizada e unida. Esse é um processo super longo e é a luta que temos de fazer. Antes de lidarmos com os skinheads, também há coisas que temos de resolver entre nós, temos de nos concentrar em nós.
E é a relevância atual das letras do passado que fazem com que, hoje, não tenha vontade de escrever canções novas?
Sempre escrevi, nunca deixei de escrever. Tive essa necessidade, claro, um artista tem sempre a necessidade de fazer coisas novas. Um dia li um livro do Paulo Coelho [O Alquimista], tinha ainda uns 15 ou 17 anos, sobre a história de alguém que fez uma viagem longa à procura de uma fortuna. Esteve em todo o lado, andou e andou, sofreu muito. E, depois, quando voltou para casa resignado e quando já tinha desistido, descobriu que havia uma fortuna no quintal dele. Estava mesmo ali em baixo. No meu caso, é a mesma coisa. Não acho que tenha de fazer coisas novas. Porque aquilo que fiz já está aqui. Tenho é de preservar, respeitar e difundir ao máximo aquilo que já está feito. E tentar procurar oportunidades. Furar — porque o termo é mesmo esse. Porque aquilo que já foi feito ainda tem muita relevância.
▲ "Quando canto 'Um dia vais ver que valeu a pena lutar', são coisas que dizia há 30 anos e que estou a repetir agora. Agora sou mais maduro e adulto, estou a encontrar-me com essa criança"
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Mas a vontade criativa de fazer coisas novas não o leva mesmo a querer gravar, compor e a lançar outros temas?
Sou artista e tenho vontade criativa, não consigo fugir disso. Mas uma coisa é a vontade. Outra é aquilo que é preciso, aquilo que é prático. Uma coisa é aquilo de que gosto, outra é aquilo que é necessário. Que, neste caso, é ir buscar, rever e remexer naquilo que já foi feito.
Gravou e lançou Zombie em 2019, que entretanto não teve seguimento. Acabou por olhar para as coisas de maneira diferente?
Sim, não quero ter coisas novas só porque sim.
Como foi este primeiro concerto de regresso, na Maia?
Super bom. Foi o reviver de tudo. Aquelas emoções, aquelas coisas por que passámos há 30 anos… Porque isto não é só uma coisa física, não é só cantar. São emoções e espiritualidade. Estar de novo nessa personagem, entrar nessa esfera, é um desafio. Mas quando estou lá é super reconfortante. E foi esse conforto e calor que senti quando entrei no palco. Foi muito recompensador. E também é desafiante porque, há 30 anos, a plateia conhecia as letras, conhecia tudo. Agora tenho uma plateia em que alguns conhecem, mas talvez a grande maioria não. E estão ali. É preciso virar essa plateia, fazer as pessoas entrar na nossa esfera. É um desafio muito fixe e que acho que conseguimos neste concerto. No final, estava tudo a dançar, toda a gente subiu ao palco. A ideia é o palco e o público virarem uma coisa só e isso acabou mesmo por acontecer.
E estar em palco a interpretar estas canções é como fazer uma viagem no tempo, ao estado de espírito em que as escreveu?
Sim, super… Quando canto “Um dia vais ver que valeu a pena lutar”, são coisas que dizia há 30 anos e que estou convictamente a repetir agora. Agora sou um homem mais maduro e adulto, estou a encontrar-me com essa infância, com essa criança. Emocionalmente e fisicamente. Como se estivessem sentados à mesa e começassem a conversar. É assim que o sinto e está a ser uma experiência reveladora. É bom reencontrar essa linguagem, fazer esse encontro entre o puto D e o cota D.
A partir do momento em que recebeu e depois aceitou o convite, como é que foi o processo de reunir esta nova banda? E de trabalhar as canções a partir daí?
Eu já trabalhava com o Lince da Big Bit. Já somos amigos, ele entrou no meu álbum Pé na Tchôn, Karapinha na Céu. A irmã dele, a Marta Dias, também fazia parte da banda. Portanto, somos uma pequena família há 30 anos. E o Lince dedicou-se a montar esta estrutura, a Big Bit foi super importante para o movimento hip hop no geral, e ele foi pelo caminho do management. Achei que seria importante ele tratar dessa parte de gestão da carreira. E depois fui buscar o diretor musical, que eu já conhecia, o Ximbinha [Mamede]. Ele é que juntou a banda toda [Carlos Chiemba, Jelber Oliveira, Gabriel Ferreira, Dora Fidalgo, Henrique Morales, Mauricio], as pessoas com as características ideais para este tipo de som. Expliquei-lhe o que queria, não só tecnicamente, mas também a nível emocional. Pessoas que realmente se pudessem envolver emocionalmente e vibrar com esta música. Não queria só ter músicos que fossem tecnicamente bons a tocar. Queríamos o coração. Juntaram-se pessoas que podiam ir às profundezas e que tinham a bagagem de identificação com a música.
E até uma ligação direta à música de África, suponho.
Exatamente, isso era super importante. E é pessoal de diferentes gerações, de diferentes nacionalidades. Tudo isso dá um caldo de sabores que faz as coisas vibrarem. Logo no início, os ensaios tornaram-se super festivos. Agora a ideia é trazer essa mesma festividade para os palcos, sejam grandes ou pequenos. E queremos fazê-lo, no próximo ano, o mais frequentemente possível. Agora estamos a arrancar e a dizer às pessoas, aos promotores, que estamos aqui e que estamos para ficar. E para o ano queremos construir algo mais frequente, onde for apropriado e relevante.
[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]